Nine Months
6 Six Months
Notas iniciais
Levi estava a menos de três quarteirões de casa, parado em um sinal de trânsito, quando o toque do celular conectado ao bluetooth do carro soou pelo veículo. Uma olhada no painel automático e EREN estava escrito com letras garrafais.
Ele apertou o botão no volante e logo a voz do garoto estava ao seu redor, ressoando pelos auto falantes do carro.
“Levi!”
—Eren. — Respondeu em tom neutro e deu o arranque no veículo quando o sinal abriu. Eram 18:17h depois de um dia no tribunal, ouvindo pais desequilibrados discutirem sem educação nenhuma sobre a guarda da filha. Levi quis sair daquele maldito lugar assim que viu a garotinha de olhos arregalados a beira das lágrimas ao ver a única família que ela conhecia ir por água abaixo. Ele lembrava muito bem o que era perder a família, pequeno Levi olhando desesperançoso para o caixão da mãe que era lentamente levado ao subsolo.
Ele lembra de perguntar ao tio Kenny porque estavam colocando a mamãe no chão e lembra das noites em que não dormia porque talvez a mamãe só estava em seu trabalho noturno – que mais tarde ele descobriu ser prostituição – e gostaria de ter o pequeno Levi esperando por ela.
Ele sabia muito bem o que os olhos assustados da garotinha estavam questionando e não houve um único momento em que ele não pensou em seu ômega grávido em casa e no filhote que eles estavam esperando.
Ali, no meio do tribunal, Levi fez um juramento silencioso que nunca seria um maldito filho da puta como era aquele homem que tinha a cara de pau de usar alienação parental contra uma criança. Ele jurou não deixar a criança deles passar por uma situação daquelas e nem ter que escolher com qual deles morar e nem ter que escolher qual dos pais iria para a apresentação de teatro ou para as aulas de futebol, balé, ou o que ele escolhesse. Levi estaria lá, a cada momento. E mesmo que não pudesse ser tão expressivo, ele faria o possível para que o bebê soubesse o quanto era amado e querido.
Mas no momento ele tinha outra pessoa para dar atenção.
“Você já está perto de casa?” — O ômega perguntou, voz hesitante como se considerasse o que ia falar. Levi soube que lá vinha algum pedido. Ele parou em outro sinal e olhou para a rua em que normalmente dobrava para chegarem ao prédio onde moravam.
—Depende, por que?
“Hmmm” — O garoto parecia considerar e Levi só revirou os olhos, esperando ele criar coragem para pedir o que quer que fosse. - “Eu sei que você já deve estar vindo para casa mas eu quero muito tacos agora. Com muita pimenta.”
Levi franziu as sobrancelhas, seguiu o comando do sinal e pôs o carro para andar.
—Eren, você odeia pimenta. — Era verdade. O garoto sempre reclamava do gosto ardente na boca dizendo alguma coisa sobre ter a mucosa bucal sensível. Levi realmente duvidava disso, contando o que eles já fizeram com aquela maldita boca.
“Mas o bebê quer! E ele vai nascer com cara de mexicano se eu não comer tacos.” — Eren disse e o alfa pôde imaginar ele dando de ombros. Levi considerou a frase e dobrou o carro na rua do prédio deles.
—Se ele nascer com cara de mexicano os tacos não serão os culpados.”
A risada juvenil que soou pelo carro foi o que precisou para Levi não parar na frente da garagem e passar direito, o prédio dele e o lugar em que ele chamava de lar ficando para trás enquanto mentalmente mapeava o lugar mais próximo para comprar tacos.
“Tacos e milkshake de baunilha, alfa.”
Certo. Taco Bell e Mc Donald’s.
—---L&E----
Foi o mais velho entrar no apartamento e um moreno de cabelos bagunçados e barriga amostra veio arrancar as sacolas que trazia na mão.
—Oh, puta merda, esse garoto está me matando! — Foi a primeira coisa que Eren disse, dando um selinho rápido no alfa, que o olhava assustado, e enviando o canudo do milkshake grande na boca.
Um gemido deleitoso saiu da boca dele e ele sugou tão forte que Levi até teve a indecência de ter inveja do maldito canudo.
Junto com baunilha, o ômega enfiou quase metade do taco na boca, olhos inocentes enquanto comia de forma deselegante e monstruosa e Levi franziu a boca com a bagunça que ele fazia.
—O quê? — Foi o que ele tentou dizer, mas saiu mais como um murmúrio. As bochechas estavam cheias e havia migalhas ao redor da boca junto com o canudo enfiado nela.
Levi deu um suspiro e deixou o ômega ser o animal que quisesse ser, colocando o restante da comida na mesa e começando a tirar a gravata. Eren, que já tinha acabado com metade do taco que tinha na mão, espiou dentro da sacola e murmurou de alívio quando tinha pelo menos mais 4 lá dentro.
—Dois é meu e o resto é seu. — Levi já foi logo dizendo e Eren brilhou com a ideia de ainda ter duas daquelas belezinhas prontas para mandar para dentro, murmurando de boca cheia para si mesmo e para a barriga amostra numa língua que o alfa nem fez questão de responder.
Ele deixou o ômega que acariciava a barriga e enchia a boca de comida para trás e se jogou em um banho quente, que amoleceu suas costas, braços e pescoço. Era uma sexta feira e só a ideia de passar o final de semana em casa, sem ter que aturar o Sobrancelhas enchendo o saco, já era uma vitória. O alfa também precisava de tempo para planejar as férias do próximo mês e decidir para onde eles iriam, assim como alugar onde ficariam e tudo mais.
Mas no momento, sua barriga roncava de fome e ele voltou para sala com uma camisa tank top preta e calça de moletom, encontrando Eren com seu terceiro taco na mão e menos da metade do milkshake sobrando.
Ele realmente queria saber para onde aquilo tudo ia quando sabia que o ômega tem tido problemas de prisão de ventre desde o início da gravidez.
Eren estava tirando seu taco da sacola assim que o alfa apareceu na sala, dando um sorriso inocente quando mais velho pegou a embalagem e viu seus dois tacos lá dentro. Dando-lhe O Olhar, Levi tirou o alimento do alcance de Eren, que o olhou ultrajado como se a hipótese de comer tudo sozinho fosse absurda.
Levi sabia que não era. Era apenas precaução.
Engolindo uma porção considerável de comida, Eren fez um barulho com a garganta para chamar a atenção do alfa e tomou um gole do milkshake para fazer tudo descer mais rápido.
—Hm, eu estive pensando, — Ele começou apoiando-se de costas na bancada quando viu Levi frescamente colocar os tacos em um prato e pegar talheres. Eren revirou os olhos e ajustou o elástico da calça de gravidez - horrível, nojenta, escória da humanidade a maldita calça de gravidez – ao redor da barriga e limpava os restos de comida que havia ficado no top que usava.
—Você pensando? — Levi mandou-lhe um sorriso desgraçado por cima do ombro enquanto trazia o prato de comida até a bancada e sentava-se nela.
Eren não iria admitir que observou os tacos tão lindos e fofos o caminho inteiro, mesmo que tivesse com zero fome. Aquele olho gordo ainda iria lhe dar problemas...
Decidindo tirar a cabeça da fome inexistente e realmente engajar em um assunto importante, ele sentou com certa dificuldade em uma das banquetas, de frente para Levi, e ignorou a provocação do alfa.
—Eu estava pensando, — começou e lhe lançou um olhar que, na cabeça de Levi, seria daqueles que o ômega daria quando o filhote fizesse algo errado. — Que deveríamos começar a pensar em nomes. — O garoto franziu as sobrancelhas para o tanto de vezes que usou o verbo pensar e corou levemente quando Levi riu debochado.
—Se você fala isso, é porque já pensou em um. — O alfa acusou.
—Claro que não! — As orelhas de Eren ficaram vermelhas e Levi o olhou como quem diz “você tem a cara de pau de tentar mentir?”. O ômega fez bico. — Okay... digamos que eu já pensei em... um nome.
—Só um? — Uma sobrancelha elegantemente arqueada e Eren jogou o rosto para trás.
—’táa!!! Alguns. Só alguns! — Ele olhou com determinação para o mais velho, sobrancelhas franzidas como sempre e começando a se defender. — Eu fico nessa casa o dia inteiro, o que você quer que eu faça??
Levi revirou os olhos e terminou um dos tacos que tinha no prato, nem uma mísera migalha em seus lábios ou no balcão. Às vezes, Eren invejava como ele conseguia fazer aquilo.
—Você não acha injustiça quando eu não tenho nenhum nome em mente, Eren?
—Ah, Levi, mas você pensa rápido! — O garoto apontou e fez olhinhos de cachorrinho. Levi grunhiu sabendo que não tinha como bater de frente contra aquele golpe baixo. — Além do mais, não precisamos decidir nada agora. Vamos só jogar sugestões no ar.
—Certo... — O alfa soou acusador e Eren o olhou ultrajado.
—É verdade! — Estendendo o dedinho mindinho como uma criança, Eren sabia que Levi não deixaria passar um desafio. — Promessa de mindinho que qualquer um pode vetar o nome que o outro escolher.
E, bem, Levi não podia negar que a cena era no mínimo fofa e Eren todo animado para testar nomes era algo que ele não podia dizer não. Além do mais, tinha um lado dele que tinha curiosidade em saber os nomes que seu ômega havia pensado. Desde que não fosse algo absurdo, Levi sabia que facilmente concordaria com o que o moreno queria.
Juntando os dedos mindinhos, ambos se olharam com cumplicidade.
—Ok, você começa, já que teve a tarde inteira para planejar essa armadilha. — Levi estendeu a mão como quem diz “vá em frente” e o garoto ignorou o comentário totalmente, dando-lhe um sorriso radiante.
—Certo! — Arrumando-se na cadeira e deixando a coluna reta, Eren colocou uma feição tão séria que chegava a ser cômica. — O que você acha de Oliver?
—Parece nome de cachorro. — Levi respondeu sem perder um segundo, vendo o ultraje tomar conta do rosto bonito de seu ômega. Ele não deu tempo para uma queixa e disse a primeira coisa que veio na cabeça. — Connor.
Eren o olhou com um olhar ardente e pareceu querer levar aquela batalha de nomes muito a sério. Levi manteve um rosto neutro, mas no fundo estava achando a situação cômica.
—Ele não é um soldado de esparta!! — Então parecendo pensar algo, o garoto deu um risinho fofo. — Angel? Por que ele é um anjinho!
Ignorando a imagem de Eren acariciando a barriga, Levi logo retrucou.
—Que porra? — E acrescentou. – Sawyer. – Eren o olhou com uma expressão desgostosa e Levi logo colocou uma no rosto também. – Ugh, não. Isso parece um nome que a Hanji daria para uma das crias dela. Vetado.
Eren riu.
—Hmm... talvez Ruan?
Levi o dá um olhar.
—Continue com essa sua obsessão pelo México e eu vou achar que tem alguma coisa errada.
Eren ri ainda mais alto e um sorrisinho se forma nos lábios finos do alfa, gostando de ver que pelo menos o garoto estava se divertindo.
Mas então tudo logo virou uma bagunça, ambos jogando nomes que nem ao menos pensaram por mais de um segundo e vendo no que dava, se o som de algum soava bom.
—Zane? — Eren tentou, mas nem ele pareceu convicto.
—Leon. — Levi sobrepôs.
—Parece leão. E Milo?
—Não é o Egito!
Eren pareceu concordar silenciosamente.
—Mas e nome composto?
—Nenhum de nós tem nome composto. A criança vai se sentir estranha. — Levi apontou e Eren pôs uma expressão solene, satisfeito com o quanto o alfa se importava com o bem estar do bebê.
—Tem razão.
Eles ficaram em silêncio pelos próximos segundos, nenhum nome vindo automaticamente na cabeça de nenhum. Talvez realmente não fosse a hora de descobrir o nome do filhote deles, mas Eren parecia firme no pensamento e Levi quase viu a maquinaria da mente dele se forçando a pensar em algo.
—Vá com calma antes que você queime mais alguns neurônios. — O alfa provocou, levantando-se e indo até a pia lavar a louça suja.
Eren nem se importou com a movimentação, muito focado em tentar algum nome que ele sentisse que fosse certo. Algum nome que poderia ser forte e sensível, ao mesmo tempo. Que tivesse um significado tão grande quanto a chegada do bebê tinha na vida deles. Ele não queria deixar para escolher o nome depois e sofrer a pressão do tempo e de todos os outros que com certeza iam querer opinar e, sinceram-
—Abba.
O nome saiu da boca do ômega sem ele nem perceber. O próprio Eren ouviu o som ressoar em sua mente, um pouco incomum, mas talvez...
Abba?
Levi terminou de enxaguar as louças e parecia pensar em alguma coisa.
—Daquele musical que você adora? Dancing Queen?
—Não, na verdad – E então o nome fez sentido e Eren descobriu porque parecia tão familiar. Uma risada explodiu alta em sua garganta e Levi lhe deu um olhar divertido enquanto seguia para o sofá e se sentava lá, Eren logo indo atrás.
—Meu Deus!! É verdade!! — Eren se sentou parecendo ao mesmo tempo assustado e admirado com a conexão que o alfa fez.
—Eren, o nosso filho vai ter pais gays e um nome gay.
Mais risadas e o garoto simplesmente deitou no sofá, pernas no colo do alfa enquanto Levi pegava um livro que estava na mesa de centro e se deleitava com o clima doméstico que se pôs sobre eles.
—Nã-hahaha é só que...
Levi revirou os olhos em brincadeira, mantendo um meio sorriso enquanto o dava permissão para falar qualquer merda que lhe viesse à cabeça.
—Diz logo.
—Hm... É que... — Eren pensou, olhando para o teto, barriga exposta e o alfa segurando um de seus tornozelos só por instinto enquanto a outra mão mudava as páginas do livro. — Abba soa forte? A gente pode chamá-lo de Abby quando ele for um bom garoto e podemos chamar de Abba Ackerman quando estiver fazendo bagunça...?
Levi parou para pensar na observação e deu um “hm” que para Eren não era o suficiente.
—O que acha? — Ele chutou o alfa levemente, chamando a atenção.
O mais velho o olhou e pareceu considerar a escolha enquanto focava nos olhos verdes esperançosos.
—Levi, Eren, Abba. Isso é uma conspiração de nomes com quatro letras?
Eren deu outra risadinha e depois pôs uma expressão meio séria, meio indecisa.
—Mas você gostou? A gente pode pensar em outros se caso...
Levi deu um aceno como se já tivesse se decidido, e voltou a atenção para o livro que tinha no colo, apoiado nas pernas grossas do ômega.
—Gosto de Abby. — Ele disse, falando num tom que, caso alguém não prestasse atenção, poderia passar como desinteressado. Mas Eren o conhecia bem melhor que isso e ficou surpreso quando a voz grossa e monótona soou novamente. — Abba Jaegar-Ackerman.
Mais um aceno de cabeça, como se o alfa gostasse do tom, e Eren sorri gentilmente abaixando o olhar e acariciando a barriga.
—Viu, Abby? O papa só tem essa postura rígida do lado de fora. Dentro ele é um algodão doce.
O ômega riu com o olhar franzido do alfa e mordeu os lábios quando ele abaixou levemente para falar mais próximo da barriga.
—Não ouça o seu mama, Abba. O seu nome é muito masculino.
No exato segundo que o homem deixou de falar, Eren soltou uma arfada assustada, praticamente pulando no sofá. Levi levanta os olhos confusos e preocupado para ele e o vê segurando a barriga assustado.
—Eren? — Levi pergunta, o conforto desaparecendo enquanto o rosto dele ficava preenchido por preocupação.
Eren tinha os olhos do tamanho de um prato, lágrimas começando a se formar e Levi já está em estado de alerta, preparando para levar o ômega ao hospital o mais rápido possível. Ele inclusive jogou o livro na mesa de centro novamente, indo se aproximar do ômega quando ouviu a voz frágil do moreno dizer baixinho, num sussurro.
—Acho que o Abby-Ugh! — Mais um torcer tomou o corpo dele, como se alguém o tivesse dado um beliscão. Levi franze as sobrancelhas e segura a perna do ômega, que já estava aproximando-as de seu corpo.
—Eren, ômega? O que foi isso? Precisamos ir ao h-
A voz apressada e cheia de aflição começou apenas para ser calado por um “shhhh” do mais novo, que o olhava com olhos gigantes, lágrimas agora escorrendo pelas bochechas enquanto um sorriso envergonhado tomava o rosto dele.
Levi não sabia o que pensar com todos os sinais contraditórios que recebia.
Ele ficou hesitante, sobrancelhas finas atadas, quando Eren pegou uma de sua mão e colocou sobre um lado da barriga.
—Abby? — O ômega perguntou e quase como uma resposta, Levi sentiu um movimento abaixo de sua mão.
Os olhos dele arregalaram instantaneamente e voaram ao encontro das orbes verdes que o olhavam com fascinação. Levi estava boquiaberto, querendo uma prova de que o que ele tinha sentido era real e não uma imaginação.
—Acho que o Abby gostou do nome, né Abba?
Como se reconhecesse que os pais estavam chamando-o, Levi sentiu dois movimentos bem abaixo de sua mão, como dois chutes fracos.
—Puta merda... — Ele respirou pesado, olhando perplexo para a barriga. Eren riu e começou a movimentar a mão dele do redor e prestando bastante atenção, Levi conseguia ver pequenas movimentações na barriga. — Puta merda, Eren!
—Shhh, eu acho que ele pode nos ouvir!! Não quero que a primeira palavra dele seja um xingamento! — Eren revirou os olhos, mas tinha um sorriso enorme adornando os lábios. — Você consegue nos ouvir, né, Abby?
E novamente o bebê chutou, respondendo a voz de Eren. Levi ainda parecia abismado, como se estivesse prestes a correr para as colinas ou chamar um padre. Eren percebeu que, além dos ultrassons, o alfa não tinha muita prova de que dentro dele tinha um bebê — bem, exceto o crescimento extraordinário da barriga.
Enquanto Eren sentia o peso, os enjoos, os desejos, as dores, e conseguia sentir que sim, algo estava lá dentro, Levi era deixado como um simples expectador e no momento o ômega só quis que ele se sentisse parte do processo.
—Tenta chamar por ele. — Incentivou, num sussurro como se estivesse numa reunião sagrada. O que provavelmente era.
O moreno recebeu um olhar inseguro e o viu engoliu em seco antes de se aproximar da barriga e perguntar.
—Abba? — Ambos esperaram três segundos em paz, antes de Levi tentar de novo.
Sem resposta, o alfa olhou para Eren como se perguntasse se tinha feito algo errado.
—Tente novamente, chame pelo apelido.
—Abby? — Levi chamou novamente, um pouco mais alto, mas diferente de quanto Eren chamava, não havia resposta nenhuma e agora a barriga parecia quieta, como se o bebê tivesse se escondido. — Abby?
Sem nenhum sinal de volta, Levi se afastou lentamente, lábios franzidos enquanto ele observava a barriga em esperança de que talvez o filhote fosse um pouco lento...?
Não, ele sabia que não. Abba tinha respondido a Eren quase que automaticamente mas se recusava a dizer “oi” para ele.
Eren viu a expressão de Levi mudar para uma desapontada consigo mesmo e ele quis consolar o alfa porque queria que ele sentisse o bebê o reconhecendo.
—Ei... — Eren o chamou, um meio sorriso e os olhos um pouco tristes. — Talvez ele tenha ido dormir? Abby? Abby? — Eren chamou pela barriga mas nada aconteceu.
—Não, eu acho que ele só não gosta de mim.
E Levi se sentou reto, retirando a mão da barriga e pegando o livro novamente para tentar esconder a sensação amarga que se apossou de seu corpo.
—Ei!! — Eren o chamou como se não acreditasse naquilo, sentando-se da melhor forma possível mantendo as pernas sobre o colo do mais velho. O ômega pôs uma mão em seu ombro e o deu um aperto. — É claro que não, Levi! Não seja bobo!
—Você mesmo viu que ele não responde a mim. — Levi devolveu, olhos no livro mas Eren sabia que ele nem se quer prestou atenção que as letras estavam de cabeça para baixo. Eren bufou.
—Ele pode só ter achado a sua voz estranha! — Levi soou ainda mais magoado e Eren quis dar um soco em si mesmo. Ele buscou suavizar a voz antes de continuar. — Levi, ele está dentro de mim. Ele conhece os meus batimentos cardíacos e a minha voz. Eu converso besteiras com ele o dia inteiro há meses. É óbvio que ele consegue sentir as vibrações de quando falo com ele e já reconhece a minha voz.
Levi o deu uma olhada de canto de olho e franziu as sobrancelhas quando voltou o olhar para as páginas e as viu invertidas. Eren mordeu os lábios para não rir quando o viu bufar e virar o livro da forma correta.
—Hmm, talvez você devesse falar com ele...?
—Ele não quer falar comigo. — Agora Levi estava soando como uma criança pirracenta e Eren teve que morder a língua para não fazer o comentário.
—Não, mas se você o acostumar com a sua voz, ele pode começar a responder. — O olhou com esperança, olhos verdes pedindo para que o alfa se esforçasse. Levi o olhou desconfiado como se não conseguisse resistir ao pedido do outro mas ainda tivesse um pé atrás.
Eren deu o último empurrão, silenciosamente rogando para que a ideia desse certo.
—Não precisa exatamente falar com ele. Mas talvez você possa ler esse livro chato para a gente? — Deu um meio sorriso, tentando provocar o outro e fazê-lo sair daquela caixinha reclusa onde tinha se enfiado junto com auto piedade. — Por favor, alfa?
Foi preciso um pouco mais de olhos grandes e verdes em formato de cachorrinho, uma voz mais baixa e sedutora e Eren apelando para seu ômega interior para fazer o alfa bufar e começar a ler em voz alta.
Para falar a verdade, o moreno não fazia nem ideia do que estava sendo lido, mas depois de alguns minutos, Eren pegou uma das mãos de Levi lentamente e a colocou sobre sua barriga, dando um hi-five mental com o ômega interior quando ele não fez questão de retirá-la.
Aos poucos a sala foi preenchida com o aroma de ambos, misturado com a sensação calorosa e aconchegante de um lar. Se prestasse bem atenção, podia-se perceber um gosto agridoce no ar, mas a cada página que o alfa lia, o desapontamento ia sendo substituído por esperança.
Eren sabia que provavelmente Levi tinha mais a atenção na movimentação — ou falta dela – em sua barriga do que no livro em si e resolveu pegar o celular e trocar mensagens com os amigos, como se desse privacidade para o alfa e o bebê passarem um tempo juntos.
Ele não soube quando tempo depois, mas em algum momento da noite, a sensação de uma borboleta batendo forte em seu interior se fez presente e Eren soube que era real quando aconteceu novamente, dessa vez mais forte, e Levi parou de ler abruptamente.
Ele olhou da barriga para Eren e depois para a barriga novamente. Outro chute foi sentido, novamente abaixo da mão do alfa.
Eren sorriu com as sobrancelhas arqueadas daquela forma convencida como se soubesse o segredo do porão secreto dos pais.
—Eu disse, hun? — Outro chute e diante da falta de reação do mais velho, Eren achou que Abby o havia quebrado. — Acho que ele quer que você continue lendo. — Eren estimulou mas só houve silêncio.
O ômega decide não comentar e deixar o alfa organizar os próprios pensamentos, mas então algo aparece na tela de seu telefone e ele olha com curiosidade o significado do nome que escolheram.
—Abba pode significar Deus. Eren é santo. E Levi é o jeans. — Eren ri olhando para o site de nomes no celular. — Você quebrou a nossa tradição de nomes sagrados, alfa.
Levi ainda tinha uma luz nos olhos como se tivesse vivido a vida inteira para aquele simples momento. Ele ignorou completamente o comentário, acariciando o lugar onde recebera o chute com os dedos e voltando a ler.
Eren espiou por de trás da tela do celular, quase como se tivesse medo de perturbar o momento dos dois.
O alfa parecia brilhar contra a luz baixa do ambiente, um sorriso nos lábios e a voz mansa lendo as palavras com tamanho contentamento que era difícil acreditar que aquele era um livro de guerras antigas e sangue e mortes causadas por titãs.
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