Nipôn | Elfos de Babel I
5 Capitulo 4
Notas iniciais
— O que você está fazendo aqui? Vitor perguntou para o shifter Leão, Mariano, não havia muitos leões na América do Sul, principalmente shifters, e principalmente naquela região da América do Sul onde havia vegetação do cerrado.
— Eu que pergunto, o que você faz aqui no meio da floresta? Fiquei uns bons minutos te observando olhar para o vazio perdido em pensamentos, se fazendo presa para qualquer que passasse aqui. Se bem que essa floresta não tem predadores além da matilha dos lobos e alguns cavalos selvagens, mas herbívoros graças a mãe natureza. Vitor não ia dar o gostinho de falar para Mariano que ele não sabia que havia cavalos selvagens pela região, ele estava envolvido no mundo humano, que ele raramente prestava atenção para os seres que viviam na região.
Mas ele já tinha lido nos encadernados antigos sobre os shifters cavalos selvagens, e eles eram conhecidos no mundo shifters como assassinos, cruéis e brutais. Diziam que na forma animal, os shifters deixavam-se perder sua humanidade, e cavalgavam como psicopatas sem ver onde pisoteavam ou galopavam. Como disse Mariano, sorte que esses caras eram herbívoros, se houvesse uma natureza carnívora incomum, os cavalos acabariam com todas as espécies dóceis de shifters que viviam na região durante o jantar.
— Você está me ouvindo, filhote? Mariano agitou as mãos na frente de seu rosto, chamando-lhe atenção. — Eu não vou mexer com você, pelo fato de não saber sobre os shifters cavalos da região, só vou avisar, já que você não sabia, para não se aproximar das terras ao norte da cidade de Genov.
— Você está falando onde tem as terras indígenas? Vitor perguntou surpreso.
— Sim, a maioria dos índios de lá são shifters cavalos, e o líder deles junto com a esposa são uns idiotas.
— Você quer dizer o Pajé?
— Não o chame assim aqui na região, principalmente perto de algum índio, o cara gosta de se achar urbanizado e "civilizado", então ele colocou o título de prefeito, e odeia ser chamado de Pajé. Vitor nunca ia entender isso, que índio não gostaria de ser chamado de Pajé, pelo que ele leu nos livros de história humanos, era uma honra ser escolhido o Pajé da aldeia.
— Você ainda não me respondeu. O que você fazia no meio da floresta com o olhar perdido sabe se lá onde? E ainda mais com o feitiço de merda acabando, e o seu cheiro começando a marcar todo o local.
— Isso mesmo! Agora me lembro, foi tudo culpa sua!! Vitor subitamente gritou.
— Filhote! Começou a dizer Mariano num tom de aviso cruel e de autoridade em sua voz. — Mantenha o tom de respeito em sua voz, e converse comigo direito!
— Não me chame de filhote! Disse o lobo com raiva. Ele odiava que mesmo com 150 anos de idade, o ainda o chamava de filhote.
—Apesar de você ter passado de um século e meio de idade, eu e Caio somos ainda os responsáveis pelo que você é hoje. Chamo você de filhote tanto por carinho como para te demonstrar quem é autoridade entre nós dois. Disse Mariano numa voz suave fingida tentando esconder a irritação por ser desafiado por seu pupilo.
Vitor odiava esse sentimento de superioridade de Mariano, tudo bem, que era por conta da natureza animal dele, mas antes quando mais jovem, ele considerava a dominância do leão admirável em uma espécie de herói para Vitor, agora somente o irritava porque Mariano ainda não o via como um adulto. Caio era o shifter coruja que o socorreu em sua quase pos-morte depois da sua primeira transformação.
Mariano e Caio sempre andava juntos. Mariano, alguns séculos atrás, se refugiou no Brasil vindo foragido da Nigéria, devido a uma guerra civil que matou seus pais e parte do seu bando. Caio encontrou Mariano fugindo de uma venda de escravos ilegais que ocorria numa região litorânea, Caio estava numa chamada de parto prematuro de vampiros, e o encontrou tentando se refugiar em um dos quilombos desativados daquela região. Caio o levou para cidade de Genov onde pode se refugiar e viver em segurança. Desde quando a cidade foi criada, inicialmente como uma vila para shifters, o prefeito aboliu a escravidão em suas próprias leis, não deixando que o mercado escravocrata chegasse até a vila, mesmo que alguns shifters ansiassem por isso.
— E aí, você não vai falar do que você estava me culpando? Disse Mariano em um tom de desafio.
— Você décadas atrás, me ensinando sobre o mundo sobrenatural e me dando aqueles encadernados antigos do Caio para eu ler, você ficava tão entusiasmado pelas histórias, e esquecia que eu tinha medo de algumas delas. Vitor disse acanhado, tentando manter a calma na hora de dizer, tentando não mostrar irritação.
— Eu ainda não entendo esse medo paranoico que você tem por outros shifters do mundo, você pode ter só 150 anos, mas eu sei que você é forte, não se esqueça que eu lhe ensinei a lutar contra várias espécies de sobrenaturais e seus pontos fracos. Mas fora isso, porque você está irritado comigo sobre isso?
— Eu não quero lutar contra ninguém, ok? Eu quero uma vida chata e monótona, e por causa disso eu comprei aquele maldito feitiço do bruxo.
— Você está me dizendo que comprou pôr o feitiço bruxo para se esconder de espécies de shifters predadores. Eu pensei que você tinha comprado porque queria esconder seu cheiro de lobo da matilha local com medo do tratamento deles a um lobo desgarrado?! Disse Mariano de olhos arregalados.
— Foi por causa da matilha de lobos também, mas eu não quero lutas desnecessárias vindo até mim.
— Não ocorreu mais lutas territoriais em mais de um século aqui nessa região, o alfa da vila espantou todos os caras que queriam tomar a cidade, então não há porque temer, além disso se você está se escondendo de mais shifters além da matilha, o feitiço deve ter sido poderoso e de longo alcance, o que não é nada bom, se um dia você encontrar seu companheiro. Vitor por um momento se esqueceu do lindo elfo que encontrou na floresta e que fugiu de seus braços.
— Ahhh merda, Vitor! Já aconteceu, ne? Você encontrou seu companheiro e ele não te reconheceu, não foi? Mariano disse com espanto que não fosse pelo momento ele acharia hilário.
— Não foi isso! Ele me reconheceu, só que teve dois problemas... Vitor odiava ser tão transparente e ser tão visível o que ele sentia, isso só acontecia com Mariano e Caio, os dois pareciam conhece-lo com a palma da mão. Ok, no fundo ele gostava que os dois o conhecessem tão bem, mas naquele momento ele não queria isso.
— Quais problemas?
— Primeiro, eu tinha esquecido por um momento que era através do cheiro que se descobria companheiros. Quando Vitor disse isso, ele viu as feições de Mariano escurecessem e seus lábios enrugados numa careta de desgosto, mas ele não o interrompeu. — Segundo, o meu companheiro é um tipo de elfo que tem olfato apurado para magia, ele cheirou o feitiço de ocultação e disse que eu o neguei como companheiro ao ocultar meu cheiro.
— Eu sabia que essa merda de feitiço bruxo ia dar errado algum dia na sua vida, Caio sempre me alertou para vigiar você contra isso anos atrás. Ele tentou te alertar sobre isso, mas você estava sempre tão enfiado no mundo humano, que por vezes não conseguíamos te encontrar para conversar. Mariano disse com raiva.
— Falando nisso, como está Caio? Faz tempo que não o vejo.
— Não mude de assunto! Agora me diga o que vai fazer com relação a seu companheiro? Disse Mariano, que claramente, era ele quem estava mudando de assunto, ele não perdeu o vislumbre de dor no olhar de Mariano, mas ele não ia perguntar nada, todo mundo conhecia o orgulho de pedra do Leão Mariano.
— Eu vou caçá-lo com meu lobo amanhã. Respondeu Vitor, apesar de ter dito que ia dar tempo para o elfo pensar sobre tudo, ele não conseguiria ficar longe tempo suficiente.
— Bom, muito bom.... Espero que você não pretenda usar aquela bruxaria de merda novamente.
— Hei, não fale assim dos meus feitiços, eu não tenho culpa se Vitor não ouviu as minhas advertências contra o feitiço. Vitor rosnou para a voz que ele conhecia muito bem.
— SORAYA!!! Vitor berrou e num instante mudou para seu lobo em questão de segundos correndo direto até Soraya, mas não antes do bruxo murmurar sobre a pequena chama acesa sobre a vela verde musgo que segurava em sua mão direita.
O lobo arreganhava os dentes afiados para o bruxo, enquanto com suas garras tentavam arranhar a barreira invisível que o bruxo colocou entre ele e o shifter.
— Porra Vitor! Pensei que éramos amigos, depois de tanto tempo! Soraya gritava através da barreira. — Se você quer ficar ao redor procurando culpados, então coloque a culpa aonde ela pertence seu idiota! Disse o bruxo rangendo os dentes de raiva. — A culpa é toda sua! Ao contrário de outros bruxos que eu conheço, eu avisei para você dos prós e dos contras de estar sob um feitiço tão poderoso. O bruxo fervia de raiva.
— Outros bruxos nem se importariam de você queimar, se o feitiço desse errado, mas eu não, o idiota aqui pensando que éramos amigos, testei todos componentes do feitiço e gastei outras tantas especiarias fora do meu elemento para criar barreiras caso o feitiço desse errado. Soraya continuava a gritar, mas de seus olhos transbordavam lagrimas dolorosas pela traição de seu amigo, que ainda em forma de lobo continuava querendo ataca-lo. A barreira da gárgula, era uma barreira padrão que ele usava quando ele passeava pela floresta a noite, atrás de especiarias para seus feitiços. Ele nunca pensou que usaria essa barreira para se proteger de um amigo.
Mariano observou a situação perder o controle, ele nunca tinha visto Vitor agir assim, claro que ele já tinha visto Vitor agir como idiota, mas Caio reconheceu as idiotices do jovem lobo como parte da sua insegurança devido ao passado que ele teve. Mariano aos poucos foi vendo a verdade por trás das palavras do shifter coruja, ele investigou a vida de Vitor de cabo a rabo, e descobriu sobre a mãe abusiva que ele teve até adolescência, e ele via agora as consequências de uma mãe desnaturada que jogou as frustações de um acasalamento falido em seu próprio filho.
Mariano mudou rapidamente para sua forma de leão, e rugiu para o lobo, o lobo nem sequer lhe deu atenção, ou fingiu não ouvir, então ele rugiu de novo, mas dessa vez usando o manto de Rei Leão que a sua espécie tinha como herança. O lobo se virou para ele e rosnou ferozmente, e Mariano viu o olhar do lobo, o olhar de medo que continha no castanho claro. Não era medo do Leão de Mariano e sim medo de perder seu companheiro, depois de um passado tão triste, ele sabia que Vitor teria medo de perder uma ligação tão sagrada.
As inseguranças de Vitor estavam começando a atingir pessoas que se importavam com ele. Primeiro foi Caio, que considerava Vitor como um filho, não importando os laços de sangue. Com mais nada além da verdade, Mariano também considerava Vitor seu filho, mas o tempo mostrou que Vitor não os via dessa forma. E agora o bruxo Soraya, colocando de lado a curiosidade que tinha de saber porque um bruxo homem teria nome de mulher, ele viu a amargura do bruxo, a dor nos olhos do cara de ver o seu melhor amigo o atacando indiscriminadamente, como o bruxo mesmo disse, ele tinha que colocar a culpa no lugar certo, e infelizmente o jovem lobo era o único culpado por toda essa bagunça com seu companheiro. Seu medo de confrontos, devido a relação abusiva com sua mãe o fez ir atrás desse feitiço, e também devido ao abandono do pai e as atitudes da mãe, Vitor criou uma má imagem do mundo sobrenatural como um todo. Tudo bem, que o mundo sobrenatural tinha bastante merda ruim, mas todo tipo de sociedade ou nicho não tem também?
Vitor teria que se acostumar com os perigos do mundo sobrenatural, ele não poderia viver com medo de outros sobrenaturais por muito, se ele quisesse construir uma vida com seu companheiro. Mariano ouviu Soraya gritar:
— Você, seu ingrato filho da puta! Eu purifiquei seu corpo das maldições que um shifter inexperiente pode ter ao andar pela floresta e não cobrei nada porque pensei que éramos amigos. A expressão facial do bruxo não indicava mais tristeza e sim raiva. Um bruxo com raiva nunca era bom. Era onde começava as maldições. Foi aí que ele viu um crocodilo enorme e anormalmente muito escuro, rastejar lentamente e perigosamente para perto do lobo de Vitor. Mariano rugiu alto, causando um estrondo absurdo dentro da floresta que já estava escurecendo. Rapidamente, a mandíbula do grande Leão foi para o pescoço do lobo descontrolado. O aperto dos dentes sobre a pele lupina era firme, mas não letal, o Leão puxou o lobo para longe do bruxo e do alcance do crocodilo. Mariano não deixou de perceber a inteligência por detrás dos olhos do réptil, aquele crocodilo era um shifter.
— Não, Leonardo! O bruxo gritou. — Ele não é mais um perigo para mim, volte para casa! Mariano se perguntava com quem o bruxo conversava. Ele acompanhou o olhar do bruxo, e ele viu o crocodilo; serio que o bruxo conversava com o crocodilo enorme? E então o nome do shifter réptil era Leonardo. Então isso quer dizer... O som estrangulado e selvagem interrompeu seus pensamentos. Mariano gemeu de frustação. O som tinha vindo do crocodilo, isso queria dizer...
— Leonardo, não! O bruxo sussurrou em choque, confuso sobre tudo o que acontecera tão rapidamente.
— Leonardo, quantas vezes eu já disse para não fazer isso sem minha permissão! Volte para casa, depois vamos conversar sobre isso. Disse o bruxo num tom de autoridade surpreendente, mas ainda não perdera o choque. Mariano então confirmou suas suspeitas. O crocodilo amaldiçoou Vitor. O shifter Crocodilo era o familiar de Soraya, pelo pouco que conhecia dos bruxos. Quando os familiares viam seus mestres correndo perigo ou se sentiam ameaçados, ele lança uma maldição sobre o agressor. Aquele som vindo do shifter era a maldição. Caio, o shifter coruja, disse-lhe tempos atrás que a maioria da sua espécie eram tradicionalmente familiares de bruxos do ar. E que apesar dos pios das corujas serem sinais de boa sorte, quando eram familiares seus pios são significados de maldições, foi daí que nasceu a crença popular entre os humanos que corujas quando olham diretamente para eles e piam significava azar.
O lobo subjugado debaixo dele havia se acalmado. Então seu Leão o soltou e Mariano voltou a forma humana, e o lobo voltou a seu humor irritadiço e debaixo de sua respiração molhada começou um pequeno rosnar.
— Chega, Vitor! Mariano gritou em cima de um rugido que saia do seu peito.
— Você já se descontrolou demais aqui. Você já está amaldiçoado pelo bruxo. O que você quer mais? Quer causar mais problemas? É assim que você quer encontrar e reconquistar seu companheiro, cheio de problemas sobre você! O Lobo virou sua atenção sobre Mariano, e o seu olhar cheio de angustia, e mudou para sua forma humana.
— Eu não estou nem aí se estou amaldiçoado por aquele maldito bruxo, eu quero vingança por aquele maldito feitiço.
— Você só deve estar fora de si mesmo, ne, filhote? Sua imaturidade e suas inseguranças devem estar em alta agora para não perceber que a culpa por tudo que acontece agora é sua, somente sua.
— Você está contra a mim...
— Não comece com isso, Vitor! O bruxo disse que te avisou, e mesmo se não tivesse te avisado. Você devia ter se informado com Caio sobre esse feitiço, ele sabe dessas coisas bruxas. Mas não, você decidiu agir em nossas costas e fazer o que seu medo dizia para fazer, então assuma a responsabilidade sobre suas decisões pelo menos uma vez na vida. Mariano observou o filhote olhar ao redor da floresta, e viu seu corpo tenso e duro como se o local fosse uma prisão agora para ele. Ele viu Vitor abaixar a cabeça como um desistente e disse quase como em um sussurro.
— Antes que eu esqueça, você precisa avisar ao alfa que o guardião da caverna que fica com os escritos está faltando. Vitor mudou rapidamente para sua forma de lobo e correu em disparada dali.
Mariano gemeu novamente em frustação, mais um problema no seu colo. Antes de avisar ao alfa qualquer coisa, ele teria que tentar resolver o problema por si mesmo. Se pelo menos Caio estivesse aqui agora... não, ele não poderia pensar nisso agora. Ele precisava se concentrar em como resolveria mais esse problema.
— Desculpe interromper seus pensamentos profundos, Leão... Soraya saiu detrás de uma arvore enorme e velha. — Mas não foi somente Vitor que foi amaldiçoado, você também foi...
— O que?! Eu não ameacei você, eu tentei te proteger.
— Sim, eu sei... mas Leonardo só viu dois shifters predadores me rodeando e lançou a maldição para me proteger...
— Quanto você precisa para realizar um ritual de purificação para mim e Vitor? Disse Mariano de forma direta e pratica.
— Desculpe Leão, mas não é assim que funciona as coisas. Feitiços e maldições lançados por mim ou por meu familiar não podem ser anulados ou purificados por quem os lançou, ou seja, nos. Procure outro bruxo para poder realizar isso para você.
— Mas você é o único bruxo da cidade que se dá bem com outras espécies de sobrenaturais que faria isso. Ninguém da comunidade bruxa realizaria um trabalho contra um outro bruxo.
— Isso é verdade. Mas tem outras pessoas que tem conhecimento bruxo na cidade, além de bruxos. Apesar de ser limitado, é suficiente para realizar seu pedido. Nos vemos por aí. Adeus.
— Ok, tudo bem. Mesmo assim obrigado por me avisar.
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