Antes da vida e do sonho colidirem

Porque a verdade vai vir e me cortar em pedaços

E você não pode escapar da onda

The Killers

Dean os colocou a par do caso que John estivera investigando antes de desaparecer. Era sobre desaparecimentos de homens, de diversas idades, num mesmo trecho de estrada, em Jericho.

O resto da viagem foi feita em silencio. Dean colocou suas músicas “rock do tempo da mullet”, segundo Sam. Parecia que nenhum dos três sabia o que dizer.

Sam não conseguia acreditar em si mesmo. Ele tinha jurado que nunca mais ia caçar e agora, bem ali na véspera do dia mais importante da vida dele, ele tinha largado Jess e tudo o mais para procurar o pai. Mesmo que o pai tivesse dito a ele para que se fosse embora, nunca mais voltasse, ele ainda se preocupava com o pai.

No fundo, Sam achava que ele ia aparecer cedo ou tarde. O que tinha pego de surpresa foi Dean aparecer na sua casa – deu uma impressão que Dean realmente achava que era sério. Mas nada disso foi o que fez Sam concordar em ir. Não, no fundo ele sabia que a responsável por ele estar ali era Alicia, claro.

No momento em que a viu, Sam sentiu medo de todos aqueles velhos sentimentos. Mas logo passou e ele percebeu que já não a amava mais, que ela era apenas uma estranha. Mas curiosamente, ela ainda tinha convencido ele a vir. E ela nem tinha tentado.

Alicia tinha passado a maior parte da viagem olhando pela janela. Estava exausta. Conseguia perceber Sam a observando pelo espelho retrovisor, mas não sabia o que poderia significar. Ela não tinha certeza do que sentia por ele agora. Tudo estava muito estranho. Durante anos, ela alimentou a fantasia que Sam estaria esperando por ela. Mas o Sam da sua imaginação era justamente isso – imaginário, e não tinha nada a ver com o Sam real que estava ali. A distância e o tempo tinham feito ela criar muita coisa que não era ele.

Sam queria uma carreira segura, provavelmente desejava se casar com Jessica. Alicia nunca pensava no futuro, mas olhando pela janela do carro, era seu futuro que imaginava e não importava por onde olhasse, não era bonito.

Chegando na cidade de Jericho umas sete horas da manhã. Iam entrando na cidade quando deram de cara com uma ponte, com vários carros de policia. Dean abriu o porta luvas e pegou um distintivo falso, e se aproximou dos policias.

–Quem são vocês? – perguntou o homem.

–Somos Hunt e Donavan, agentes federais. E é essa Hailey, nossa perita.

–Vocês são um pouco jovens para serem agentes federais, não?

–É muito gentil da sua parte. – disse Dean. – você teve recentemente outro caso como esse, não?

–Sim. Há alguns metros daqui apenas.

–E a vitima, você a conhecia? – perguntou Sam.

–Cidade pequena. Todo mundo conhece todo mundo.

–O que vocês podem dizer sobre o caso? – perguntou Alicia.

–Todas as vitimas são homens, mas essa é a única ligação entre eles. Não temos ideia do que possa ser, ciclo de sequestro, um assassino em série?

–Esse é o tipo exato de trabalho de merda que eu espero de um policial como você. – falou Dean, zangado.

Sam e Alicia arrastaram ele para longe dali, antes que ele ficasse mais nervoso.

Passaram o resto do dia rodando pela cidade e investigando. Conversaram com Amy, a namorada de Troy, o último desaparecido. Ela contou sobre a lenda local da Mulher de Branco. Pesquisando na biblioteca, descobriram que os fantasmas de mulheres de branco surgem após uma mulher ser traída pelo marido, e matar os próprios filhos, enlouquecida pela dor, e em seguida se matar. Acabaram por descobrir uma história assim na cidade: Constance. Mas apesar de avançaram nesse caso, não avançaram em nada na busca por John.

Estavam saindo da biblioteca; ainda não tinha decidido qual seria o próximo passo.

–Gente – falou Alicia – eu estou com a mesma roupa há dois dias. Vamos achar algum lugar, comer alguma coisa. Trabalhamos demais hoje e eu estou precisando de um banho.

Sam e Dean concordaram. A pedidos de Dean, foram a um restaurante primeiro. Eles pediram o lanche.

–Então – falou Sam, enquanto comiam – vocês acham que papai esteve por aqui?

–Sim – respondeu Alicia – ele estava investigando essa história e nós estamos investigando o desaparecimento dele.

–OK, e agora o que? – falou Sam.

–Agora continuaremos investigando até encontra-lo. Pode demorar um pouco. – respondeu Dean. Alicia percebeu na hora que Sam ficou tenso.

–Dean, eu disse a vocês. Tenho que estar de volta até segunda-feira, por causa da entrevista.

–Segunda. A entrevista. Claro.

–Sim.

–Sim, eu esqueci. Você está certo sobre isso, não? Você acha que vai se tornar um advogado qualquer, se casar com a sua namorada? Ela ao menos sabe a verdade sobre você?

–Não. E nem vai saber.

–Ah, isso é realmente um relacionamento saudável, Sammy. Mas cedo ou tarde, você terá que encarar quem você é realmente.

–Ah é? E quem eu seria?

–Um de nós.

–Não. Eu não sou como vocês. Essa não vai ser a minha vida.

Dean abriu a boca para responder, mas Alicia interrompeu:

–Já chega. Os dois. Essa discussão é inútil. Todo mundo aqui já a ouviu antes. Dean, deixe Sam fazer as suas próprias escolhas. Vamos embora daqui. Eu realmente quero tomar banho.

Dean se levantou sem dizer uma palavra e foi andando para a porta. Sam por fim disse a Alicia:

–Obrigado. – ele segurou o braço dela.

–Sam, por favor. Você sabe que eu penso como Dean. Tem coisas que não tem como fugir. E o fato de você mentir para a Jessica... Você nem ao mesmo falou sobre mim para ela.

–Não fale sobre Jessica – ele soltou o braço dela – você não sabe nada.

–Você está certo. Eu não sei nada. Vamos embora daqui. – ela falou. Sam percebeu que tinha sido grosso e Alicia tinha ficado chateada com ele, mas a principio, ele fica puto da vida com Alicia e Dean por ficarem insistindo que ele era um caçador e morreria assim. Nenhum dos dois tinha o direito de exigir que ele voltasse às caçadas.

Havia um único motel na cidade, Lobby. Eles entraram na recepção – Dean e Alicia não estavam falando com Sam, e Sam não estava falando com Dean e Alicia. Dean entregou o cartão de crédito com o nome Hector Aframian para o cara da recepção.

–Um quarto, por favor.

–Vocês estão fazendo uma reunião, ou coisa assim? – perguntou o cara da recepção. – esse cara, Burt Aframian. Ele pagou um quarto para o mês todo.

Os três abriram o quarto de John. Tinha 3 camas, as 3 ocupadas por bagunça. Havia recortes de jornal em todo o lugar, embalagens de comida e muita coisa sobrenatural. Havia sal grosso e plantas de proteção nas portas e janelas.

Estava claro que John não vinha ali há pelo menos uma semana, e que também estava preocupado, tentando impedir que alguma coisa entrasse no quarto.

–Papai nunca abandonaria um caso no meio – Dean foi o primeiro a falar. – o que será que o tirou daqui?

–Eu não sei – respondeu Alicia. – mas acho que devemos concluir o caso então.

Ela olhava as imagens.

–Aqui não diz onde ela foi enterrada, acho que devemos perguntar ao marido. Mas amanhã. Acho que por enquanto isso pode esperar.

Ela pegou algumas roupas da própria mala e disse:

–Estou indo tomar banho.

Assim que ela saiu, secando o cabelo com a tolha, Dean ocupou o banheiro rapidamente. Ela empurrou uma papelada de cima de uma das camas e se sentou. Percebeu que Sam a encarava.

–O que foi?

–Você sabe – ele disse, parecendo triste – que eu nunca percebi algumas coisas sobre você. Eu costumava sonhar em largar essa vida, e eu queria que você fosse comigo. Pensava que se eu entrasse para a faculdade, isso tornaria mais fácil para você conseguir entrar lá também. Mas você nunca quis isso.

–Sam, o que te fez pensar que eu queria ir para a faculdade? Eu odiava a escola. Você sabe muito bem como eu passei meus anos de ensino médio. – Alicia sorriu com a lembrança – você lembra?

Sam também sorriu.

–Em todas as escolas que íamos, você inventava de roubar o namorado da garota mais popular. E quando as garotas populares queriam te bater, era eu quem te salvava.

–É, você era bom nisso. – ela riu, e Sam riu também – mas eu não dava a mínima para estudar.

–Você sempre tirou notas boas.

–É, mas sinceramente, eu não sei como.

–Eu acho que me enganei sobre você. E acho que esperei demais de você, mas vejo que... Se o que você sempre quis foi viajar pelo mundo caçando, se você tem certeza que essa era a vida que você queria, eu agora entendo por que você foi embora.

–Ah é? – a conversa tinha voltado a ser séria de repente, Alicia nem sabia como.

–É. Nunca daria certo entre nós.

Então Sam simplesmente se levantou e saiu do quarto, com o celular na mão.