Night of the Hunter

2 1x02 - We Need You


E de alguma maneira eu fui

pego entre

Entre meu orgulho e minha promessa

Entre minhas mentiras

E como a verdade

Entra no caminho

As coisas que eu quero dizer para você

Se perdem antes de sair

A única coisa pior

que um é nenhum

Linkin Park

Eles partiram, em alta velocidade, rumo a Stanford. Alicia sentia-se muito orgulhosa por Sam ter conseguido realizar seus sonhos. Mas ficava triste em saber que ele rompera o contato com a família – mesmo que soubesse que isso era em parte culpa de John. Ela respirou fundo. John provavelmente estaria furioso com ela. Ele sempre quis manter a família unida.

Há muito tempo “família” tinha deixado de fazer sentido na cabeça de Alicia. Ela nunca sentiu que era Winchester, embora até uns 10 anos de idade gostasse de fantasiar que se chamava Alicia Winchester. Odiava o sobrenome diferente. Sabia que John a considerava uma filha. Sempre dizia que ela tinha um talento natural para caçadas.

John tinha sido contra Alicia descobrir quem era os Kavanagh. Ele sabia a verdade, ou apenas queria que eu fosse apenas a filha dele? Ela perguntaria a ele, se ela e Dean conseguisse encontra-lo.

Alicia e Dean não se calaram um segundo durante a viagem de carro. Ela não conseguia parar de contar todos os anos, as caçadas, os países, os rituais. A magia negra e os seres que Dean jamais imaginaria que existiam. Era isso que ela e Dean tinham em comum: o amor pela caçada.

E ele tinha também casos, histórias insanas. Mas era doloroso para Alicia ver o quanto ele sentia a falta de Sam. O quanto tinha sido difícil para ele ficar sozinho, agora que ele e John caçavam separados. Dean também considerava a família importantíssima.

Seriam apenas ela e Dean dali para frente, se Sam se recusasse a vir procurar o pai? Ela temia que fosse justamente esse o desejo de Sam.

–Você sabe o endereço de Sam? – perguntou ela.

–Sei... Eu já vim aqui algumas vezes, ver como ele estava. Mas nunca falei com ele.

Alicia engoliu a vontade de perguntar como Sam estava. Conforme as horas de viagem passavam, ela ficava cada vez mais nervosa com a possibilidade de encontra-lo.

1 de novembro de 2005, Palo Alo, Califórnia, entre 1h e 2h da madrugada.

O apartamento de Sam era agradável. Mas para Alicia, não havia nada que a lembrasse de Sam lá. Ele tinha ido embora e se transformado em alguém diferente. Sam Winchester, aluno de Stanford, era muito diferente do Sammy dela.

Os olhos dela foram se acostumando ao escuro. Havia alguma coisa no apartamento que indicava uma presença feminina... Seus pensamentos foram interrompidos quando Dean foi atacado por alguém. Mesmo na escuridão, ela sabia que devia ser Sam. O coração de Alicia batia forte. Mesmo depois de tanto tempo, ainda haveria sentimentos?

–Dean? O que você está fazendo aqui? – Sam disse.

–Bem, eu estava procurando por uma cerveja.

Ele olhou por cima do ombro de Dean, finalmente percebendo que havia outra pessoa lá. Ele franziu os olhos, tentando encher na escuridão.

–Não pode ser... Alicia? O que inferno vocês dois estão fazendo aqui? E ela? Eu pensei que ela estava morta.

–Oi, Sam. – falou Alicia.

A luz se acendeu de repente.

–Sam? – falou uma voz de mulher – o que está acontecendo?

–Jess... Dean, Alicia, essa é Jessica, minha namorada.

Mas é claro que Sam tinha uma namorada.

–Dean? – repetiu Jess confusa. – seu irmão Dean?

–É, e Alicia, ela é, hm, uma amiga de infância.

–É muito bom conhecer você – falou Dean, e Alicia riu internamente com o sorriso sacana. Jessica usava apenas um pijama mínimo dos Smurfs. – mas eu e Allie temos que sequestrar seu namorado por um tempinho, para conversar sobre alguns assuntos de família, ok?

–Não – disse Sam, passando o braço em volta de Jess. – qualquer coisa que vocês queiram dizer, podem dizer na frente dela.

–Ok – fez Dean – hm, papai não volta para casa há alguns dias.

A expressão de Sam ficou mais tensa, se é que isso era possível.

–E dai? Isso já aconteceu antes. Ele provavelmente está trabalhando demais e vai estar de volta logo.

–Papai está numa caçada e não vem para casa há alguns dias. – repetiu Dean.

–Com licença, Jess – falou Sam, e Alicia reparou na hora que ele estava tentando manter a expressão neutra – precisamos ir conversar lá fora.

A lua brilhava de maneira quase sinistra. Alicia se encostou na parede e cruzou os braços. Ela tinha imaginado mil e um reencontros com Sam, mas nenhum era dessa maneira, carregado de indiferença. Uma amiga de infância. Será possível que Sam nunca tivesse falado de Alicia para namorada? Eles cresceram juntos, pelo amor de Deus.

–Vocês dois – disse Sam, quando apareceu, agora vestido – não podem aparecer no meio da noite e esperar que eu vá numa caçada com vocês. E por que você não ligou?

–Se eu ligasse, você teria atendido? – falou Dean – agora...

–E Alicia, você desapareceu há cinco anos. Eu não sei nem de onde você veio!

–Eu voltei. Há um mês. Encontrei com Dean há algumas horas. Foi meio difícil encontrar vocês.

–Foi impossível achar você. Onde é que você esteve?

–Eu estive viajando pelo mundo. Eu sei. Eu fui irresponsável, e egoísta, e estupida, mas isso tudo é uma longa história, Sam. Isso aqui não é sobre mim. Deixe Dean falar. Se tivermos tempo, e se você quiser saber, eu posso te contar qualquer coisa que você queira. Mas agora não é o momento.

Sam cruzou os braços, irritado. O problema de não enterrar bem o passado, é que os esqueletos tem uma tendência a aparecer em seu apartamento as duas da madrugada. E agora estava ali, Alicia, parecendo muito adulta e misteriosa, como se tivesse visto e feito coisas que até Deus duvidava. O que conhecendo ela, provavelmente era verdade. Mas ela, e Dean também, não podiam esperar que ele largasse sua casa, Jessica e sua vida, sua entrevista para a faculdade de direito e voltasse para aquela vida.

–Você vai vir com a gente ou não? – perguntou Dean.

–Não.

–Por quê?

–Eu jurei que nunca mais caçaria. E papai, bem, Dean, ele já sumiu antes.

–Não por tanto tempo. Dessa vez é diferente. Tem alguma coisa errada, eu posso sentir... Alicia mencionou isso também, a atividade sobrenatural está mais estranha que o normal. E não podemos fazer isso sem você.

–Vocês podem.

–Podemos, mas não queremos. – falou Alicia, e apesar de toda a magoa que ainda sentia, Sam sabia que ela estava sendo sincera.

Ele suspirou fundo. Sabia que não ia conseguir negar. Uma parte dele sentia falta demais dos dois.

–Tudo bem, mas preciso estar de volta até segunda-feira.

–Por quê?

–Tenho uma entrevista.

–De emprego? Falte.

–Não, é uma entrevista para a faculdade de direito – falou Sam, e Alicia percebeu que ele hesitava em compartilhar a informação – é todo meu futuro numa balança, e é muito, muito importante. Segunda-feira.

Dean parecia incomodado, mas Alicia então concordou.

–OK, nós te sequestramos e te devolvemos no máximo até domingo a noite, para você poder se preparar em paz para isso, certo?

Sam conseguiu sorrir para ela. Depois de tanto tempo, de alguma maneira, ela ainda o apoiava.