Nightmares

17 Capítulo 17 - Time


Notas iniciais
OIZINHO! Peço mil perdões pelo atraso. Eu ia postar ontem, mas fiquei super cansada depois do meu estudo e acabei dormindo. Mas cá estou eu! Boa leitura. Espero que gostem.

Fevereiro

O amor está no ar.

Esta é a frase que há nos corredores da escola atualmente. O Dia dos Namorados está aí. Meu último Dia dos Namorados foi passado com Greta. Agora estou com Katniss, mas ela não é de fato a minha namorada. Quem dera fosse tão simples assim…. Passeio pelo corredor vendo corações rosas e vermelhos grudados nos armários e paredes. Passo por casais de mãos dadas e rindo. Apresso meu passo, pois já estava atrasado.

Não posso fazer nada de especial no Dia dos Namorados para Katniss, pois ela notaria o que sinto por ela. Namoro é um compromisso sério. E o que tenho com Katniss não é um compromisso sério, apesar de parecer com um. Já estou a tempo demais com Katniss e tenho medo que ela note que estamos levando isto longe demais. Os outros passatempos dela não duraram nem três meses. Nós já estamos quase passando disto. Mas lembrei de algo que aconteceu no Natal. Quando ela me deu o álbum de fotografias. Ela disse algo que eu não havia me dado conta na hora: “E quando não nos vermos mais, após a formatura, você poderá descontar a sua raiva nas fotos ao invés de tentar socar a minha cara.”

Após a formatura…. Não foi apenas uma vez que ela mencionou a formatura como nosso limite de tempo, mas eu nunca havia parado para notar isto até chegar o Dia dos Namorados. Isto é quase como uma promessa. Ficaremos juntos até a formatura. Temos mais quatro meses juntos. Pouco tempo para alguém que quer mais. Alguém como eu….

Após três períodos de tortura com as matérias mais chatas do mundo, caminhei para o refeitório. Annie e Finnick estavam aos beijos na mesa enquanto Katniss mastigava um sanduíche.

— Vocês poderiam ser mais discretos, por favor? – Katniss pergunta quando me sento.

— Feliz Dia dos Namorados para vocês. – afirmo para eles que decidiram se desgrudar.

— Obrigado, Peeta. – responde Finnick.

— Oi, Peeta. – algumas garotas passam e me cumprimentam.

— Oi. – respondo.

— Mas veja quem é popular agora. – afirma Finnick – Quem diria que Peeta seria um dançarino de sucesso?

Pois é. Depois do show de talentos não há alguém que não me conheça na escola. Já cansei de passar pelos corredores e devolver cumprimentos.

— Quer um autógrafo? Não... Você quer a minha fama. – eu brinco rindo, fazendo Katniss e Annie rirem junto.

— Vá para o inferno. – Finnick responde também rindo.

Depois do intervalo acompanho Katniss até a sala dela. Ela me dá um longo beijo de despedida.

— Feliz Dia dos Namorados Barra Passatempos. – ela diz.

Eu rio e a puxo beijando seu pescoço.

— Igualmente. – afirmo.

Ela sorri e entra na sala. Eu vou para minha aula entediante de História. No próximo período eu tenho Educação Física. Passo no meu armário para deixar meu material. Abro a porta e encontro um papel vermelho em formato de coração.

Me encontre atrás do prédio A quando acabar as aulas.
Feliz Dia dos Namorados.

Ah, Katniss! O que você está aprontando agora? Sorrio para o bilhete e o guardo no caderno antes de fechar o armário e seguir para a aula de Educação Física.

Após as aulas, caminho pelo pátio até chegar atrás do prédio A e aguardo ansiosamente. Vejo várias pessoas passarem, mas nenhuma delas é a Katniss. Logo o pátio está vazio e nada da Katniss aparecer. Já ia sair, mas Lili aparece caminhando em minha direção.

— Oi, Peeta. – ela diz com um sorriso.

Talvez eu possa ficar aqui conversando com Lili até Katniss chegar.

— Oi. – digo.

— Eu precisava falar contigo. Que bom que está aqui.

— Tudo bem.

— Bem, você já deve ter notado que eu tenho algum interesse em você. Já faz algum tempo...

— Lili... – eu a interrompi, mas ela não me deixou continuar.

— Eu só queria saber se eu poderia ter alguma esperança com você. Alguma chance... Apenas uma... – ela fala enrolando uma mecha do cabelo ruivo entre os dedos.

— Lili, eu estou com a Katniss. – tento explicar.

— Eu sei, mas e... E depois? Depois da Katniss? Você já deve ter ouvido falar que a Katniss nunca fica muito tempo com um garoto.

— Não, Lili. Agora estou com ela e...

— Apenas me dê uma chance.

— Eu não posso...

Ela não me deixa terminar a frase e pula sobre mim, me beijando. A empurro com certa força a fazendo cambalear.

— Eu estou apaixonada por você, Peeta. – ela revela.

— Eu não sinto o mesmo por você! Me deixe em paz. – falo irritado e me viro caminhando para longe dali.

Ando rapidamente para o meu dormitório e entro no quarto, batendo a porta.

— O que foi? – pergunta Katniss que estava sentada na cama lendo um livro.

— Por que não apareceu lá? – pergunto irritado.

— Como assim? – ela devolve a pergunta confusa.

Abro a mochila e pego o bilhete no meu caderno e estendo para ela.

— Você deixou isto no meu armário! – afirmo.

Ela pega o bilhete e lê. Logo após ergue as sobrancelhas e olha para mim.

— Esta letra não é minha. Não fui eu que deixei este bilhete no seu armário. – ela afirma.

Abro a boca surpreso.

— Então quem foi... – parei a pergunta que ia fazer pois lembrei da voz de Lili: “Que bom que está aqui.” — Lili...

— Lili? A garota ruiva? Você acha que foi ela? – pergunta Katniss.

— Ela me beijou. – sussurro.

— Ela beijou você? – Katniss pergunta surpresa e se põe de pé. Ela parece estar irritada – O que ela disse?

— Ela disse que está apaixonada por mim. Eu falei que estava com você então ela me beijou.

— Cadela! – Katniss fala, larga o bilhete e sai correndo porta afora.

Corro atrás dela. Lili já estava próxima ao prédio C quando Katniss a aborda.

— Katniss? – Lili fala surpresa.

Katniss a empurra contra a parede e a prende ali com o braço.

— Na próxima vez que chegar perto do Peeta eu arranco seus olhos e como no meu jantar. Será que eu fui clara o bastante? – a garota assentiu com a cabeça, assustada – Ótimo!

Katniss a solta e voltamos para o quarto em silêncio.

— O que foi isso? – pergunto quando fecho a porta.

— Estava ajudando você a se livrar dela. – Katniss afirma rasgando o bilhete e jogando no lixo.

Não. Não foi apenas isto. Isto foi uma atitude de quem explodiu de ciúmes. Mas não falaria nada. Não com Katniss irritada.

Será possível? Será isto mesmo? Ela ficou com ciúmes. Não é possível. Ela não reagiu desta forma quando viu Greta abraçada a mim em Atlantic Beach. Tenho certeza que se me visse beijando Greta naquele dia também não se importaria. Então…. O que explica esta explosão – com certeza foi mais que uma simples crise – de ciúmes?

Isto é novidade para mim. Katniss não sente ciúmes quando as garotas me cumprimentam nos corredores. Mas um cumprimento é diferente de um beijo. E Lili me beijou. Tentei não dar importância para isto, já que eu também explodiria de raiva no lugar dela.

Março

— Acorda! – Katniss grita e começa a pular encima de mim.

— Ok. Já acordei. – falo sentando e esfregando os olhos.

— Sabe que dia é hoje? – ela pergunta sentada nas minhas pernas.

— Meu aniversário?

— Exato! – ela fala animada – Feliz 18 anos! – ela me abraça.

— Obrigado.

18 anos…. Como isto foi acontecer? Juro por Deus que até ontem eu era uma criança com medo do escuro e de dormir com a porta do quarto fechada.

— Como é ter dezoito anos? – pergunta Katniss quando já estávamos a caminho das salas de aula.

— Eu não sei. Parece ser a mesma coisa para mim. – respondo.

— Este mês é o melhor mês do ano. Tem seu aniversário, começo da primavera, baile no final do mês.

— Vai se candidatar a rainha? – pergunto.

— Eca! Óbvio que não. Deixarei as patricinhas duelarem por isto. – ela sorri maleficamente.

No fim do mês temos o baile de primavera. O evento mais importante das meninas. Nós seremos liberados da escola dois dias antes para providenciar a roupa. Roupa no caso dos meninos. No caso das meninas é roupa, maquiagem, sapato, unhas, cabelo... Para que tanta coisa se só irá durar uma noite? Bem, não posso fazer esta pergunta em voz alta, senão serei morto pelas devidas damas.

O dia se passa normal como sempre. Aulas, aulas, aulas…. Ainda bem que este é o último ano. Acordo no meio da noite e me deparo com Katniss acordada com a janela aberta e sentada nela.

— O que houve? – pergunto chamando sua atenção.

— Tive um pesadelo. – ela sussurra.

— Tomou seu remédio?

— Acabou.

— Fecha a janela e vem cá. – falo e ela obedece. Katniss se aconchega em mim procurando algum consolo – Tudo bem. Era apenas um sonho. Amanhã vamos falar com Frank e dizer que o remédio acabou.

Falamos com Frank e ele disse que ia providenciar o remédio. Ele falou que entregaria a ela no dia que ela fosse para casa, dois dias antes do baile. Por sorte, Katniss não teve nenhuma crise até lá. Apenas alguns pesadelos.

— Até o baile. – me despeço de Katniss quando Frank chega para buscá-la.

— Até. – ela fala e me beija.

Tio Phil chega um pouco depois e parece mais animado do que eu.

— Eu vi uma loja com um smoking bem interessante. – ele comenta durante o percurso.

Comprei um terno na loja que tio Phil havia visto. Falei com a Katniss pelo celular e Facebook. Ele não quis me mostrar o vestido. Disse que seria uma surpresa.

Os dois dias passaram voando. Foi bom ter uma folga da escola e passar um tempo com tio Phil. Mas foi horrível ficar sem a Katniss. Como farei quando tudo entre nós acabar?

Voltamos para a escola de noite. Vi várias garotas desfilando com seus vestidos longos e bonitos, acompanhadas de seus parceiros vestidos de pinguim. Quem eu queria enganar? Eu sou um deles agora!

Finalmente avisei Katniss. Abri a boca e quase cheguei a babar. Ela estava linda! Seu vestido era longo de cor azul-escuro. Escuro como o céu que havia acima de nossas cabeças. Havia detalhes floridos no busto que iam até a cintura. Acima do busto era um tecido transparente. Em volta haviam alguns detalhes iguais ao do busto que davam a impressão que ela usava um colar. A saia possuía o tecido transparente, mas havia mais camadas abaixo dela.

Seu cabelo estava solto e caía com grandes cachos nas pontas. Ela se aproxima de mim e me beija.

— Você está incrível! – sussurro no ouvido dela.

— Você também está. – ela responde e me estende uma caixinha com uma flor da mesma cor do vestido – Achei que gostaria de ter a honra deste momento.

Rio e pego a caixa, abrindo, tirando a flor e colocando em volta do pulso de Katniss.

— Vamos entrar. – falo pegando sua mão.

Entramos na festa ouvindo a música animada e vendo gente dançando. Encontramos Annie e Finnick sentados em uma das mesas tomando ponche. Sentamos com eles.

— Queria que tivesse bebida. – Finnick reclama.

— E o que é isto que tem dentro do seu copo? – pergunta Katniss ironicamente.

— Isto…. – ele balança o copo de leve -... Não tem álcool.

— Tinha que ser Finnick, O Alcoólatra. – brinca Katniss.

— Katniss, seu vestido é lindo! – Annie fala – Onde comprou?

— Foi em uma loja em Leesburg. Eu vou explicar melhor para você….

Katniss se aproxima mais de Annie e as duas começam a falar.

— Trouxe preservativos para depois da festa? – sorri Finnick.

— Será que é só nisto que você pensa? – pergunto.

— Peeta, meu bom garoto, homens vivem de sexo e mulheres….

—…. Vivem de amor. – termino a frase revirando os olhos – Você já me disse esta frase um milhão de vezes.

— E você continua não concordando com ela. – observa Finnick. – Você é um parceiro muito fofo, sabia? Pena que não sei ser assim.

— É diferente. Não é uma questão de saber, é uma questão de querer. E você não quer.

— É, acho que você está certo. Mas dane-se. Agrade as meninas e serás recompensado.

— Mas um dia elas cansarão de você quando notarem que você só tem um único objetivo com elas.

— Basta partir para a próxima!

— Até mesmo com Annie? – eu sei o quanto Finnick gostava de Annie. Para ganhar uma discussão dele basta colocar Annie no meio.

— Com Annie é diferente. – ele fala olhando para a garota de cabelos castanhos e olhos verdes. Annie devolve o olhar e sorri antes de voltar a falar com Katniss – Ela é única.

Uma música calma e lenta começa a tocar. Finnick se levanta, sussurrando algo no ouvido de Annie que ri e vai com ele. Pego a mão de Katniss que estava sobre a mesa e recebo um sorriso.

— Quer dançar? – pergunto.

— Quero.

Vamos até o meio das pessoas que já estão dançando. Katniss coloca os braços em volta do meu pescoço e eu coloco minhas mãos em sua cintura. Nos movemos para lá e para cá devagar, sem desviar os olhos um do outro.

Katniss sorri e se aproxima, apoiando a cabeça no meu ombro. Eu a abraço e cheiro seus cabelos, sentindo algo como rosas desabrochando em plena primavera. Mas logo a música acaba e saímos da pista de dança. Voltamos a sentar na mesma mesa e logo Annie e Finnick voltam também.

— Ei, pessoal! – uma garota de vestido rosa aparece – Vamos votar para o rei e rainha do baile?

E logo temos um pequeno papel à nossa frente junto com uma caneta. Marco qualquer nome e coloco dentro da urna que a garota segura.

— Está aí! – fala Finnick que colocou seu papel por último. A garota sorri e pega as canetas de volta

— Valeu, pessoal. Tenham um bom baile.

No final uma garota chama Maddy e um garoto chamado Zane foram a rainha e o rei do baile. Meia-noite o baile foi encerrado. Sempre é encerrado a meia-noite. Não entendo o motivo. Será que é para se parecer com os contos de fadas em que tudo termina sempre meia-noite?

Nos corredores do prédio haviam inspetores.

— O que eles fazem aqui? – pergunto para Katniss.

— Eles ficam de olho para ver se nenhum garoto vai para o quarto de uma garota ou vice e versa. Eles juram que conseguem controlar os hormônios juvenis. – ri Katniss.

Íamos entrar no quarto juntos, mas somos parados por um inspetor.

— Ei, vocês! Cada um no seu quarto. – ele avisa.

— Nós dividimos o mesmo quarto. – fala Katniss.

— Conta outra, garota. O diretor não permitiria um garoto e uma garota dividirem o mesmo quarto.

Katniss revira os olhos e entra no quarto, pegando a autorização de que ela era uma exceção.

— Viu só? Está comprovado. – afirma Katniss.

— Qualquer um pode falsificar uma autorização. – ele contrapõe.

— É sério isto? – pergunta Katniss irritada.

— Muito sério! – avisa o inspetor também irritado.

— Deus! Ok, eu não queria ter que te falar, mas você não me dá escolha. – Katniss se aproxima mais do homem e para perto dele – Eu nunca teria relações com este cara. Nem sequer beijaria ele.

— Ah, é? E por que não?

— Porque eu sou lésbica. – sorri Katniss.

— Você é….

— O quê? Tem preconceito? O Diretor Snow não gostaria nem um pouco de saber que contratou um cara preconceituoso para esse trabalho. Acho que terei que falar com ele para ter cuidado na próxima vez, não acha?

— Não! Aqui, pegue sua autorização de volta. Tenha uma boa noite. – ele estende a folha para Katniss e sai.

Nós entramos no quarto.

— Não acredito que fez isto. – falo.

— Ele que pediu. – ela fala tranquilamente tirando os sapatos e logo após se atira na cama – Cansei!

Eu sorri, tirei meus sapatos e subi por cima dela.

— Cansada? – perguntei.

Ela semicerrou os olhos e sorriu com os lábios cerrados.

— O que tem em mente? – ela pergunta.

— Tanta coisa que passaria a noite inteira te contando a lista.

— Parece interessante. – ela fala e sai de baixo de mim. Caminha até a porta e gira a chave – Mas eu prefiro que você me mostre em vez de falar.

Eu rio e corro até ela, a empurrando contra a parede e a beijando.

— Posso rasgar o vestido? – pergunto.

— É alugado. Tem um zíper atrás.

Eu tateio minhas mãos por suas costas até encontrar o minúsculo zíper e descer ele.

— Que zíper gigante! – brinco.

Ela ri e aproxima a boca do meu ouvido antes de começar a cantar.

— I swam across (Eu nadei)/I jumped across for you (Eu superei as barreiras por você)/Oh what a thing to do (Que coisa a se fazer)

Não lembrei quem cantava a música. Não lembrei de mais nada que não fosse beijar os lábios da garota incrível que eu prensava contra meu corpo na parede.

Maio

O aniversário de Katniss havia se passado há alguns dias. Na aula de Literatura cantamos “parabéns pra você” já que, para o azar de Katniss, Finnick estava lá para lembrar todo mundo que era aniversário de Katniss. Realmente, ninguém nunca vai saber como se comportar quando estão cantando “parabéns pra você”. O mesmo vale para Katniss. Ela ficou completamente sem jeito e apenas sorriu.

Acordei de manhã com o despertador enchendo meus ouvidos. Levantei e me espreguicei. Sacudi levemente Katniss.

— Está na hora. – falei.

— Estou morrendo de cólica. Avisa que eu não vou. – ela fala sem se mexer.

Eu me sentei na cama mais preocupado.

— Precisa de alguma coisa? – pergunto.

— Está tudo bem. Isto acontece às vezes. Só avise aos professores que eu não poderei ir.

Decidi não incomodar ela mais. Apenas me arrumei e fui para a aula. Cheguei na sala de Química e logo me aproximei do professor.

— A Katniss não pôde vir hoje. Está com cólica. – afirmo.

— Certo. Obrigado por avisar. – agradece o Sr. Johnson.

— Sem problemas. – falo antes de sentar.

No intervalo, Annie e Finnick estranham a falta de Katniss.

— E a Katniss? – pergunta Finnick.

— Ficou no quarto com cólica. – respondo mordendo o sanduíche.

— Cólica…. Que fraca. – diz Finnick.

— Diz isto porque não é com você. – ralha Annie. – Vou dizer a mesma coisa quando alguém acertar seus países baixos algum dia desses.

— Ui. – falo só de imaginar a dor.

— Ok. Vou ficar calado.

Mais aulas entediantes se seguiram após o intervalo, antes de finalmente sermos liberados. Chego ao quarto, pensando que encontraria Katniss na cama ainda, mas ouço um barulho vindo do banheiro.

Jogo a mochila na cama e corro para lá. Katniss está debruçada sobre o vaso vomitando.

— Katniss! – afirmo me ajoelhando atrás dela e segurando seus cabelos. Ela jogo as costas contra meu peito após colocar tudo para fora. – O que houve?

— Não sei. – ela pergunta cansada.

Me sento no chão, escorando as costas na parede e deixando Katniss sentada entre minhas pernas. Faço um amarro desengonçado com os cabelos compridos dela e noto que ela está pálida.

— O que você tem? Está pálida como um fantasma. Chega a estar transparente. – ela apenas geme em resposta – Está com dor?

— Minha barriga dói. – ela responde com dificuldade.

Coloco minha mão na testa dela e me espanto em como ela está quente.

— Você está queimando em febre. – afirmo o óbvio. Me estico para o lado e dou uma olhada dentro do vaso e tomo um susto – Seu vômito está com sangue! Há quanto tempo está vomitando?

— Não sei. Meia hora talvez.

— Eu vou chamar a enfermeira. – falo já a afastando, mas ela segura meus braços.

— Fica…. Por favor. – ela sussurra.

Eu me sento novamente atendendo seu pedido e penso em algo útil para fazer. Finalmente acho algo. Pego meu celular no bolso da calça e procuro rapidamente o número de Finnick na minha agenda.

— Alô. – ouço sua voz.

— Finnick! Diga para a enfermeira vir para o meu quarto. A Katniss está passando muito mal.

— O que ela tem? Uma crise?

— Não, ela está vomitando sangue, tem febre, está pálida…. Apenas chama logo a maldita enfermeira! – falo nervoso.

— Ok. Já estou indo. – ele desliga no momento que Katniss se debruça novamente no vaso para vomitar.

Seguro ela notando que não aguentava o peso do próprio corpo sozinha. Ela joga as costas contra mim novamente após vomitar.

— O que eu tenho? – ela choraminga como uma criança que tem medo do monstro que há dentro do armário.

— Você vai ficar bem. – digo passando minhas mãos em seus braços para tranquilizá-la.

— Eu acho…. Que... Vou desmaiar. – ela fala em meio a pausas.

— O quê?! – a viro de lado, segurando com um braço – Não. Não. Não. Olha para mim e não fecha os olhos.

— Estou cansada. – ela sussurra quase fechando os olhos.

— Katniss, não ouse fechar estes olhos! – mas ela os fecha para o meu desespero – Katniss! Abra os olhos! Abra os olhos agora, Katniss!

A sacudo tentando inutilmente acordá-la enquanto grito para ela abrir os olhos, mas paro quando ouço o barulho da porta do quarto sendo aberta. Uma velha enfermeira adentra o banheiro seguido de Finnick.

— O que ela têm? – pergunta ela.

— Não sei! – respondo nervoso.

A enfermeira olha para dentro do vaso.

— Ela vomitou sangue. – ela logo está abaixada a minha frente com a mão na testa de Katniss. Pega uma toalha de rosto e molha deixando na testa de Katniss. – Não tenho o que fazer com ela. O melhor é levar para o hospital já que ela vomitou sangue. Isto não costuma ser um bom sinal. – ela se vira para Finnick que aparenta estar nervoso também – Chame o diretor.

Ele logo sai correndo enquanto a enfermeira tenta acordar Katniss, mas de nada adianta.

As próximas cenas acontecem em câmera lenta. Eu coloco Katniss na minha cama ainda inconsciente. O diretor chega e a leva dali. Eu grito desesperadamente dizendo que queria ir junto, mas acabaram me deixando sozinho no quarto. A última coisa que vi foi Katniss sendo levada nos braços do diretor pelo corredor. Após isto, voltei para o quarto, deitei na cama e apaguei.

Acordei subitamente e sentei na cama com os olhos úmidos. Respirei profundamente inúmeras vezes até me acalmar e notar que estava no escuro. Troteei pelo quarto para acender a luz e meus olhos queimaram por terem se acostumado com a escuridão da vida real e o lugar pouco iluminado do meu pesadelo.

Voltei a sentar na cama e passei a mão pelo meu rosto. Eu estava acordado, mas o pesadelo continuava andando na minha frente. Posso sugerir que foi um dos priores desde a morte da minha família. Ele começa comigo me olhando em um espelho. Ele reflete a imagem de um garoto abatido com o rosto vermelho e inchado pelas lágrimas que ainda caiam como uma cascata. No pesadelo, eu usava um terno preto, muito semelhante ao que usei no baile de primavera. Eu segurava uma única rosa na mão. Não sabia o motivo de minhas lágrimas, do terno sombrio nem da linda e frágil rosa que segurava com minhas mãos.

O cenário muda bruscamente durante o sonho. Estou na porta de uma igreja e no fundo há um caixão destampado. Eu continuo da mesma forma que me vi no reflexo do espelho. Aproximo-me devagar do caixão e abro a boca em surpresa ao ver o corpo inerte e pálido de Katniss repousando na caixa de madeira grande. Minhas lágrimas aumentam e eu aperto a rosa em minhas mãos, machucando meus dedos com os espinhos afiados. Sou acordado com esta dor e olho para a rosa, e coloco em cima de Katniss. “Uma flor para outra flor.” Esta foi a frase que saiu dos meus lábios em seguida.

De repente sou levado por uma lembrança. Lembro de ter usado esta mesma frase quando Katniss e eu estávamos em Atlantic Beach. Lembro de ela abrir o diário dela e guardar a rosa com carinho dentro do pequeno caderno.

O pesadelo passa na frente dos meus olhos inúmeras vezes até eu realmente acordar e olhar para a cama de Katniss alarmado.

Ela não está lá. Ela passou mal. Ela estava vomitando sangue, estava com febre, estava doente. Ela está no hospital.

Ela está viva?

Um arrepio percorre minha espinha e calço os tênis rapidamente antes de sair correndo pelo corredor em busca da minha resposta. Atravesso o pátio escuro da escola e tento abrir a porta do prédio A, mas ela está trancada. Eu chuto a porta frustrado e me deixo cair no chão enquanto as lágrimas rolam pelo meu rosto.

Não tenho noção de quanto tempo fiquei encolhido no lado de fora do prédio, mas me levanto quando vejo os primeiros sinais do sol iluminar a escola de mansinho. Volto para o meu quarto e atravesso direto para o banheiro. Olho-me no espelho e vejo o mesmo garoto do meu pesadelo refletido.

Atordoado, tiro a roupa e fico embaixo da água morna do chuveiro até meus dedos enrugarem. Saio e olho as horas rapidamente no relógio despertador. O diretor já deve ter chegado. Me visto rapidamente e puxo minha mochila a pendurando no meu ombro.

Corro mais uma vez em direção ao prédio A e diminuo o passo quando vejo que a porta já está aberta. Os corredores estão sombrios, vazios e chegam a me dar medo. O único barulho que consigo escutar é minha respiração ecoando pelas paredes. Passo direto pela secretaria vendo que a luz de dentro da sala já estava ligada. Chego na frente da porta do diretor e bato algumas vezes antes de entrar.

O diretor Snow está sentado em sua mesa, bebericando algo em uma pequena garrafa térmica.

— Bom dia, rapaz. O que o traz aqui tão cedo? – ele pergunta deixando a garrafa de lado e apontando para uma das cadeiras que havia no outro lado da mesa.

Me aproximo e sento.

— O que houve com Katniss? Onde ela está? O que ela tem? – pergunto rápido demais e não tento esconder meu nervosismo.

— Calma, meu jovem. Ela está no hospital. Teve uma intoxicação alimentar.

— Intoxicação alimentar?

— Sim. Ela vai ficar bem. Não se preocupe.

— Ela volta hoje?

— Creio que não. Ela vomitou muito, perdeu muito líquido. Estão repondo estes líquidos perdidos por via intravenosa. Também disseram que seria bom ela ficar mais um tempinho para ter um tratamento com antibióticos.

— Mas ela poderia tomar os antibióticos aqui.

— Você deve saber tão bem quanto eu que Katniss é uma garota bastante teimosa. Ela precisara tomar os antibióticos e aqui não terei tempo de saber se ela de fato está tomando.

— Eu posso garantir que ela tome.

— Infelizmente não funcionara assim.

— Quanto tempo ela ficará lá?

— Não sei, mas você saberá quando ela voltar.

— Tudo bem. Obrigado. – falei já me retirando da sala.

Andei pelos corredores vendo alguns alunos já entrando no prédio. Fui até a sala de Química e sentei em uma das classes, contemplando a sala vazia e silenciosa pela primeira vez no ano. Apoiei os braços na mesa e a cabeça sobre os braços. Fechei os olhos e pedi a Deus que Katniss voltasse logo para a escola…. Para mim.

Se eu ao menos soubesse quanto tempo ela ficaria no hospital…. É possível já sentir a falta dela se não faz nem um dia que eu a vi pela última vez? Fico pensando em como vou ficar depois que tudo entre nós acabar quando chegar a formatura. Se já fico assim só de ficar um dia sem vê-la, imagina passar o resto da vida assim? Espero superar da mesma forma que superei Greta.

Sou acordado pelo sinal tocando e os alunos entrando na sala de aula. O Sr. Johnson fala sobre o dever de casa que deu na última aula e que passará para recolher. Vasculhei minha mochila em busca do caderno de Química, mas não achei. Droga! Saí do quarto correndo e não arrumei o material.

— Peeta, o dever. – o professor cobra quando chega em mim.

— Eu não trouxe. – falei baixo.

— Você esquecendo de um dever? Bem, isto é estranho. – diz o Sr. Johnson antes de continuar a recolher dos restantes.

As aulas passam de forma estranha. As vozes de todos parecem estar abafadas. Como se eu estivesse embaixo da água e eles falassem acima dela. Não consigo prestar atenção em nada. Só pareço acordar quando ouço o sinal de troca de período. Não foi surpresa que as outras aulas tenham seguido desta maneira.

Uma semana inteira passou desta forma. Eu esquecia de fazer os deveres e não conseguia prestar atenção nas aulas. Minha mente estava em Katniss e em como ela estaria naquele exato segundo. Não me permitiram vê-la no hospital e isto me deixou mais para baixo ainda.

— Você está mal. – ouço Finnick falar no intervalo.

— Tem dormido direito, Peeta? – pergunta Annie.

Na verdade, não. Tenho tido pesadelos horríveis à noite que me resultam em insônias.

— Tenho sim.

— Qual é, cara. Katniss vai voltar logo. Você vai ver. – tenta me animar Finnick.

Eu apenas concordo com a cabeça. Os últimos períodos passam da mesma forma que os outros. Não vejo sentido nem em acordar cedo para ir às aulas, já que não estou conseguindo aprender nada. Mas vou do mesmo jeito. Creio que me afundar na tristeza me levará a uma tristeza maior ainda, ao menos me distraio de parte dela quando estou fora das quatro paredes.

Juntei meu material quando escutei o último sinal libertador tocar. Fui o último a sair da sala e caminhei pelos corredores devagar e sem pressa de chegar ao meu quarto. Pesco a chave da porta no meu bolso e giro a chave, mas para minha surpresa, a porta não está trancada.

Passei tanto tempo sem reagir a nada, e continuei a não reagir. Estou tão inerte que devo ter esquecido de trancar a porta. Entrei no quarto olhando para o chão e fechei a porta. Mas quando me virei e levantei o rosto…. Abri a boca em surpresa.

Ela voltou. Ela finalmente voltou. Sorrio ao ver Katniss escorada na mesa de estudos com seu sorriso malicioso voltado para mim.

Larguei a mochila no chão e corri até ela a sufocando com meus braços. Afundei o rosto nos cabelos dela, sentindo o cheiro que tanto me fez falta.

— Você voltou. – sussurrei.

— Pois é. – ela respondeu com a voz embargada.

Segurei seu rosto a olhando de forma preocupada.

— O que foi? Por que está chorando? – perguntei secando as lágrimas dela com o polegar.

Ela sorriu com os lábios cerrados e sacudiu a cabeça negando.

— Porque eu sou boba. Apenas me abrace. – ela respondeu me abraçando de volta. E ficamos assim por vários minutos.

Talvez ela tenha chorado de saudades eu pensei no início. Mas logo esqueci esta hipótese, quando ela começou a soluçar e seu corpo a convulsionar em conta disto. Ela chorava de forma desesperada e eu não conseguia entender o motivo. Sentei ela na cadeira e dei um copo de água, tentando acalmá-la. Mas ela só se acalmou depois de eu puxá-la para a cama e acomodá-la em meus braços. Só então ela me confirmou que realmente estava com intoxicação alimentar e que ficou para ser tratada com antibióticos e que insistiu todos os dias para voltar para cá. Ela não me falou os motivos das lágrimas e eu não quis insistir nisto e vê-la chorar novamente.

— Estou feliz que tenha voltado para mim. – falei quando Katniss estava quase dormindo.

— Eu voltaria para você dê um jeito ou de outro. – ela sussurrou antes de cair em outro mundo.

Fechei os olhos e tentei me fazer acreditar que aquela promessa valeria para sempre e não só agora.

Notas finais
Se preparem que no próximo capítulo tem fortes emoções... Tratem de pegar os lencinhos. Até domingo. Contagem regressiva para o fim da fic: 3 capítulos. Beijocas da Tia Rafú pra vocês. :)