No Fim
10 Finalmente a revelação
– Espere!
Mike agarrara Jennifer pelo pulso. Ele estava um pouco tenso.
– O que foi? – desconfiou ela.
– Eu...
– Você... Está tudo bem?
Aquele clima de tensão recém-formado estava deixando-a nervosa.
– Eu estava pensando... O que você acha de eu sair da banda?
– O quê? Você ficou louco? Não pode fazer isso!
Sua reação foi automática. Não queria ter usado aquele tom de voz, apesar de não ter gritado, levantado a voz para Mike a fez sentir-se culpada. – Eu quero, mas... – Pelo visto ele também não previra sua reação e estava um pouco tonto — Por que você não quer?
Agora Jenny juntava forças para manter um tom meigo com ele.
– Quem iria cantar In The End? – engrolou Jenny, sorrindo.
Ela não era a única a ter reações instantâneas. Mike a abraçou tão fortemente que a deixou sem saber como agir. A voz dele estava abafada entre os cabelos dela.
– Acho que é por isso que não quero ir. Você, e esse lugar... De alguma forma me deixam mais feliz.
Jenny estava assustada. Não esperava por aquilo. Como explicaria que era exatamente isso que ela deveria proporcioná-lo?
– Eu não sei como ou por que... Quando você está por perto tenho... Isso é muito estranho. Tenho a sensação de segurança.
Os olhos de Jenny se encheram de lágrimas de uma hora para a outra. Mike deve tê-la ouvido ofegar, pois a soltou.
– Está tudo bem?
– Eu só preciso – ela escondia o rosto com o cabelo — ir embora. Tchau.
Jennifer saiu sem sequer olhar para Mike. Andou algumas casas e parou repentinamente, se agarrando ás grades de uma casa próxima. Suas mãos se fecharam fortemente em torno delas. Seus olhos também se fecharam e deles caíram duas grandes lágrimas.
– Plebéia –insultou-se secando as lágrimas – A verdade omitida em primeiro lugar. Lembre-se disso.
Tânia passava por uma rua, em direção a escola. Agarrada a uma grade, ali adiante, estava Jennifer chorando.
– Jenny, o que aconteceu?
Tânia se aproximou um pouco de Jenny, mas manteve-se afastada dela.
– O escolhido... – começou Jenny virando o rosto
– Que tem ele? – Tânia se preocupou.
– Se apaixonou por mim – disse sem olhar para Tânia, que explodiu
– Você não podia...
– E você acha que eu não sei? – Jenny a olhou pelo canto do olho, irritada. – Será que a gente podia conversar no caminho?
Começaram a descer o caminho juntas. Tânia estava estranhamente séria. A confusão dentro da cabeça de Jenny começando novamente.
– O que você tem a me dizer a respeito disso? – começou ela
– Não foi culpa minha, ok? Não o controlo se esqueceu?
– Eu te conheço! Você não saberia dizer não a ele, não é mesmo?
– Para ele, não.
– E por quê?
– O chefe disse que se eu não fizer tudo certo... Era uma vez a minha cabeça!
Ela disse isso fazendo um gesto de cortando a própria cabeça.
– E o que “fazer tudo certo” tem haver com você namorar o escolhido?
– Eu não sei. Acho que o único jeito de segurá-lo aqui é assim.
Tânia parou repentinamente e, cruzou os braços.
– O que foi?
– O motivo é: Você estava chorando só por causa disso?
– Você devia ter visto! Ele me disse que se sentia protegido perto de mim!
– Isso é mais do que óbvio. É seu trabalho!
– Eu tive que me segurar para não dizer a verdade...
– Ele não acreditaria em você!
– Eu daria provas. Você sabe que as tenho em mãos!
Tânia já estava cansada de discutir com a teimosia de Jenny. Seguiu em frente, sem mais nenhuma palavra. Jenny compreendeu e, juntas, entraram no mesmo carro de sempre. Depois de uma pequena viagem, chegaram a uma grande casa em uma fazenda.
Tânia desceu do carro andando rápido, seguida por Jenny, que corria atrás dela.
– Tânia, espere! Por favor, não conte!
Jenny não podia deixar Tânia contar senão estaria tudo acabado em sua vida.
– Não tente me impedir.
Elas passaram por uma sala extremamente grade e, entraram em uma porta a um canto que dava para um quarto. O ambiente era mal iluminado. A luz mais forte, ali existente, vinha de uma escadaria que, dava para o subsolo. Jenny, que a seguia, desceu lenta e silenciosamente a escadaria de mármore.
– DP!
A voz de Tânia ecoou pela escadaria acima.
– O que você faz aqui? Já te disse que não gosto de ser incomodado.
– Sabe o que é? Eu queria tirar algumas duvidas sobre o escolhido.
– Sabe o que é? – disse DP irônico — Quem deveria ter duvidas é a Jennifer e não você. Ela é quem foi encaminhada para esse assunto.
Jenny respirou fundo.
–É, Tânia! – disse Jenny descendo as escadas – Por que você não deixa que eu tire as dúvidas sobre o escolhido enquanto, você espera lá em cima?
– Mas eu...
DP lançou-a um olhar do tipo “é melhor obedecer”. Ela resmungou um “tô indo” e subiu as escadas batendo os pés.
– E então? – perguntou DP.
– Então, o quê?
– As dúvidas?
– Ah! Eu as tiro outra hora.
Jenny deu as costas á DP e foi atrás de Tânia. Encontrou-a na cozinha, batendo as portas do armário.
– Por que você ia fazer aquilo? – perguntou Jenny furiosa
– Porque não me disseram que guardiões podiam ter casos com os protegidos!
– Ele não é um protegido como os outros! – Jenny lutava para manter a voz uniforme — Ele é o escolhido para o trono e, é a minha obrigação cuidar dele... Do meu jeito!
– Vou contar e, irão me colocar no seu lugar.
“Ah, então é isso?”
– Pode tentar, mas, eu fui escolhida ao nascer. Não pode me substituir! Se você quer se mostrar para o DP, arrume outro jeito.
– Isso não tem nada a ver! — explodiu Tânia — E, com esse seu “caso” você tirará a atenção do serviço!
Nessa hora surgiu a Jenny uma idéia maravilhosa.
– Quer ver que o Mike não irá te aceitar?
– Quero, e com meus próprios olhos!
A campainha tocou. Do lado de fora dava para ouvir todos gritando “Mike!”. Logo a porta se abriu, Mike sorri ao ver Jenny no outro lado do portão.
– Oi.
– Ah! Oi, Mike!
# Tempo depois, na praça...#
Jenny, Tânia e Mike estavam sentados em um banco na praça da cidade. Tânia tagarelava com Mike que, de tempos em tempos olhava furtivamente para Jenny pedindo ajuda. Jennifer, apesar dos olhares apelativos de Mike, entrava na conversa muito raramente, assistindo alguns garotos jogarem uma pelada no outro lado da praça. Um garoto com a posse da bola o chutou para um gol improvisado de garrafas. O chute foi alto, mas, de alguma maneira, na mesma hora em que um sorriso apareceu no canto da boca de Jenny, a bola fez uma curva e voou direto para a cabeça da Tânia.
Mike levou alguns segundos para entender o que aconteceu, paralisado no lugar, boquiaberto. Ao olhar para Jenny, ela exibia um grande sorriso e, ao perceber que ele a observava, ela levou um dedo aos lábios pedindo silêncio. Mike balançou a cabeça incrédulo e, desceu do banco para ajudar Tânia a se levantar. Ela lançou um olhar furioso para Jenny que, ao encontrar os olhos de Tânia, levou a mão ao pescoço e começou a tossir freneticamente. Jenny sente a falta de ar a atingir, leva a mão ao coração e cai de joelhos. Mike correu para o lado de Jenny, preocupado, perguntando o que ela estava sentindo. Parecia que ela queria expelir algo de dentro de si. Jenny deixou-se cair, apoiando-se com as mãos que se fecharam com a areia abaixo delas.
O chão começou a estremecer. Os garotos que jogavam se desequilibraram e caíram. Nuvens negras fecharam o céu, carregada com trovões. Agora eram os olhos de Jenny que encaravam com ira, os olhos medrosos de Tânia que saiu correndo dali. No chão, Jenny olhou para Mike ao seu lado e se lembrou de manter o segredo. Os trovões cessaram de imediato, mas era tarde demais para fugir da chuva que vinha.
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