Night Shadow
15 Desencontro Fraternal
Notas iniciais
Naquele mesmo momento, Palácio Sombra da Noite.
Os sete imortais da noite se moviam a passos largos por uma gigantesca escadaria em espiral que subia em direção a um mirante de uma das torres do Palácio, suas capas esvoaçavam em suas costas enquanto a urgência dos seus movimentos denotava a gravidade da situação. Ainda mais apreensivos caminhando atrás deles, Sidney e Danny, ambos integrantes do exército da noite lutavam contra o conflito interno que os importunava naquele momento.
Frustração, esse era o nome do sentimento que tirava a calma dos jovens semideuses.
Quando a notícia de que um exército havia sido avistado quase dentro da área das muralhas, chegou ao posto de controle o choque fora imediato.
Dois garotos que faziam uma ronda de rotina no entorno do Palácio foram aqueles que fizeram a descoberta, eles chegaram correndo com expressões alarmadas, e despejaram o ocorrido sobre os encarregados do dia, coincidentemente, estes eram justamente os que ficaram incumbidos de levar a notícia aos seus líderes. O fato era quase inconcebível e somente a confiança existente entre os membros do Exército da Noite impediram que todos duvidarem da veridicidade das palavras dos seus companheiros.
E agora lá estavam eles andando atrás de seus líderes sem saber onde esconder a vergonha e se seriam mesmo dignos de toda ajuda, atenção, e carinho que receberam nos últimos anos. Afinal, a simples tarefa de guardar o entorno do Palácio passara a ser deles a pouco tempo, uma espécie de reconhecimento da evolução dos mesmos dada pelos seus senhores.
Decepção, era o que lhes cabia naquela hora diante de tamanha falha, mas lamentar não ajudaria em nada, nem muito menos resolveria o problema, eles tinham a chance de concertar tudo e a luta que se aproximava era a oportunidade perfeita para isso.
A escada terminou em uma grande sala circular que guardava alguns equipamentos, três balistas estavam estrategicamente posicionadas em três pontos de igual distancia, de modo que se fossem ligadas por linhas formariam um triangulo, que oferecia um ângulo de tiro que cobria toda a área externa. Janelas se estendiam por todos os 360 graus do topo da torre, entrecortadas por pequenas pilastras de sustentação, próximos as paredes suportes guardavam arpões de bronze celestial de cerca de um metro e meio que serviam para recarga das armas. E em um canto, caixotes de madeira com os dizeres “PERIGO” guardavam algum conteúdo desconhecido. O grupo alcançou o parapeito de onde puderam ter uma visão privilegiada de toda região.
— Ali, próximo aquelas arvores há uma clareira, é lá onde eles estão montando acampamento. – Danny indicou com seriedade, sem deixar transparecer nenhuma reação.
— Quantos são? Há alguma divindade presente? – Thalia se adiantou.
— Cerca de mil meios-sangues, não identificamos nenhum deus. – Sidney disse rapidamente com uma voz um pouco falha, recompondo-se em seguida. – Apenas o Centauro Quíron e a Loba Lupa, o restante são semideuses.
— Como eles fizeram isso em tão pouco tempo? – Thomas questionou-se.
— Eles têm coragem, isso eu tenho que admitir. – Christian falou com um sorriso.
— Ou burrice, atacar-nos agora sem quaisquer informações dessa maneira? Pra mim isso parece suicídio. – Calipso censurou.
— Uma atitude desesperada talvez. – Megan sugeriu. – Ou então eles podem ter pensado que estavam apenas nos dando tempo para preparar mais ataques e armadilhas para minar suas forças, uma guerra prolongada não seria bom para eles.
— De qualquer forma, isso não vem ao caso agora, como vamos lidar com isso? – Christian perguntou voltando-se para Percy e Akame que estavam lado a lado, mas que até então não haviam desviado os olhos da floresta gelada.
— Teremos de ser cuidadosos, algo me diz essa atitude não foi impensada. – Thalia informou com voz sombria.
— O que quer dizer com isso Thalia? – Thomas quis saber.
— Eles querem terminar isso com apenas uma investida, moveram todas as suas forças mortais para cá, isso quer dizer que independentemente do que aconteça, tudo termina hoje. Quem vencer reina... – A imortal disse -
— E quem perder sofrerá. – Akame completou ainda fitando o horizonte.
— Tem razão, é uma boa hipótese, mas estamos perdendo tempo. – Percy que até então se mantinha calado finalmente se pronunciou e chamou a atenção da companheira. – Akame!
— Sidney, Danny iniciem o plano de defesa Gama. – A general ordenou voltando-se para os heróis.
— Gama? Mas porquê? Nesta situação o plano Alpha seria uma opção muito mais indicada. – Calipso discordou, provocando um leve levantar de sobrancelhas na outra.
— Não, ela está certa, também tenho meus pressentimentos, algo me diz que este não será o único ataque feito hoje, eles devem ter algumas cartas na manga e por isso não deixaremos que entrem em nossa casa, lutaremos lá fora. – O líder disse sem deixar espaço para outros questionamentos.
— Vão, e digam para que todos se reúnam no jardim em cinco minutos para traçar o plano. – Akame finalizou.
— Entendido senhora, senhores. – Os dois fizeram uma leve mesura antes de girarem nos calcanhares e partirem para cumprir as ordens.
— Esperem... – Ela os chamou antes que partissem. – Estou orgulhosa de vocês, hoje lutaremos para defender não só o que acreditamos, mas para proteger todos aqueles amamos e aqueles nos deixaram.
— Todos tem nosso total apoio. – Percy direcionou um olhar amigável aos heróis assim como todos os outros da sala.
— Certamente venceremos. – Os dois sorriram e se retiraram, mas não antes de dizer. – Obrigado.
Passados exatos vinte minutos, uma verdadeira formação de batalha havia sido montada ao redor do Palácio, a rapidez da preparação e mobilização das tropas impressionariam qualquer amante das estratégias de guerra. Os Night Shadows haviam posicionado seus guerreiros da melhor maneira possível.
Sendo que quatro soldados haviam sido especialmente destacados para operar as poderosas balistas no topo de duas torres, eles também serviriam para orientar no avanço dos soldados ao observar os movimentos inimigos no lado sul, mas esta ainda não seria sua principal função. Havia algo que não poderia ser facilmente contornado naquela batalha, a imensa superioridade numérica inimiga era o principal problema para as forças da noite.
Os cento e sete semideuses do exército da noite enfrentariam um inimigo literalmente dez vezes maior, a proporção de dez para um era cruel, mas haviam exemplos abundantes na história de batalhas travadas em situações igualmente adversas e que foram ganhas pelo lado mais desafortunado.
O restante das tropas foram divididas em quatro companhias distribuídas no lado sul da muralha de gelo, onde se encontrava o principal portão de entrada, lá era o provável (ou único) destino do avanço do exército olimpiano, as companhias ficaram a postos a mais ou menos cem metros de distância uma das outras cobrindo todo um setor do Palácio.
Mas apesar de tudo aquilo ainda restavam muitas brechas ao mais leviano olhar, e isso se devia a um problema obvio, a fortaleza não possuía um único lado e nem uma única entrada, nada impedia do exército inimigo se dispersar e invadir por outros locais, o que aliás seria o mais indicado com a larga vantagem numérica. Mas era justamente aí que entravam os quatro semideuses empoleirados nas torres, seriam eles que decidiriam o rumo da batalha.
Meio dia
No solo os heróis posicionados nos quatro grupos mantinham-se firmes com espadas em riste e escudos em mãos. O vento gélido não dava trégua em nenhum momento, erguendo os flocos de neve mais leves e formando uma leve neblina.
Danny estava à frente da segunda companhia, a esquerda do portão dourado, ele olhava fixamente a floresta a espera de algum movimento, se a temperatura não estivesse próxima de zero ele provavelmente estaria suando em expectativa. Do lado oposto, no terceiro grupamento, Sidney segurava seu arco com força atrás das linhas de frente, se dependesse dela ela estaria na vanguarda pronta para retalhar o que quer se pusesse em sua frente com as suas adagas, mas a sua altura impedia que isso acontecesse, seu valor se mostraria em um outro momento da luta, inquieta ela arriscou um olhar para as torres que agora estavam quase encobertas por nuvens densas que se aconchegavam no céu como se buscassem a melhor visão da batalha que estava prestes a se desenrolar.
E então aconteceu.
O ruído da trompa soou no alto de uma das torres, logo em seguida a outra trompa se juntou ao coro.
Eles estavam vindo.
Um som metálico característico começou a ecoar na floresta, e os heróis o conheciam bem, era o som de espadas batendo contra escudos de maneira ritmada, uma tática comum para amedrontar os adversários, os primeiros semideuses olimpianos começaram a surgir em meio as arvores, de início eles estavam cautelosos e começaram a se acumular na entrada da mata, a cada instante que se passava mais e mais indivíduos apareciam e se juntavam ao grupo como formigas ao redor de uma presa.
Houve um momento de expectativa em que ambos os grupos se encararam, centenas de um lado e uma centena do outro, mas como tão logo ocorreu, logo chegou ao fim. Com um grito em conjunto as tropas olimpianas avançaram com ferocidade, mas algo não ocorreu como esperado, ao longo da corrida alguns semideuses caíram em buracos, escorregaram em óleo e se emaranharam em redes escondidas embaixo da neve, o que quebrou e atrasou parcialmente a formação inimiga e levou sorrisos aos rostos dos jovens da noite.
Mesmo assim, as armadilhas serviriam apenas como distração, a verdadeira batalha começou com o primeiro choque de espadas, as linhas adversarias se encontraram dando início ao conflito, os guerreiros armados com espadas agora mediam forças para salvar suas próprias vidas. Flechas voaram simultaneamente de ambos os lados do campo e atingiram alguns dos mais desavisados.
Danny na vanguarda da segunda companhia lutava com bravura e avidez, o primeiro semideus que apareceu era um garoto forte e violento, sua carranca era perceptível até mesmo por baixo do elmo. Ele desferiu um golpe diagonal dotado de pura força bruta, tanto que Danny quase teve dificuldades para apara-lo, mas o que sobrava em força faltava em velocidade e logo uma abertura se escancarou em sua frente abrindo espaço para um golpe na região das costelas entre uma das brechas da armadura, o meio-sangue desconhecido caiu pesadamente, e logo foi a vez do próximo que já vinha com um golpe armado em sua direção.
No entanto, de súbito algo surpreendeu a todos. Dois disparos fortíssimos partiram do topo das torres, duas rajadas de chamas esverdeadas cruzaram os céus e atingiram a floresta a leste e oeste. O partido da noite sabia o que havia acontecido e a facção olimpiana apenas imaginava o tamanho dos danos causados por aquele golpe.
Os sentinelas nas torres foram ali posicionados com esse propósito, impedir que os inimigos contornassem a floresta e atacassem os flancos. E para isso eles teriam de impedir o avanço inimigo com a arma mais poderosa que detinham, de modo a garantir que ninguém os emboscasse. A coluna de fogo grego ergueu-se a vários metros de altura, derretendo a neve e transformando o entorno em um verdadeiro inferno. Os heróis olimpianos que haviam tomado o caminho lateral foram interceptados pela fortíssima explosão que espalhou o incêndio pela mata e formou uma parede escaldante.
A primeira parte do plano havia sido um sucesso, agora as tropas inimigas teriam de se reagrupar e atacar em uma única direção. Animados pela pequena vitória as companhias avançaram, e começaram a derrubar os semideuses mais avançados no campo de batalha, um a um eles iam caindo e ficando pelo chão. Sidney e os outros arqueiros atiravam flechas sem parar, que descreviam um arco no céu e caiam mortalmente em meio as fileiras inimigas.
Mas o momento favorável na batalha não durou muito mais, os filhos do Olimpo perceberam que a única forma de sair daquela situação seria atacando e assim foi feito. Um grande contingente de soldados avançou em direção a muralha, agora revigorados pela frustação e raiva em razão das sucessivas falhas. E a vitória que antes estava desenhada em favor dos Night Shadows rapidamente mudou de face, mesmo com a vantagem da habilidade e técnica ao seu lado, as tropas da noite começaram a sucumbir, os primeiros semideuses na dianteira das companhias caíram cercados por cinco ou mais inimigos, a situação tornava-se critica rapidamente.
Sidney abandonou o seu arco e sacou suas adagas a tempo de enterra-las nas costas de uma garota prestes a executar um dos seus companheiros que havia sido gravemente ferido, a pequena semideusa agarrou o amigo pelas correias da armadura e o arrastou para perto da formação que estava prestes a se desfazer e como se não fosse o suficiente mais e mais guerreiros olimpianos começaram a sair da floresta remanescentes do malfadado ataque da floresta.
Do outro lado, Danny estava muito ferrado, três de seus quatro companheiros haviam caído e deixado cerca de dez semideuses para ele dar conta, o primeiro avançou com uma estocada aparada pela sua espada, outros dois ataques desceram como raios em costas, mas num movimento rápido ele agarrou e trouxe para si o garoto que o atacara e o usou como um escudo humano, dando tempo para derrubar os seus dois atacantes. Mas apesar disso, seus esforços não haviam sido suficientes, ao olhar para atrás ele viu sua companhia recuando sem parar, agora ele estava distante de qualquer ajuda e cercado de inimigos, sua vida certamente havia chegado ao fim, mas pelo menos ele morreria com um proposito “com um proposito correto” ele pensou, e ao se virar para encarar a morte certa ele se deparou com uma visão que o confundiu completamente.
Os heróis olimpianos tinham faces esverdeadas e enjoadas, alguns levaram as mãos a boca, outros vomitavam e outra parte começava a desmaiar, logo um a um todos foram ao chão sem nenhum motivo aparente. As forças da noite reduzidas a cerca de metade do número original se entreolharam ainda sem acreditar no que seus olhos os mostravam. Seria um truque inimigo? Não era possível, não haviam motivos para isso.
Danny o único de pé em meio a centenas de corpos, chegou perto de um garoto no chão, ele o circulou com cautela observado por todos os seus camaradas, o chutou e balançou com um pé, agachou perto dele e o virou para cima, pôs dois dedos abaixo do pescoço e aferiu os sinais cardíacos do semideus.
Ele estava dormindo.
E em um sono muito profundo ele arriscaria, não havia explicação cabível para o que havia acontecido, mas somente uma coisa importava naquele momento.
— Vitória! – Danny gritou a plenos pulmões sendo seguido pelos gritos de festejo de todos os seus companheiros.
Todos passaram a se abraçar, e a comemorar o êxito na batalha. Alguns desabaram no chão cansados e feridos, mas logo começaram a receber assistência. Em meio a festa, sete colunas de luz brilharam no campo, e revelaram os moradores originais do Palácio da Noite. Os Night Shadows apareceram para parabenizar e cuidar dos seus garotos.
— Um momento por favor. – Akame chamou a atenção de todos. – Em nome de todos os imortais da noite, eu gostaria de agradecer e parabenizar a todos vocês pela batalha ganha, os sacrifícios feitos por vocês hoje nos deixaram muito orgulhosos e emocionados, vocês são nossa família e mostraram a sua grandeza neste local, mas essa grandeza não vem da vitória, mas da bravura de não terem vacilado em nenhum momento mesmo quando a batalha parecia perdida.
— Nós amamos todos vocês, obrigado. – Disse ela terminando com uma voz emotiva e provocando uma grande salva de palmas e gritos, os heróis também haviam se emocionado com a declaração de sua general.
Em meio à comoção uma figura se mantinha com sorriso de lado e um rosto com uma expressão indecifrável, Megan observava tudo com um olhar misterioso como se forçasse reações de surpresa em vista de tudo, e tal atitude não escapou aos olhos de Percy que se aproximou dela.
— Parece que vencemos esta. – Ele puxou assunto enquanto batia palmas.
— Sim, isso não é ótimo? – Ela disse sem se abalar.
— Por que tenho a sensação que você esconde algo? – Ele perguntou.
— Ora, não sei do que você está falando. – Ela respondeu com um sorriso, Percy a olhou seriamente e ela alargou o sorriso. – Você já vai saber. Veja... Olhe ali.
A ruiva apontou para a floresta de onde uma garota encapuzada emergia e caminhava a passos lentos, de início sem ser notada por ninguém, mas logo os heróis assim como os imortais começaram a se voltar para a figura que vinha em sua direção.
— Quem é? – Sidney perguntou a Danny que estava ao seu lado.
— Não sei. Fique em guarda. – Disse ele, alguns soldados deram passos à frente e sacaram suas espadas, os imortais apenas observavam a garota em busca de respostas.
— O que está planejando Megan? Conduzindo planos as escondidas, sabe que isso é contra as regras. Quem é aquela garota. – Percy censurou a amiga que apoiou o braço nos ombros dele.
— Quanta consideração hein? Por que não pergunta você mesmo. – Ela se afastou para evitar explicações futuras a uma certa general.
— Quem é você? – Percy se aproximou da garota que havia parado a alguns metros do grupo.
— Não me reconhece mais? – A garota tirou seu capuz lentamente. – Irmãozinho?
— Helena.... – Os dois sorriram sem conter a felicidade que surgiu em ambos, apesar do último encontro traumático e da relação nada saudável dos dois, eles ainda eram irmãos de sangue e a felicidade de encontrar um membro da família a tanto perdido era indescritível.
Sob os olhares curiosos e felizes de todos, Helena correu para alcançar os braços abertos de Percy, mas ela nunca alcançaria o abraço do irmão, pois com velocidade do tiro de um rifle uma lança dourada transpassou o seu torço e atingiu o abdômen de Percy. A semideusa caiu no chão com um baque surdo, seu sangue se espalhou pela neve colorindo a brancura usual com uma tonalidade escarlate. Todos fitavam aquela cena perversa com olhares descrentes, Percy permanecia com o mesmo rosto sorridente agora banhado em lagrimas, seus braços ainda jaziam abertos mesmo com a lança enterrada dentro de si. Lentamente ele abaixou seu olhar e encarou o corpo inerte de Helena no chão, sua expressão começou a se desfazer, e ainda sem aceitar a situação ele ergueu seu olhar na direção da floresta e viu os responsáveis pelo atentado, os deuses olimpianos se faziam presentes juntos a dezenas de deuses menores trajados com armaduras de batalha ao passo em que observavam a tudo com olhares impassíveis.
— Não comemorem tão rapidamente. – A deusa da sabedoria deu dois passos à frente e ergueu sua mão no ar, a lança retornou a sua mão agora manchada de icor e sangue dos irmãos. – Esta batalha apenas começou.
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