Nipôn | Elfos de Babel I
4 Capitulo 3.1
Notas iniciais
Vitor sentiu o vento forte deixado para trás esvoaçando seus cabelos em consequência do tiro de velocidade que o elfo tomou para dentro da floresta, seu peito apertou das lembranças de poucos minutos atrás, o vento ainda rebelde, mas aos poucos se acalmando não ajudou acalmá-lo do que ele possa ter perdido agora mesmo.
Ele sentia estúpido e ferido, como ele pode ter cometido esse erro a vida inteira, sua vida nunca estava certa ou dentro do controle, encontrando o elfo e sentindo seu cheiro acalmou a uma parte dele que ele não sabia até então que vivia inquieta e desesperada, seu lobo interior ainda estava rosnando de raiva e ressentimento, enquanto sua casca humana se via estática e sombria das possibilidades dolorosas que sua vida enfrentaria se o elfo não fosse dele para sempre.
No próximo segundo, ele amaldiçoou a vida que ele levou, sua mãe, seu desconhecido pai, o abandono, o desamparo e o desconhecimento que durante anos o levou ao medo. Sua mãe o criara como se não fosse seu filho, como se tudo que houvesse entre eles fosse uma obrigação genuína. Ela não lhe contara sobre eles serem shifters ou nem sobre nenhum dos seres sobrenaturais que compartilhavam o mundo com seres humanos, ele só descobriu aos 14 anos que sua mãe era uma loba, depois de espiar escondido ela mudando de forma, ele nem se preocupou em perguntar naquela época se ele podia virar um lobo também, ele sabia que provavelmente o assunto faria ele receber um surra, mas pouco tempo depois ela descobriu que ele sabia e apanhou duramente do mesmo jeito, e ele sabia que com essa desinformação, ele a iria odiar por esse fato a vida inteira.
Além de deixar-lhe a cegas no mundo do qual ele faria parte, aos 15 anos sua mãe o deixou por conta própria para cuidar de si mesmo, dizendo que era um costume lobo, deixar seus filhotes por conta própria, depois de lhe ensinar a sobreviver no mundo, depois de anos vivendo sozinho e aprendendo pouco sobre o mundo shifter, ele descobriu que sua mãe estava cheia de merda, como sempre. O costume lobo era justamente ao contrário, as matilhas eram unidas, e seus filhotes protegidos até a idade de 50 anos, que mesmo considerado adulto para os humanos, na matilha era considerado filhote, e mesmo chegando na fase adulta, era difícil um lobo se desmembrar do seu bando.
Depois de ser deixado por conta própria, ainda sem o conhecimento sobre o mundo sobrenatural, aos 16 anos, ele teve sua primeira transformação, lógico ele sabia que tinha um lobo dentro dele, mas novamente sua mãe não explicou as ramificações disso, ela não explicou a externalização do seu animal interior, e isso era um inferno de informação para esconder.
Ele, décadas atrás, refletiu sobre as ações de sua mãe para com ele, se perguntando o porquê de não ter se esforçado em ser uma boa mãe, ele não era tão ingênuo a ponto de não saber que existiam pessoas que não nasceram para serem pais, mas por acidente, viravam. Lógico, esse era o caso de sua mãe, mas seus instintos diziam que havia que mais do que apenas isso. Então ele lembrou-se das poucas vezes, que ela dizia sobre seu pai, dizendo-lhe:
— Você tem os malditos olhos daquele traidor do seu pai! E esse nariz de merda, fino e suspenso, como o nariz empinado e arrogante de seu pai! Claro, ela dizia tudo isso sob sua respiração bêbada e fedorenta, não acreditava que sóbria ela se atreveria a falar do homem que arruinou a sua vida, como ela bem dizia. A bebedeira maldita fazia sua loba feroz e cruel, já era rotina acordar com suas camisas rasgadas e ensanguentadas das garras que rasgaram sua pele, como se fosse papel enquanto criança, seu lobo ainda que oculto naquela época se via acuado e perdido, ele não sabia explicar, mas na idade de 7 anos, ele sentia seu lobo choramingar junto com ele, mesmo não tendo uma real visão do mesmo.
Voltando a lembrar de sua primeira transformação, ele ainda conseguia, mesmo depois de todo aquele tempo se lembrar da dor excruciante enquanto seu corpo queimava como se alguém tivesse tocado fogo em suas entranhas, como que o queimando por dentro, naquela agora, ele decidiu se encontrar a dor e morrer em paz, mas foi quando ele deixou ir que a mudança ocorreu, seu lobo apareceu, mas ele não estava no controle, ele assistia a tudo sobre os olhos do lobo, mas sua mente e alma se encontravam numa parte dentro de si que não tinha controle sobre sua parte animal, quando seu lobo começou a correr por dentro dos arredores da cidade, sua visão tornou-se confusa e bagunçada.
A raiva vinda do lobo o confundia ainda mais, foi aí quando sua visão borrada começou a clarear, que o lobo descontrolado fora dele viu uma criança de uns 12 anos, ele supunha, perdida na orla da floresta que ficava no bosque em frente a cidade. O lobo julgara que ali era seu território, e a criança um invasor, e sem entender como seu lado humano sabia o que ia acontecer se ele não obtivesse o controle, ele dentro da mente do lobo gritou pelo controle que ele desejava ter para que não matasse a criança. E tudo escureceu de repente.
Ele acordara naquela época numa mesa branca de um hospital, com um homem pequeno, mas velho, olhando profundamente para ele. Velho não era a palavra correta, o cara parecia estar em torno do quarenta e poucos anos, mas em seus 15 imaturos anos, aquilo era considerado velho para ele.
— Já hora de acordar, filhote. Pensei que ficaria desacordado para sempre. Disse o homem.
— Filhote? Sua cabeça girava, e seus olhos não conseguiam se focar em uma única coisa agora, ele via tudo muito nítido e logo depois sua mente empacava, seus ouvidos ouviam barulhos incessantes e ruidosos, fazendo sua cabeça doer, ele poderia dizer que o homem havia usado um tom baixo quase murmurando para ele, como se soubesse que seus ouvidos estavam sensíveis, ele também não perdeu o cheiro forte que preenchia aquela sala, o cheiro lembrava ele da floresta que vivia com sua mãe, mas especificamente da terra seca quando não chovia muito em tempos de seca.
— Respire fundo, filhote e feche os olhos lentamente. O cara falou suave com ele, pedindo-lhe com preocupação. — Tente relaxar seu corpo e inspire novamente. Vitor fez como ele pediu e sentiu a dor de cabeça diminuindo aos poucos e seu corpo que ele não percebera antes que se encontrava tenso, relaxou...
— Por que me chama de filhote? Sua cabeça ainda o mantinha nessa palavra.
— As matilhas de lobos costumam chamar seus membros mais jovens de filhote não é mesmo?
— Não sei, como eu cheguei até aqui? Sua cabeça ainda estava um pouco atordoada para entender que o homem tinha conhecimento sobre shifters lobos.
— Uma criança humana encontrou você caído no chão, depois de um lobo ter tentado come-lo. Você foi levado para cá, e por sorte eu estava passando pela ala de emergências quando peguei seu cheiro, e vi que você era um shifter, e me ofereci para atendê-lo.
— Espera... você sabe sobre shifters lobo? Como? Minha mãe disse que nenhum humano sabia sobre nossa existência! PERAÍ, VOCÊ É UM SHIFTER LOBO?! Vitor começou a gritar pela surpresa de encontrar outro shifter.
— Acalma-se cara! O hospital ainda é cheio de humanos... então fale baixo e também, você ainda não está bem o suficiente para ficar todo exaltado assim, então relaxe cara.
— Pelo o que eu verifiquei, parece que você passou pela sua primeira transformação, e quando voltou a forma humana você quase morreu de ataque cardíaco e ....
— Primeira transformação? Como assim eu quase morri? Vitor interrompeu o homem, desesperado pela sua experiência de quase morte. Será que ele ia morrer cedo?
— Onde está seu alfa ou sua mãe, como você mesmo disse? Ele estava de olhos fechados, mas ele ouviu o tom suave e estranhamente cheio de raiva do médico.
— Eu não sei o que é alfa e minha mãe me abandonou ano passado.
— Merda! O médico xingou suavemente, mas ainda com raiva. — Você é um shifter desgarrado!
— O que é isso? Perguntei espantado pela atitude do cara, parecia ser uma coisa ruim. Então o olhar do cara suavizou para uma bondade que ele nunca recebeu de ninguém em sua vida. E foi ali que sua vida realmente começou.
O médico respondeu todas as suas perguntas, e cuidou dele como um filho no hospital, pouco tempo depois, ele contou a Vitor que era um shifter coruja e que para a surpresa de Vitor, existia outros tipos de shifters aves, répteis, mamíferos caninos, felinos e roedores. Ele conseguiu estender seu tempo no hospital, parece que um dos diretores do hospital era um vampiro, e ele ficou um mês internado sob a desculpa de estar com pneumonia, que era a doença da época. Depois disso, ele foi para um abrigo de jovens sem teto, e conseguiu estudo numa escola humana, depois da maioridade foi deixado por conta própria, mas agora mais preparado para o mundo ao seu redor.
Perdido nas memórias do seu passado, Vitor quase perdeu o barulho de farfalhar de folhas que vinha a sua esquerda, ele quase se esqueceu que ainda se via dentro da floresta, sua mente às vezes o levava longe no passado. Ele era um idiota por deixar-se perder em lembranças no meio de um local hostil.
— Quem está aí?
— Pelo que vejo, você ainda é péssimo em identificar paranormais pelo cheiro. Oh merda! Falando em passado, péssima hora para Mariano resolver aparecer, ele nem sabia que o cara estava de volta na cidade.
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