Nightmares
18 Capítulo 18 - Diary
Notas iniciais

Chegamos a junho. Preparamos nossa formatura e a festa que a escola oferece após a cerimônia. Estou em casa e longe de Katniss já que as aulas acabaram. Estou tentando ao máximo não pensar nela. Mas isto parece algo difícil de fazer. Tudo que vejo parece ser um lembrete da existência da garota de olhos cinzentos. Terei que achar um jeito de esquecê-la.
Recebi uma carta de Oxford me oferecendo uma bolsa de estudos. Tio Phil diz que é uma chance única na vida e que eu deveria aceitar sem pensar. Mas estou pensando em aceitar a da Kaplan College Frederick. Fica mais perto de tio Phil e não quero perder contato com o único parente vivo que me restou. Mas se ele e Natalie estivessem juntos ainda eu escolheria Oxford sem pestanejar.
Katniss enviou um e-mail para Stanford, já que este é o sonho dela. Ela sempre afirmou o quanto gostava de crianças e o quanto queria trabalhar com elas, decidiu fazer psicologia voltada para a área infantil. Ela ainda está aguardando a resposta.
Após o jantar e uma breve conversa com tio Phil, subi ao meu quarto e liguei o notebook, entrando no Facebook rapidamente. Logo notei uma notificação de mensagem e vi que era de Katniss.
Katniss: Pronto para se formar amanhã e se livrar definitivamente da escola para todo o sempre?
Eu ri para a tela em minha frente.
Peeta: Sem dúvida! Aguardei este dia ansiosamente.
Em certa parte estava mentindo. Não aguardei este dia tão ansiosamente assim. Seria bom se livrar da escola, mas isto vai acontecer no mesmo dia em que vou me livrar de Katniss e é aí que está o problema. Não quero me livrar dela. Mas como diz aquela antiga frase: Querer não é poder.
Se ao menos ela sentisse por mim o mesmo que sinto por ela….
O barulho de notificação me acordou com uma nova mensagem da Katniss.
Katniss: Eu estou meio receosa. Serão fortes emoções.
Sei que ela não fala da formatura agora. Não fala da emoção de se formar, pegar o diploma, ver todos lá embaixo aplaudindo você, sua família sorrindo orgulhosa. Ela fala de nós dois. Ela sabe tão bem quanto eu que nosso acordo acaba amanhã. Que seguiremos caminhos distintos e provavelmente não nos veremos mais. E sei que isto irá doer mais do que eu poderia imaginar. Irá doer ser obrigado a deixar de amar alguém. Katniss não me ama, sem dúvida será mais fácil para ela do que para mim.
Peeta: Sinto o mesmo.
Ela passou alguns minutos sem escrever absolutamente nada.
Katniss: Boa noite. Até amanhã.
Peeta: Boa noite.
Desligo o notebook e vou dormir em um sono sem sonhos.
No outro dia acordo com tio Phil alegre.
— É o grande dia! – ele anuncia invadindo meu quarto e abrindo as janelas – Levanta esta bunda gorda da cama.
Sento na cama esfregando os olhos que arderam pela claridade repentina.
— Que horas são? – pergunto.
— Sei lá, acordei agora também.
Sei que ele não me deixaria em paz enquanto eu não “levantasse a minha bunda gorda da cama” então tratei de sair. Tio Phil saiu do quarto satisfeito por me ver fora da cama.
Troquei de roupa e fiz minha higiene matinal antes de descer para a cozinha. Sentei na mesa vendo panquecas.
— Eu não tenho uma bunda gorda. – falei mastigando.
— Tem sim. Uma bunda enorme. – retruca meu tio.
— Mas a sua deve ser flácida já que é velho.
Ele semicerra os olhos para mim, não esperando por esta resposta.
— Você terá a minha idade um dia.
— Ainda bem que este dia está bem longe.
O restante do dia passou rapidamente e nem notei que já estava dentro do carro vestindo minha beca e com meu chapéu no colo. Fomos uns dos primeiros a chegar à escola então não havia muitos carros. Tio Phil conseguiu achar um lugar para estacionar com bastante facilidade.
Saímos do carro e caminhamos até o mesmo auditório onde Katniss e eu nos apresentamos no Show de Talentos. Mal pisei no lugar e ouvi meu nome sendo chamado. Procurei pela voz vendo Finnick perto do palco. Corri até lá.
— E aí, cara? – ele fala me cumprimentando – Finalmente chegou o dia tão esperado.
— Sim. Não aguentaria mais um ano de escola. – concordo com ele – Katniss já chegou?
— Não vi ela ainda.
Finnick e eu sentamos nas cadeiras da primeira fila e passamos o tempo conversando. Relembramos coisas que fizemos durante o ano letivo.
— Lembra quando você socou a cara do Gale? Cara, jurei que você seria expulso da escola. – comenta Finnick enquanto eu apenas ria com a lembrança – Você e ele ainda tem alguma rixa?
— Não. Fizemos as pazes. – respondi não vendo motivos para mentir.
Não suportei mais ficar sentado e levantei. Me virei para trás, vendo Katniss caminhar em nossa direção acompanhada de Annie. Ela deu um discreto sorriso para mim, mas não demonstrava este sorriso em seus olhos. Sorri de volta da mesma forma.
— Vocês vieram juntas? – pergunta Finnick se levantando e puxando Annie para si.
— Não. Deu a coincidência de chegarmos ao mesmo tempo. – respondeu Annie.
Finnick pegou a mão da garota e saiu com ela enquanto conversava algo. Me virei para Katniss novamente.
Não pronunciamos uma palavra. Esperei Katniss dizer algo, mas ela persistiu com este silêncio. Depois de alguns instantes assim, ela sorriu enquanto negava algo com a cabeça e me abraçou forte.
— Está tudo bem? – perguntei.
Ela respondeu se afastando levemente e encontrando seus lábios nos meus. Nada se compara a beijar Katniss depois de tanto tempo. Sentir os lábios macios desta garota como se fosse o nosso primeiro beijo. Como se eu estivesse voltando para aquela cabana há meses atrás e relembrando como foi sentir os lábios de Katniss junto aos meus.
— Está. – ela respondeu a minha pergunta inicial com os olhos fechados e a testa juntada a minha.
Em pouco tempo fomos colocados em uma fila ao lado do palco, por ordem alfabética. Ou seja, Katniss ficou lá na frente e eu fiquei lá atrás. Orientaram-nos a subir quando fossemos chamados, pegar nosso canudo, apertar a mão dos professores e, se quiser, acenar para a plateia, pular, vibrar, plantar bananeira, fazer o que quiser em um minuto e descer no outro lado.
A cerimônia começou com um breve discurso do diretor da escola e logo após o dito cujo chamou um a um para pegarmos nosso diploma.
Pude ver Katniss subir ao palco quando foi chamada e fazer tudo o que pediram. Ela olhou para a multidão por um instante e pareceu surpresa com algo. Segui seu olhar, vendo que não só Frank estava de pé a aplaudindo como também sua mãe, Natalie, estava de pé com um sorriso sincero no rosto enquanto aplaudia a filha. Sorri para a cena. Talvez Natalie esteja vendo o erro que estava cometendo e decidiu voltar atrás.
Será que o sermão que disse para ela no período que fiquei na casa de Katniss fez ela mudar seu jeito de pensar e agir? Espero sinceramente que sim.
Esperei uma eternidade até chegar a minha vez. Mas finalmente pude ouvir a voz do diretor me chamando e subi ao palco, em direção ao meu merecido diploma. O peguei e apertei a mão do diretor. Passei pelos professores e apertei a mão de cada um. Olhei para o público vendo tio Phil entusiasmado a me aplaudir e gritar de pé. Mas fiquei surpreso ao ver Frank e Natalie me aplaudindo de pé também.
Estava realmente feliz por este momento. Mas faltava algo, e este algo era minha família. Meus pais, meus irmãos…. Sempre imaginei este momento com eles e agora eles não estão mais aqui. Mas não deixaria este momento se estragar com este pensamento, então tratei de descer do palco com o mesmo sorriso com o qual subi.
Encontrei Katniss sorridente no outro lado e fui recebido com um beijo rápido. Depois de todos pegarem seus diplomas, sentamos nas primeiras filas que permaneceram vazias para nós. Ouvimos o discurso dos oradores, mas não prestei muita atenção. Depois disso pegamos nossos chapéus e jogamos para cima.
Após isso, todos se levantaram e se encaminharam para seus familiares, comemorando com abraços e sorrisos. Me separei de Katniss e encontrei tio Phil no meio da multidão.
— Meu garoto está virando adulto. – disse ele me abraçando. – E aí? Este diploma está pesando?
Eu ri e olhei para o diploma em minhas mãos.
— Não tanto quanto imaginei. – respondi sorrindo.
O avô e a mãe de Katniss me cutucam, atraindo minha atenção a eles.
— Parabéns, Peeta! – fala Frank me abraçando.
— Obrigado.
A mãe de Katniss deu um singelo sorriso e estendeu a mão para mim.
— Parabéns. – ela disse.
— Obrigado.
— Talvez eu que deva agradecer. – ela sussurra em meio a multidão, mas consigo ouvir mesmo assim.
Fico curioso com a sua resposta, mas me distraio quando outros colegas vêm me cumprimentar. Fomos ordenados a deixarmos nossas becas no auditório, já que eram emprestadas, antes de ir para o ginásio onde seria a festa. Encontro Katniss que por baixo da beca usava um vestido cor de vinho que ficava um pouco acima dos joelhos enquanto eu usava uma camisa social, junto com calça também social e sapatos pretos.
Katniss sorri para mim quando eu estendo a mão para ela. Ela pega a mão e nos encaminhamos para o ginásio juntos com outros alunos, pais e professores.
A festa era realmente boa, não poderia negar. Claro que, para a infelicidade de Finnick, não havia bebida alcoólica.
Katniss e eu dançamos algumas músicas agitadas e algumas lentas até finalmente ficarmos cansados e sentarmos em uma mesa. Não conversamos, apenas ficamos ora olhando um para o outro, ora olhando para as pessoas dançando. Pelo silêncio de Katniss, sei que ela pensava o mesmo que eu: Nosso tempo está acabando.
Finnick e Annie nos encontram e acabam nos distraindo um pouco. Annie conversa com Katniss e Finnick conversa comigo. Logo ele se vai, sendo arrastado por Annie quando ela diz: “Eu amo esta música. Vamos dançar.”
Katniss e eu nos olhamos novamente e ela me lança um sorriso triste antes de olhar para a mesa que nos separa. Então ela levanta e dá a volta na mesa, pousando os lábios no meu ouvido.
— Vem comigo. – ela sussurra pegando minha mão.
Eu não tenho opção que não seja segui-la. Caminhamos para fora do ginásio e atravessamos o pátio da escola em silêncio, ouvindo apenas os barulhos noturnos e a música cada vez mais distante da festa.
Entramos em um dos prédios e logo me vejo no quarto que dividimos o ano letivo inteiro.
— Por que me trouxe aqui? – pergunto olhando ao redor.
Katniss ignora minha pergunta e senta na cama, que era minha, antes de bater ao seu lado como um sinal que eu deveria me sentar. Ela junta suas mãos uma na outra e não olha para mim.
— Eu realmente não queria ter que fazer isto. – ela começa falando baixo – E isto não deveria ser tão difícil para mim. Você deveria ser apenas mais um.
— Eu não quero ser apenas mais um. – sussurro entendendo o motivo de ela ter me trazido aqui.
É agora. Esta é a hora que damos um fim a nossa relação e seguimos caminhos diferentes. Eu tentei me preparar para este momento e, para minha surpresa, descubro não estar preparado. Falhei miseravelmente na minha tentativa.
— E você não é mais um. – ela levanta o rosto mostrando seus olhos cheios de água. – Você não foi apenas mais um passatempo. E isto me deixa profundamente frustrada porque não era isto o que eu queria.
— As coisas não costumam acontecer como queremos.
— Sim, agora eu sei disto. E creio que aprendi da pior maneira.
— Como assim?
Ela soltou uma curta risada e olhou para as próprias mãos antes de levantar o rosto de volta para mim, desta vez deixando as lágrimas caírem.
— Eu me apaixonei por você. — Ela o quê? Se apaixonou por mim? Ela realmente se apaixonou por mim? Abro a boca em surpresa, sem conseguir emitir som algum. – Eu não deveria, mas acabou acontecendo. Eu não deveria ter feito um monte de coisas, mas eu fiz. E seu eu não tivesse feito este monte de coisas eu não teria me apaixonado por você. – ela me olha com raiva, mas sei que ela direciona esta raiva para si mesma – Eu não deveria ter beijado você na cabana. Não deveria ter ido para Atlantic Beach com você e não deveria ter convidado você para passar o Natal na minha casa. Não deveria deixar você me tocar, não só fisicamente como emocionalmente. Eu nunca deveria ter usado você para me livrar do Gale. Eu nem deveria ter puxado assunto com você naquele nosso primeiro dia de aula. Se eu não tivesse feito tudo aquilo eu não estaria chorando na sua frente agora.
— Então você está arrependida de ter me conhecido? É isto que quer dizer? – pergunto magoado e não tento esconder isto.
— Se eu estou arrependida de conhecer você? – ela deixa a pergunta no ar por alguns segundos antes de responder – Acho que seria impossível. Eu não deveria ter feito aquelas coisas, mas eu escolhi fazê-las e nada vai fazer tudo isto mudar. Se eu tivesse uma bola de cristal e visse as consequências que eu teria me envolvendo com você eu faria tudo igual. Mesmo sabendo que eu iria me machucar no final, que eu sairia chorando e com o coração partido, eu tomaria as mesmas escolhas e faria tudo que não deveria fazer mais uma vez. E sabe por quê? – eu aceno a cabeça negando e sentindo os olhos encherem de água – Porque valeu a pena. Porque você é a pessoa mais incrível, sensível e maravilhosa que eu já conheci. E o único arrependimento que eu teria seria em não conhecer você.
— Mas nenhum de nós dois precisa sair machucado disto. Nós poderíamos seguir juntos. Finnick e Annie vão continuar juntos. Por que nós não podemos?
— Porque nós somos diferentes do Finnick e da Annie. – ela suspira parecendo cansada – Por que você não consegue simplesmente entender?
— Entender o quê?- eu praticamente grito me sentindo confuso e deixando as lágrimas caírem.
— Que eu não mereço você, Peeta! Você é uma pessoa boa demais para mim. Você não conseguiria ser feliz comigo. Eu sou uma pessoa quebrada em vários sentidos. Eu nem ao menos sei quem sou. Eu sou alguém na sua frente, uma pessoa diferente na frente de Finnick e uma completa pessoa estranha na frente do meu avô. Eu não possuo nem personalidade.
— Eu fui feliz durante este ano com você. – a contradigo.
— Mas até quando esta felicidade iria? – ela pergunta – Você cansaria de mim alguma hora.
— Eu não cansaria de você nunca! – eu grito frustrado.
— Como pode saber disto? – ela grita de volta também frustrada.
— Porque eu te amo. – eu sussurro e ela me olha de boca aberta. – Eu amo você agora e vou continuar amando você amanhã. E eu sei exatamente quem é você. Você é a garota que não me deixou sentar sozinho no primeiro dia de aula. Que escutou a minha história naquela cabana e me consolou. Que me ensinou a abandonar o passado e que conseguiu me tirar sorrisos em dias ruins. Você é a garota que toca e canta com a alma e que comprou um álbum de fotografias para mim no Natal. Você é garota por quem eu me apaixonei.
Ela chora compulsivamente enquanto soluça.
— Eu não posso…. – ela tenta dizer.
— Não vá embora da minha vida. Por favor. Não me faça queimar nossas fotos. – eu imploro.
Ela nega com a cabeça e se levanta, caminha até a mesa de estudos e tira seu diário de uma gaveta. Ela volta, se senta na cama novamente e se acalma.
— Eu começo um diário novo assim que o ano letivo começa de novo. Este será meu último diário. No começo eu escrevia para o vento, mas depois passei a escrever como cartas a Prim, porque sei que ela seria a única a me entender. Eu quero dar ele a você. Talvez você nem o leia, talvez você o queime, o faça em pedaços. Não importa. Eu apenas não quero ficar com este.
— Por que não?
— Porque você aparece muito nele. E eu sei que vou acabar relendo ele constantemente para me lembrar de você e assim será mais doloroso ainda.
Ela se levanta da cama após deixar o diário em minhas mãos.
— Onde você vai? – pergunto.
— Embora. – ela diz levemente como em um sonho – Ir embora é tudo o que me restou a fazer agora.
Eu deixo o diário de lado na cama e me levanto, entrando em desespero.
— Não…. – sussurro.
— Eu sinto muito. – ela diz e sinto sua voz começando a embargar novamente.
Ela se vira e abre a porta, mas eu a empurro até o corredor vazio do prédio e a prenso na parede.
— Não vá. Por favor, não vá embora. Por favor. Por favor. Por favor. – eu imploro encostando minha testa na dela. Ela apenas chora e se livra calmamente dos meus braços, vira as costas para mim e começa a caminhar pelo corredor. Eu a olho por certo tempo, inerte ao que está acontecendo, antes de tentar mais uma vez – Anjo!
Vejo ela parar abruptamente e seus ombros tremerem acompanhando os soluços que ela solta. Ela então se vira para mim e volta correndo, abraçando meu pescoço e beijando meus lábios. Eu seguro sua cintura, sentindo a mistura salgada de nossas lágrimas no nosso beijo. Nunca pensei, em toda a minha vida, que beijar alguém poderia doer tanto. Mas dói. Dói porque este será o último beijo.
Ela separa nossos lábios e segura meu rosto entre suas mãos.
— Você não vai mais poder me chamar assim. – ela sussurra – Mas tenho certeza que em algum lugar, daqui a alguns anos, você usará este mesmo apelido em outra pessoa. Eu não sou o seu anjo, Peeta. Eu fui apenas um deles, você terá muitos outros.
Ela então se vira mais uma vez e corre. Eu grito por ela, implorando para ela ficar. Eu continuo a gritar mesmo quando ela já sumiu da minha vista. Volto para o quarto e caio no chão, chorando desesperadamente ao saber que eu deixei Katniss ir, deixei ela escapar e que provavelmente nunca mais a veria.
Choro por tempo o suficiente, até me restar apenas soluços que ecoam pelo quarto vazio. Olho para o diário na cama e o puxo, abrindo logo na primeira página. Não há data, apenas o começo com uma única frase: Tudo outra vez.
Tudo outra vez. Escola, estudos, imploração por nota com meus joelhos no chão. A vida é um tanto chata. Não se preocupe, Prim. Garanto que você não está perdendo grande coisa, mas seria de grande alívio ter você aqui comigo.
Você sabe que eu tenho aquela tradição de chegar atrasada no primeiro dia de aula. Óbvio que eu não poderia pular o meu último ano de escola. Tentei entrar despercebida pela sala, mas para meu azar o primeiro período era Química. Nada passa despercebido na visão periférica do Sr. Johnson. Fiz minhas costumeiras piadas e sentei ao lado de Johanna. Não é nenhuma novidade, certo? Você sabe: Johanna + Eu = Conversa Infinita. O assunto era legal, mas não aos olhos do professor.
Ele me mandou sentar ao lado de um tal Peeta. “Quem diabos é Peeta?”, foi a primeira pergunta que fiz a mim mesma. Provavelmente um aluno novo. O Sr. Johnson me apontou Peeta e quase babei. O menino era lindo demais! Mas como sou Katniss Everdeen, não deixei meus pensamentos passarem para minha expressão facial. Fiz alguma piada, fazendo a classe rir e me sentei com Peeta assim que fui ameaçada de ir para a detenção.
O monologo do professor era um saco e tentei me distrair com alguns rabiscos. Não dei muita bola para o garoto ao meu lado, mesmo sabendo que ele olhava meus rabiscos vez ou outra. Mas não pude ignorar ele quando o professor terminou a aula com dez minutos sobrando e nos deixou livres para papear.
Logo puxei assunto com Peeta. Ele parece não querer se abrir muito e eu não forço. A aula acaba e eu rumo para a outra sala.
Encontro Peeta no intervalo e ele aceita meu convite para ficar comigo no intervalo. Explico coisas básicas da escola e nos juntamos ao resto do pessoal.
Antes que pergunte: sim, ainda estou com Gale. Eu sei que ele é um grande grosseiro em vários momentos, mas será um passatempo temporário.
Após as aulas, encontro Johanna no quarto, o que não é surpresa.
— Você convidou o bonitinho para ficar com a gente. – ela pontua com um sorriso malicioso.
— Já havia visto ele? – pergunto desinteressada.
—Óbvio. Quem não o veria? Ele é lindo. Acha que ele e eu teríamos bebês bonitos?
Revirei os olhos enquanto ria.
— Eu mereço.
Fui levado para aquele primeiro dia de aula. Nem Katniss, nem eu sabíamos o que aconteceria dali em diante. Me pergunto em como estaríamos se eu não tivesse aceitado me tornar um passatempo de Katniss. Mas logo ignoro a pergunta e continuo a ler outras partes do diário.
A primeira noite é a melhor. Sentir a adrenalina ao fugir da escola é algo indescritível. Gale convidou o garoto novo da escola para ir conosco. Dava para ver nos olhos de Peeta o quanto apavorado estava. Puxei assunto com ele, tentando distrai-lo, mas acho que não deu muito certo. Mas posso afirmar que foi cômico ver ele naquela situação. Estava tudo bem até a Johanna ter a ideia de brincarmos de verdade ou consequência. Ela acabou perguntando a Peeta o nome da última namorada dele. Bem, você deve imaginar que é uma pergunta ingênua, sem graça e simples de responder. Mas não para Peeta. Ele fez uma cara magoada quando respondeu e notou nossa reação, pois logo após ele saiu para dar uma caminhada.
O segui e perguntei se estava tudo bem. Por Deus! Fiquei tão curiosa por saber o que havia de tão doloroso em citar o nome da ex-namorada. Mas Peeta não se abre muito. Sei que ele passou por algo ruim. Ele deixa isto estampado na cara dele. Às vezes tem devaneios e parece estar com a mente longe, mas não posso simplesmente amarrar ele em uma cadeira e fazer ele me contar tudo. Mas, estranhamente, quero ajudá-lo. Mas não posso se ele não confiar em mim para isto.
Bem, Gale encheu a cara... novamente. Ajudei Peeta a levá-lo para o quarto e dar um banho frio nele. Logo após, ele se jogou na cama e começou a roncar. Fui me despedir de Peeta com um beijo na bochecha, mas beijei o canto dos seus lábios. Eu fiz de propósito. Mas o motivo para tal feito? Nem eu sei. Só lembro de imaginar como seria ter os lábios dele junto aos meus.
O beijo no canto dos lábios…. Eu sabia que ela havia feito de propósito. Mas nem ela mesma entendeu porque tinha feito aquilo. Mas ela se imaginou me beijando…. Normalmente não nos imaginamos beijando um amigo ou amiga. O que prova que ela me via de forma diferente, mesmo fazendo apenas um dia que me conhecia.
Dia de Cristovão Colombo
Feriado! Que palavra linda! Óbvio que não vou para casa. Não sou obrigada a suportar os resmungos de mamãe. A novidade este ano foi que Peeta passou o feriado comigo em uma das cabanas. Depois de enrolarmos a secretária para podermos dividir a mesma cabana, partimos. Descobri que Peeta é um cozinheiro e tanto, é uma pena que ele prefira ser advogado.
Tive um pesadelo dos feios logo naquela noite. Você sabe sobre o que se trata, Prim. Você, eu, Ben…. Pois é, sentei na cama e tentei me acalmar e esquecer o sonho ruim, mas isto acabou com lágrimas molhando o meu rosto. Um sentimento horrível me invadiu e senti que Ben pularia a janela a qualquer momento e me atacaria. Assustada, pulei da cama e corri para o quarto de Peeta. O acordo e pergunto a ele se teria problema em dividir a cama. Ele parece confuso no começo, mas acaba aceitando. Acabo descobrindo que ele também tem pesadelos e fico com um certo alívio de saber que não sou a única.
Não sei como nem porque, mas acabamos nos beijando. Os lábios de Peeta eram macios e reconfortantes. Não posso negar que me senti muito melhor ao beijá-lo. Acabei sentando em seu colo e estava gostando de sentir a mão dele subindo e descendo em minhas costas. Mas a magia acabou quando ele me abraçou, fazendo eu ficar mais perto do corpo dele. Este ato me levou a um flashback e lembrei de Ben fazendo algo parecido comigo. Parei o beijo e sugeri que a gente dormisse. Ele aceitou, mas senti o pingo de decepção em sua voz.
No outro dia, Ben veio me ver. Arrastei Peeta comigo, pois eu surtaria durante o trajeto até a sala da vice-diretora.
“O que ele veio fazer aqui depois de quase cinco anos sem me ver?”, foi a primeira pergunta que me fiz. Estava apavorada. Mas o pavor deu lugar ao ódio assim que vi o homem que um dia eu chamei de pai. Ele veio até aqui para pedir meu perdão. Como se eu pudesse perdoá-lo algum dia pelo que fez. A visita acabou com eu tendo uma das minhas crises. Flashes do que aconteceu há cinco anos atrás passaram na minha frente me causando todo tipo de desespero e medo.
Fui acalmada pela vice-diretora e voltei a cabana. Peeta sem dúvida estava confuso e acho que eu deveria uma explicação a ele. Mas talvez ele não aceite ser mais meu amigo depois de saber. Então…. Fiz o que sempre faço: disfarço! Coloco um sorriso convincente no rosto e um tom alegre na voz.
Vovô veio me visitar mais tarde. Ele ficou sabendo que Ben esteve aqui e que eu tive uma crise. Ele quer que eu tome o remédio, mas eu detesto aquele remédio. Argh! Tenho tanta vontade de jogar aquilo na privada.
Mas este não foi o real problema. O real problema foi quando ele citou o remédio e minha psicóloga na frente de Peeta. Agora ficarei devendo explicações a Peeta para sempre, mas não contei nada a ele.
Na verdade, ele que contou tudo a mim….
E foi muito pior do que eu poderia ter imaginado….
Em uma única noite ele foi traído pela namorada e perdeu toda a família. Prim, já foi ruim o bastante ter perdido você. Mas imagina se eu tivesse perdido você, o vovô e a mamãe? Sei que a mãe enche meu saco, mas não posso deixar de amá-la. Eu sofreria demais se perdesse todos vocês em uma única noite. Por isso, não faço ideia de como Peeta está suportando.
No final, Peeta tem uma crise de choro. Acabei me lembrando do momento que ele me beijou e lembrei o quanto me senti melhor depois. Decidi fazer o mesmo. Beijei ele e pareceu ter funcionado pois logo já estava fazendo piadas.
Quando fomos embora da cabana, acompanhei Peeta até o quarto dele e vi um álbum de fotografias. Ajudei ele a se livrar de algumas fotos que seriam irrelevantes na vida dele. Ele queimou algumas fotos da mesma forma que eu queimei as fotos de Ben. A melhor parte foi quando ligamos para a ex-namorada dele, Greta. No final morremos rindo.
Gale chegou terminando com nossa alegria. Me despedi de Peeta e beijei o canto dos lábios dele novamente. Mas meu desejo era beijar em cheio a boca dele e sentir a sensação gostosa que senti quando pedi para dormir com ele à noite.
Johanna já estava no quarto quando cheguei e pediu todos os detalhes da noite, mas omiti a grande maioria das partes.
Acho que já tenho uma ideia de quem será meu próximo passatempo….
Pulei algumas folhas até achar um título interessante: Confusão no Dia dos Veteranos.
Confusão no Dia dos Veteranos
Título criativo, não acha? Mas a história por trás dela te deixará zonza, Prim.
Tudo começou com o Dia dos Veteranos. A escola sempre nos leva para ver aquele desfile que fazem todos os anos neste dia. Maior perda de tempo!
Não houve aula depois e fomos todos liberados para ir à quadra de esportes ou fazer qualquer coisa. Segui os meninos para a quadra de esportes e assisti eles a jogarem basquete.
Depois do jogo, voltei ao meu quarto e encontrei Gale me esperando. Não estranhei, pois ele já havia feito isto outras vezes, mas algo me chamou a atenção. Ele parecia meio envergonhado, com medo, receio de algo.
— O que foi? – perguntei.
— Eu preciso falar uma coisa para você.
— Pode falar. – respondi sentando na cama.
Ele senta junto comigo antes de começar a falar.
— Já estamos há bastante tempo junto.
— É, eu sei. – concordei.
— Bem, neste meio tempo eu queria apenas uma namorada para me exibir e você aceitou este cargo, já que disse que não levava relacionamentos a sério.
— E ainda não levo. – completei e vi ele engolir em seco – O que está acontecendo, Gale? Por que está agindo estranho?
— Eu me apaixonei por você.
Eu travei neste momento e não conseguia acreditar no que ele havia me falado. Eu avisei ele, avisei ele umas mil vezes que não deveria se apaixonar por mim. Pedi licença e fui ao banheiro, tentando colocar minha mente em ordem. Eu precisava me livrar dele ou ele acabaria mais magoado do que vai ficar.
Então lembrei de duas palavras chaves: Matemática e Peeta.
Voltei ao quarto e disse a ele que minha mente estava cheia por causa do teste de Matemática que teríamos no outro dia e não estava conseguindo pensar com coerência. Falei que pediria ajuda a Peeta e ele poderia me acompanhar. A princípio, eu iria chegar lá e beijar Peeta, assim me livraria de Gale. Mas ele não foi comigo. Disse que tinha que falar com Finnick, então perguntei que horas ele voltava e só precisava me certificar de que estaria beijando Peeta quando ele entrasse no quarto.
Coloquei meu plano em prática. Depois de Peeta me esclarecer a matéria, conferi as horas no celular e vi que faltava pouco tempo. Enrolei Peeta com uma conversa para não ficarmos em silêncio e beijei ele. O beijo de Peeta é tão diferente do beijo de Gale. Gale beija como um animal sedento por lábios, como se quisesse engolir minha boca por inteiro. Peeta é mais sereno. Calmo…. Ele beija sem pressa, como se o tempo fosse algo inexistente e todas as vezes em que o beijei, realmente o tempo parecia nunca ter existido.
Gale finalmente apareceu. Obviamente ele ficou furioso e expulsou Peeta do quarto. Mas havia uma coisa que eu não esperava. Gale não estava sozinho. Ele veio acompanhado de Cato, Clove, Finnick, Annie, Madge e Johanna. E por isto eu não esperava.
Você sabe, Prim, que temos aquele acordo de não trair o amigo, namorado ou outra pessoa qualquer do nosso grupo. Bem, eu acabei de descumprir este acordo e todos eles ficaram contra mim. E isto não é nada bom.
Ajudei Peeta a arrumar as coisas dele e orientei ele a pedir um quarto em outro prédio. E ele se foi.
Voltei para o quarto e acalmei Gale, explicando que não sentia o mesmo e que nosso relacionamento teria um fim ali. Ele simplesmente me mandou embora me julgando com os piores adjetivos existentes. Os outros já haviam ido embora.
Durante o percurso até o meu quarto, fiquei pensando em Gale e em como ele estava magoado. Odeio ter que magoar ele, mas foi necessário.
Chego ao meu quarto me dando de cara com a cena de Johanna embrulhando as minhas coisas nas malas e mochilas.
— O que está fazendo? – pergunto perplexa.
— O que você acha? – ela pergunta enquanto para o que estava fazendo e me olha com ódio.
— Vai mesmo me expulsar do quarto?
— Já estou expulsando. – ela joga uma das mochilas aos meus pés.
— Isto é sério? Vai acabar com nossa amizade por causa de Gale? Por causa de um garoto?
— Gale é um cara legal e não consigo acreditar que você foi capaz de fazer isto com ele do nada.
— Já parou para olhar como Gale me tratava? – pergunto com meus olhos cheios de água.
— Já parou para pensar no que você acabou de fazer com ele? Você o traiu! E este era uma das regras mais importantes do nosso grupo!
Deixei as lágrimas caírem, mas Johanna não me consolou como sempre fazia quando me via chorar. Ela simplesmente me deixou chorando e continuou a me olhar com ódio.
Então peguei as minhas coisas e me dirigi para a sala do diretor.
Estava pensando em tentar pedir um quarto no prédio E e ficar longe de Gale e Johanna. Mas eu tinha minhas crises e precisava de alguém comigo para me ajudar. Pensei em Finnick, mas ele já possuía um colega de quarto e também devia estar furioso comigo.. Então lembrei do garoto que eu acabei de encrencar: Peeta.
Choraminguei com o diretor e consegui uma autorização para dividir o quarto com Peeta.
Peeta também estava irritado comigo, mas ele era a única pessoa que me sobrou nesta escola. Ele perguntou por que eu havia o beijado e disse que seus lábios eram inegáveis. O que não era de todo uma mentira….
Lembro deste dia. Foi o dia que descobri que estava me apaixonando por Katniss. Lembro de ter sentido uma tremenda raiva dela por ter me colocado naquela situação.
Então ela não mentiu por completo quando disse que meus lábios são inegáveis….
Uma lágrima solitária caiu do meu rosto para o diário, molhando a página que continuava aberta.
Sacudi a cabeça e virei a página para continuar a ler.
Exilados
Finnick está de volta. Ele quer continuar sendo meu melhor amigo mesmo depois de ter me visto trair Gale. Acho que nunca serei uma amiga boa o suficiente para ele.
Escolhemos um nome para nosso grupo: Grupo dos Exilados. Afinal, estamos exilados neste instante. Faz sentido, não?
Fiz um jogo de provocação com Peeta após as aulas. Ele acabou me beijando e é óbvio que eu gostei. Eu poderia passar séculos beijando este garoto.
Paramos apenas quando senti meus pulmões queimarem pela falta de ar. Me permiti passear com os dedos pelo rosto de Peeta. Mas então algo me bateu de frente, acabando com toda a mágica que tinha ali.
Eu acabei de magoar Gale... E agora faria a mesma coisa com Peeta. Não posso dar esperanças a ele, pois não sou a garota que ele imagina que eu seja. Sou a pessoa mais defeituosa do mundo e ele não merece algo assim.
Tentei explicar para ele que ele não ganharia nada tendo algo comigo. Que ele acabaria arrasado, machucado e em pedaços no final.
Mas ele insistiu….
E eu não consegui negar….
Ela não queria me magoar. Desde o início ela não quis me magoar. Ela me avisou tantas vezes sobre isto, sobre o nosso fim…. Não pensei que fosse doer tanto, mas está doendo. Uma dor insuportável que me faz querer provocar uma dor maior para esquecer desta.
Tive uma crise. Tive um pesadelo horrível durante a noite. Ben estava lá novamente para se aproveitar de mim. Levantei e lavei o rosto encharcado pelas lágrimas. Ia voltar para o quarto, mas vi Peeta dormir tranquilamente na cama e tive um súbito medo irracional de que Peeta fosse agir igual ao Ben. Minha respiração trancou e caminhei para baixo do chuveiro me sentando no chão para tentar me acalmar.
E foi então que as visões começaram….
Ben e eu estávamos no quarto dele e ele caminhava de um lado para o outro. Eu estava na cama com medo do que já havia acontecido e que aconteceria outras vezes. Ele se aproximou de mim e tocou minha perna. Eu me assustei e implorei para que ele não tocasse em mim, então ele se afastou. Então chegou a parte que ele me fazia prometer que eu não contaria nada a ninguém. Eu tinha que repetir tudo o que ele falava.
Mas algo começou a ficar estranho. Ele começou a pedir para olhar para ele. E eu não queria. Não olhei. Mas me assustei quando ele bateu a mão na cômoda ao lado e exigiu que eu olhasse para ele.
Levantei o rosto, sem ter escolha alguma e vi algo diferente. Ben tem olhos parecidos com os meus e os olhos que eu via eram azuis. E eu conhecia estes olhos azuis.
Então comecei ouvir apenas palavras desconexas. Ouvia as palavras “Matemática”, “ajudei”….
Então Ben estendeu a mão para mim e me encolhi, achando que ele me bateria. Mas então ouvi ele dizer: “É o Peeta.”
Peeta…. Peeta! Segurei a mão dele ainda receosa, mas estava tudo voltando para o agora. Vi Peeta no lugar de Ben e o banheiro no lugar do quarto.
Eu estava bem e segura. Me agarrei a Peeta como se ele fosse a minha salvação e de fato, agora, ele foi.
Tomei o remédio, sendo vencida pelo medo de ter outras crises. Peeta leu O morro dos ventos uivantes para mim até eu dormir segura em seus braços.
Então isto são as crises pela perspectiva de Katniss. Eu nunca imaginaria o quão confuso isto é. É como Frank disse: Ela fica em um pesadelo sem estar dormindo e não sai de lá até alguém tirá-la.
Logo após havia uma carta enorme com o título: “Ação de Graças”. Decidi pular esta. Ainda lembro das emoções que vivi naquele feriado quando Katniss foi comigo para Atlantic Beach e não tinha certeza se seria uma boa ideia relembrar disto tudo pelo ponto de vista da Katniss.
Pulei várias cartas até chegar em uma que sentia curiosidade. O Natal. Foi no Natal que ela me contou tudo o que aconteceu com ela. Foi no Natal que ela deixou que fossemos além dos beijos. Aconteceu muita coisa no Natal e eu estava curioso para saber disto pelo ponto de vista da Katniss.
Natal
Prim, adivinha quem passou o Natal com a gente este ano? Peeta! Foi incrível ter ele comigo no Natal. Acho que sem ele este ano não teria aguentado. Mamãe está cada vez mais insuportável. Bem, Prim, acho melhor você estar confortavelmente sentada pois tenho muito o que falar.
Do começo: Peeta não pôde ir para a casa do tio dele no Natal. Ele ficou tão chateado! Decidi convidá-lo para passar o Natal em casa e ele aceitou.
Vovô levou um século para chegar. Quase congelei! Ele passou a viagem toda tagarelando com Peeta. E achei incrível Peeta estar realmente interessado na conversa do vovô.
Quando chegamos em casa, fomos recebidos por mamãe, que precisou fazer um de seus comentários maldosos disfarçados de brincadeiras. Mas acho que nem me importo mais.
Acomodei Peeta no meu quarto e deixei ele organizando suas roupas no meu closet enquanto ia ao banheiro. Quando volto, noto Peeta agachado no chão olhando uma das minhas fotos. Ele pareceu assustado por eu ter flagrado ele vendo minhas fotos e começou a guardá-las, dizendo que tropeçou na caixa e as fotos se espelharam. Não dei tanta importância por ele ter olhado, mas me surpreendi quando ele me perguntou quem era a garotinha loira das fotos. Era você, Prim. Você era a garotinha loira das fotos. Por um momento gelei, pois lembrei de que ele não sabia de nada sobre você. E eu não queria que ele soubesse de nada sobre o que aconteceu alguns anos atrás. Tratei de me recompor e responder que não era ninguém. Mas você sabe, Prim, melhor do que ninguém que você nunca será um “ninguém” para mim.
Peeta foi com o vovô buscar o peru. Aproveitei e peguei um dinheiro guardado. Queria dar algo para Peeta no Natal. Estava me arrumando para sair, quando mamãe entrou no meu quarto.
— Mais uma vítima, Katniss? — ela pergunta com seu sorriso debochado.
— A que se refere? — perguntei de volta, sem olhá-la.
— Ao Peeta, é claro! Não acho que você mereça ele. Um garoto tão bonito…
— Bem… — falo, pegando a câmera, o celular e o dinheiro – Também acho que não mereço ele. Vou sair. Volto logo.
Saí antes que ela fizesse mais algum comentário. Sabia que ela se aproveitaria da situação para tentar me atingir. Mamãe não perde uma!
Revelei as fotos que eu acabei de tirar com Peeta e mais algumas do meu celular. Comprei um álbum de fotografias e voltei para casa. Ajeitei as fotos no álbum e fiz alguns rabiscos meus na contracapa. Embrulhei e escondi dentro do piano, onde me pareceu o lugar mais seguro.
Vovô me deu um vestido lindo e me obrigou a vesti-lo para a ceia de Natal.
Rue estava aqui como sempre. Ela me lembra tanto você, Prim! E já que você não está aqui para receber meu amor, eu dou meu carinho para Rue. Ela parece não crescer. Lembro de quando você a chamava de anã e ela ficava furiosa. Consegue se lembrar disto, Prim? Espero que sim. Momentos bons foram feitos para serem eternizados.
Depois da oração do vovô, começamos a comer. Teria sido uma bela ceia de Natal, mas mamãe, como sempre, precisava me encher o saco.
Eu sempre suportei todas as acusações dela. Mas desta vez ela falou algo que conseguiu me machucar. Ela disse que eu fui a pior coisa que aconteceu na vida dela. De tudo que aconteceu a vida todinha dela, eu fui a pior coisa. Aquilo não é algo que se fala da boca pra fora. Aquilo dói mais do que uma facada nas costas ou um tiro no coração.
Acabei saindo da mesa e indo direto para o meu quarto. Peguei as fotos que Peeta havia derrubado mais cedo e comecei a olhá-las. Deixei algumas lágrimas caírem enquanto eu me perguntava em como havíamos chegado a este ponto? Como passamos de uma família perfeita para um pai preso, uma das filhas mortas, a outra filha com traumas e uma mãe inconsolável? Como isto havia acontecido?
Peeta apareceu um pouco depois e eu acabei desistindo. Desisti dos segredos. Desisti de esconder as coisas dele. Seria idiotice esconder já que ele viu muita coisa. Então contei tudo. Falei de você, de Ben, das noites que ele chegava bêbado, dos abusos… Da sua morte…
Simplesmente abri minha boca e não fechei até ter contado tudo a ele.
Depois de dizer tudo, deixei ele livre. Falei que entenderia se ele saísse pela porta e não quisesse mais olhar para a minha cara. Mas fui surpreendida… Ele ficou… Não só ficou como também me abraçou e disse que não iria a lugar algum.
E naquele momento eu pude sentir algo se agitar dentro de mim. Algo bom e quente. Algo que fez eu me sentir melhor. Algo que me disse que Peeta não seria mais um em minha vida, apesar de ser isto que eu queria. Mas aquilo que se agitou dentro de mim dizia que Peeta seria mais que um passatempo. E eu acabei aceitando aquilo e não lutei contra como costumo fazer. Deixei aquele sentimento se aquecer em mim. Eu estava me deixando se apaixonar por Peeta Mellark…
Então foi aí que ela notou que estava sentindo algo a mais por mim. Foi quando decidi ficar em vez de fugir. Foi quando eu a entendi e a consolei como os outros não fizeram. Ela começou a se apaixonar por mim e eu nem sequer consegui notar isto. Não consegui notar simplesmente porque estava ocupado demais tentando me preparar para esquecer Katniss. Não notei que estava me tornando alguém especial na vida dela.
Então ele fez o mesmo que Ben. Não… Não posso dizer o mesmo. Peeta foi carinhoso, atencioso… Foi simplesmente mágico. Nunca pensei que algo que eu evitava tanto por causa dos meus traumas pudesse ser tão bom. E sei que foi bom justamente por ser com Peeta. Pois não seria igual se fosse com outra pessoa. E foi neste momento que quase gritei um “dane-se!”. Foi nesta hora que decidi me entregar ao Peeta. Me apaixonar pelo garoto novato da escola.
Acordei no meio da noite me deparando com o rosto tranquilo de Peeta em meio a penumbra. Sorri ao vê-lo e me segurei ao impulso de acordá-lo para agradecer por ter tirado um dos meus medos.
Decidi sair da cama e descer para a cozinha a fim de tomar um copo de água. Da cozinha fui para o piano, apenas para confirmar se o presente de Peeta ainda estava ali. Fazia tanto tempo que não tocava aquele instrumento… Então sentei e decidi tocar algumas músicas. Lembro de vovô me ensinando as primeiras notas quando eu era menor.
Peeta apareceu depois e entreguei meu presente de Natal a ele. Ele pareceu gostar e também me presenteou. Ele me deu uma edição linda de O morro dos ventos uivantes! O livro era tão perfeito que dava até dó de folheá-lo.
Mamãe começou com seus comentários de manhã e eu já estava me irritando. Peeta ouviu nossa conversa escondido, pois ele começou a dizer que era mentira e contradizer tudo o que mamãe havia falado. Lancei uma indireta com o olhar para Peeta e ele pareceu entender, já que abandonou o assunto.
Mais tarde nós fizemos biscoitos. Quer dizer, Peeta fez biscoitos… Eu apenas fiz bagunça.
Peeta acabou tendo uma dor de cabeça e dei um remédio que o fez dormir bem rápido.
Mamãe e eu tivemos uma discussão feia à noite. Nós demos trabalho para o vovô, pois estávamos a ponto de matar uma a outra. Mas ele conseguiu fazer com que mamãe fosse dormir no final das contas. Ele conversou comigo na cozinha, mas eu estava terrivelmente magoada e com uma raiva que não cabia em mim. Apenas o escutei e concordei. Ele acabou indo dormir depois de notar que seria mais proveitoso conversar com as paredes do que comigo.
Mas aquela raiva e aquela mágoa continuavam presos dentro de mim e as lágrimas que eu derrubava não eram suficientes para fazê-los sair.
Levantei e peguei a primeira garrafa que possuía alguma bebida com álcool. Sentei e só lembro de abrir a garrafa e tomar ela toda. Lembro também de ver Peeta me levar para o quarto e eu apaguei depois disto.
Acordei de manhã mais envergonhada do que nunca. Onde eu estava com a cabeça para ter bebido a garrafa inteira de vinho sozinha? Eu deveria estar com uma ressaca daquelas… Mas por algum motivo estranho estava me sentindo bem — com exceção da vergonha.
Esperei Peeta acordar e pedi desculpas. Ele se mostrou bastante compreensivo, mas, no fundo, tive medo que ele apenas estive com pena de mim.
Explodi com mamãe enquanto fazia o café da manhã e cheguei perto de acertá-la com a mesma faca que Ben usou para machucar você, Prim. Mas Peeta pegou a faca e tudo o que me restou foi sair de casa e sentar na varanda de trás da casa.
Segurei as lágrimas, pois não aguentava mais chorar pelo mesmo motivo. Peeta apareceu um pouco depois e trouxe uma xícara de café com pão para mim. Uma lágrima teimosa escapou quando fui agradecer ele com um sorriso.
Então ele começou a falar. Sobre a vida. Sobre possibilidades e escolhas. Ele falou que a vida que tínhamos agora era passageira e logo acabaria. Ele falava de uma forma tão empolgada e sonhadora que acabei acreditando em cada uma de suas palavras.
Fizemos um Boneco de Neve Inexpressivo. Foi legal fazer isto. Lembra quando você eu passávamos o inverno fazendo bonecos de neve com o Ben, Prim?
Depois de estudar Química e passar o tempo com outras coisas, levei Peeta para o parquinho. Sempre lembro de você quando vou ao parquinho. Lembro de quando eramos uma família feliz. Sempre me forço a achar que ainda somos uma família feliz e que você ainda está aqui comigo. Tem dias que as lembranças boas são meu único consolo.
No último dia do ano fui visitar você. Eu ainda não quebrei a promessa, Prim! Espero que tenha gostado das margaridas…
Este Natal não foi um dos piores (com exceção de mamãe). Foi incrivelmente bom ter Peeta perto de mim. Eu iria amar poder ficar com ele por mais tempo, mas você sabe que eu não conseguiria.
Sim, estou me apaixonando por ele e sei que é um erro. Mas estar apaixonada é algo tão bom… Ah, Peeta… Se eu ao menos não tivesse tantos medos… Se eu ao menos não fosse eu.
Parei de ler e deixei várias lágrimas caírem sobre a página aberta do diário.
Eu estaria disposto a encarar cada medo dela. Estaria disposto a ajudá-la a vencer cada um dos seus receios se no final pudéssemos ficar juntos.
Me senti tão sozinho dentro daquele quarto e tudo o que eu queria agora era um abraço da garota que eu perdi.
Este desejo acabou me fazendo chorar mais e ter soluços como resultado. Eu estava sentindo uma dor terrível e não conseguia fazê-la passar de jeito nenhum.
Me sentindo completamente frustrado, joguei o diário de Katniss contra a parede e vi algo cair de dentro. Me arrastei pelo chão e agarrei o que havia caído. Era uma rosa. Provavelmente a rosa que eu havia dado a ela em Atlantic Beach. Ela já estava seca e se despedaçando. Apertei ela na minha mão e depois a deixei cair no chão. Meus soluços viraram urros desesperados e eu não tinha forças nem para levantar do chão. Agarrei o diário novamente e me arrastei pelo chão até chegar na cama. Fiz um esforço enorme para conseguir deitar sobre ela. Abracei o diário e me senti extremamente cansado. Fechei os olhos e tudo o que consegui imaginar antes de ser levado pela inconsciência foi os brilhantes olhos cor de tempestade de Katniss. Sabia que agora só os veria na minha imaginação.
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