Night of the Hunter
7 1x07 - La Hija del Diablo
Notas iniciais

Aqui estou, indefeso e deixado para morrer
Fecho os olhos,
Muitos dias se vão
Fácil encontrar o que é errado
Difícil encontrar o que é certo
Eu acredito em você
Eu posso te mostrar que
Eu posso ver através de todas suas mentiras vazias
Eu não ficarei muito tempo nesse mundo tão errado
Diga adeus,
Enquanto nós dançamos com o diabo esta noite
Não ouse olha-lo nos olhos
Enquanto nós dançamos com o diabo esta noite
Breaking Benjamin
Cidade do México, 14 de abril de 2005.
O sol estava fritando sua cabeça. A rua era uma confusão de moradores e turistas tirando fotos. Alicia estava encostada na parede de uma velha casa, um cigarro aceso na mão. Era sexta-feira santa, e a Catedral Metropolitana da Cidade do México estava formigando de fiéis. Ela observa atentamente, procurando um sinal de qualquer coisa. Há algumas semanas atrás, ela tinha encontrado uma velha amiga, Mariana, na Bolívia. Ela estava envolvida com um caso muito complexo com deuses incas, mas tinha sido informada sobre um possível ataque de demônios a Catedral na sexta-feira santa. Então Alicia tinha vindo para o México. Ela sempre quis conhecer o México.
O ar estava seco, tornando difícil respirar. Certo, talvez o cigarro não colaborasse. Ela o apagou na parede e o jogou no chão. De repente, percebeu que fazia muito tempo que não estava tão perto de casa. De Sam e Dean, e de John.
Alicia rapidamente afastou o pensamento, como sempre fazia. Redobrou a atenção para a movimentação em frente à Catedral, tentando encontrar algum movimento suspeito.
Atravessou a rua, desviando-se das pessoas. Parou à entrada da catedral. A missa estava no inicio, aparentemente, embora não entendesse nada do que estava sendo dito. Ela parou na entrada, onde tinha um grande mapa da catedral. Cinco naves principais e 16 capelas menores, 14 abertas para a visitação. Naquele momento, uma missa começava em cada uma delas. Havia ainda uma cripta. Nas paredes, havia imagens em mármore branco retratando o que parecia ser a assunção da Virgem Maria.
Fugindo do fluxo principal, ela virou na direção que a placa indicava ser a cripta. Havia outro aviso do lado dizendo que a cripta estava fechada para a visitação, mas ela ignorou.
Quase suspirou de alivio quando entrou no corredor subterrâneo que levava as criptas. Estava fresco e silencioso, diferente de toda a confusão lá fora. Mas o alivio durou pouco, pois lá embaixo era um pouco sinistro. Iluminado apenas por grandes velas, e os arcos se encurvam sobre sua cabeça de maneira opressora. A cripta ainda tinha características do templo pagão sob o qual a igreja havia sido construída.
O que eu estou fazendo aqui? Pensou Alicia, cruzando os braços em volta do seu tronco. Era um caso sem ser um caso, uma dica que não estava levando a lugar nenhum. Mas ela não conseguia se obrigar a voltar, algo dentro dela queria chegar ao fim do corredor.
Para sua decepção, estava tudo vazio – apenas dezenas de túmulos com nomes de padres e outras coisas assim. Seus olhos, no entanto, continuavam procurando por alguma coisa. Qualquer coisa. Conforme sua visão se acostumava com a luz fraca, percebeu que havia desenhos fracos e apagados em uma das paredes. Passou a mão em uma delas, com a intenção de tocar os desenhos.
Uma grossa camada de poeira e terra se levantou, e Alicia espirrou forte. Mas, percebeu assustada, que a assim que tirou a poeira, os desenhos apareciam. Com determinação, começou a passar a mão em toda a região da parede. Logo ela estava coberta de terra e poeira, e seus espirros estavam cada vez mais intensos, mas a curiosidade que a movia era grande demais.
O desenho ocupava toda a parede da cripta, mas testando a “limpeza” em outros locais, percebeu que não seria tão fácil remover a camada de sujeira. Por algum motivo, naquele ponto da parede, a camada estava menos grossa e menos aderida.
Passou horas trabalhando naquilo, por fim descobrindo a frase, escrita em uma letra cursiva e floreada: “La Reina de Los Siete Reinos”. Não tinha ideia do que aquilo significa, mas notou que logo abaixo havia um rosto. Suas mãos coçavam horrivelmente do contato com aquela coisa imunda, mas ela não conseguia parar.
Quando o rosto foi descoberto, ela deu um berro, que ecoou assustadoramente por toda a cripta. Pegou o celular no bolso e usou ele para iluminar, para ter certeza que estava vendo claramente, mas estava lá. Não dava para negar. O rosto parecia exatamente com o dela. Percebeu que agora estava tremendo, encarando o próprio rosto desenhado na pedra, em tamanho real.
Ouviu passos, e antes que pudesse sequer pensar em se esconder, uma voz masculina se fez presente.
–Hola? Quién está ahí?
Alicia ficou em silêncio. Em questões de segundo, um velho padre, vestido com uma batina negra, entrou no seu campo de visão. Tinha um vasto cabelo muito branco, uma pele envelhecida, e olhos azuis muito claros. Apesar de ser claramente idoso, não parecia de fato velho, parecia forte e transmitir luz. Seus olhos se arregalaram, olhando chocado do desenho exposto para Alicia. Começou a sussurrar algo que soou muito como uma oração. Fez vários sinais da cruz. Alicia olhava para ele, sem conseguir ter alguma reação.
–Hija del diablo – disse o padre, assustando Alicia, pois agora ele falava claramente para ela – pecado de los ángeles. Ele aumentou o tom de voz e continuou, murmurando uma palavra atrás da outra em espanhol, misturando com orações.
–Vaya, vaya, vaya. I excomulgo criatura inmunda.
–Eu sinto muito – Alicia interrompeu as orações frenéticas do padre.
E num surto de pânico, simplesmente disparou a correr, passando voando pelo padre. Saiu sobre gritos de “Hija del diablo, pecado de los ángeles”. Alicia fugiu da catedral. Por onde passava correndo, as pessoas olhavam para ela, pois além de estar correndo muito, estava coberta de terra e poeira.
Só parou quando chegou ao seu hotel, abriu a porta do quarto e caiu sentada, chorando apavorada, as lagrimas caindo em seu colo, soluçando muito. Não se lembrava de se sentir tão assustada na vida. Chorava desesperada, abraçada aos próximos joelhos. Quando o choro foi secando, conseguiu ritmar sua respiração novamente. La hija del diablo. Isso era muito claro o que significava. Mas o que aquele padre maluco quis dizer com “Pecado de los ángeles?”. tinha a sensação que ele não estava se referindo à cidade.
Correu para o computador e finalmente percebeu o quanto estava suja. Teria que tomar um banho primeiro antes de tocar em qualquer coisa. Jogando as roupas no chão do chuveiro, abriu a ducha e se enfiou embaixo d’água, deixando a água cair em seu corpo cansado. Assim que a sujeira saiu das suas mãos, percebeu que suas mãos estavam extremamente avermelhadas e coçando, assim como parte do braço. Todas as suas unhas tinham quebrado.
Saiu do banheiro enrolada numa toalha, ainda assustada. Pela janela, via-se um grande por do sol vermelho. Ela tinha passado o dia todo naquela cripta. Parecia que tinha entrado em transe.
O quarto do hotel tinha um pequeno frigobar – em cidades turísticas, era muito mais fácil encontrar hotéis bons e baratos e não motéis caindo aos pedaços. Ela abriu, escolhendo um sanduiche de frango, um refrigerante e uma grande barra de KitKaty.
Depois de ter comido, ela finalmente estava calma para trabalhar. Procurando no computador, logo tinha a tradução das frases – a escrita e o que o padre tinha falado.
“Filha do demônio, pecado dos anjos”. Isso quase fazia sentido, embora não soubesse o que anjos teriam a ver com a situação dela. Talvez fosse uma força de expressão.
“A rainha dos sete reinos” era o que estava escrito a frase. Bem, isso ela não tinha ideia do que significava. Mas ela precisava descobrir porque seu rosto estava naquela cripta velha. A Catedral Metropolitana da Cidade do México tinha sido inaugurada em 1813, mas o inicio da construção era em 1573. Aqueles desenhos eram claramente muito antigos.
Só restava uma solução, e claro, era a última coisa que Alicia queria fazer: voltar aquela cripta antiga. Ela só precisava fazer mais algumas pesquisas antes.
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Entrar naquele na catedral tinha sido tão fácil que Alicia devia ter ficado desconfiada, mas ela achou que talvez eles só fossem negligentes. Quero dizer, quem é que quereria invadir uma igreja velha?
O corredor que levava a cripta estava ainda mais tenebroso do era durante o dia. Ela caminhou, seus passos ecoando na escuridão. Tinha vindo prevenida dessa vez, levando vários pinceis e outras coisas que ela pensou em ser útil para remover aquela sujeira. Mas sem nenhum produto de limpeza, pois não podia arriscar danificar o desenho. Também tinha com ela uma lanterna muito potente.
A cripta estava da maneira que ela se lembrava – iluminada por velas longas e brancas. O desenho ainda estava lá, seu rosto, e a frase em cima. Com um pincel fofo, ela começou a fazer a limpeza de forma mais eficiente, revelando que a mulher desenhada era realmente ela, em detalhes fieis. Era a coisa mais bizarra que Alicia já tinha visto na vida, sua mente não parava de pensar. Aquilo era uma pegadinha de Mariana? Nenhum demônio havia atacado a igreja, afinal. Talvez ela devesse ligar para Mariana e pedir explicações.
Alicia deu um berro gigante quando alguma coisa a agarrou pela cintura. Com habilidade, qualquer coisa que seja enfiou um lenço na sua boca; ela sentiu a forte dor de uma pancada na cabeça, e em seguida, escuridão.
Quando abriu os olhos, ainda estava na mesma cripta, deitada no centro de um circulo de velas. Ela não estava amarrada, o que era um alívio. Ou um mau sinal. Olhando para ela, estava o padre que tinha encontrado mais cedo, dessa vez falando num inglês carregado de sotaque espanhol.
–Eu sabia que você voltaria.
–O que é você? – ela perguntou, o coração batendo com força no peito. Ela se sentia confusa e cansada, e sua cabeça parecia explodir.
O padre não respondeu. Olhando daquela maneira novamente, parecia ver além de Alicia.
–Você demorou tempo demais para acordar. Está quase amanhecendo. Se amanhecer, não poderia fazer mais nada.
Alicia tentou se sentar, mas um forte enjoo a acometeu. Se sentiu tonta e deitou novamente.
–O efeito do que eu te dei também está passando. Isso pode ser um problema. – ela inspirou fundo. De fato, nunca teve tanto medo na vida. De repente, percebeu que não havia escapatória – ela ia morrer. – tenho que trabalhar logo.
Da batina, ele retirou uma longa faca prateada, lotada de símbolos e letras estranhas. Levantou a blusa de Alicia, e começou a traçar desenhos com a ponta da faca. Ela gemia de dor a cada corte, sua respiração ficando cada vez mais difícil. Depois de ter terminado a sua obra de arte, ele voltou, enfiando a faca mais a fundo em alguns pontos.
–Sinto muito, mas quem não é filho de Deus, deve morrer. – falou o padre assombrosamente. – que Deus tenha piedade de tua alma, se é que você recebeu uma. Acho que logo estará terminado, você não precisa de mais nada.
Alicia se sentia paralisada pela dor e pelo medo, mas estava com a mente cada vez mais clara. Talvez o efeito da droga estivesse passando. Começou a sentir a adrenalina pulsando em suas veias. Se continuasse se fingindo de drogada, quase morta, talvez houvesse uma oportunidade. Uma coisa ela sabia: não queria morrer.
O padre psicopata estava indo embora sem olhar para trás. Alicia se pegou rezando para algum deus, qualquer um que a ouvisse, impedi-lo de trancar a porta. Ela se sentou, com a sensação que seu corpo se partia ao meio. Sabia que a descarga de adrenalina que sentia estava cumprindo seu papel e aliviando a dor, correr ou lutar, ignorar os ferimentos para ter a chance de viver.
Alicia jamais soube como chegou ao hall da igreja. A última coisa que se lembrar é de desmaiar, aos pés das freiras que começavam o dia limpando a catedral.
–-
Alicia abriu os olhos parecem pesados. Todo seu corpo estava pesado. As últimas memórias voltaram rapidamente na sua cabeça. Ela estava viva? Ou isso era a morte? Onde ela estava?
–Hey, ella está despierta – um grito estridente de mulher anunciou. Alicia não conseguia enxergar direito, havia algo de errado com seus olhos, ela tinha certeza. De repente, um monte de médicos e enfermeiras de branco estavam em volta da sua cama, falando mil coisas em espanhol e tocando, medindo Alicia.
–Que dia é hoje? – ela perguntou, confusa.
Uma outra enfermeira respondeu, falando em inglês.
–2 de maio. Você sabe onde está?
–2 de maio? – falou Alicia, a cabeça doendo muito. Onde ela estava? – hoje é aniversário do Sam.
E em seguida ela fechou os olhos, para não abrir mais tão cedo.
–-
O processo de recuperação foi longo e doloroso. O psicótico do padre havia atingido seus órgãos abdominais de maneira que ela morresse lentamente; nenhuma grande artéria ou veia havia sido atingida, mas quando ela chegou ao hospital já estava em choque hipovolêmico*. Alicia estava sempre fraca, e depois que acordou, permaneceu em coma até o meio de maio. Um mês no total. Ela teve que voltar a comer lentamente – teve o estomago e várias partes do intestino perfuradas.
No inicio, alimentou um ódio mortal do padre que fizera isso com ela. “Quem não é filho de Deus tem que morrer”, bem, então assim que ela saísse dali, ela mataria o padre. O ódio a consumia e mantinha acordada a noite, e também lhe dava forças para continuar.
Com o passar dos dias, no entanto, a raiva foi sendo substituída por uma triste profunda. Fora os médicos e enfermeiros, ela passava os dias solitária naquele hospital, sendo torturada por dores horríveis e a pesada solidão. Cada vez que alguém perguntava por familiares e amigos, ou por que ninguém a visitava, aquilo a rasgava por dentro.
Alicia tinha feito uma escolha, mas agora a escolha estava a assombrando. Teve horas e dias vazios para revisar toda sua vida até ali – ultimamente um ciclo de caçadas atrás do outros, uma fuga atrás da outra, viajando sempre, uma vida regada à álcool, cigarro e sexo com estranhos. Então era isso, ela tinha se tornado o que mais temia se tornar?
Chegou um momento que a tristeza e a solidão se tornaram tão profundas que ela desistiu. Passou alguns dias se recusando a comer, se levantar, a tomar banho. A única coisa que sentia era aquela solidão avassaladora. Talvez o fato que fazia anos que ela não parava para pensar na própria vida – ela se mantinha ocupada sempre. Mas agora que pensava, estava quebrando ela em mil pedaços. Alicia não tinha ninguém, ninguém que se importava se ela estava viva ou morta, e de fato, ela nunca esteve tão perto da morte.
Os médicos lhe mandaram um psiquiatra a ver todo o dia. E ela nem podia contar a verdade para ele, pois sua vida era maluca demais. Acabou contando que cresceu numa família adotiva, mas largou tudo para tentar encontrar o pai no exterior. Tinha sido uma decepção, e então hoje ela trabalhava viajando o mundo como jornalista e contribuindo para vários jornais, revistas e livros ao redor do mundo, fazendo pesquisa essas coisas. Numa crise muito louca, ela acabou contando até mesmo sobre seu relacionamento complicado com Sam. Chorando, ela ainda confessou que o amava ainda. Mas isso era tão instável, assim como o humor de Alicia tinha se tornado em algo instável. As vezes ela tinha esperança, as vezes ela perdia a vontade de viver.
O psiquiatra recomendou que ela procurasse a família adotiva assim que saísse do hospital. Foi o que ela fez. Ela fez duas promessas: não se tornaria mais aquilo que mais temia, e por isso não matou o padre.
A segunda promessa foi de nunca mais mencionar o que aconteceu naquela noite. Ninguém jamais saberia, dos desenhos, da frase, do padre. Ela iria enterrar isso, esquecer e seguir em frente, e tentaria construir uma vida ao lado de John, Dean e Sam.
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