Night Changes
8 Tomar partido de um bom partido
Notas iniciais
A noite no apartamento de Scorpius estava tranquila, como ele amava. A cidade podia estar uma confusão lá fora, mas ali dentro, o mundo parecia desacelerar. Camille, que vestia uma camisa larga do namorado, estava sentada no chão, de pernas cruzadas, com uma taça de vinho na mão e uma expressão relaxada enquanto observava pela fresta do sofá, o Malfoy mexendo em uma panela.
— Vai demorar muito, chef? — perguntou, inclinando a cabeça e sorrindo de forma provocadora.
— Você é muito impaciente, sabia? — Scorpius respondeu, erguendo uma sobrancelha enquanto mexia o conteúdo da panela. — Só falta o molho, ma cherie. Está quase pronto.
— Quase pronto, na sua lógica, significa mais uns vinte minutos. — Ela riu e tomou um gole do vinho.
Ele bufou, mas com um sorriso discreto. Era esse tipo de leveza que ele apreciava nas noites com Camille. Não havia pressa ou cobranças, apenas dois adultos aproveitando a companhia um do outro.
Menos de vinte minutos depois, Scorpius apareceu carregando uma travessa na mão enquanto Camille ajustava os últimos detalhes para que houvesse espaço suficiente para tudo. A mesa estava perfeitamente posta, como era de costume quando os dois jantavam juntos. A morena era detalhista e valorizava os guardanapos de tecido, a iluminação quente e aconchegante, às vezes velas e, claro, a garrafa de um bom vinho aberta ao lado de suas taças. O loiro apreciava a dedicação da mulher em transformar qualquer mínimo momento em algo belo, apresentável e elegante, como ela própria.
Quando terminou de colocar os vasilhames com a comida sobre a mesa, Scorpius percebeu que a namorada observava tudo com um sorriso curioso, já antecipando o sabor. O medalhão de filé mignon estava impecavelmente apresentado, coberto com um molho de vinho tinto e cogumelos, que brilhava sob a luz da sala de jantar.
Em meio a comentários sobre o cheiro maravilhoso que a comida emanava, sentaram-se de frente um para o outro e se serviram. Malfoy observava maravilhado cada movimento de Camile, a forma como ela cortou o primeiro pedaço de carne, mergulhou levemente no molho e levou à boca, fechando os olhos por um breve momento, saboreando.
— Uau — disse Camille, abrindo os olhos com um sorriso satisfeito. — Está incrível. A carne está tão macia que praticamente derrete na boca. Esse molho é maravilhoso, Scorpius. Você realmente se superou.
Ele abriu um sorriso discreto e deu um gole no vinho antes de responder.
— Fico feliz que você tenha gostado. É uma receita que eu queria testar há um tempo, mas nunca achei a ocasião certa.
Camille riu suavemente, cortando mais um pedaço do filé.
— E a ocasião certa foi me impressionar? Porque, se foi, missão cumprida. — garantiu — Sério, eu não sei se é o vinho tinto no molho ou os cogumelos, mas a combinação é divina. De onde você tirou isso?
— Meio que uma mistura de várias receitas que eu li. — Scorpius deu de ombros, modesto. — Eu queria algo que parecesse sofisticado, mas ainda tivesse aquele conforto de uma boa refeição. O vinho tinto faz o trabalho pesado, sempre ele.
Camille arqueou uma sobrancelha, brincando.
— Então, é o vinho que leva o crédito? Não você?
Ele riu, finalmente cortando seu próprio pedaço de carne.
— Bom, talvez um pouco do crédito venha pra mim. — Deu de ombros — Mas o que realmente importa é que você está gostando. Esse é o objetivo, afinal.
— Estou mais do que gostando. — Camille balançou a cabeça em aprovação, pegando um pouco do purê que acompanhava o prato. — Mas, confesso, você está arruinando os outros homens para mim. Depois disso, qualquer jantar vai parecer sem graça.
Scorpius riu baixo, com uma expressão divertida.
— Bem, a ideia é que você não precise mais jantar com outros homens.
Camille olhou para ele por cima da taça, seus olhos brilhando com leveza e afeto, mas um certo desconforto. Ela tomou mais um gole do vinho e, após um breve silêncio, alterou o tom da conversa.
— Scorpius, sobre isso… — começou um pouco insegura, fixando os olhos nas pétalas do arranjo de flor no centro da mesa para não ter que que encará-lo. Sabia que estava entrando em território complicado. — Não acha que precisamos conversar sobre nossas expectativas para o futuro?
Scorpius pousou os talheres sobre o prato, a expressão curiosa. Ele não parecia surpreso, mas estava atento. Não é como se o mesmo pensamento não estivesse ocupando sua mente desde o dia que resolveu apresentar Lyra Jane e Camille. Talvez por isso estivesse cozinhando pratos cada vez mais elaborados, visto que era hábito utilizar o tempo à beira do fogão para pensar.
— Nossas expectativas? — repetiu, como quem pede mais contexto, embora já tivesse uma ideia do que ela estava prestes a dizer.
Camille suspirou, colocando uma mexa de cabelo atrás da orelha de forma encantadora, tentando encontrar o equilíbrio certo entre honestidade e delicadeza.
— Sim. Eu sei que temos uma ótima relação e eu adoro estar com você. Sempre tão dedicado e atencioso, atento aos detalhes, quer dizer, olhe para isso! — Ela gesticulou, indicando o ambiente ao redor, a mesa cuidadosamente arrumada, a refeição impecável. — Contudo, às vezes fico me perguntando… como você realmente enxerga isso? Nós. O que estamos construindo? Sei que estamos há apenas alguns meses juntos e faz menos tempo ainda que resolvemos elevar o patamar da nossa relação. Não quero atropelar as coisas, mas preciso saber.
Ele inclinou-se para frente, cruzando os braços sobre a mesa, os olhos fixos nos dela.
— Camille, eu gosto de onde estamos. Não sinto necessidade de apressar nada, sabe? As coisas têm fluído naturalmente, pelo menos é o que eu sinto. — Ele deu um leve sorriso, quase tímido. — Mas, pelo que vejo, você está pensando em algo mais definido.
Ela sorriu de volta, embora de forma hesitante.
— Não é que eu esteja te pressionando para nada. Só que, às vezes, me pergunto se estamos no mesmo lugar, emocionalmente falando. — Scorpius voltou a se recostar na cadeira, com os braços cruzados, mais atento e mais tenso — Para mim, você é importante, Scorpius. Muito importante. — garantiu — E eu quero saber se estou caminhando ao lado de alguém que quer o mesmo que eu.
Houve uma pausa. Scorpius parecia ponderar suas palavras com cuidado, algo que ela apreciava nele, embora às vezes fosse frustrante. Às vezes, ela esperava mais impulsividade, sem medo de desagradar. Ele descruzou os braços e se inclinou, buscando as mãos da morena sobre a mesa, e as entrelaçou com as suas antes de quebrar o silêncio.
— Eu sinto o mesmo, Camille. Você também é muito importante para mim — Ele fez uma pausa, respirando fundo. — Só que a minha vida não é apenas sobre mim. Você sabe como é, se preocupa em relação aos seus pais e eu, bem… Além dos meus pais, ainda tem a minha filha.
— E a mãe dela… — Camille acrescentou. Sua voz não demonstrava mágoa ou amargura, mas preocupação. — Quando nos conhecemos, você me alertou sobre isso e eu sempre estive disposta a encarar essa situação da melhor maneira possível, sabe que não sou ciumenta, principalmente por algo do passado. Tenho 29 anos, também vivi muita coisa antes das nossas vidas se cruzarem, mas preciso saber, especialmente depois de conhecer a Rose, qual, exatamente, é o lugar que sua ex ocupa na sua vida hoje?
— A Rose não é… — Malfoy começou a corrigir, mas foi interrompido.
— Sim, sim, você diz que ela não é sua ex, já ouvi a história várias vezes, inclusive ouvi da boca dela. Coisa de uma noite, blá blá blá. — a mulher apoiou os cotovelos sobre a mesa e entrelaçou suas mãos, depois respirou fundo e continuou — Vocês têm uma filha juntos, certo? — Scorpius assentiu — Então, em algum momento, vocês foram um do outro, ainda que por apenas uma noite, o que eu, particularmente, duvido que tenha sido a única ocasião em que isso tenha acontecido. — pontuou, deixando Scorpius um pouco constrangido — De qualquer forma, acredito que seria até mais fácil de lidar se vocês fossem ex-namorados de verdade.
— Como assim?
— Ah, Scorpius, você sabe! — exclamou um pouco exasperada, mas dentro do tom sóbrio que lhe era habitual, e deu continuidade, gesticulando um pouco mais ao falar. — Toda essa tensão, algo entre tesão reprimido e nostalgia do que poderia ter sido, a imagem de um relacionamento perfeito que só existe no campo das ideias. Se vocês tivessem vivido isso e tudo tivesse dado errado, a relação de vocês seria bem mais honesta e menos cordial. Acho que tanto fizeram para manter uma boa relação que não conseguem se encarar com sinceridade. Vai dizer que não tem nada do que reclamar da Rose?
— Bem, já que tocou no assunto, eu fiquei bem chateado com algumas coisas que ela me disse aquele dia na casa do Albus, além de outras coisas que me incomodam em relação à criação da Lyra. Ela é rígida demais! — admitiu — E realmente pensei em ir falar com ela a respeito mas, enfim, os caras acharam melhor não. Disseram que eu estava exagerando. Que eu não devia procurá-la para falar sobre isso, porque, sei lá, talvez eu fosse piorar a situação ou porque é normal a gente se alfinetar às vezes.
Camille ficou em silêncio por um momento, processando o que ele havia dito.
— E quais seriam os caras?
— Ah, eu comentei que me encontrei com eles essa semana, não é? — Camille assentiu — Al, James e Hugo.
Foi a vez de Camille se recostar na cadeira, suspirando. Repôs o vinho em sua taça, talvez para ganhar mais tempo, Scorpius não conseguia dizer. Estava ansioso pelo que viria. Ela não chegou a tomar o líquido para recomeçar:
— Scorpius, antes de qualquer coisa, quero que fique claro que eu entendo o ponto deles. Mas, você sabe que, querendo ou não, eles são os primos e o irmão da Rose, eles a conhecem e a amam desde crianças, eles sempre vão tomar o partido dela.
Scorpius levantou o olhar para a namorada, como se estivesse considerando aquelas palavras pela primeira vez.
— Mas eles também são meus amigos. — contra argumentou.
— Sei disso, não estou negando. — assegurou — Porém, eles talvez não sejam os melhores amigos quando o assunto é a Rose, entende? — Malfoy assentiu — Você também precisa de alguém que tome o seu lado, alguém que olhe por você. E, se me permite dizer, eu estou aqui para isso.
Scorpius sorriu, um pouco surpreso com a firmeza e o carinho nas palavras dela.
Os garotos da família de Rose entraram na vida do Malfoy por intermédio de Albus. Acabava passando bastante tempo na casa dos Potter na adolescência, o lugar onde os primos Weasley acabavam frequentando durante as férias, seja para jogar no videogame de James ou para as mesas de RPG de Albus. Scorpius, particularmente, gostava de quando Hugo aparecia por lá para jogarem xadrez, e também porque Rose sempre acompanhava o irmão mais novo, ainda que ficasse enfiada no quarto de Lily junto de Roxanne e Dominique.
Não eram os únicos amigos que Scorpius possuía, mas foram os que ficaram quando as noites de diversão se transformaram em noites controlando febre de uma bebê, quando o energético parou de ser misturado com vodka para ser consumido quase diariamente a fim de conseguirem manter os olhos abertos durante as aulas e que os vômitos a serem limpados na casa não eram mais pela ressaca, e sim por uma criança com refluxo constante. A primeira infância de Lyra Jane foi complicada, mas os Weasley aguentaram firme junto com ele, e Scorpius era grato por isso. Agora, a provocação de Camille o fazia refletir que, na verdade, eles fariam o mesmo se o pai de Lyra fosse outro. Eles sempre estariam lá por Rose.
— Você acha mesmo que eu devo falar com ela? — questionou, coçando a nuca, um pouco constrangido por não ter pensado por esse ponto de vista antes.
— Acho que, se você sente que precisa falar, então sim. Não é sobre estar certo ou errado, Scorpius. É sobre colocar os seus sentimentos pra fora e não engolir algo que te incomoda.
Ele buscou a mão dela novamente e apertou com carinho, genuinamente tocado pelo apoio.
— Obrigado, Camille. De verdade. Acho que eu precisava ouvir isso.
Ela sorriu, agora com mais sinceridade.
— Ainda teremos outras conversas intensas, mas, por hora… — Camille se soltou de Scorpius e voltou a segurar seus talheres — Vamos ver se esse medalhão de filé mignon continua bom, mesmo frio.
Ele riu, também se voltando ao seu prato.
— Bem, fico feliz que minha comida pelo menos ajude no meu caso.
***
Rose Weasley estava tendo um dia feliz. Ainda eram apenas sete da manhã, e talvez fosse cedo demais para comemorar, mas ela sentia que as coisas estavam indo bem.
Seu orientador na pós-graduação em Estudos em Sociabilidade, Cultura e Movimentos Sociais havia destruído sua dissertação na última revisão, mas tudo bem. Duas semanas de noites mal dormidas, incontáveis xícaras de café e a sensação constante de estar à beira do colapso valeram a pena. Na noite anterior, antes da meia-noite, ela finalmente concluiu as correções. Pela primeira vez em dias, dormiu mais de quatro horas seguidas.
Além disso, Lyra Jane não tinha resmungado ou bufado para ela nos últimos dias, o que era um fenômeno digno de nota. Talvez a adolescente estivesse apenas cansada demais para discutir. Ou talvez fosse um sinal do apocalipse, mas Rose não contestaria a paz inesperada.
A escola continuava um caos – a professora de física saiu de licença-maternidade, e Rose teve que cobrir horários que não lhe pertenciam. Ainda assim, isso significava que suas próprias matérias estavam adiantadas e seus alunos pareciam mais engajados do que o normal. Pequenas vitórias.
Estava tão de bem com a vida que considerou, pela primeira vez em semanas, responder as mensagens de Kiran. Mas decidiu adiar essa decisão para depois do café. Prioridades.
Quando Lyra Jane passava a semana com Scorpius, a casa ficava mais silenciosa, e o silêncio era uma faca de dois gumes. Rose sentia falta da presença da filha, mas também descobriu que aproveitava esses dias sozinha. A casa permanecia mais arrumada, o banheiro sem cabelos no ralo, e ela conseguia manter uma rotina minimamente estável.
Com a caneca quente entre as mãos, ela deu um longo gole e olhou o celular sobre a mesa. Talvez realmente devesse responder Kiran.
Desde aquela noite em que saíra com Dominique, Lily e Roxy, a relação entre eles seguia um ritmo simples e sem complicações. Eles se encontravam quando queriam, sem expectativas ou promessas. Era isso que Rose gostava – a ausência de pressão, a liberdade de estar ali apenas pelo prazer do momento. Com Kiran, não havia necessidade de se preocupar com trabalho, com a dissertação, com a escola, com a família. Ele era uma pausa.
Entretanto, desde o dia em que seu orientador rasgou sua dissertação em críticas, ela não respondia às mensagens dele. Uma parte dela dizia que era falta de tempo, mas outra parte – a parte que ela preferia ignorar – se perguntava se não era também uma forma de autopunição. Como se dar espaço para esse tipo de envolvimento significasse que ela estava falhando. Que, ao invés de focar em ser impecável na pós, no trabalho, na maternidade, ela estava desviando para algo que não levava a lugar nenhum.
E agora, olhando para o celular, sentia que não podia simplesmente continuar ignorando.
Kiran não era do tipo insistente, mas suas últimas mensagens estavam ali, registradas:
Kiran: Desapareceu? Tá tudo bem?
Kiran: Imagino que esteja ocupada, mas se quiser sair pra desanuviar, me avisa.
A culpa se misturava ao café quente em sua garganta. Não era justo agir como se ele fosse descartável, porque ele não era. Não para ela.
Respirando fundo, deslizou os dedos sobre a tela e, antes que pudesse se arrepender, digitou:
Rose: Oi. Estou viva, prometo. As últimas semanas foram um inferno. O convite ainda está de pé?
A resposta veio quase imediatamente.
Kiran: Oi, sumida. Bom saber que ainda sou digno da sua atenção.
Ela revirou os olhos, mas sorriu.
Rose: Vai começar?
Kiran:
Jamais. Claro que o convite ainda está de pé. Qual horário é melhor para você?
Rose sorriu de leve, sentindo um calor diferente se espalhar pelo peito.
Rose: Só não pode ser muito tarde, tenho que acordar cedo amanhã.
Ela não mencionou o motivo específico, mas já sabia que sua manhã seguinte estaria lotada de compromissos, incluindo uma reunião interminável na escola. A resposta de Kiran veio logo em seguida:
Kiran: O problema é que estou ocupado o dia todo, não sei que hora vou conseguir desafogar.
Rose:Pesquisa?
Kiran: Trabalho.
Rose franziu a testa. Ele nunca havia falado de outro trabalho além da pesquisa. Naquela primeira noite juntos, entre conversas e drinks, ela descobriu que ele trabalhava com questões ligadas a metereologia e clima. Um tema interessante, mas que Rose não se aprofundara muito — até porque, depois daquela conversa inicial, os encontros seguintes tinham envolvido muito mais mãos e bocas do que palavras.
Rose:Trabalho, tipo, fora da pesquisa?
Kiran: Sim, professora, trabalho fora da pesquisa. E, antes que pergunte, não, não estou vivendo de vender dados meteorológicos na deep web.
Ela riu.
Rose:Pena. Teria sido uma ótima resposta.
Kiran:Acho que não tenho sua criatividade.
Rose:Isso é porque você se limita aos fatos.
Kiran: Ciências exatas fazem isso com as pessoas.
Ela poderia continuar conversando, mas sabia que precisava organizar seu dia.
Rose:Ok, falamos no fim da tarde e combinamos melhor.
Kiran: Fechado. Não suma de novo, Weasley.
Ela deixou o celular de lado, pegando a caneca de café novamente e olhando pela janela. O dia continuava calmo, mas agora com um detalhe a mais: ela tinha planos para a noite. E, pela primeira vez em semanas, isso parecia algo bom.
Ainda com um sorriso no rosto, Rose correu para se ajeitar para a escola. Pela primeira vez em semanas, queria se arrumar de verdade. A combinação de roupa escolhida era prática: calça de alfaiataria cinza, uma blusa vinho de gola alta e um blazer, apenas caso esfriasse mais tarde. Nos pés, o bom e velho par de tênis. Simples, mas elegante e confortável o suficiente para encarar um dia inteiro de aulas. Deu tempo até de fazer uma maquiagem leve, deixou os cabelos soltos e estava pronta.
Saiu de casa com os fones de ouvido e uma garrafa de água na mão, tentando se obrigar a manter o hábito de tomar mais líquido — às vezes ela se esquecia de que possuía um rim a menos. O céu ainda estava meio nublado, mas a temperatura estava agradável para uma caminhada. Ela apertou o play em uma playlist de pop dos anos 2000, querendo relembrar os velhos e bons tempos, e seguiu pelas ruas conhecidas do trajeto até Hogwarts.
A caminhada durava cerca de dez minutos, tempo suficiente para esvaziar um pouco a mente antes de entrar no caos acadêmico. Ainda estava satisfeita por ter finalmente respondido Kiran, e o bom humor persistia, sentia que estava conseguindo retomar as rédeas da própria vida.
Ao chegar à escola, nem teve tempo de guardar os fones antes de dar de cara com Alice, que vinha no sentido oposto com um sorriso estampado no rosto.
— Mas olha só quem está radiante a essa hora da manhã! — Alice exclamou, cruzando os braços e estreitando os olhos para Rose.
— Exagero — Rose respondeu, mas não conseguiu segurar um sorriso e, para esconder, voltou a andar em direção à sala dos professores.
— Que nada! — Exclamou Alice, que a acompanhava — Eu vi você entrando com essa leveza toda, fone de ouvido, dando bom dia até para as paredes. Me diz, qual foi o milagre? — Questionou, quando finalmente chegaram ao destino.
Rose riu e balançou a cabeça enquanto retirava a bolsa do ombro e colocava sobre a mesa redonda ao centro da sala.
— Talvez seja só a felicidade de ter dormido sete horas seguidas. — disse simplesmente, enquanto retirava da bolsa os materiais que usaria na primeira aula.
Alice arqueou uma sobrancelha.
— Não, não. — Negava veementemente, com o olhar desconfiado — Isso tem cara de ser outra coisa, mas não vou chegar a conclusões precipitadas, também. — Sentenciou, se jogando na cadeira, observando Rose se organizando um pouco apressada — Aliás, o que está fazendo aqui? Pensei que você não viesse às quartas pela manhã.
Rose interrompeu seus movimentos por um instante, encarando a Longbottom como se ela fosse maluca.
— Estou cobrindo o horário da Gloria no quarto ano, não lembra? Estou nessa há quase um mês. — esclareceu.
Alice arqueou uma sobrancelha e inclinou-se na cadeira.
— Sim, mas finalmente encontraram alguém para substituir a Gloria, você não recebeu o e-mail?
Rose negou com a cabeça, confusa, mas diminuindo o ritmo e se sentando de frente à amiga.
— Não sei dizer, na verdade. Acho que negligenciei meu e-mail institucional nos últimos dias.
— Ah, geralmente só tem bobagens, mas eu estava ansiosa acompanhando a saga para encontrarem um professor substituto. Não sei o porquê da demora, não é como se não soubessem que o bebê iria nascer em algum momento. — Alice desabafou.
— Realmente, já não era sem tempo! Eles sabiam que ela ia sair há meses, não faz sentido terem demorado tanto.
— Pois é — Alice concordou, balançando a cabeça em reprovação. — Eu não entendo como o planejamento pode ser tão ruim. Mas enfim, espero que quem vier seja minimamente competente. Meus alunos não aguentam mais ouvir sobre mitose e meiose ao invés das leis de Newton.
— E os meus, então? Não suportam mais ver a minha cara!
As duas riram do caos instaurado, mas aliviadas pela situação estar se resolvendo aos poucos. Logo, Alice se levantou para dar a primeira aula do dia e Rose aproveitou o tempo livre para preparar os planos das próximas aulas.
Estava sentada, concentrada nos últimos relatórios feitos, com os fones de ouvido no volume médio, quando sentiu uma mão tocar seu ombro, assustando-a um pouco. Era a diretora Prewett, uma senhora que, aos olhos de Rose, lembrava muito a sua avó Molly. Ela possuía o mesmo cabelo curtinho e o mesmo sorriso gentil, que facilmente poderia se transformar numa voz feroz que impunha respeito a todos. Ela era diretora desde que Rose estudava em Hogwarts e foi uma das pessoas que mais acolheu a ruiva quando ela chegara naquele ambiente de trabalho tão jovem e inexperiente.
Ao perceber a presença da senhora, a mulher foi logo retirando os fones e pedindo desculpas.
— Ora, não se preocupe, Weasley. — a diretora a confortou — Pensei que a sala estava vazia, mas já que está aqui, vou aproveitar para apresentá-la ao professor novo. — Prewett olhou ao redor, procurando-o — Bom, acho que ele se perdeu. Espere aqui um instante. — Pediu, e saiu novamente da sala.
A ruiva aproveitou para se levantar e aguardar o novato de maneira mais apresentável, enquanto ouvia as vozes do lado de fora
— … como lhe disse, aqui é a sala dos professores, você pode aproveitar para deixar seus pertencer, tomar um café, fugir dos alunos.
O homem riu e Rose teve a impressão de já ter ouvido aquela risada antes. Então, quando a diretora Prewett retornou com o professor em seu encalço, ela teve a certeza.
— Esta é a professora Rose Weasley, ela ensina Ciências Sociais para nossos alunos. — a senhora dizia ao homem moreno, alto e com os cabelos mais sedosos que Rose já vira na vida — Weasley, este é Kiran Patil, nosso novo professor de Física.
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