Nine Months
3 Three Months
Notas iniciais
—Levi. — A voz do ômega saiu abafada e o alfa esperou até que ele saísse do banheiro. — Levi.
—Hm. — Respondeu, de frente para o espelho enquanto arrumava a gravata ao redor do pescoço, ambos se preparando para a festa corporativa que Levi foi convidado. Todos que trabalhavam com ele estaria lá, inclusive Hanji, para seu desgosto total.
—Olhe para mim. — O garoto pediu, voz ligeiramente indecisa e antes que Levi pudesse se virar e dar sua completa atenção a ele, o reflexo de uma figura estonteante apareceu no espelho.
Imediatamente, o alfa deixou as mãos pararem de atar o nó na gravata, olhos azul-gelo fixados na beldade que era seu ômega, garganta fechando enquanto seu alfa inteiro uivava de satisfação.
Eren vestia um vestido longo verde escuro de seda simples que destacava seus olhos e abraçava cada curva ligeira de seu corpo. Nada muito avantajado, mas tudo em uma proporção magnífica que fazia o alfa engolir em seco. O vestido tinha alças finas que formavam um corte em U na frente e Levi nunca pensou que um homem ficaria tão estonteante em um vestido. Nada fora do lugar, nada faltando. Ele soube imediatamente que a festa inteira teria olhos para seu ômega e apenas o pensamento fez com que sua barriga tremesse em possessividade.
—Você acha que está estranho? — O garoto virou, parecendo genuinamente preocupado com seu traje e Levi teve que segurar um grunhido quando viu que o vestido deixava as costas lindas e morenas, a pele suave de seu ômega a vista, mordida na nuca bem aparente devido ao cabelo curto do garoto.
O tecido voltava a cobrir o corpo do moreno um palmo acima da curva da bunda e, Deus, Levi tinha certeza que, se pudesse, trancaria ambos naquele quarto até não poder mais. Porém ele sabia que assim que Erwin e Hanji notassem sua ausência, iam mandar um esquadrão arrombar a porta do apartamento e carregar os dois, nus ou não, para a maldita festa.
—Levi? — Eren o olhou por cima do ombro, olhos verdes brilhantes questionando o silêncio do alfa.
Com um suspiro derrotado, o mais velho soltou a gravata de novo, desabotoando os primeiros botões na camisa branca para que pudesse respirar com mais facilidade enquanto gravava cada detalhe daquela escultura em sua frente.
—O seu objetivo é atrair a atenção de cada bastardo naquele salão? — Grunhiu e Eren soltou uma risada leve ao ver o rosto do parceiro, que mais parecia sentir dor a cada segundo que passava o observando.
—Só a sua. — Devolveu com um sorriso levado, e Levi fechou os olhos, massageando a ponte do nariz enquanto xingava baixinho.
Eren riu novamente para logo assumir novamente um olhar preocupado enquanto olhava o próprio corpo.
—Mas sério... não está estranho? Ou gordo? — Perguntou, voz ligeiramente mais baixa enquanto colocava uma mão sob a pequena protuberância em seu ventre que, na visão de Levi, só deixava a cena mais venerável.
—Você vai ser o homem mais lindo daquela festa, Eren. — O alfa disse, aproximando-se gentilmente, como se tivesse medo de que a figura a sua frente desaparecesse. Eren observou-o se aproximando, olhos curiosos observando as mãos esticadas do mais velho, como se clamassem para tocar a pele a sua frente.
No momento em que as mãos se encaixaram em sua cintura, como se feitas para ficarem ali, o garoto sentiu Levi soltar um suspiro quase doloroso, roçando o nariz em seu pescoço e aspirando o cheiro natural que exalava. Eren não gostava de perfumes e Levi sempre dizia que o aroma artificial era uma ofensa.
—Perfeito. — O alfa suspirou, puxando o rosto e deu-lhe um beijo na bochecha para logo depois se ajoelhar e beijar gentilmente a bolinha que se formava no ventre do ômega.
Eren observou com o coração derretendo a cena diante de si, a sensação de felicidade e orgulho tomando conta de sua barriga como se fossem borboletas batendo as asas em liberdade. Ele acariciou os fios negros com suavidade enquanto Levi esfregava o nariz contra sua barriga e aspirava o cheiro de filhote que ficava mais intenso naquela região.
Para todos que conheciam a feição estoica e séria que naturalmente era o rosto de descanso do alfa, vê-lo daquela forma tão vulnerável e amável seria uma surpresa. Apesar do ar dominante e da voz rígida, para Eren, Levi não passava de um coração mole com diversas muralhas ao redor, que mostrava suas fraquezas, sonhos e diversas outras expressões somente no aconchego e segurança do lar, com seu ômega perto para lhe segurar.
—Se você não quer que eu tenha uma ereção agora e nos atrase para a festa é melhor ir se levantando, alfa. — O moreno brincou, recebendo um bufo e um meio sorriso enquanto Levi se levantava.
—Eu só preciso de um incentivo para tirar esse terno e nos trancar aqui dentro.
Eren riu alto dessa vez, bochechas ligeiramente coradas só com a ideia de ter aquele vestido tirado de seu corpo e sentir a pele do parceiro contra a sua.
—Você sabe que a Hanji iria chamar os bombeiros para arrombar essa porta.
—Eu ainda não sei porque mantenho a quatro olhos no círculo social. — Levi observou Eren gesticular com as mãos para as costas, onde duas fitas finas caiam para o lado. — Amarrar? — Perguntou, enquanto pegava as fitas nas mãos.
—Sim, em cruzado. — Ele virou-se e sentiu as mãos ligeiramente geladas começarem a trançar as fitas em suas costas, seda verde escura contrastando com a pele morena. — E no fundo você a ama.
Levi estalou a língua.
—Por obrigação.
—Uhum. — Eren sorriu, sabendo muito bem que aquela postura só era fachada e que Levi realmente considerava a amiga como uma família, principalmente quando tinha ficado tão nervoso ao apresentar Eren para Hanji, Erwin, Mike, Isabel e Farlan.
No final, o ômega tinha certeza que Levi no mínimo se arrependeu de tê-lo apresentado a Hanji porque nos primeiros 30 minutos de conversa os dois morenos eram quase como amigos de infâncias, rindo escandalosamente e bebendo um drink atrás do outro. No dia seguinte, Eren jurou que nunca mais botaria uma gota de álcool na boca, mas no fim a resolução só durou uma semana.
Agora Hanji era sua obstetra depois de gritar por meia hora direto ao saber que os dois esperavam um filhote e clamar proteger o que ela chamou de “pequeno titã” que crescia no ventre do ômega.
—Pronto. — O mais velho fez um laço que ficou pendurado logo acima do traseiro do garoto e deu-lhe um beijo na nuca, bem em cima da marca de mordida que Eren mostrava com tanto orgulho. Eren virou-se e pegou a gravata solta ao redor do pescoço pálido e pôs-se a ajeitá-la junto com os botões, olhos vagando ligeiramente pelo peito definido bem coberto pelo terno completamente preto que delineava os músculos do mais velho.
Nenhum dos dois sentiu a necessidade de trocar mais palavras enquanto se afogavam na presença um do outro, um silêncio confortável que deixava o peito aquecido e vibrante. Levi observou os olhos verdes que tanto adorava ficarem focados no trabalho em suas mãos, sobrancelhas ligeiramente franzidas enquanto Eren mordia inconscientemente os lábios pecaminosos que mais pareciam atrair Levi como um buraco negro.
E quando o garoto terminou de ajustar o terno, a gravata e a camisa, olhou para cima e deu-lhe um sorriso glorioso, quase como se tivesse brilhando com a gravidez.
O peito do alfa se apertou e ele realmente pensou que qualquer dia desses Eren ia causar-lhe um infarto.
—Vou colocar os sapatos e estamos prontos para ir. — O moreno avisou, dando as costas e indo até o closet pegar um par de sapatilhas que eram quase da mesma cor que sua pele.
—Eren, você não ouse colocar um sapato que tenha mais de um centímetro de sola.
—O quê? Preocupado em ficar ainda mais baixinho, oldman? — Eren gargalhou e saiu do walk in closet segundos depois, mantendo a mesma diferença de altura entre os dois, o que Levi era grato. O mais velho colocava um relógio no pulso e Eren se perguntou se não deveria ter colocado algo mais que o colar de prata Tiffany & Co que carregava algumas esmeraldas em seu comprimento além do anel de noivado também da Tiffany que não saia de seu dedo.
—Você acha que está faltando alguma coisa?
—Alguns chupões no seu pescoço. — Levi respondeu sem nem mudar a expressão tediosa e Eren revirou os olhos e saiu pela porta, não antes de receber um tapa consideravelmente pesado contra sua bunda que fê-lo gritar de surpresa e apontar um dedo acusador para o alfa, que apenas deu-lhe um meio sorriso malicioso e fechou a porta atrás de si.
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O salão em que a festa estava sendo realizada era em um hotel no centro da cidade. A entrada erguia-se como um templo grego, grossas colunas em estilo coríntio se erguiam e uma escada de mármore levava até a entrada do hotel. Havia iluminação apontando para a fachada e conseguindo iluminar alguns dos muitos andares e o tapete vermelho que levava até o salão era guardado por seguranças, cada um ao lado da porta e dois ao lado do chofer que se encarregava de estacionar o carro dos convidados.
Assim que Levi parou o carro na rua, o veículo foi atingido por alguns poucos mas significantes flashs de câmera. Os repórteres contratados por Erwin eram desnecessários e irritantes do ponto de vista de Levi, mas levando em conta que o baile tinha fins filantrópicos, ter os jornais sabendo da ação com certeza traria boa publicidade para a firma.
—Repórteres? — Eren questionou, retirando o cinto de segurança ao mesmo tempo que Levi retirava o dele e abria a porta.
—Erwin. — Foi uma palavra rápida e jogada no ar, enquanto o alfa colocava uma feição estoica e entregava a chave da BMW preta para o responsável por estacioná-la. As câmeras focaram nele imediatamente, ávidas para flagrar um dos nomes mais importantes da Wings of Freedom, enquanto Levi dava a volta na frente do carro ajustando o terno e abrindo a porta do passageiro para Eren descer.
Dando-lhe um sorriso nervoso, o garoto aceitou a mão e segurou em uma parte do vestido, evitando tropeçar na barra enquanto descia do carro. Os flashs continuaram e Eren sinceramente quis chorar por não ter pensado em vir mais arrumado ou algo assim.
Agora que as câmeras tiraram fotos dos dois de mãos dadas, o ômega já conseguia ver as manchetes o rebaixando, o criticando e indicando ômegas muito melhores e mais bonitos para um dos sócios da Wings of Freedom. Ômegas mais belos, esbeltos, elegantes e magros e não um garoto que usava um vestido de seda com uma sapatilha porque sentia os pés doloridos, com a pele brilhante de oleosidade, o cabelo se recusando a ficar comportado e a barriga despontando e deixando-o gordo.
Sinceramente? A noite nem tinha começado e foi só colocar o pé para fora da intimidade dos dois que Eren se sentiu automaticamente mal. A cada foto e a cada degrau, a vontade de querer ir embora crescia ainda mais.
—O que foi? — Levi aproximou-se do seu ouvido e Eren quase pulou de susto, muito perdido nos próprios pensamentos depreciativos para perceber o alfa.
—Huh? — Perguntou estupidamente e além de gordo, ainda era estúpido! Ele tinha certeza que haviam pessoas muito mais adequadas para Levi dentro daquele salão. Pessoas que conseguia conversar sobre assuntos importantes, que carregavam o ar da elegância consigo e que não fossem um ômega grávido que choramingava o tempo inteiro e queria comer um boi a cada refeição.
Não é à toa que ele se sentia tão pesado e inchado.
—Nada. — Respondeu e virou o rosto, tentando não deixar a expressão mentirosa ser lida pelo alfa.
Levi automaticamente soube que algo estava errado, principalmente quando seu ômega virou o rosto para esconder a vermelhão que tomava até conta de suas orelhas. Ele sabia que toda vez que Eren mentia as orelhas ficavam vermelhas. No entanto, quando ia questionar o garoto, uma voz grave e composta soou.
—Levi! — A frente deles, assim que a escadaria tinha sido completada, estava Erwin Smith, um copo de espumante na mão e terno azul marinho abraçando a estrutura larga e bem construída do alfa. As grossas sobrancelhas adornavam olhos azuis que tinham um brilho malicioso misturado com uma inteligência fora do comum que o permitia ler seus clientes como ninguém.
Apesar de ser um dos melhores advogados da cidade, principalmente reconhecido pela natural expressão impassível que era invencível nos tribunais, Levi tinha que admitir que Erwin Smith era uma força a se reconhecer.
—Erwin. — Cumprimentou-o com um aperto de mão forte e o loiro logo desviou o olhar para a figura morena que parecia deslocada e desconfortável ao lado do Ackerman.
—Eren! — Erwin abriu um sorriso brilhante e ofereceu uma mão, que Eren pegou mais por surpresa e reflexo, uma vez que estava muito desorientado tentando lidar com a avalanche de hormônios que decidiu cair sobre si sem aviso prévio.
Assim que a mão foi pega, Erwin a virou e depositou um beijo casto no dorso dela, sempre mantendo os olhos azuis no ômega. Um rubor se espalhou pelas bochechas do garoto porque aquele homem, apesar de não fazer o seu tipo, era um dos homens mais bonitos que Eren já havia conhecido e era impossível permanecer neutro quando tinha um olhar daqueles sobre si. Quase como se ele fosse desejável, quase como se ele fosse o suficiente para um alfa.
Levi franziu as sobrancelhas para a interação e fuzilou o loiro com o olhar, arrancando dele uma risada como quem estava se divertindo com uma piada imperdível.
—Relaxe, Levi, eu só estou admirando como o Eren está magnífico essa noite! — O comentário não serviu para melhorar o rubor no rosto de Eren, o interior vibrando com um up em sua autoestima. Talvez ele fosse realmente belo. Talvez ele não fosse tão desgastado. — Eu devo dizer, Eren, que a gravidez te fez muito bem.
E, wow! Eren quase amoleceu no aperto de mão do homem, um sorriso lisonjeado surgindo em seu rosto e, sim! Talvez aquela noite não fosse tão ruim quanto pensava! Talvez os pensamentos de inferioridade estivessem tomando o melhor de si e o impedindo de ver a realidade.
—Tch. Pare de babar o meu ômega e nos deixe passar. — Levi reclamou, soltando a mão de Eren e deslizando um braço pela cintura do garoto, enquanto o guiava até a mesa de bebidas.
Eren deu um sorriso e um aceno para Erwin, que logo teve a atenção tomava por dois acionistas e o grupo engajou em uma conversa profissional.
Já Levi estava mais preocupado em arrumar um suco para o moreno, já que Eren não podia beber na gravidez e, como apoio, o alfa disse que também não iria beber. Logo um garçom apareceu com duas taças com suco de morango, o que Eren agradeceu porque o cheiro era incrível. E logo quando a noite parecia estar melhorando, logo quando Eren parecia o foco da atenção de Levi e a coisa mais preciosa do mundo, as pessoas começaram a notar o Ackerman ali.
Pouco a pouco, pessoas vinham ao encontro de Levi cumprimentá-lo e iniciar uma conversa rápida, geralmente intencionando alguma reunião ou conexões. A maioria notava Eren e o elogiava, mas era possível ver muitos olhares de julgamento e principalmente era notável o quanto nenhum deles se importava em incluir Eren na conversa.
Levi, é claro, passou o tempo todo ao seu lado, uma mão na cintura, e nunca esqueceu de apresentá-lo como seu ômega. Alguns parabenizaram a gravidez e sorriram – falsamente, Eren percebeu – quando o assunto vinha à tona. Mas logo logo as coisas mudavam de rumo e a conversa ia para o campo comercial, o que deixava o garoto como uma estátua ao lado do alfa, bebendo o suco e olhando para qualquer lado enquanto tentava não deixar o lado ruim dos hormônios abater sobre si.
Levi não tinha errado uma única vez naquela noite. Pelo contrário, ele continuava a ser o alfa perfeito, sempre lhe dando um beijo na bochecha ocasionalmente entre uma conversa e outra e apesar disso, Eren só conseguia pensar que um alfa daqueles não merecia o ômega que era. Levi merecia mais que um simples estudante que engravidou sem querer.
Todos os pensamentos racionais e a voz de seu ômega negando os pensamentos invasores foram silenciados quando o moreno deslizou do braço de Levi, que o olhou com interrogação, ignorando momentaneamente um homem em seus 50 anos que conversava com ele.
Eren, tentando esconder a expressão pesado, deu um sorriso torto e levantou a taça vazia, como quem gesticulava que iria pegar mais suco.
Levi franziu as sobrancelhas, mas antes que pudesse segui-lo, Eren misturou-se com o restante dos convidados e o alfa se viu rodeado de pessoas irritantes que demandavam sua atenção.
Já Eren, mordendo o lábio inferior para tentar parar as lágrimas que vinham do nada, deixou a taça na bandeja do primeiro garçom que passou por si e olhou com olhos já marejados, procurando um banheiro onde pudesse se esconder.
Naquele momento, enquanto levantava a barra do vestido e andava a passos rápido até o toalete, ele se sentia pequeno, deslocado no meio das risadas sociais e taças de champanhes. Algumas mulheres estavam muito bem maquiadas, cabelos ornamentados e ele realmente se perguntou que merda passou por sua cabeça quando decidiu que vestir um vestido seria uma boa ideia.
Com certeza todas aquelas pessoas estava o olhando torto e rindo a suas costas, julgando o quão patético um homem estava ao usar um vestido que com certeza não combinava com a forma que seu corpo era desenhado.
Antes que pudesse chegar no banheiro, as lágrimas já caiam e ele abriu a porta com tudo, esparrando no ombro de um homem desconhecido e jogando um “perdão” por cima do ombro, enquanto se trancava em uma das cabines do banheiro.
Eren não teve nem tempo para observar a luxuosidade do recinto, chão de mármore escura, boxers de vidro opaco e porcelanas formando as pias que se estendiam pelo longo balcão de mármore que era acompanhado por um espelho enorme que ia do balcão até o teto.
Mas para ele isso não importava.
Sentado na tampa de um vaso sanitário, ele tentou manter as lágrimas dentro, xingando-se por estar uma bagunça de emoções e ser incapaz de se controlar. Como ele podia ser tão bobo daquele jeito? Não havia nada o fazendo mal, apenas os próprios pensamentos. Levi não foi nada menos que um amor naquela noite e tudo o que ele conseguia fazer para retribuir é se trancar num banheiro e chorar até o rosto ficar mais redondo do que já estava.
Se recomponha, se recomponha, se recomponha, Jaeger!!
Pegando uma mão cheia de papel higiênico, ele tentou assoar o nariz o mais quietamente possível, tentando não ser um porco sem educação nenhuma. Tomando ar e tentando respirar de forma normal, enxugou as lágrimas com o dorso das mãos e destrancou-se da cabine, indo até a piada.
Graças a Deus, ele estava sozinho e ninguém mais poderia ver a miséria que seu rosto tinha se tornado. Olhos verdes vermelhos e inchados, bochechas coradas e lábios trêmulos. Ele conseguiu a proeza de parecer ainda mais constipado, rosto mais oleoso e pálido e sinceramente?
Foda-se.
Ele só queria ir embora. Só queria se enrolar no cobertor e poder ser quem era, mesmo que fosse um ômega insuficiente, na paz de seu lar. Mas assim que saiu do banheiro toda a determinação desapareceu quando a visão de uma mulher com a mão no bíceps de Levi se construiu em sua frente.
Ela vestia um vestido vermelho curto, com um decote abaixo dos seios. Os cabelos loiros estavam presos em um coque, algumas mechas cacheadas adornando o rosto fino, lábios vermelhos e – Eren era incapaz de ver a cor dos olhos dela, mas ele tinha certeza que aquela mulher não tinha um único defeito e era perfeita.
Muito melhor do que ele.
No meio da turbulência de emoções, o moreno ficou dividido em ir até lá e dar uma crise de ciúmes ou pegar um táxi e voltar pra casa. Mas no final, não fez nem um e nem outro. Com lágrimas voltando a deixar seu rosto destruído, ele fez uma linha reta até a mesa de quitutes e pegou todo o vasilhame de cookies de uma vez só, carregando ele consigo até o banheiro, completamente alheio ao olhar assustado dos garçons.
Novamente sozinho, triste e comendo toda a vasilha de cookies banhados em lágrimas que podiam ser lágrimas de exaustão ou raiva consigo mesmo e com Levi por ser tão perfeito e raiva por ser inferior àquela mulher e por não ser tudo o que dever-
—Eren?
Eren parou inclusive de respirar, olhos verdes arregalados olhando para a porta da cabine quando a voz do alfa soou.
—Eren? — Dessa vez, o moreno ouviu a porta fechar, o som de passos adentrando o grande banheiro. Sem pensar duas vezes, ele levantou os pés e abraçou os joelhos, não querendo que Levi visse seus pés pela parte de baixo da porta.
Como um gato acuado, ele ficou ali nos próximos segundos de silêncio, tentando conter o ômega interior que brigava consigo mesmo por ser tão estúpido e se esconder do alfa.
—Eren, eu sei que você está aqui. — Uma batida exatamente na porta da cabine onde o garoto estava e nesse momento um pequeno gritinho de susto soltou sua garganta.
—Ahm... Ocupado...? — Ele tentou limpar a garganta e começou a limpar as lágrimas com o tanto de papel higiênico que estava em seu colo.
—Abra a porta. — Levi pediu.
—Não! — Gritou de volta, esforçando-se para deixar o rosto o mais normal possível enquanto buscava uma desculpa para estar trancado ali. — Eu estou fazendo negócios importantes! — Respondeu e seu rosto inteiro, inclusive as orelhas, coraram.
Levi ficou em silêncio por um segundo, como se considerasse a resposta e então:
—Não.
—O quê? — Eren perguntou, confuso com a linha de raciocínio do companheiro.
—Você está com prisão de ventre há quase uma semana e nós dois sabemos, Eren, que você não caga em lugares públicos.
Dessa vez o garoto revirou os olhos de verdade, o rosto queimando com a indelicadeza do outro.
—Agora abra a porta.
—Por que se importa se eu estou ou não aqui? Não é como se eu fizesse falta lá fora! Eu só gosto do banheiro! É confortável! — Eren cruzou os braços, petulante. O banheiro estava longe de ser confortável, mas pelo menos lá ele se sentia quase em casa, dividindo o lugar com a merda inferior que não estava lá fora sendo educada, perfeita e social. E não gorda, obviamente.
—Porque essa maldita sensação na minha nuca me diz que você está se deixando levar por alguma besteira que a sua própria mente criou.
—Não é verdade! — O garoto retrucou.
—Eren... — A voz dele soou cansada e Eren podia até imaginar o modo como Levi devia estar esfregando os olhos. Ele se sentiu mal por exigir tanto do alfa, que era tudo e mais um pouco para ele. Mas a sensação de se sentir inferior ainda estava lá e agora seu coração estava repartido em querer ficar sozinho e em querer ser consolado pelo mais velho.
—Levi, só volta para a sua festa e seja perfeito. — Eren também soou exausto e triste. Miserável, se Levi pudesse descrever.
Silêncio.
—Eu não posso ser perfeito sem você. Você que me faz ser perfeito, Eren.
A confissão deixou o garoto de boca aberta, olhos arregalados como se pudesse ver o alfa através do vidro da cabine.
—Não é verdade... — O ômega respondeu, meio desestabilizado e sem muita confiança.
—É sim. Pergunte para qualquer um que trabalhe comigo que eles vão te dizer o filho da puta que eu era antes de conhecer você. — Levi disse. — Inferno, pergunte para Petra qual era o meu apelido na firma e ela vai te contar tudo.
Eren ficou ligeiramente – muito – curioso.
—Qual era o seu apelido? — Levi percebeu a curiosidade inocente querendo sobrepor a melancolia que se espalhava pela ligação de alma deles. Ele sorriu de canto.
—Capitão.
Uma risadinha pequena saiu dos lábios vermelhos de ômega e Levi quase deu um suspiro quando a tranca foi ouvida e logo ele entrou na cabine, um pensamento estranho lhe fazendo pensar que talvez Eren realmente gostasse muito de ter esses episódios no banheiro. Talvez ele gostasse de ver Levi implorando através da porta.
—Capitão Levi! — O garoto chamou, um brilho petulante nos olhos, e Levi o olhou com olhos apertados, fingindo uma bronca. Logo seu foco caiu para a vasilha no colo do ômega, a qual continha um cookie meio comido dentro.
-Você comeu toda a tigela de cookies? — Arqueou as duas sobrancelhas em surpresa, observando os olhos verdes se arregalarem em surpresa.
—Um...não? — Eren deu-lhe um meio sorriso, olhos tão inocentes como os de uma ovelha. Levi o olhou ceticamente e cruzou os braços.
—Tem migalhas na sua boca. — O alfa apontou e de imediato Eren choramingou.
—Eu sei, eu sei! Quando eu percebi tudo tinha acabado e-oh meu Deus! É por isso que eu estou gordo, né??
Dessa vez Levi revirou os olhos e deu um sorriso cansado, retirando o vasilhame de vidro do colo do moreno para evitar qualquer acidente.
—Eren, a barriga ainda nem está aparecendo.
—Mas eu estou gordo! — Seu ômega queixou-se, balanço os pés como uma criança pirracenta. — Meus dedos estão tão inchados que estão implodindo! — Ele apontou para os pés como se precisasse guiar Levi até eles.
Levi abaixou-se rapidamente e tirou uma sapatilha do pé do garoto, franzindo o cenho para as marcas vermelhas contra a pele. A questão é que Eren estava com três meses de gravidez. Era impossível que os pés estivessem inchados ao ponto do garoto não conseguir calçar seus próprios sapatos.
Foi então que Levi verificou a numeração do calçado e olhou para o ômega com o rosto sem expressão. Eren o olhava de volta com esperança.
—Eren, esses sapatos são 35. Você calça 37.
O rosto do pequeno se iluminou como uma árvore de natal, toda a angústia e tristeza e lágrimas e dramas se tornando um passado muito distante.
Levi o observou pensar por alguns segundos, mão no queixo, rosto ligeiramente tombado e olhos grandes fazendo uma imagem cômica.
—Oh tem razão... Mas então você vai me carregar até em casa?
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