No, Christine, no!

1 Conhecendo Satã


Layla se lembrava claramente do dia que conheceu Satã, também conhecido pelos mortais como Christine.

Estava fazendo um calor do inferno, o que podia ser prenúncio. A menina estava assando dentro do carro porque o ar condicionado tinha quebrado e sua mãe, que poderia fazer magia do gelo, estava em casa. Māmā detestava o trânsito da capital e sabiamente prefiriu não ir expiar seus pecados. ¹

A sensação térmica era de meio dia no Saara. Layla já estava controlando mentalmente cinco leques feitos de origami do próprio caderno de rascunho. Pela primeira vez, ela não se importou com os mortais vendo. No máximo, achariam que o calor estava causando miragens.

— Tem certeza que você quer fazer mesmo essa prova? — o pai dela perguntou com a voz sofrida e a testa ensopada de suor.

— A próxima é só ano que vem.

O pobre coitado encostou a cabeça no volante e xingou em russo.

— Que seja, que seja...

Ele só esperava que não chegassem atrasados depois de sofrer aquele inferno. Em parte, a culpa de tudo isso era dele, que incentivou a filha a se interessar por tecnologias mortais. Então, ele merecia assar.


Cerca de apenas dez minutos antes do início da prova, Layla chegou no prédio. Parte do prédio era da escola, outra parte era uma faculdade particular de marketing e o topo era destinado a uma rádio. Tinha até uma antena enorme em cima da construção.

Mas Layla não estava minimamente interessada em construção. Saiu em disparada para o elevador e pressionou o botão do segundo andar. A ansiedade pré-prova somada com a adrenalina de um possível atraso estava queimando seu estômago.

Ela tinha estudado o ano inteiro para aquela prova. E poderia correr o risco de um fiscal bater a porta na sua cara por alguns minutinhos.

Assim que saiu no andar que ela rezava para estar certo, Layla desistiu. O andar era um emaranhado de corredores e nenhum ser abençoado tinha pensado em colocar sinalização. Talvez, mais cedo, tivesse algum fiscal guiando os alunos de outras escolas. O único lado positivo era o ar condicionado, que a fazia se sentir no paraíso. Ferrada no paraíso.

Layla estava quase se virando para voltar quando viu uma sombra preta correndo alucinadamente por um tcorredor. Alguém atrasado?

Então, ela resolveu seguir. Não havia nada a perder de qualquer forma. Layla disparou pelo corredor.

— Você está indo para a sala de informática? — gritou para a menina que corria, carregando um estojo azul e um sobretudo preto felpudo.

A garota parou e olhou para trás. Imediatamente, Layla soube que ela era uma descendente de deuses, ou até mesmo semideusa, porque havia uma vibração em torno dela. A pele dela era morena e o cabelo castanho parecia ter vindo de uma propaganda de shampoo, mas os olhos dela tinham um formato diferente e afiado.

Porém, o mais útil de tudo era que ela estava o usando uniforme da escola sede da prova. Nem precisaria do uniforme para saber que ela estudava lá, somente alguém sob o ar condicionado ousaria usar sobretudo naquele calor do inferno.

Enfim, alguém que sabia andar nesses corredores.

— Sim — ela estava ofegante e Layla teve um vislumbre dos dentes clm flrmatl afiado — Me siga.

E ela começou a correr novamente.

Pouco tempo depois, as duas estavam paradas do lado de fora de uma sala e com uma fiscal as olhando com indiferença. Para uma velhinha com cabelo roxo, ela não era tão descolada a ponto de deixar duas garotas fazerem a prova após um mísero minuto de atraso.

— Por favor, por favor — a menina morena pediu — Eu subi três andares para isso — ela enfatizou o número 3 nas mãos — Quase morri correndo essas escadas. ²

— Eu fiquei parada no trânsito — Já que era para tentar compadecer a senhorinha, Layla faria sua tentativa — Cheguei aqui e quase me perdi nos corredores.

A fiscal olhou para as duas e depois para a sala. O programa ainda não tinha carregado as questões no telão. Provavelmente demoraria mais uns cinco minutos.

— Tá, eu acredito em você — ela apontou para Layla — Mas por que você está atrasada dessa vez, Christine?

A menina, Christine, sorriu angelicalmente.

— Eu estava com a Isa na secretária, pode perguntar para ela depois — disse. ³

A fiscal suspirou.

— Podem entrar.


— Meu nome é Christine, mas você já deve ter notado — A garota estendeu a mão e sorriu.

— Layla — A oriental apertou a mão.

As duas foram para os dois computadores restantes, que estavam lado a lado. Se a sala não estivesse cheia, Layla perguntaria se ela era marem ou vrykolaka. Esperançosamente, ela seria marem. Alguns vrykolakas poderiam ter vantagens injustas ao fazer provas, como por exemplo, sair lendo a mente alheia e comparando respostas. De qualquer jeito, Layla estava curiosa sobre ela, era raro algum descendente de deuses se interessar por matérias humanas, principalmente por ciência e informática. Quando você vive em um universo permeado de magia, não é necessaria muita tecnologia. Para quê inventar um aquecedor se um simples estralo de dedos de um marem abençoado com fogo poderia deixar a temperatura amena ou algum objeto de um filho de Hefesto poderia imitar o mesmo efeito?

Mas a família de Layla era esperta. Eles poderiam conviver na sociedade mágica e ter tudo fácil, mas tudo tem um custo. Normalmente, o custo era paz.

Então, muito mais fácil conviver com humanos. E era maravilhoso ver como a ausência de poderes os deixavam criativos.

— Boa sorte — Christine sussurou antes da prova começar.

Ela parecia confiante. Talvez fosse vrykolaka.

Era tão injusto. Layla tinha estudo por dias e alguém com telepatia poderua roubar a medalha dela tão facilmente. Ela contava só com mortais durante a prova.

Existe uma leve desvantagem de afastar da sociedade mágica: seus poderes ficam destreinados. Sem querer, um fiapi fino de energia escapou do dedinho de Layla e pifou o computador de Christine.

A morena encarou a tela azul fixamente. Layla estremeceu, ela poderia ser filha de um deus ou deusa e se vingar. Uma filha de Zeus poderia a transformar em um bloco de carvão. Uma filha de Hades poderia invocar os mortos para despedaçar ela na sala. Uma filha de Atena poderia rogar uma praga e a tornar burra. ⁴

Mas, não, ela só apertou Crtl, Alt e delete.

Nada do aparelho ressuscitar.

— Deus do céu, não é pra mim fazer essa prova hoje — ela ergueu a mão e gritou pela fiscal.

Layla não pode deixar de reparar que ela falou deus e não deuses. Estranho.

— O computador pifou — apontou para a fiscal.

A senhorinha tentou Crtl, Alt e delete novamente. Tentou tirar da tomada e colocar de novo. Tentou reconectar o monitor. E nada funcionava.

Layla estava com um pouco de remorso naquela altura.

— Acho que não vai dar para você fazer a prova hoje — a fiscal disse.

— Não é justo — Layla, já totalmente culpada, foi tentar defender — Ela não tem culpa pelo computador ter quebrado. A falta de responsabilidade é da escola por ter fornecido computadores quebrados.

— Ela tem um ponto — Christine sorriu.

A fiscal bufou.

— E nem era para vocês duas estarem fazendo a prova.

Layla calou a boca rapidinho.

— Pelo menos posso sair? — Christine perguntou.

A fiscal balançou a cabeça.

— Só pode sair no horário mínimo.

— Mas nem deu para começar a prova graças a esse computador saído do inferno.

— Regras são regras.

E a fiscal se afastou.

Quando Layla olhou de relançe para a garota, pode ter certeza que Christine estava planejando algo. Alguma coisa nas feições dela indicavam que ela estava muito, mas muito irritada.

A coisa começou a ficar alarmante quando a garota começou a sorrir diabolicamente e sacou um clipes e uma borracha do estojo. Assim que ela começou a trespassar o clipes pela borracha, Layla sacou o que ela iria fazer.

Não é possível que ela vai fazer isso, e então ela se aproximou da tomada, ela é insana.

— Não! Christine, não — ela sussurou.

Christine só sorriu e encaixou a borracha e clipes na tomada. ⁵

Imediatamente, todas as luzes e computadores se apagaram. E não só ali, a faculdade acima teve um apagão e rádio saiu do ar. Christine conseguiu gerar um apagão em um prédio inteiro com mais de vinte andares.

A tomada começou a chiar de maneira suspeita e ela empurrou o "aparelhinho bendito" com o estojo de plástico.

Nem assim a energia voltou. E só voltaria algumas horas depois.

Christine sorriu, satisfeita.

— Fiscal, ainda temos que ficar na sala até o horário mínimo?


Rodapé:

1: Mulheres são mais sensatas.

2: O professor de biologia de Christine tinha uma voz entediante que nem mesmo a múmia de Ramsés III conseguiria imitar. E foi assim que Christine caiu no sono e só acordou quando a moça da limpeza chegou na sala. Naquele ponto, ela já estava irremediavelmente atrasada.

3: Ela sabia que a fiscal não iria descer dois andares para confirmar a história nem a pau.

4: A última opção era a que mais assustava Layla.

5: Crianças, não façam isso em casa. As chances de morrer eletreocutado ou colocar fogo em tudo são consideravelmente altas.