Mova-se quando o sol morrer

Todo mundo está se escondendo dos espantalhos

Todos escondidos

My Chemical Romance

8 de abril de 2006

O clima entre eles estava estranho desde a última caçada no hospício*. Embora Dean e Alicia soubessem que Sam estava afetado pelo espirito quando disse todas aquelas coisas, ambos estavam magoados. O espirito não inventava os sentimentos, afinal. Havia milhões de coisas preocupando os Winchesters e Alicia – o desaparecimento de John, que não tinha dado sinal nem na caçada que os levaram de volta ao Kansas, e o feitiço que estava em Alicia. Eles já tinham discutido isso à exaustão, mas não tinham ideia nem de como começar a investigar um feitiço. Alicia, em segredo, começou a investigar sua própria mãe, mas era como se Rebekah Kavanagh nunca tivesse existido. Não havia informação sobre ela em lugar nenhum.

A situação tinha piorado, claro, quando John Winchester ligou naquela manhã. Sam havia descoberto que ele tinha ligado da Califórnia, e queria procura-lo lá. Dean queria seguir as ordens do pai e investigar um caso em Indiana, e deu ordem expressas para eles pararem de procura-lo. E Alicia... Bem, primeiro queria que os dois irmãos parassem de discutir: Califórnia ou Indiana.

–Silêncio. Os dois. – ela falou, autoritária. – Dean, pare o carro. Agora. Vamos decidir isso ou vamos continuar rodando feito idiotas na estrada.

Dean obedeceu – a voz de Alicia indicava que ela não estava para brincadeiras, e depois, ele também estava cansado de discutir. Ele parou o carro, e os três desceram do carro.

Foi Sam que recomeçou após a interrupção de Alicia.

–Se esse demônio matou mamãe e Jessica, e papai está se aproximando, nós temos que estar lá.

–Papai não quer nossa ajuda.

–Eu não me importo. Nós não temos que fazer sempre o que ele diz. Eu sei que é importante o que ele pediu, mas só estou pedindo uma semana. Para conseguir respostas. Para conseguir vingança.

–Certo, eu entendo como você se sente...

–Você entende? – perguntou Sam, num tom muito agressivo que surpreendo tanto Dean quanto Alicia. – quantos anos você tinha quando mamãe morreu? Quatro? Jess morreu há 6 meses. Como você diz que entende como eu me sinto?

–Sam, cale a boca antes que você fale algo que se arrependa. De novo. – disse Alicia.

–Quer dizer que você concorda com ele? Você simplesmente sempre fez o que quis a vida toda, e agora você decidiu seguir ordens?

–Bem, talvez eu não queira arrumar mais confusão! Talvez eu esteja pensando. Quando é que foi que John deixou nós fora de alguma coisa? Nunca! Eles nos criou nessa vida. Nos ensinou a caçar enquanto nos ensinava a escrever. É a única vez na vida dele que ele não quer nos envolver. Deve haver um bom motivo. Eu não quero morrer, Sam. Eu não quero que ninguém morra. Eu já estive perto o suficiente de morrer para saber que não quero morrer. O que custa nós irmos resolver esse caso em Indiana? John sempre soube o que fazia, mesmo que a gente não entendesse. E como você, eu não entendia. Agora eu entendo.

–Você é inacreditável, Alicia. É pedir muito para uma vez na vida você me apoiar?

–Eu sempre te apoiei! Ah, pare de ser tão egoísta. Nos últimos seis meses, tudo tem sido sobre você. Eu e o Dean fazemos tudo por você. Quando você não conseguia dormir, era eu quem estava ao seu lado. Quando você começou a beber, era Dean que te arrastava dos bares para o quarto e te colocava na cama. Ele passava em todos os bares das cidades te procurando! Você sumia e a gente morria de preocupação que você fizesse alguma besteira! Eu limpava quando você vomitava, eu te dava remédios quando você estava mal.

–Você não é ninguém para me chamar de egoísta, Alicia.

–Bem, agora sou eu quem está chamando. Você é um idiota egoísta. – Dean estava com a expressão dura.

–Eu não entendo essa fé cega que você tem nele. E quer saber? Esse idiota egoísta está indo para a Califórnia.

–-

–Nós realmente fizemos isso? – perguntou Alicia a Dean. Eles tinham passado a maior parte do caminho para Indiana completamente em silencio, e agora estavam quase chegando.

–Sim, nós fizemos. Nós devíamos ter batido nele e amarrado no porta-malas.

–Ele tem quase dois metros de altura. Jesus, eu espero que ele fique bem.

–É, eu também.

–-

Alicia estava fazendo o possível para se concentrar no caso, mas ela só estava presente fisicamente. Parte dela tinha ido embora com Sam para a Califórnia. O tempo todo, ela desejava ter corrido atrás dele. Desejava ter ido embora com ele. Alicia tinha se acostumado a viver sem Sam, mas agora ela tinha descoberto que não queria viver sem ele. Todos aqueles anos, ela tinha plena consciência disso agora, porque cada célula em seu corpo estava dizendo a mesma coisa – ela tinha continuado amando ele, e agora não era diferente. Ela não seria Alicia Kavanagh se não amasse Samuel Winchester.

Se alguma coisa acontecesse a ele, ela jamais se perdoaria. Mais uma para lista de coisas que ela jamais se perdoaria.

As pessoas naquela pequena cidade eram muito estranhas. Eles levavam as fotos do último casal desaparecido, e resolveram fingir ser um casal fazendo a mesma rota que os amigos na tentativa de encontra-los. O casal mais velho disse não se lembrar deles, mas Emily, a sobrinha, comentou que eles passaram por ali.

Dean e Alicia seguiram a direção indicada, para encontrarem um grande pomar. Mas o que mais chamou atenção foi o EMF apitando loucamente. Era claro que havia algo muito errado naquela cidade.

–Olha que coisa horrível – Alicia apontou para o espantalho, e chegou mais perto para ver. – Dean, olhe isso aqui. A tatuagem. Não parece familiar?

Era a mesma tatuagem que Vince, o cara desaparecido, tinha.

–-

Sam finalmente conseguiu chegar até uma rodoviária. O problema era que só havia ônibus para a Califórnia a partir do dia seguinte. Seus pensamentos foram para Alicia. Embora ele estivesse chateado com a briga com Dean, era ter brigado com Alicia que mais incomodava. Desde que deixaram Kansas, as palavras de Missouri continuavam na sua cabeça: vocês ainda vão se casar. Ele não conseguia imaginar uma vida em que ele e Alicia estivessem casados. Não agora. Antes era tudo isso que ele podia pensar. E ele não voltaria a alimentar esse sonho. Ele sabia que a amava como se nunca tivesse parado de amar. Como se nunca tivesse esquecido ela. E isso doía tanto nele, por que onde entrava Jess nisso? Porque ele ainda sentia como se amasse Jessica. Seus sentimentos o deixavam exausto.

Mas agora, ele não queria estar sem Alicia. Ele pegou o celular, procurando pelo número dela.

–Oi. – ele se vira, assustado, para encontrar uma garota que ele tinha encontrado pedido carona. – sou eu de novo.

–O que aconteceu com sua carona? – ela era loira, com cabelos curtos e olhos castanhos. Não era muito bonita, tinha um rosto comum.

–Você estava certo. Aquele cara era um tarado. Eu dei um jeito nele. E ai?

–Apenas tentando chegar na Califórnia.

–Sem chance – falou Meg, extremamente surpresa. – eu também! Mas você sabe, o próximo ônibus só sai amanhã.

–Sim, esse é o problema.

–O que tem na Califórnia que é tão importante?

–Apenas algo que eu estive procurando por um longo tempo.

–Então pode esperar mais um pouco, não? Eu sou Meg.

–Sam.

–-

Sam e Meg resolveram comer num bar próximo a rodoviária. Pediram vários tipos de comidas e cervejas, e estavam numa conversa animada. Sam quase conseguia esquecer Alicia, Dean e Jess.

–Então, você está em uma espécie de férias ou algo do tipo? – perguntou Sam.

–Não, não exatamente – ela dá um sorrisinho. — Eu tive que me afastar da minha família. Você sabe, eu amo meus pais. E sei que eles querem o melhor para mim. Mas eles não se importavam para o que eu queria. Eu deveria ser inteligente, mas não inteligente o suficiente para afastar um marido. – ela dá uma risadinha – eu tinha que me sentar lá e fazer o que minha família queria. Então eu resolvi decidir meu próprio caminho. Sinto muito. Isso não é coisa de se dizer para alguém que eu mal conheço.

–Não, não. Eu entendo você. Lembra do que eu falei antes, sobre meu irmão e a nossa viagem? Bem, ele é mais ou menos assim.

–Então, aqui estamos nós. A comida pode ser ruim e as camas duras, mas pelo menos estamos vivendo nossas próprias vidas. – ela bateu a garrafa de cerveja na de Sam, e ambos beberam.

Mas, quando Meg beijou Sam, ele estava pensando em Alicia.

–-

–O espantalho se moveu? – perguntou Sam intrigado, ao telefone. Meg estava dormindo no chão. Então ele tinha ligado para Alicia. – Mas não matou o casal?

–Eu e Dean achamos que alguma coisa deve estar animando ele. Como um deus pagão.

–Então um deus possui o espantalho...

–E pega seu sacrifício. E por mais um ano, eles tem uma vida segura e confortável. Espere um minuto. Dean quer falar com você.

–Estamos indo para a faculdade mais próxima encontrar um professor. – declarou Dean assim que pegou o telefone – agora que não temos mais você para fazer toda a pesquisa.

–Vocês sabem, se precisarem de ajuda, é só me perguntar.

–Sam, eu quero que você saiba que... Você estava certo. Você tem que seguir seu caminho. Tem que viver a própria vida. Você sempre soube o que quis. Você enfrentou o papai. Eu admiro isso em você, e a Allie, ela também concorda comigo. Nós estamos orgulhosos de você, Sammy.

–Eu nem sei o que dizer.

–Diga que vai se cuidar.

–Eu vou.

–Ligue para mim quando você achar o papai.

–Ok, adeus, Dean. Os dois desligaram o telefone. Sam sente uma profunda tristeza. Não gostava dessa sensação de estar deixando Dean e Allie para trás.

–Quem era? – perguntou Meg, e ele reparou que ela tinha acordado.

–Meu irmão.

–O que ele disse?

–Adeus.

–-

Sam continuou esperando a ligação de Dean ou Alicia para contar sobre o andamento do caso. Não conseguia acreditar em si mesmo. Tinha ido atrás do que ele desejava, e agora lá estava ele, pensando em estar na caçada daquele deus pagão. As horas sem notícias estavam deixando ele nervoso. Quando ele tentou ligar para os celulares e não obteve resposta foi ficando mais incomodado. Alguma coisa estava errada.

–Hey – Meg disse – o ônibus chegou.

–É melhor você pegá-lo. – Meg lançou para Sam um olhar confuso – eu não posso ir. Meu irmão, e uma amiga nossa que está nessa viagem... Eles não atendem o telefone há horas. Tem alguma coisa errada.

–Bem, talvez tenham ficado sem bateria ou sinal.

–Não, tem algo errado. Eles não são assim. Eles estão em problemas. Não posso explicar agora. É melhor você ir vai perder o ônibus.

–Mas eu não entendo. Você vai correr de volta para seu irmão? Por que ele não atendeu o telefone? Sam, venha comigo para a Califórnia.

–Eu sinto muito, mas eu não posso.

–Por quê?

–Eles são minha família.

–-

–Certo, nós temos esse plano. – falou Alicia – assim que nos colocarem no pomar, temos que achar essa árvore e colocar fogo nela, eu acho. Eu me lembro vagamente de uma grande e velha macieira.

–E vai funcionar destruir a árvore? – ele e Alicia estavam presos num velho porão. Sem saída. Prontos para serem sacrificados por aqueles malucos.

–Sim, já lidei com esse tipo de deus pagão antes. O problema é localizar essa árvore a tempo.

–Vai dar tudo certo, Allie. Já saímos de coisa pior, não?

De repente, a porta se abre. Era a hora.

–-

Alguns moradores da cidade amarram Alicia e Dean em duas árvores.

–Quantas pessoas você já matou, xerife? — gritava Dean – quanto sangue há em suas mãos?

–Nós não os matamos.

–Mas encobertam o assassinato – argumento Alicia – quantos carros já esconderam, quantas roupas já enterraram?

Os habitantes se retiram sem dizer mais nada.

–Ele já está se movendo? – perguntou Dean.

–Eu não consigo ver. E quer saber, nosso plano é uma merda. Eu não consigo me soltar!

–Eu estou vendo algo vindo para cá.

–SAM! – grita Alicia, quando o vê correndo para desamarrá-los. – como chegou aqui?

–Eu roubei um carro – ele dá um sorriso sem graça

–Esse é meu garoto! Vamos, temos que achar um espantalho. – falou Dean, sorridente.

Os três se separaram em busca do espantalho. Mas havia outro problema. Os habitantes da cidade continuavam espalhados pelo pomar, tentando captura-los.

Alicia se viu encurralada entre o espantalho e a esposa do dono do posto de gasolina e restaurante local. Ela não conseguiria escapar – a última coisa que lembrava é do terrível espantalho pulando em cima dela, e do grito preso em sua garganta. Depois, escuridão.

–-

Ela acordou com uma dor de cabeça terrível. Sentia uma pontada no abdômen também. Abriu os olhos, o quarto estava numa semiescuridão. Pela luz que transpassava a cortina, parecia que o sol estava se pondo. Alguém havia enfaixado o machucado feito pela criatura, e também trocado suas roupas. Era claro que era um quarto de motel. Seus olhos o percorram. Sam estava dormindo numa cadeira ao lado da cama dela, numa posição torta.

–Sammy? – ela chamou, e ele abriu os olhos, acordando repentinamente.

–Allie – ele se debruçou na cama dela, os olhos verdes cheio de preocupação ao observar o rosto dela – você está bem?

–Já estive melhor – ela respondeu – o que aconteceu?

–Eu tirei aquela criatura de cima de você no último instante... E Dean incendiou a arvore.

–É, onde está Dean?

–Ele foi buscar alguma coisa para comermos. Saímos correndo da cidade. – ele pareceu sem graça – tivemos que tirar sua roupa.

–Está tudo bem – ela respondeu. Do que valia o incomodo se ela estava morrendo? – isso porque eu disse a você que não queria morrer. E de novo, eu quase morri. Talvez eu devesse ter ido para Califórnia.

–Falando nisso... Eu queria dizer que eu sinto muito. Mamãe e Jess... Elas estão mortas. E papai, bem, só Deus sabe onde ele está. Eu, você e Dean, é tudo o que restou. E eu acho que devemos permanecer juntos.

–Bem, isso é uma mudança e tanto.

–Vocês estavam certos. Eu estava sendo egoísta. E idiota. Allie, eu quero que você saiba que eu sei que eu não teria sobrevivido a tudo isso se não fosse por você e Dean.

–Ok, já chega. Isso está ficando sentimental demais e minha cabeça está doendo muito – ela riu, tentando descontrair a situação. A última coisa que ela queria era conversar com Sam sobre sentimentos.

–Sua cabeça está doendo? – Os olhos dele se arregalaram de preocupação – mas isso não faz sentido. Nada aconteceu com sua cabeça.

Alicia sentiu uma pontada no coração. Ah não. Prestando atenção, se ela ignorasse a dor intensa na região abdominal direita, poderia sentir seu estomago se revirando. De novo não.

–Sam, eu acho que não estou me sentindo muito bem... – ela falou.

–O que? – ele se levantou num pulo, se aproximando dela e o observando o rosto dela atentamente – O que está acontecendo?

A expressão preocupada transformou-se rapidamente em uma expressão assustada.

–O que? – ela perguntou, vendo uma mascara de medo surgir no rosto de Sam.

–Nada. Eu só tive uma impressão, era só isso. – Sam pensou ter visto os olhos de Alicia se escurecessem – não totalmente negros como os de um demônio, mas toda a íris, normalmente verde, ficar negra. Ele estava criando coragem para contar a ela o que Missouri tinha dito, mas agora não tinha mais certeza se queria dividir a informação. Então, ela se virou para o lado oposto ao que ele estava, e vomitou.

Notas finais
*1x10 - Asylum. Esse capítulo é baseado no episódio 1x11 - Scarecrow.