Nightmare Whispers
9 IX - Lembranças.
Notas iniciais
E foi relativamente fácil escrevê-lo, mas tenho raiva de mim por ter feito isso.
Boa leitura!
...
Novamente Chrome dormiu mal. Novamente nenhum pesadelo. Novamente não viu Hibari.
Daemon sumiu depois de estranhamente falar sobre Elena. Adel havia acordado, gritando e também chorando. Ela não tinha percebido de imediato o que aconteceu mas ao ver Chrome levou as mãos ao rosto pálido e permaneceu fitando o nada por muito tempo até realmente surtar. Quebrou tudo o que havia no quarto esbravejando palavrões.
Mas depois chorou, depois que viu que não havia maneiras de escapar.
– Eu achei que ele... amava... – ela começou a soluçar – Eu achei... – Adel não conseguiu dizer mais nada. Chrome tentou dizer algo, mas não sabia o quê. Somente se juntou a ela, porque seu medo de ficar sozinha agora era muito maior do que qualquer outro. Adel não repeliu o abraço e Chrome entendeu que o medo dela era o mesmo, apesar da raiva ser muito maior.
As duas ainda tentaram achar uma saída, tentaram procurara um meio de escapar. A única porta estava o tempo todo trancada. O vidro do banheiro era muito pequeno para passarem. A sacada era muito alta para que pulassem. E gritar para fora na esperança de que alguém ouvisse não teve sucesso algum. Pensaram em fazer algo com os lençóis para tentar fugir como crianças em filmes, mas os lençóis eram poucos
– Nós poderíamos pular... – Adel disse olhando para baixo da sacada – Morrer pode ser melhor do que ficar trancada aqui... Pode ser melhor do que ter que ficar com ele.
Chrome percebeu o nojo e a raiva na voz dela, percebeu que Adel se sentia da mesma maneira que ela se sentiu quando Mukuro começou a maltratá-la e impor regras. A raiva chegava a um ponto em que somente se lembrar a fazia querer morrer, o nojo e o desejo de liberdade eram às vezes irracionais e a única saída que as pessoas conseguiam pensar era a morte.
– Eu não vou morrer. – Chrome se surpreendeu por sua voz ter saído tão convicta, e ao mesmo tempo tão infantil – Não aqui. – completou apertando a camisa que Adel lhe havia emprestado, continuar nua só faria com que se lembrasse do pior.
Adel escondeu o rosto, e voltou para dentro do quarto, talvez não quisesse mostrar sua fraqueza o que já era inútil.
Chrome continuou lá fora, pensando no porque de não querer morrer ali. Sabia exatamente o motivo, continuaria vivendo até encontrá-lo novamente. Continuaria vivendo por ele.
Meus pesadelos são dele e minha vida também.
...
Naquela mesma noite Adel ainda não havia parado de chorar. Chrome também tinha vontade de chorar, mas tentava evitar, tentava somente ser mais forte do que sua dor.
Deitou-se ao lado dela e pegou sua mão, Adel tinha os olhos vermelhos e não disse nada, acenou com a cabeça agradecendo mentalmente e fechou os olhos na esperança de que pelo menos em seus sonhos estivesse num lugar muito melhor.
A esperança de Chrome estava em seus pesadelos. Pegou a mão de Adel porque estranhamente tinha se acostumado a dormir com alguém segurando sua mão. Não era a mesma coisa, mas a fazia relaxar e se sentir segura.
...
... Você não desejava fugir dos pesadelos?
Chrome estava exatamente onde queria, de volta à sua casa e Hibari estava ao seu lado, segurando sua mão, e a fitando com aqueles olhos azuis frios que ela tanto adorava. Chrome percebeu que o seu pulso estava cortado e seu pescoço também. O sangue manchando os lençóis e os tornando vermelhos.
... Você não queria que eu te protegesse?
Hibari estava sussurrando perguntas, mas Chrome não conseguia respondê-las. Somente saia sangue de sua boca quando tentava falar. Tentou novamente, mas somente sangue havia, e nenhuma voz.
... Você não queria ser destruída?
... Você não queria fugir?
Sua voz não saía e não havia como ela dizer que queria fugir, queria fugir com ele. Queria dizer que deseja encontrá-lo. Queria dizer que havia se arrependido. Queria dizer que estava sofrendo. Queria dizer que o amava.
Mas não podia dizer isso, e engasgada em seu próprio sangue ela começou a chorar e suas lágrimas também eram sangue. Hibari apertou sua mão.
... Chrome?
...
Quando Chrome acordou ainda estava chorando, sussurrando o que queria ter dito á Hibari. Mas já era tarde demais, e quem sabe o veria de novo? Era como se o tivesse visto pela última vez e não tivesse dito o que sentia, não tivesse pedido que a levasse com ele.
Olhou para Adel virada de costas para si e percebeu que ela já não segurava mais a sua mão. Abraçou os joelhos contra o rosto e continuou chorando. Hibari nunca soltava sua mão.
De repente a porta se abriu e Daemon entrou, rindo. Destruindo todas as lembranças em que ela tentava se concentrar.
– Ah, Chrome! – ele exclamou de modo feliz – Você ficou me esperando?
Ele começou a caminhar lentamente até a cama, Chrome se afastou o máximo possível e acordou Adel. Ela não percebeu o que estava acontecendo e olhou fixamente para Daemon à sua frente como se não visse ninguém.
– Ah, Adelheid... Você ainda está aqui... – ele disse como se tivesse esquecido completamente do que fizera a ela, e parecia irritado com isso.
Ao ouvir a voz dele ela não mudou de expressão e, levantando-se da cama, foi até junto dele calmamente. Por um único segundo Chrome até achou que ela fosse abraçá-lo, mas o soco que ela lhe deu foi forte o suficiente para jogá-lo ao chão.
– Seu carcamano de merda! Me tire daqui! – ela gritou.
Daemon levantou limpando o sangue dos lábios, mas sua expressão era a menos feliz possível. Ele começou a se aproximar e Adel deu um passo pra trás. Ele novamente começou a rir de loucura, frio e assustador. Quando Chrome percebeu Daemon estava no chão, em cima de Adel e segurando o pescoço dela. Lutando para respirar ela se debatia, mas sem conseguir nada.
– Você não deveria ter feito aquilo, Adel querida. Nós, carcamanos, – ele pronunciou a palavra com um leve desdém – gostamos muito de vingança.
Mesmo tremendo pelo medo Chrome tentou ao menos ajudar Adel, mas antes mesmo que pudesse encostar um dedo nele, Daemon a jogou contra a cama, e ela bateu a testa com força na quina de madeira.
Inexplicavelmente não desmaiou, mas sentiu uma dor aguda e rapidamente o sangue quente e pegajoso já escorria sobre seus olhos. Tocou em algo frio e percebeu ser uma garrafa quebrada. A pegou e limpou o sangue dos olhos.
Adel tinha conseguido se soltar, empurrou Daemon e levou as mãos ao pescoço ofegante. Movida por simples impulso do momento, e sem saber como Chrome se viu correndo contra Daemon, o fez cair ao chão e empunhando a garrafa contra seu peito ficou observando os olhos dele e não conseguia decifrar o que ele sentia.
Vendo aqueles olhos vazios, dos quais a fonte de vida já estava a muito morta, Chrome somente sabia que aquele homem conheceria o inferno. Mesmo sem entender o que ela estava fazendo ali, mesmo sem entender quem ele era, mesmo sem entender porque sabia isso.
Certamente também não sabia que a pancada em sua cabeça havia afetado parcialmente sua memória. E possivelmente tudo o que ela se lembrava agora era sua infância e adolescência. Nesse momento ela tinha o único desejo de voltar para Mukuro, e as imagens estranhas e assustadoras que vinham à sua mente lhe eram desconhecidas.
Ele voltou a rir, e hesitando um pouco Chrome afastou momentaneamente garrafa dele, mas depois a voltou para o lugar, porque temia este homem.
– Você não tem coragem não é? Você não tem coragem de matar, nem de me machucar. – ele disse ainda rindo.
Adel tentava dizer qualquer coisa que ninguém ouviu.
As mãos de Chrome tremiam, mas pararam de tremer quando a mão de Daemom as segurou e moveu a garrafa para o próprio pescoço.
– Aqui será muito mais fácil para você. – assustada ela tentou dizer algo, mas sua voz parecia ter morrido. E continuou o fitando, mas mesmo assim ela não conseguia ver nada, nem medo, nem dor, nada. – Faça o que você quiser. Nem mesmo morto no inferno eu poderei ver Elena novamente.
Chrome tão pouco se lembrava da história que Daemon lhe havia dito sobre Elena, mas sua reação seria ainda a mesma. Sentiu as lágrimas aos olhos, abandonou a garrafa e lentamente voltou para onde Adel estava pálida e sem movimentos olhando vidrada toda a cena (não se lembrava dela, mas conseguia supor que ela também estava sofrendo e ficar perto dela lhe parecia melhor). Mesmo sem se lembrar ela pôde estranhamente saber o que era o sentimento dele, e de modo inexplicável ela se sentia exatamente da mesma maneira, podia compreender aquele homem. Mas isso não se tratava de Mukuro.
Não há como dizer por quanto tempo ele permaneceu deitado com o braço por cima dos olhos. Adel se colocou à frente de Chrome como se quisesse demonstrar que seria agora sua vez de enfrentá-lo caso ele continuasse. Não foi preciso.
Daemon de repente se levantou com certa dificuldade e jogou a elas uma chave.
– Vão embora e nunca mais voltem. Esta solidão é somente minha. – a voz dele era meio rouca e talvez todo esse tempo ele estivesse chorando.
Adel abriu a porta rapidamente empurrando Chrome para fora daquele lugar. Antes de ir embora também, lançou um último olhar ao homem no quarto. Parecia querer dizer alguma coisa, mordeu o lábio ao vê-lo encarando-a de volta e então nada disse, fechando a porta atrás de si ao sair.
Ninguém poderá dizer o que aconteceu então com Daemon Spade, ou o significado de seus atos. Mas certamente ele viveu na mais fria solidão, inutilmente esperando algum dia poder rever seu único amor, Elena.
...
Notas finais
E é triste esse final, coitado do Daemom, e sei que muitos vão me odiar muito por fazer a Chrome perder a memória. Eu tenho muita raiva de mim por isso, mas no próximo cap. as coisas serão mais bem explicadas. Eu não acredito que ela esqueceu o Hibari... T^T, mas não totalmente. Os pesadelos a farão nunca esquecer, os pesadelos que pertencem a Hibari e que são dominados por seus sussurros.
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Recomendo→ Liberdade Morta e Flower in the Dark, esta última de minha autoria.
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Erros me avisem.
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