Quarta-feira, 19 de junho — Casa de Albus Potter

Era quarta-feira, meio de semana, pessoas adultas e responsáveis não encheriam a cara e nem se meteriam em encrenca, pois no outro dia as obrigações da vida ainda estariam esperando. Isso, contudo, não era motivo suficiente para parar Albus Potter, ainda mais quando James estava de passagem na cidade. O primogênito dos Potter havia tirado a semana de férias para visitar a família e os amigos e preferiu ficar na casa do irmão do que na casa dos pais (o que fez sua mãe surtar um pouco). Ele gostava de liberdade e somente na casa de Albus poderia encontrar aquele ambiente, que era o retrato de uma noite típica entre amigos: latas de cerveja espalhadas pela mesa de centro, almofadas amassadas no chão e o som frenético dos botões do controle do videogame ecoando pela sala.

Albus e James estavam sentados sobre o tapete da sala, numa acirrada disputa no Mortal Kombat, enquanto Hugo e Scorpius assistiam à luta sentados no sofá, trocando piadas e comentários sobre os golpes.

— Al, como é que você ainda joga tão mal? — Hugo provocou, pegando mais uma cerveja no cooler ao lado do sofá.

— Cala a boca, Hugo. O importante é a estratégia! — Albus rebateu, inclinando-se no controle como se isso fosse melhorar sua jogabilidade.

James riu alto.

— Estratégia? Você acabou de quase zerar sua barra de vida, gênio!

Scorpius gargalhou, quase engasgando com a cerveja.

— Isso aí é estratégia reversa, James. Não subestime.

Hugo deu um tapa amigável no ombro de Scorpius.

— Tá vendo? Até o Malfoy entende mais do jogo do que você, Al. E olha que o jogo é seu!

— Que injustiça, hein? — Albus resmungou, largando o controle, mas não conseguiu evitar uma risada — Perdi, mas tudo bem. Nada é capaz de abalar minha semana.

O moreno deixou a mensagem misteriosamente no ar e se levantou, andando em direção à cozinha.

Os outros três se entreolharam sem compreender aquela última frase e quando Albus retornou, mastigando alto e com um pacote de batatas chips nas mãos, Hugo cumpriu seu papel como bom fofoqueiro e indagou:

— O quê de tão bom aconteceu para que nem o James te massacrando consiga abalar você?

Albus, se abaixou para pegar sua cerveja sobre a mesa de centro sem pressa, sabendo que estava criando certa expectativa em seus amigos, por mais que eles nunca fossem confessar. Então abriu um sorriso satisfeito e comentou despreocupadamente:

— Tive um encontro com Alice Longbottom.

Scorpius e James ficaram sem entender de quem ele estava falando, mas Hugo captou rapidamente. Estava prestes a tomar um gole de sua cerveja, porém pausou e levantou as sobrancelhas em surpresa.

— Alice? A professora que trabalha com a Rose? — o Weasley questionou, somente para confirmar.

O próprio Weasley chegou a ficar um pouco a fim da Longbottom quando a conheceu, mas antes mesmo de tomar alguma iniciativa, percebeu que os dois não dariam certo. Eram ligados em voltagens diferentes.

Albus assentiu, um brilho divertido nos olhos.

— Essa mesma. Quebrei um galho para ela agendando uma visita grátis no Aquário para alguns de seus alunos e arrisquei pedindo que ela saísse comigo em troca.— Esclareceu — Ela acabou topando, o que me fez ficar desconfiado, porque mulher bonita e disponível é sinal de problema, mas não foi o caso. Ela é incrível. Inteligente, engraçada, linda… — Albus sorriu, genuinamente contente. — A gente conversou por horas. Ela tem um jeito tão encantador de falar sobre os alunos e os projetos dela. E quando eu mencionei meu trabalho com os pinguins, ela ficou fascinada.

Scorpius bufou, rindo.

— Quem não ficaria fascinado com seus pinguins? Você usa isso como arma, é um golpe baixo.

— Não posso evitar, é minha especialidade. — Albus deu de ombros com falsa modéstia, o sorriso se ampliando. — E você não pode falar nada. Eu bem me lembro quando levava a LJ para brincar no parquinho e usava a pose de pai para ficar paquerando as babás das outras crianças.

— Ei! — Scorpius ergueu as mãos, rindo. — Foram só umas duas vezes!

— Duas vezes por semana, talvez. — Albus provocou, fazendo Hugo gargalhar enquanto ele levantava sua cerveja em saudação.

— Olha, vou ser sincero — Hugo interrompeu. — Acho que você combina com a Alice.

Albus arqueou uma sobrancelha em sua direção.

— Eu?

— Sim! — Hugo gesticulou exageradamente. — Lembro de quando a Rose começou a falar dela lá no começo e, pensando bem, você têm tudo a ver, só precisavam de uma oportunidade para se conhecerem. Dito e feito, agora você está aí, todo "ah, ela é incrível, inteligente, linda". — o ruivo fez uma imitação exagerada do primo — Que previsível. — Terminou, balançando a cabeça.

Albus deu mais um gole em sua cerveja, fingindo ignorar o comentário, mas não conseguiu conter o sorriso satisfeito.

— Pelo menos agora já sei que sou o tipo previsível que consegue marcar um segundo encontro com uma mulher maravilhosa.

James, que havia estado quieto, soltou uma risada sarcástica.

— Grande coisa, Al. — provocou, revirando os olhos, ainda que estivesse genuinamente feliz pelo irmão — Eu tirei um período sabático de relacionamentos, isso sim é novidade. Estou me purificando.

— Purificando? — Scorpius repetiu, incrédulo.

— Isso mesmo. Nada de mulheres, nada de homens, nada de flertes. — James deu um longo gole em sua cerveja antes de suspirar dramaticamente. — Preciso de um tempo longe de distrações emocionais. Além disso, cansei das opções da Irlanda. Tudo repetitivo.

— Está dizendo que esgotou o país inteiro? — Hugo zombou, rindo.

James deu um sorriso largo, com o tipo de confiança que só ele tinha.

— Vamos ser honestos, primo: não é difícil para mim.

— Ah, claro. Então, purificação, não é? — Hugo quis confirmar, secando os olhos de tanto rir. — Porque Londres, lotada pelos seus antigos interesses amorosos, é o lugar perfeito para isso.

— Ei, eu estou falando sério! — James protestou, mas sua expressão travessa entregava que ele não se importava nem um pouco com a descrença geral.

Albus balançou a cabeça, rindo, mas James desviou a atenção dos Potter para os outros dois presentes:

— E vocês? Está rolando algo de interessante na vida de vocês?

Antes que eles pudessem pensar em responder, Albus, com o olhar travesso, resolveu mencionar os acontecimentos da semana anterior.

— Ah, o Scorpius teve de sobreviver a uma noite aqui em casa, não é, meu amigo? — Albus disse, rindo.

James imediatamente franziu a testa, interessado.

— Que noite?

— A noite em que Camille, a namorada dele, viu a Rose bêbada pela primeira vez: sexta passada. — Albus lançou um olhar cúmplice para Hugo, que riu baixinho. Os fragmentos dos quais os dois tinham conhecimento acabavam se encaixando e deixavam a história mais completa e, para a infelicidade de Scorpius, a boa memória era uma característica notória entre os Weasleys.

James, curioso, se inclinou para frente.

— Ok, agora eu preciso saber dessa história.

E logo o Potter do meio e o Weasley mais novo começaram a relatar, entre risos e com detalhes, alguns dos momentos constrangedores daquela noite.

Sexta-feira, 14 de junho — Casa de Rose Weasley

Rose mal ouviu as batidas da porta na porta da frente, mesmo estando sentada no sofá da sala. Ainda vestida com as roupas que usara na universidade, ela encarava a tela do laptop apoiado no colo, o cursor piscando na página em branco. Os olhos estavam pesados, não apenas pelo cansaço físico, mas pela exaustão emocional.

Teve de criar coragem para largar o notebook sobre a mesinha de madeira da sala e se levantar para atender a porta. E, mesmo assim, só o fez pois sabia exatamente quem estava do outro lado. Não pôde evitar se sentir um pouco aliviada ao se deparar com um Hugo com o casaco jogado sobre um ombro e um sorriso meio torto, que rapidamente deu lugar a uma expressão preocupada ao vê-la.

— Você está péssima, Rosie — disse ele, sem rodeios.

— Obrigada, Hugo. Realmente precisava ouvir isso. — Respondeu ela com um suspiro exasperado e se virando para entrar em casa novamente.

Hugo ignorou o tom irritado e a seguiu, largando o casaco numa das poltronas ali dispostas.

— O que aconteceu?

Ela se sentou no sofá novamente e balançou a cabeça.

— Nada. — Suspirou, cansada — Só mais um dia ruim.

Hugo ergueu uma sobrancelha.

— Rose, eu te conheço. Isso aí não é só um dia ruim.

Ela hesitou, mas sabia que não adiantava mentir.

— Meu orientador — ela ponderou antes de continuar, com medo de parecer fraca demais — Ele foi cruel hoje. Disse que minha dissertação é inábil, que talvez eu devesse considerar desistir antes de me envergonhar ainda mais.

Hugo bufou, cruzando os braços.

— Que idiota. — exclamou — E você, claro, está deixando isso te afetar mais do que deveria. — acrescentou com certa fúria.

— Eu não sei, Hugo. Talvez ele tenha razão. — ela respondeu exasperada.

Hugo era a pessoa mais competente de sua área, entendia tudo sobre tecnologia, habitualmente aparecia com ideias inovadoras e proficientes. Rose não esperava que ele entendesse, de fato.

— Rose, por favor! — Hugo se inclinou e segurou nos braços da irmã, encarando-a, olho no olho — Você é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço. Se tem alguém que não deveria estar em dúvida sobre o próprio valor, é você.

Ela abriu a boca para protestar, mas ele levantou a mão, interrompendo-a.

— Não quero ouvir essa história de “talvez ele tenha razão”. O cara está errado e ponto. Você é minha irmã e te conheço melhor do que ele. — ele a soltou, se acalmando um pouco — Mas, agora, a prioridade é tirar você desse buraco.

— E é por isso que eu chamei você. Preciso que leve a Jane hoje e só volte com ela quando eu melhorar, o que deve acontecer amanhã.

Mais cedo, Rose havia enviado uma mensagem para Hugo pedindo socorro e solicitando que ele inventasse algo para fazer com a sobrinha, qualquer coisa que a tirasse de casa naquela noite e deixasse a Weasley sozinha com seus pensamentos. Por mais que fosse uma adolescente parcialmente independente, Lyra Jane ainda não tinha idade para simplesmente ficar solta dentro de casa, sozinha. E Rose nunca admitiria se alguém perguntasse, mas a verdade é que não estava muito disposta a interagir com a própria filha naquele momento.

Jane estava com vacilações de humor intensas, típicas da adolescência. Num instante, aparecia radiante falando sobre algum detalhe esquecido a respeito do encontro que teve duas semanas antes, no outro, estava esbravejando sobre o quanto a mãe é chata e ditadora por não deixar que ela levasse o celular para ouvir música durante o banho.

Naquela sexta-feira, ela estava farta. Da vida acadêmica, da maternidade, da vida amorosa, de tudo.

Hugo hesitou diante do pedido da irmã, claramente relutante.

— Você tem certeza? Porque, sinceramente, acho que ficar sozinha agora é a última coisa que você precisa. Eu posso ficar com você. — ofereceu — Já ia levar a Jane para jantar na casa dos nossos pais, mesmo. Deixo ela lá e venho ficar com você.

— Hugo, por favor. — pediu, cansada. Não queria discutir — Se fizer isso, papai vai fazer várias perguntas que eu não quero que ele saiba as respostas. E você é muito boca-aberta para segurar. — pontuou — Não, eu vou ficar melhor sozinha. Obrigada.

Ele suspirou, mas não cedeu completamente.

— Se você não quer que eu fique, tudo bem. Mas promete que vai ligar para alguém? Dominique, talvez?

Rose balançou a cabeça.

— Ela está trabalhando. E, de qualquer forma, não quero incomodar ninguém.

— Roxy?

— O Theo só tem quatro anos.

— Lily?

— Está viajando.

— Victoire?

— No hospital com a Louise. Inclusive, tenho que ligar para ela para ver se Lou vai mesmo ter que retirar as amígdalas, parece que a coisa está feia, pobrezinha.

Hugo coçou a cabeça, frustrado.

— Albus, então. Ele nunca está ocupado demais para você.

Ela mordeu o lábio inferior, desviando o olhar.

— Vou pensar.

Hugo estreitou os olhos.

— Certo. Pense mesmo, porque, se você não o procurar, eu vou ligar para ele assim que chegar em casa.

Rose suspirou novamente, vencida.

— Tudo bem, Hugo. Prometo que vou procurá-lo.

Ele sorriu, satisfeito.

— Ótimo. Agora, cadê minha sobrinha?

***

Rose repensou seriamente sua atitude enquanto caminhava lentamente pela rua até a porta de Albus. Havia tomado coragem para dirigir até a entrada do bairro, mas parou na primeira vaga fácil que encontrou, nem chegando a entrar na rua do Potter. Caminhar geralmente a fazia bem, mas os passos arrastados denunciavam seu cansaço e o vento frio do fim da tarde nublado não ajudavam. Vestida com uma calça de flanela surrada e um moletom largo, que parecia engolir sua figura, ela se sentia completamente fora de si, o que era raro para alguém tão preocupada com a própria apresentação. Também não era de seu feitio aparecer em lugar algum sem avisar, mas lá estava ela que, hesitante, ergueu a mão e tocou a campainha da casa do amigo.

Albus e Rose possuíam certo apego a casas, eles sentiam falta de um quintal para chamar de seu. Quando Rose finalmente conseguiu comprar sua casa, Albus foi o primeiro a lembrá-la de que isso valia um check em sua lista de sonhos. Por isso, também, quando Albus abandonou seu antigo apartamento para alugar a casa que agora chamava de lar, ela ficou genuinamente feliz pelo primo. Era pequena, mas aconchegante e o suficiente para um jovem veterinário solteiro.

Apesar de seu estado quase catatônico, a ruiva conseguiu sentir uma pitadinha de alegria ao ouvir que os latidos de Sully reforçaram o anúncio de sua chegada.

Em poucos segundos a porta se abriu, revelando um Albus de calça de moletom e camiseta velha, com o cabelo desalinhado e os olhos semicerrados de curiosidade.

— Rose? — Ele a olhou de cima a baixo, claramente surpreso. — Você está bem?

Ela forçou um sorriso que falhou miseravelmente.

— Oi, Al. Posso entrar?

— Claro, claro. — Ele abriu mais a porta, ainda atônito, deixando-a passar.

Ela entrou devagar, como se carregar o próprio corpo fosse um esforço colossal, e parou na sala.

— Tudo bem se eu ficar aqui por um tempo? — perguntou, virando-se para o moreno — Hugo me proibiu de ficar em casa sozinha hoje. — ela riu, sem graça.

Potter fechou a porta atrás dela, os olhos ainda cheios de preocupação.

— Sim, claro que pode ficar. — afirmou, mas sem muita certeza — Eu tinha outros planos, mas nada que não possa ser desmarcado. Você está precisando mais.

— Não, eu posso ir embora. — assegurou, fazendo menção de retornar para a entrada — Não quero atrapalhar.

— Rose, você é minha prima favorita. — ele confessou, coçando a nuca. — Tá, talvez não devesse dizer isso, mas é verdade. E, sim, você fica.

Ela o olhou com olhos brilhando de alívio.

— Obrigada, Al. — Sua voz era baixa, quase um sussurro.

— Quer me contar o que aconteceu? — Ele perguntou, enquanto ela se jogava no sofá.

Ela balançou a cabeça, cruzando os braços.

— Mais tarde, talvez. Por agora — começou com uma expressão marota — Você me faria companhia para encher a cara?

Albus arregalou os olhos e depois riu, claramente surpreso com o pedido.

— Você, Rose Granger-Weasley, quer encher a cara?

— Sim. — afirmou com certeza — Estou precisando desesperadamente esquecer algumas coisas.

Ele deu de ombros, ainda rindo.

— Bem, como eu posso recusar? Vou buscar algo para a gente.

Enquanto Albus ia até a cozinha, Rose desceu do sofá e sentou-se no chão, onde Sully logo veio cumprimentá-la. Ele era um labrador quase idoso e estava com Albus desde novinho, quando os donos o deixaram doente e fraco no abrigo em que o moreno trabalhava na época. O Potter cuidou dele, o levou para casa e deixou que Lyra Jane escolhesse seu nome. E, desde então, Sully é da família.

A Weasley começou a fazer carinho no cachorro, perdendo-se na maciez do pelo dourado, enquanto o som de garrafas e armários sendo abertos ecoava da cozinha. Pouco depois, Albus voltou com duas cervejas em mãos.

— Aqui está. Vamos começar devagar, não é?

Ela ergueu os olhos para ele e franziu a testa.

— Al, por favor. Cerveja não vai resolver o meu problema.

Ele riu, balançando a cabeça.

— Ok, então. — ergueu os braços em rendição, ainda segurando as bebidas — O que sugere?

Rose varreu o cômodo com o olhar e focou no bar de Albus, no canto da sala.

— Whisky. — respondeu com determinação.

Albus assentiu com certa admiração pela coragem da prima e voltou para a cozinha, retornando com um copo e um mini balde com gelo. Se dirigiu ao bar e serviu uma dose, entregando à prima em seguida, mas antes que ele pudesse acrescentar gelo, Rose pegou virou a bebidas de uma vez só.

— Mais. — pediu, erguendo o copo.

— Uau, está bem. — Ele serviu outra dose, entregando-a com um olhar cauteloso.

Ela repetiu o movimento, bebendo rápido e fazendo uma careta ao sentir o líquido queimando a garganta.

— Você sabe que beber assim é um caminho rápido para a ressaca, né?

Rose deu de ombros.

— Ressaca é problema para o meu eu de amanhã.

Albus suspirou e se sentou no chão ao lado dela, abrindo sua garrafa de cerveja para acompanhá-la.

— Tudo bem, prima, vamos lá. Vou embarcar nessa com você. Só, por favor, não desmaie no meu tapete.

Albus e Rose não sabiam ao certo quanto tempo havia se passado, talvez uma hora ou um pouco mais, mas estavam rindo alto de algo que não fazia o menor sentido quando a campainha soou, interrompendo a conversa. Albus piscou algumas vezes, tentando focar na porta.

— Eu vou. — Ele balançou a cabeça para se recompor, levantando-se com um pequeno tropeço.

Rose permaneceu no chão, agora meio deitada com Sully ao seu lado, afagando distraidamente a orelha do cachorro enquanto murmurava para ele.

Quando o Potter abriu a porta, deu de cara com Scorpius sorridente e carregando algumas sacolas nas mãos.

— Por que você não atendeu minhas ligações? — Albus perguntou.

Scorpius piscou, surpreso.

— Boa noite para você também, mal educado. Meu celular estava descarregado. O que foi?

— Eu deixei várias mensagens!

— Sim, e a gente combinou de assistir ao jogo da Champions League, lembra? Liverpool e Real Madrid. Eu até trouxe comida mexicana. — ergueu as sacolas.

— E eu avisei que tinha que cancelar. — Albus insistiu, irritado.

Scorpius inclinou a cabeça.

— Eu não sabia que você queria cancelar. Aconteceu alguma coisa? Se não for nada demais, acho que posso ficar aqui para a gente assistir junto, de qualquer jeito. E… — Ele fez um gesto em direção ao carro estacionado na rua. — Pensei que seria uma boa oportunidade para você conhecer a Camille.

Albus olhou para o carro e viu uma mulher de cabelos escuros e elegantes, com um sorriso educado e tímido — e que estava linda, mesmo vestindo um suéter amarelo sob o casaco, calça jeans e tênis — começando a caminhar em direção à porta.

— Ah… — Albus hesitou, coçando a nuca. — Tudo bem, vocês só precisam saber que…

Antes que ele pudesse elaborar mais alguma coisa, Rose apareceu atrás dele, descalça e só de camiseta e calça de flanela, os cabelos um tanto desgrenhados e o rosto levemente corado pelo álcool.

— Scorpius! — Ela disse alto demais, com um sorriso que parecia artificial de tão animado. — E essa deve ser Camille!

Scorpius olhou para Rose, as sobrancelhas erguidas.

— Você está bem?

Camille chegou à porta, lançando um olhar curioso para a ruiva e depois para Albus.

— Oi! — Rose continuou, ignorando Scorpius e ainda naquele tom alto e despreocupado, enquanto se apoiava no batente da porta. — É tão bom finalmente te conhecer, Camille. — estendeu a mão sobre o ombro de Albus para cumprimentar a mulher à sua frente.

Camille sorriu, um pouco hesitante, mas apertou a mão da Weasley.

— É um prazer, Rose.

Albus rapidamente tentou assumir o controle da situação, colocando-se entre a prima e os visitantes.

— Longa história. — Ele murmurou para Scorpius, dando um olhar significativo enquanto indicava a sala desarrumada e os copos sobre a mesa. — Vocês realmente querem entrar? — Albus perguntou, a voz carregada de uma mistura de esperança e apreensão.

Scorpius olhou para Camille, que mantinha o sorriso educado, e depois para Rose, claramente em um estado mais descontraído do que o habitual. Ele respirou fundo, percebendo o olhar desesperado de Albus, mas ignorando-o.

— Acho que seria falta de educação irmos embora assim. — Scorpius disse, colocando uma mão no ombro de Camille. — Eu trouxe uma visita e espero que ela se sinta acolhida.

Albus lançou um olhar de "você está brincando" para Scorpius, mas ele já estava conduzindo Camille para dentro da casa.

Enquanto Camille tirava o casaco, Scorpius observou Rose com uma sobrancelha erguida.

— Parece que vocês estavam se divertindo.

— Oh, estávamos! — Rose respondeu animadamente, jogando-se de volta no sofá com as pernas cruzadas no chão. Sully, o labrador, imediatamente foi até ela, abanando o rabo e ignorando completamente as novas presenças na casa. — Temos whisky. Vocês bebem?

— Não sei se é uma boa ideia. — Albus murmurou, mas já sabia que ninguém o ouviria.

Scorpius olhou para Camille, que deu um pequeno aceno de cabeça, como quem diz "por que não?".

— Uma dose não vai fazer mal.

— Isso aí! — Rose disse, já se levantando para pegar mais copos. — Você é das minhas.

Enquanto ela caminhava até a cozinha, Albus segurou o braço de Scorpius e sussurrou:

— Sério? Você não acha que é melhor sair daqui antes que isso fique mais estranho?

Scorpius deu de ombros.

— Camille não parece incomodada, e Rose — parou para ouvir os barulhos de vidro vindos da cozinha — Ela parece bem, só animada.

Albus suspirou, frustrado.

— Depois não diga que eu não avisei.

A ruiva voltou com copos e pegou a garrafa de whisky, colocando tudo na mesa de centro já abarrotada.

— Alguém quer gelo? — Ela perguntou, como se estivesse completamente sóbria.

Camille observou tudo com um sorriso contido, sentando-se ao lado de Scorpius no sofá. Albus se jogou em uma poltrona próxima, pegando sua cerveja e observando a cena como quem assiste ao deslizamento de um barranco.

— Então, Camille... — Rose começou, servindo os copos com generosidade, de maneira quase teatral, e entregando um quase transbordando para o Malfoy. — Como é namorar esse aqui?

Scorpius quase engasgou com a bebida, enquanto Camille deu uma risada nervosa.

— Ah, ele é ótimo. — respondeu com delicadeza.

— Ótimo é pouco. — Rose disse, levantando o copo. — Ao Scorpius, sempre tão... especial. — E, mais uma vez, colocou whisky para dentro.

Albus fechou os olhos, balançando a cabeça.

— Não precisa ficar nervosa e nem preocupada comigo, Camille. — Weasley disse, com um sorriso largo, gesticulando com o copo na mão, quase derrubando a própria bebida — Eu e Scorpius nunca namoramos, de fato.

A declaração fez Albus cuspir um gole de cerveja, enquanto Scorpius arregalava os olhos.

— Rose... — Scorpius começou, claramente alarmado.

Mas ela continuou, ignorando o desconforto geral.

— Foi só uma noite, na verdade. — Rose continuou, ignorando completamente o tom de aviso de Scorpius. — Uma noite, um pequeno incidente e… puf! Uma filha. Ele tinha um probleminha com ejaculação precoce, mas já resolveu, não é, Scorpius?

Camille, tentando ser educada, mordeu o lábio, e levou a mão à frente da boca, mas quando Rose fez um gesto exagerado de "explosão" com as mãos, ela não conseguiu mais segurar. A risada escapou, clara e alta.

— Não acredito que você está falando isso. — Scorpius murmurou, o rosto vermelho de vergonha.

Albus, percebendo a gravidade do constrangimento, se apressou para pegar o controle remoto.

— Ok, pessoal! — Ele disse, a voz carregada de urgência. — O jogo está começando. Vamos nos concentrar nisso, certo? Futebol, uhu! — Agitou pompons imaginários, como um animador de torcida.

A TV ligou, preenchendo a sala com os sons de uma multidão animada e os comentaristas aquecendo para o jogo.

Camille tentou recuperar a compostura, ainda rindo baixo, enquanto Scorpius olhava para a tela como se sua vida dependesse disso.

— Então, Camille, de onde você é? — Albus perguntou, tentando criar um ambiente mais neutro.

Camille relaxou um pouco, ajustando-se no sofá ao lado de Scorpius.

— Eu sou de Lyon, na França. Me mudei para Londres há uns cinco anos, a trabalho, mas meus pais são ingleses.

— Fascinante! — Albus comentou, interessado. — E você trabalha com o quê?

Antes que Camille pudesse responder, Rose se intrometeu.

— Aposto que é algo bem mais empolgante do que dar aula para adolescentes que nunca entregam as tarefas e mentem na sua cara sem vergonha nenhuma.

Camille deu um sorriso simpático.

— Na verdade, eu sou designer gráfico. Bem menos empolgante do que os adolescentes.

— Mas é chique. — Rose comentou, prolongando a última palavra e bebendo mais whisky. — Já pensou em mudar o logotipo da empresa do Scorpius? Ele sempre teve um gosto meio peculiar. E Hyperion é um nome muito sexy para uma pessoa, mas péssimo para uma empresa.

— Rose! — Scorpius exclamou, claramente tentando manter a compostura.

Enquanto isso, o jogo começava e Rose, como se fosse uma fã de longa data de futebol, começou a comentar os lances com um entusiasmo assustador.

— Uau, que chute! Albus, você viu isso? — Ela apontou para a TV.

— Eu vi, Rose. É o motivo de estarmos assistindo. — Albus respondeu, tentando esconder o cansaço.

Ela então virou para Scorpius.

— Lembra quando tentamos jogar futebol com o pessoal da escola? Você caiu de cara no chão. Inesquecível!

Scorpius suspirou, massageando as têmporas enquanto Camille tentava, sem sucesso, conter outra risada.

Vendo que a situação não melhoraria tão cedo, Albus discretamente buscou um copo d'água e colocou na frente de Rose.

— Aqui, Rose. Dá um tempo no whisky, ok? — sugeriu, educadamente.

— Ah, Al, não estrague a festa. — ela disse, mas acabou pegando o copo e tomando um gole.

Albus respirou aliviado, mas sabia que a noite ainda prometia ser longa.

Rose diminuiu a bebida e também comeu um pouco junto com os outros durante a partida. Quando o jogo terminou, os aplausos e comentários de Albus e Scorpius sobre os melhores lances foram interrompidos por um som baixo, quase abafado. Albus virou a cabeça e percebeu que Rose, agora encolhida no canto do sofá, estava chorando silenciosamente, as lágrimas escorrendo livremente por seu rosto.

— Rose? — Albus chamou suavemente, alarmado.

Ela tentou se recompor, mas sua voz falhou quando respondeu:

— Estou bem, não se preocupem comigo.

Scorpius desviou o olhar da TV e notou a expressão abatida da ruiva. Ele abriu a boca para dizer algo, mas antes que pudesse falar, Rose começou a soluçar mais alto.

— Eu não estou bem, Al! — ela finalmente explodiu, sua voz cheia de dor. — Minha vida é uma merda! Eu sou uma mãe de merda! Eu estraguei tudo!

— Rose, isso não é verdade. — Albus disse, se sentando ao lado dela e colocando um braço ao redor de seus ombros.

Ela apoiou a cabeça no peito do primo enquanto as lágrimas escorriam.

— Eu sou uma mãe de merda! — ela continuou, as palavras saindo como se estivessem queimando sua garganta. — Eu deveria ser o exemplo, alguém que a minha filha pudesse admirar, mas tudo o que faço é decepcioná-la. — ela puxou o fôlego mais uma vez, soluçando em seguida — E olhe para mim agora, chorando, reclamando. Nem isso eu sei fazer direito! — Ela respirou fundo, mas a torrente de palavras não parou. — Eu estraguei tudo, Al! Todos os meus sonhos, todas as coisas que eu queria ser, nada deu certo! E agora… E agora eu sou só isso. Uma mulher perdida, fracassada, que nem sabe por onde começar a juntar os pedaços.

O silêncio tomou conta da sala. Camille, que até então parecia desconfortável mas mantinha a postura, trocou um olhar preocupado com Scorpius, que estava claramente sem saber o que fazer.

— Você não é uma mãe de merda, e sua vida não é uma merda. Você só está passando por um momento difícil. — Albus falou.

— Ah, para! — ela riu com escárnio, afastando-se dele, mas sem força para se levantar. — Eu nem sei o que estou fazendo com minha vida! Minha carreira está um desastre. O que eu estou ensinando para a Jane? Como fracassar lindamente?

— Rose... — Scorpius começou, mas ela levantou a mão, pedindo para ele parar.

— E você, Scorpius! — Ela se virou para ele, a voz cheia de emoção e certo rancor. — Você sempre parece tão bem! Sua carreira está incrível, você tem uma namorada perfeita e eu…

Scorpius ficou sem palavras, a dor evidente em seus olhos, mas antes que pudesse responder, Rose se levantou de repente.

— Ai, acho que... — Ela segurou o estômago, o rosto ficando pálido.

— Rose, o que foi? — Albus perguntou preocupado, já se levantando também.

— Vou vomitar. — Ela disse, correndo em direção à cozinha.

Camille olhou para Scorpius, que parecia querer desaparecer no sofá.

— Isso é normal? — Camille perguntou baixinho.

— Definitivamente, não. — Scorpius respondeu, esfregando a nuca.

Albus foi atrás de Rose e encontrou-a curvada sobre a lixeira, o rosto pálido e os olhos marejados.

Scorpius e Camille esperavam, hesitantes, na porta da cozinha.

— Respira, Rose. Vai ficar tudo bem. — Albus disse, segurando os cabelos dela para trás enquanto ela vomitava. Ninguém ali sabia como agir.

Quando a ruiva finalmente terminou, o primo pegou um pano de prato limpo, molhou-o e entregou a ela.

— Obrigada. — Ela murmurou, limpando o rosto, a voz fraca e envergonhada.

— Quer se deitar um pouco? — Albus sugeriu gentilmente.

Rose assentiu, ainda evitando os olhares dos outros.

— Eu sinto muito. — Ela sussurrou, mais para si mesma do que para eles.

— Não tem o que sentir, Rose. — Albus respondeu com um sorriso solidário. — Todo mundo tem dias ruins.

Scorpius e Camille continuaram em silêncio, claramente sem saber como ajudar, enquanto Albus conduzia Rose de volta ao sofá. A noite havia tomado um rumo inesperado, e a preocupação de todos com a ruiva pairava no ar como uma sombra.

Rose se encolheu no sofá, cobrindo-se com uma manta que Albus havia pegado para ela. Ainda pálida, ela parecia exausta, mas mais calma, embora os olhos inchados deixassem claro que a tempestade emocional ainda não havia passado.

Scorpius hesitou antes de se aproximar, Camille logo atrás dele, com uma expressão gentil. Ele se abaixou para ficar na altura da Weasley, mantendo a voz suave e sem pressa.

— Rose, eu não consigo imaginar como você deve estar se sentindo agora. Mas uma coisa que eu sei é que você sempre foi a pessoa mais determinada que eu conheci. Mesmo quando as coisas pareciam impossíveis, você nunca desistiu.

Rose olhou para ele, os olhos ainda marejados, mas com um toque de atenção.

— Eu sei que às vezes tudo parece demais, como se o peso fosse insuportável, mas você não está sozinha. Você tem o Al, a Lyra, e você me tem também, mesmo que a gente não concorde em tudo. — Ele hesitou, encarando-a com intensidade. — Eu não quero que você se esqueça isso.

Camille colocou uma mão leve no ombro do loiro, como quem dizia silenciosamente que ele estava fazendo a coisa certa. Quando ele terminou de falar, ela olhou para Rose com um sorriso compreensivo e deu um pequeno passo à frente.

— Acho que o Scorpius disse tudo o que importa agora, Rose. — Sua voz era gentil, mas firme. — Talvez o melhor seja você descansar um pouco, agora.

Scorpius assentiu, embora parecesse relutante em ir embora.

— Camille tem razão. Você precisa se cuidar, e o Albus está aqui com você. — Ele se levantou, estendendo a mão para a namorada, que o acompanhou até a porta. Antes de sair, Scorpius lançou mais um olhar para Rose. — Promete que vai me ligar se precisar de qualquer coisa?

Rose deu um pequeno aceno, sua voz quase inaudível.

— Prometo.

Os dois se despediram de Albus e Camille sorriu de maneira encorajadora antes de passar pela porta ao lado de Scorpius, deixando a casa em um silêncio que parecia mais acolhedor do que vazio. Albus voltou para o lado de Rose no sofá, entregando-lhe mais um copo de água.

— Estamos só nós dois agora. Quer falar mais alguma coisa ou só descansar?

Rose respirou fundo, segurando o copo de água com as duas mãos. Tomou todo o conteúdo antes de responder:

— Só descansar.

— Feito. — Albus disse, puxando a manta para cobrir os ombros dela novamente. — Estou aqui, está bem?

Ela deu um pequeno sorriso, finalmente deixando a exaustão tomar conta enquanto se recostava no sofá, sentindo-se, mesmo que um pouco, mais leve.

Quarta-feira, 19 de junho — Casa de Albus Potter

O riso na sala ecoou após o Potter terminar de contar os detalhes da noite fatídica. Até mesmo Scorpius, embora constrangido, riu junto, balançando a cabeça em descrença.

— Rose apagou e no dia seguinte não se lembrava de quase nada, coitada. — Albus acrescentou — E eu que não seria o mensageiro de más notícias, então apenas preenchi as lacunas com poucos detalhes e falei que ela e Camille se conheceram, mas não conversaram muito.

— Cara, você deveria transformar isso em uma comédia stand-up. Parece até roteiro de filme. — James disse, enxugando uma lágrima de tanto rir.

— Pois é — Albus acrescentou. — Só faltou a plateia aplaudir no final.

Scorpius riu mais uma vez, mas aos poucos seu rosto assumiu um tom mais sério. Ele olhou para o controle da televisão em suas mãos, girando-o entre os dedos antes de suspirar profundamente.

— Tudo bem, podem rir à vontade. Mas, sério, eu acho que preciso falar com a Rose sobre isso.

O comentário fez todos na sala pararem por um segundo.

— O quê? — James foi o primeiro a reagir, a expressão de descrença clara. — Não me diga que é por causa daquela história da ejaculação precoce! A sua namorada já pôde comprovar que isso ficou no passado, né? — questionou — Ou não?

Hugo e Albus explodiram em risadas novamente, e até Scorpius riu fraco, embora parecesse um pouco cansado.

— Não é isso, seus idiotas. — Ele revirou os olhos. — Camille sabe muito bem que isso não é um problema. Há muitos anos, inclusive.

— Aplausos para o homem, então. — James bateu palmas, arrancando risos de Hugo.

— É sério, galera. — Scorpius insistiu, ajustando a postura no sofá. — Não tem nada a ver com isso. É que a Rose falou outras coisas naquela noite, coisas que me magoaram.

O tom na voz dele fez o ambiente ficar um pouco mais pesado, como se a gravidade do que ele estava sentindo começasse a se infiltrar na conversa.

— Tipo o quê? — Hugo perguntou, desconfiado.

— Tipo o fato dela insinuar que a minha vida é perfeita. — Scorpius jogou o controle na mesa, cruzando os braços. — Como se eu não tivesse passado por nada, como se tudo sempre tivesse sido fácil para mim.

Albus olhou para ele com uma mistura de surpresa e preocupação, enquanto James coçava a nuca, claramente desconfortável com a seriedade repentina.

— Malfoy... — Hugo começou, mas o loiro levantou a mão para interrompê-lo.

— Eu sei que as coisas para a Rose não estão fáceis e que ela ainda sente rancor por algumas situações do passado, especialmente as que envolvem a minha família, mas ela precisa lembrar que eu me tornei pai da noite para o dia. Eu também tive que encarar a responsabilidade e... — Ele parou por um instante, como se organizasse os pensamentos. — Eu também passei por muita coisa.

Hugo soltou uma risada seca, cruzando os braços e se inclinando para frente no sofá.

— Ah, não, Scorpius. Não tente fazer isso. Não tente se transformar em vítima aqui.

O loiro o encarou, surpreso pela reação.

— O que você quer dizer com isso?

— Quero dizer que, enquanto você estava "passando por muita coisa", a minha irmã estava enfrentando tudo praticamente sozinha. — Hugo pontuou, sua voz firme e sem hesitação. — E não vamos esquecer que a sua família não a fez passar por situações difíceis, puramente. Eles estavam fazendo da vida dela um inferno.

Scorpius franziu a testa, a raiva começando a surgir em sua expressão.

— Eu sei disso, Hugo. Mas você acha que foi fácil para mim?

— Bem mais fácil do que foi para ela, com certeza. Você ficou passivo, Scorpius. — Hugo rebateu firmemente.

A sala ficou em silêncio, todos os olhos fixos nos dois.

— Não sabe do que está falando. Você acusa como se fosse simples. — Scorpius respondeu, sua voz mais baixa, mas carregada de emoção. — Eu tinha só 18 anos e não sabia muito bem como lidar com eles. Mas, de qualquer forma, eu fiquei ao lado da Rose o tempo todo.

— Só que ela não precisava de alguém ao lado dela, precisava que você se colocasse à frente dela, para que as coisas que sua família fazia não a atingissem. — Hugo disparou, sua voz carregada de frustração. — Rose também tinha 18 anos, Scorpius, e ela teve que lidar com tudo, grávida, enquanto você tentava consolá-la depois que ela já tinha ouvido poucas e boas dos seus parentes. Sua avó ofereceu dinheiro para que ela abortasse ou sumisse com a criança e os seus pais, por mais que não a destratassem, não se opuseram quando o seu avô exigiu um exame de DNA, lembra? E você mesmo só bateu o pé dizendo que não faria depois que a Jane nasceu e vocês viram que a garota era a sua cara.

Scorpius abriu a boca para responder, mas Hugo continuou antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

— A história toda da Rose fazendo um show aqui é bem engraçada, mas eu vi como a minha irmã estava naquele dia. Exausta, desesperançosa, duvidando da própria capacidade. — o ruivo respirou fundo para controlar os sentimentos e reorganizar os pensamentos. Hugo costumava evitar conflitos a todo custo, talvez por isso se tornou o mediador oficial entre os pais e a irmã, mas aquele assunto estava entalado em seu peito desde que ele tinha 16 anos e ouvia Rose chorando praticamente a noite toda no quarto e se levantando com um sorriso no rosto no dia seguinte, pronta para encarar o mundo novamente. — Sabe o que me entristece? Quando éramos mais novos e íamos para a casa dos Potter, o tio Harry costumava dizer que sabia que a Rose estava lá antes mesmo de entrar. Ele dizia que dava para ouvir a risada dela de longe, e ela estava sempre rindo. — Hugo parou, seus olhos fixos em Scorpius, o tom de sua voz agora cheio de amargura. — Faz tanto tempo que eu não ouço a gargalhada dela que nem me lembro mais como é o som.

Os olhos de Scorpius mostravam que as palavras tinham acertado em cheio.

— Eu provavelmente estava ocupado demais com minhas próprias questões e não consegui notar, exatamente, quando Rose se tornou essa pessoa triste. E eu queria muito, porém não sei como resolver isso. Mas tenho certeza de uma coisa: — o ruivo apontou o indicador na direção do loiro — Não vai ser você indo atrás dela porque ficou ofendidinho que vai ajudar.

Albus limpou a garganta, finalmente intervindo.

— Ei, gente, calma. Acho que vocês dois precisam de um pouco de ar.

Hugo se recostou no sofá, cruzando os braços, enquanto Scorpius olhava fixamente para o chão, claramente perdido em seus pensamentos. O clima de descontração da noite tinha desaparecido, substituído por algo muito mais denso e difícil de ignorar.

O silêncio na sala era palpável, pesado, como se ninguém soubesse exatamente como retomar qualquer traço da descontração de antes. Albus olhou para James, que parecia desconfortável, tamborilando os dedos na mesa como se quisesse desaparecer dali.

Finalmente, Scorpius, numa mistura de calmaria e indignação, quebrou o silêncio:

— Você acha que eu não sei que a Rose passou por muita coisa? — Sua voz era grave, mas sem a agressividade de antes. — Eu sei pelo que ela passou, estou nessa com ela e com todos vocês há quatorze anos. E sei que eu falhei com ela em muitos momentos, mas é exatamente por isso que eu quero falar com ela. Porque o que ela disse naquela noite não foi só sobre o passado. Foi sobre como ela me vê agora.

Hugo soltou um suspiro carregado, como se estivesse reunindo paciência.

— Scorpius, ela estava bêbada. Muito bêbada. — Ele enfatizou. — E ela disse aquelas coisas no calor do momento, não acho que ela estava pensando em magoar você.

— Talvez não. — Scorpius admitiu, apertando os punhos sobre os joelhos. — Mas não significa que não foi honesto. A bebida entra e a verdade sai, certo?

Hugo revirou os olhos, mas não respondeu. James, que até então tinha se mantido em silêncio, finalmente se manifestou.

— Olha, Scorpius, como irmão mais velho, vou te dar o melhor conselho que tenho. Às vezes, não adianta querer resolver tudo. — Ele deu de ombros. — Dá um tempo. Deixa as coisas esfriarem. Rose já tem problemas demais pra lidar, e você está querendo arriscar aumentar a carga dela?

Scorpius parecia prestes a retrucar, mas Albus o interrompeu.

— É isso que estamos tentando dizer, cara. Não é sobre ignorar o que aconteceu, mas sobre escolher o momento certo. — Ele colocou uma mão no ombro do amigo. — Dê espaço a ela. E se você realmente quer ajudá-la, talvez comece mostrando que está ao lado dela sem trazer mais problemas.

Scorpius respirou fundo, sua postura relaxando um pouco.

— Tudo bem, talvez vocês tenham razão. — Ele murmurou. — Mas ainda assim, eu não consigo tirar isso da cabeça.

Hugo, embora menos ríspido agora, ainda mantinha um tom defensivo ao indagar:

— Já tentou enxergar pelo ponto de vista dela? — Scorpius fez que não com a cabeça, e o ruivo continuou — Você tem o emprego que sempre quis, desde a adolescência, trabalha muito, mas é realizado na carreira. Ela trabalha até mais, emenda turnos da escola, dá aulas particulares de vez em quando e só agora está conseguindo se especializar na área que mais gosta. Ela tem a hipoteca da casa para pagar, um lar para administrar, uma filha para cuidar, tudo isso sozinha. São muitos pratinhos para equilibrar. — Hugo fez uma pausa, apenas para ver se o Malfoy retrucar de alguma forma e, como ele ficou em silêncio, prosseguiu — A Jane discute com a Rose muito mais do que com você, parece que quer competir com a mãe, o que é mais uma característica insuportável da idade dela, mas mesmo tendo conhecimento disso, não deixa de ser difícil. E então, você aparece bem no dia em que ela mais está fragilizada e apresenta sua linda namorada, que mais parece uma modelo, e que além de tudo é educada e agradável.

— Eu não fiz de propósito. — Scorpius sussurrou — Não fazia ideia de que ela estaria aqui, muito menos desse jeito. E ela também está saindo com um cara, imaginei que o fato de eu estar namorando não a afetaria, de qualquer forma.

Hugo pareceu surpreso com a informação de que Rose estava se envolvendo com alguém. Albus nem tanto, a prima havia confidenciado alguns detalhes mais íntimos de sua vida nas primeiras doses de whisky, por isso ele sabia que a situação deixava a ruiva mais confusa do que bem, mas não julgou coerente jogar a informação na conversa, então permaneceu quieto, como estava. James somente assistia a tudo.

— De qualquer forma, se quer mesmo ajudar, comece lembrando que não é sobre você. Não é sobre o que te magoa ou não. É sobre ela.

Scorpius assentiu lentamente, parecendo absorver as palavras.

Retornaram ao silêncio pensado até que James, tentando aliviar o clima, pegou uma lata de cerveja na mesa e levantou.

— Certo, então vamos parar com a terapia em grupo e voltar ao que interessa: quem está pronto para perder no FIFA?

Albus riu, balançando a cabeça.

— Você fala como se tivesse alguma chance contra mim, James.

— Só não vale o Malfoy usar isso como desculpa pra descontar a raiva nos controles. — Hugo acrescentou, com um leve sorriso, embora ainda estivesse muito desconfortável com a situação. A presença de James, contudo, era rara e muito agradável para o tempo ser desperdiçado com ele brigando com o pai da sua sobrinha, então resolveu ponderar novamente.

Scorpius também deu uma risada curta, todavia isenta de animação.

— Relaxa, Hugo. Vou pegar leve com vocês.

Eles voltaram a se acomodar diante da TV, tentando recriar o clima leve de antes. Mas, mesmo com os risos ocasionais e as provocações no jogo, o ar na sala ainda carregava o peso do que havia sido dito. Scorpius, apesar das distrações, não conseguia afastar as palavras de Hugo de sua mente e, de algum modo, ele sabia que a conversa com Rose era inevitável — só precisava descobrir como e quando.