No Amor e Na Guerra
24 Capítulo 24- Aqui e Agora
Notas iniciais
O silêncio durou por alguns instantes, seco e ecoante, parecendo durar séculos. Zelena virava o rosto cada vez que Robin tentava escará-la, e Regina fitou-a. Seu olhar era de suplicação, ela não parecia gostar da presença dele, nem um pouco. Emma a ajudou a ficar de pé com muito esforço, a ruiva não tinha a menor noção do que havia acontecido, só que sua dignidade foi tirada, foi tratada como lixo. Bem, tratada não. Maltratada, torturada, por assim dizer. Sua expressão não definiria melhor.
Emma, cabisbaixa e sem olhar nos olhos dele também, quebrou o silêncio.
–Regina, eu vou tirar a Zelena daqui. Preciso falar com você depois.- disse seca.
–Mas Emma, eu posso ajudar vocês.- respondeu o homem. Zelena se contraiu e esforçou-se para mostrar que era uma má ideia, implorando para que Emma a tirasse dali o mais rápido possível.
– Ela não quer a sua ajuda, Robin, e estou surpresa que tenha me reconhecido depois de tudo que aconteceu. Por mim esse encontro é completamente desnecessário.- respondeu, se dirigindo porta afora. A verdade é que Zelena havia agido muito errado na noite em que Emma fugiu, mas o fato de Robin não ter feito nada para defender a filha amedrontava Swan ainda mais. Ele era o pai perfeito, que sempre esteve com ela quando ela precisou, e ele quebrou o seu coração em pedaços quando desistiu dela.
Zelena conteve o choro por vários minutos enquanto a tensão durou, mas não mais quando as duas saíram porta afora. Alívio, em primeiro lugar, e arrependimento, em segundo. Pensou todos os dias em como abandonou Emma e não pode acompanhar a sua trajetória depois disso, e que o reencontro das duas foi no lugar errado e na hora errado, mas não menos especial. E conseguiu ser assim porque Emma a perdoou, algo que ela jamais poderia ficar mais agradecida. Ela cometeu um equívoco, um equívoco horrível, e sabia que alguma hora deveria pagar o preço. Só não sabia que iria pagar muito mais alto, a ponto de ser mutilada constantemente.
–Ei, está tudo bem, você vai ficar legal agora, prometo.- disse Emma, cortando o choro e abraçando-a em meio ao seu peitoral. Nunca havia visto a mãe daquela maneira, tão fraca e abalada. A personalidade dela sempre fora feliz e divertida, irônica até, transformando qualquer ambiente ruim em um lugar agradável. Ela havia perdido isso, e Emma estava mais disposta do que nunca a recuperar esse lado dela.
A chuva caía pesada e fria, como no dia em que as duas foram pegas. Cada gota espalhava-se pelos seus corpos causando constantes calafrios. Onde estavam? Como sairiam dali e chegariam ao alojamento de Regina sem serem vistas? Zelena parecia querer cair, até que perdeu os sentidos. Emma a pegou no colo, apesar de terem praticamente a mesma altura e porte físico. Aquele esforço valia mais a pena do que qualquer coisa no mundo.
– Aguente firme, mãe. Por favor.- sussurrou.
Os calafrios agora eram de pura angústia e incertezas... Não havia como escapar. Estavam em Aushwitz, não em storybrooke, e o caminho de volta era longo. O problema é que ela não tinha nem ideia de por onde começar. Já havia estado no campo, mas os caminhos não pareciam querer fazer sentido para Emma. Se lembrava da floresta e da passagem secreta embaixo da cerca que dava quase precisamente aos estábulos. Nada mais.
O seu coração chegou a disparar no momento que sentiu uma mão tocar-lhe as costas. Um choque, completamente energizado. Era Regina.
– Você quer nos matar, é isso mesmo?- gritou Emma, recuperando-se do susto.
–É claro que não, mas se continuar gritando desse jeito vamos parar no fundo da cova mais rápido do que imagina, Srta.Swan.- sussurrou a comandante, mas não menos firme.
– Onde está o Robin? O que ele está fazendo aqui? Não quero a sua ajuda se estiver ajudando ele também.- respondeu Swan, com uma voz preocupada e ameaçadora ao mesmo tempo. Em seguida, ajeitou Zelena melhor no seu colo para que ambas ficassem mais confortáveis.
– Não precisa se preocupar com ele por agora. Até porque se quiser ficar aqui batendo boca comigo provavelmente eu vou morrer também, então dá pra parar?- insistiu Regina. Emma a olhou com descontentamento, sem resposta para as suas perguntas. Mas não adiantaria discutir com Regina mesmo, então balançou a cabeça positivamente.
– Ótimo. Vamos sair dessa espelunca.- completou a comandante.
Regina foi dando passos largos e ágeis, esgueirando-se pelas paredes que encontrava pela frente. O campo estava com poucos guardas, mas Gold já deveria ter despertado à algum tempinho e provavelmente não estava feliz. Devia ter colocado o que havia de melhor para garantir que elas não saíssem dali vivas. O sangue devia ter-lhe subido a cabeça a ponto de ver que as tropas inimigas realmente estavam chegando e que Regina e Emma não colaborariam em impedir que adentrassem no seu lindo Império.
Mas o que acontecia era exatamente o contrário. As guaritas estavam vazias, as ruas também. Não havia sinal em lugar nenhum, nem um ruído sequer. Aquilo estava estranho, e muito. Regina continuava a correr e Emma mantinha-se firme com Zelena. Abriram o portão com facilidade, e continuaram correndo até chegar à floresta. Emma parou, esbaforida. Foi sentando no chão lamacento aos poucos. A chuva acabara de ficar ainda mais forte.
– Swan, você está bem?- indagou Regina.
– Eu só... Só quero que tudo isso acabe. Eu não aguento, Regina... Não aguento.- respondeu a loira. Regina contraiu os lábios, e passou a mão nos cabelos molhados que caíam inteiros no rosto de Emma. Sabia do esforço que ela estava fazendo e que Swan só tinha continuado em frente por força de vontade própria, porque os últimos dias foram torturantes demais para ela. Regina a admirava principalmente pelo fato de que, mesmo estando mal, Emma ainda se dispunha a ajudar Zelena a todo custo, sempre da forma mais gentil e heróica possível.
– Aguente mais um pouco. Eu prometo que vai valer a pena.- falava, esbanjando um sorriso sincero que acalmou Emma por alguns instantes. — Agora, eu preciso que você seja forte, está bem? E fique aqui. Eu vou buscar Mary Margareth para me ajudar com Zelena, assim você conseguirá chegar bem e...
–Por favor.- Disse Emma, fitando-a e apoiando sua cabeça no ombro de Regina.- Prometa que vai voltar. Prometa que eu não vou ter que ir atrás de você novamente. Prometa que vamos achar uma solução pra tudo isso juntas.- dizia, com suas lágrimas misturando-se com as gotas da chuva. Regina levantou-se a cabeça e acariciou-a.
– Prometo.- confirmou.
Cada momento de espera parecia trazer consigo mais agonia e também diminuía seu ritmo cardíaco, que começava a ficar pausado. Zelena continuava sem expressão alguma, pálida e fria. Emma a envolvia entre seu casaco molhado e em trapos, tentando aquecê-la. Sua visão ficava mais embaçada a cada segundo também.
Cada momento estava ali para lembrar de que, não importava o que ela fizesse, a vida sempre separaria Regina e ela em situações como aquela. Elas sempre as venciam juntas, mas encontro parecia querer demorar para acontecer e Emma já ia perdendo as esperanças. Zelena piorava a cada segundo e se o tempo corresse demais não haveria mais nada que pudessem fazer por ela. À noites começava a cair quando viu uma sombra aparecer, que não era de Regina. Com certeza não era.
–Emma, levante-se, temos que ir!- dizia firme ao passo que tirava Zelena de seus braços.- Por favor, vamos!- gritava Mary Margareth.
Emma o fez e a seguia praticamente seguindo o som da sua voz somente. Seus pés pareciam se mexer sozinhos e ela já não tinha noção do que estava acontecendo ao seu redor, só ouvia os ruídos, que cessaram quando entraram alojamento a dentro. Viu a imagem de Regina, apontando para o lugar, uma espécie de maca improvisada, onde Mary Margareth devia deixar Zelena. Balbuciava mais algumas coisas que Emma não pode compreender.
– Injete morfina nela e preciso que suba a temperatura dela o mais rápido possível. Preciso que ganhe tempo pra mim!- gritou Regina, se aproximando da loira, que tremia cada vez mais, a passos largos. Emma parou de ficar em pé no exato momento em que Regina conseguiu envolvê-la em seus braços.- Você conseguiu, Srta. Swan.- disse, estampando um breve sorriso antes de Emma apagar.
O sonho era completamente lúcido e real. Nunca havia sonhado parecido, mas Emma sentia cada momento dele como se já estivesse ali a tempo. 1, 2, 3 estrondos ecoaram, deixando um zumbido desagradável no seu ouvido. Havia pessoas correndo para todos os lados: soldados, prisioneiros, comandantes... Todos em meio ao caos e vendo seu sangue espalhar-se na neve branca que cobria o chão com uma generosa camada. Swan girava e girava tentando procurar um rosto conhecido, mas todas as faces tinham a mesma expressão de pânico. Mais um estrondo, e um escuro com ele.
Acordou suada e sobressaltada.
– Boa tarde, Srta. Swan. Vai com calma. Está tudo bem. Um sonho daqueles?- Disse Regina. Emma recobrava os sentidos devagar, já se sentindo bem mais atenta e ativa. Sentiu um choque percorrer todo o seu corpo quando Regina colocou a mão na sua testa quente e suada.
–Não... Ahn- tentava explicar, enquanto Regina se virou para pegar algo no criado mudo- quer dizer, mais ou menos... Era ruim mais diferente dos outros... Ai!- Resmungou quando sentiu a agulha perfurar o seu glúteo.
– Você não tem o direito de me enfiar coisas enquanto eu estou descansando, Srta. Mills.- reclamou.- E além do mais eu não dormi quase nada essa noite.
– Ah tá , Swan, conta outra. Você conseguiu dormir mais do que eu já consegui a minha vida inteira. Por sorte eu não sou má e não fiz nada além de cuidar de você. Na verdade, você está perfeitamente bem agora, estava desidratada e teve hipotermia, além do desgaste depois de todo o esforço que você fez. Só estou te dando umas vitaminas pra você ficar forte de novo, ou mais do que já é. Não vai precisar de mais nada além disso... Mas já que insiste, vou te deixar descansar.- dizia Regina, falando sem parar e já se dirigindo à portas.
– Ahn, na verdade, Srta Mills... Eu preciso de outra coisa.- disse Emma. Regina meio que matou a charada na hora, e já ia voltando quando Emma contestou.-Mas primeiro, a srta vai me contar o que está te amedrontando, comandante.
– Como assim?- respondeu ela.
–Bem, o dia anterior ou sei lá quando, foi bem difícil. Sei que a presença do Robin aqui não foi agradável e que teve uma tensão entre ele, Zelena, eu e você, porque eu ainda não sei o que ele faz aqui...- Regina já ia sentando na beira da cama, e puxando os lençóis, quando Emma a interrompeu.
– Calma, loirinha. Quando você chegou anteontem, estava completamente encharcada e eu tive que aquecer você, mas daí a srta apagou e eu ainda não consegui te dar um banho, só isso. Sinto muito pelas suas roupas, elas estão uns trapos. Mas arranjei umas minhas que serviram direitinho em você.- justificou Regina.
Emma ouvia tudo atentamente, prendendo-se a cada detalhe tentando achar algum descuido na fala de Regina, mas não achou. Não conseguia acreditar que dormiu por dois dias seguidos, e que Regina trocou sua roupa enquanto ela estava apagada. Estava ardendo de desejo, assim como a morena, mas querida vê-la apelar para conseguir o que queria.
– Sem problemas, eu gosto dessa aqui, tem o seu cheiro.- ironizou Emma, tirando a camisola enquanto se dirigia ao banheiro:- Mas pode deixar que eu tomo banho sozinha, comandante. Sem respostas, sem sexo.- disse, arqueando as sobrancelhas.
– Eii... Que apressadinha Swan! É isso que eu ganho depois de cuidar de você sua ingrata?!- insistiu, mas Emma não olhou pra trás e já ia entrando banheiro adentro quando Regina a tocou.- Quer dizer... Zelena sabe de tudo. Ela está bem, a propósito, e vai esclarecer as coisas. Então, quem sabe...- ia dizendo, quando Emma a segurou ela mão forte, feliz com resultado da provocação.
– Quem sabe não, Srta. Mills. Aqui, e agora. Já disse que não gosto quando me abandona.- gesticulou, trazendo a morena para junto de si e fechando a porta.
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