No, Christine, no!
2 Um Ode a Shakespeare
"O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui"
William Shakespeare.
Layla concordava com essa afirmação, era uma explicação bastante racional para a expressão que Christine estava fazendo. Sobrancelhas arqueadas, pedaços de cartolina amarelada grudadas no cabelo e um sorriso diabólico. Enfim, a cara de quem iria trazer o inferno para a terra.
Mas temos que voltar um pouquinho no tempo para explicar a causa disso.
Caso você seja um pouco extremista, a culpa de tudo isso foi de uma tempestade que ocorreu em 1563. Naquele dia, Mary Arden planejava ir à feira, planos que foram obstruídos pelo leve temporal. Aí, ela ficou em casa. Nove meses depois daquele fatídico dia, surgiu Shakespeare.
Outro ponto que certamente têm relevância para essa história foi a decisão que Shakespeare de construir o Globe Theatre em 1599. Um teatrinho bonitinho que ficaria uma graça em uma maquete, pensou o professor de Artes do Integrado.
Christine não pensava assim. Era patético, patético e patético. Pra que raios que parta juntar duas salas em trios para fazer a mesma maquete? Só podia ser para enrolar aula, aquele cara incompetente. E nem era uma maquete de algo que existia ainda, a merda do teatrinho tinha pegado fogo há séculos.
Mas Christine engoliu sua opinião pessoal. Era aquela anta que dava a nota. Que seja, ela faria a maquete.
Layla já estava olhando para ela. Fariam duplas, Christine faria a estrutura externa e Layla faria a arquibancada e as cadeiras. Tudo perfeitinho.
Naquela época, Layla já tinha se mudado para a mesma escola que ela, afinal, era considerada a melhor escola do estado. Layla se sentia grata por ela ter tentado salvar sua prova de informática e tinha superado o trauma do curto circuito causado por Christine. De alguma forma, elas se tornaram amigas¹. Melhores amigas porque a sala inteira tinha medo de Christine incendiar eles qualquer dia.
Bom, esta tudo perfeito. Até o professor falar a fatídico frase.
— Grupo 3: Layla, Vanessa e Christine.
Querido leitor, talvez você não conheça Vanessa, mas é importante saber que Christine e ela tiveram um primeiro encontro peculiar que envolvia ovos voadores e um pischer que voava igualmente. Em resumo, Vanessa odiava Christine, que também não tinha sentimentos muito positivos em relação à ruiva.
Layla sabia que aquilo era a receita para o desastre. Vanessa não tinha cara de ser a pessoa mais evoluída do mundo ². Certamente estaria armando uma vingaça. Por sua vez, Layla sabia que Christine poderia fazer pior. Bem pior.
E ela não estava tão errada. A única coisa que passava pela cabeça de Vanessa nessa hora era: É hoje bwhahahah.
Para o crédito de Layla, ela tentou convencer o professor a mudar o grupo.
— Professor, não sei se isso é uma boa ideia. Chris e Vanessa não se dão bem.
— Essa vai ser a oportunidade delas melhorarem a relação — E o professor voltou a ler o livro.
Você não entende, Layla pensou enquanto saia desanimada da sala dos professores, elas vão se matar.
Já no meio do corredor, Layla não se sentia mais tão exasperada. Vanessa tinha um irmão, que por acaso tinha lindos olhos azuis com um aro dourado ao redor da pupila. Talvez ficar na casa de Vanessa não fosse tão ruim assim. Em instantes, a garota já estava empolgada.
No fim das contas, Alec tinha ido para o sítio da tia. Então, Layla nem pode apreciar o irmão gato de Vanessa, só restou admirar o inferno que desenrolava na sua frente.
Enquanto ela e Christine davam duro montando a maquete, Vanessa fazia uma cadeirinha de papelão por hora. A cada dois minutos, a cabeça da morena se virava para trás igual uma cena do exorcista para observar o trabalho lento na ruiva.
Layla tinha certeza, faltava instantes para Christine mandar Vanessa ir pastar.
Antes da tragédia acontecer ³, Presidente Au Au resolveu cagar. Bem no meio da garagem, que era subterrânea e não tinha janelas.
— Vai tirar isso daqui — Chris quase rosnou.
— Tá bom, tá bom.
Vanessa se levantou, tirou as sapatilhas para não sujar o resto da casa de papel coetado e saiu pela porta, aparentemente em busca de um papel higienico.
O dilema é que a ruiva não voltou. Dez minutos depois, Layla tentou testar a porta. Trancada.
E lá vamos nós.
Christine ainda estava distraída tentando articular as paredes da maquete. As feições estavam franzidas em raiva por causa da bosta de pinscher e da lerdeza da ruiva. Mas ainda estava razoavelmente calma. Ela não ficaria assim quando soubesse que estava trancada.
Layla cogitou ficar quieta. Mas nem ela estava aguentando o cheiro. Talvez Christine soubesse um jeito de abrir a porta. Infernalmente, ela não podia usar seus poderes na frente de Chris, uma palhaçada estranha sobre a mãe ultrapoderosa dela surtar. Então, estava presa.
— Christine — arriscou — acho que estamos trancadas.
A morena levantou rápido igual um búfalo em um tourada.
— Que filha da puta — falou ao notar que estavam trancadas.
Para a tragédia delas, não havia nenhum clipes, grampo ou coisa pequena suficiente para destravar a fechadura. Christine até deus uns coices na porta, sem resultado.
Estavam presas lá. E só os deuses sabiam o que o Presidente Au Au comia para deixar a merda tão fedida⁴.
Então, Layla notou a expressão endiabrada de Christine, aquela lá que foi descrita no primeiro parágrafo.
A morena olhou para a bosta do cachorro, para um papel largado no chão e para a inocente sapatilha de Vanessa.
— Christine, não… — Layla murmurou enquanto estava "Sim! Sim, por favor, ferre essa vaca" no seu intimo.
Então, a garota fez. Com uma cara de nojo memorável, mas catou a bosta amaldiçoada com três folhas de papel sobrepostas⁵ e colocou na sapatilha.
Então, voltou para a maquete calmamente.
Vanessa só deu as caras duas horas depois. Duas horas.
— Isso foi por você ter arremessado aquele ovo — disse quando apareceu.
E aí enfiou o delicado pézinho na sapatilha batizada. Igual uma cinderela de um mundo paralelo cruel.
Christine, é claro, estava com o maior sorriso do mundo na cara. Até Layla estava com problemas para conter a expressão.
— Você não fez isso — A ruiva arfou ao sentir algo molhadinho entre os dedos.
— Fiz o quê? — A criatura teve a pachorra de parecer inocente.
Foi aí que a tragédia ocorreu. Vanessa tirou o pé do sapato e voou na direção de Christine, deixando pegadas marrons pelo caminho.
Antes de alcançar a menina, Vanessa tropeçou.
E caiu bem em cima da maquete, que estava quase pronta. Christine não podia acreditar que a ruiva tinha estragado seu trabalho todo com a porcaria da bunda magrela dela. Era de lascar.
— Você vai fazer isso tudo sozinha. Sozinha — disse e arrastou Layla pela saída.
Layla odiava ficar recortando papelão para fazer as cadeirinhas, então, quando Vanessa solicitou ajuda, ela negou. Só por isso.
Com Christine, não havia negociação. Ela podia amar suas notas no alto, mas amava mais ainda ver gente se ferrando. Um passarinho tinha lhe contado que Vanessa precisava dessa nota porque iria valer para média de todas as matérias, inclusive em Educação Física, onde a ruiva estava quase reprovando.
Reprovada em Educação Física, patético, pensou a diabrete, satisfeita.
Reprovada em Educação Física, rídiculo, pensou Vanessa, não muito satisfeita. Ela era uma vrykolaka e como tinha problemas para disfarçar sua aptidão física fora de série, achava mais fácil fingir a toupeira. A reprovação seria até irônica. Alec iria tirar com a cara dela pelo resto da vida.
Por fim, Vanessa decidiu que iria fazer o trabalho sozinha. Melhor o esforço do que a vergonha. Viu vídeos sobre o teatro e suas proporções, fez inúmeros desenhos de rasculho. Comprou madeira e pó de gesso porque queria fazer um trabalho bem feito. Comprou uma máquina de cortar madeira também e quase perdeu o dedo nela. Fez cada uma das quinhentas cadeirinhas com bicuit vermelho.
Em resumo, o trabalho estava enorme, realista e demorou uma semana para ser feito. Foi nesses dias que Vanessa chegou à conclusão que escolheria um trabalho que permitisse projetar coisas.
No dia da apresentação, Christine estava insistindo para colocar o estande no início do corredor. Insistindo pra cacete.
— Vai destacar mais no meio — Layla observou.
— Aqui ele vai ser um dos primeiros a serem vistos.
Vanessa sentiu o sangue ferver. A praga estava se exibindo com o trabalho suado dela.
— Você pode pegar a parte escrita? — Chris pediu — Layla é a melhor apresentando e eu torci o tornozelo.
— Tanto faz.
No fundo, Vanessa não estava com muita vontade de apresentar. Um sutil medo de travar e ouvir daquilo pelo resto do ano.
Na volta, a apresentação já estava ocorrendo. Estranhamente, o trabalho parecia mais brilhante. Parecia que a capeta tinha passado verniz. Tanto faz, parecia bonito.
— Em 1613, o Globe sofreu um incêndio — Christine dizia. E então tirou um isqueiro do bolso.
A propósito, o brilho era querosene. As chamas lamberam o trabalho que Vanessa gastou uma semana de vida e seiscentos reais. Ela não conseguia se mover. No fim, a insistência para aquele local era por causa do extintor de incêndio, usado antes que aquilo virasse cosplay de 1613.
— Magnífico — o professor disse — Igual aqueles monges tibetanos demoram anos para fazer mandalas de areia e espalham no vento depois de prontas.
Rodapé:
1: Só sei que foi assim, diria Chicó (Auto da Compadecida)
2: Era necessário ser a pessoa com mais paciência do mundo para lidar com Christine na sua forma encapetada.
3: Era o que Layla pensava em sua inocência.
4: Efeito colateral inesperado em cães imortais.
5: Só para ter a garantia que não ia encostar naquilo.
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