Night Changes

9 Fronteiras e limites


Com muito esforço, Rose tentava se convencer de que era apenas mais um dia comum, como qualquer outro.

Após “ser apresentada” ao seu alguma-coisa-casual-do-momento, passou a manhã entre correções, reuniões rápidas com colegas e o envio de mensagens nada amigáveis a Kiran Patil, cuja presença era impossível de se ignorar pelos corredores. Não que ela o tivesse visto diretamente, mas os rumores de um professor substituto novo (e gato) se espalhavam rápido entre os alunos e os outros docentes.

De repente, ela já não estava sentindo todo aquele otimismo de quando despertou naquela manhã. Ela tentou se concentrar o máximo que pôde em seu trabalho e não pensar nas teorias malucas que eram formadas em seu cérebro, queria evitar pensar demais sobre sua situação atual para não deixar transparecer que estava em maus lençóis.

Rose conseguiu seguir bem até ali, sem levantar suspeitas. Conversou com todos com normalidade, pegou seu almoço no refeitório dos professores, tentando não parecer tensa e escolheu uma mesa mais ao canto, onde pudesse comer com calma e reorganizar os pensamentos. Mas a tranquilidade durou pouco.

— Você está me evitando ou só tentando assimilar que trabalho aqui agora? — a voz de Kiran soou divertida ao seu lado.

Rose ergueu os olhos e o viu ali, com a bandeja na mão e um sorriso de canto. Estava vestido com camisa e calça sociais, totalmente diferente do que ela estava acostumada a ver, embora o par de tênis a fizesse se recordar de que, sim, era esse mesmo o homem com quem ela estava saindo há algumas semanas, com seus traços indianos, a barba bem feita, ainda que não completamente preenchida e o cabelo preto, brilhoso e sedoso que caía um pouco sobre as sobrancelhas grossas. Ele estava tão à vontade que, por um segundo, aquilo a irritou. A ruiva apontou para a cadeira à sua frente com um gesto curto, permitindo que ele se sentasse.

— O que você está fazendo aqui, Kiran? — ela foi direto ao ponto, inclinando-se para que ele pudesse ouvi-la apesar do tom de voz baixo e deixando a irritação transparecer em sua voz.

Ele ergueu as sobrancelhas, parecendo genuinamente confuso.

— Almoçando? — Respondeu, apontando para a bandeja.

— Não. — Rose suspirou. — Aqui, nesta escola. Dando aula.

— Ah, isso — ele deu de ombros e começou a mexer na comida. — Vi a vaga aberta e pensei: por que não?

Ela franziu a testa.

— Você veio atrás de mim? — indagou, com medo da resposta.

Kiran riu, balançando a cabeça.

— Você acha mesmo que eu largaria minha pesquisa e atravessaria a cidade só para te seguir?

— Não sei! — ela retrucou, exasperada. — É muita coincidência!

— Não, Rose. Você pode não se recordar, mas nunca me disse onde trabalhava, apenas que era professora de escola, então não tinha como saber que era exatamente nesta escola.

Ela piscou, surpresa.

— Eu… não disse? — questionou, tentando se lembrar de alguma menção à escola, porém, de fato, parecia não existir. Ela resolveu adotar uma postura mais fechada exatamente por não conhecê-lo tão bem, por mais que parecesse boa pessoa, então preferiu ocultar endereços e agradeceu por esses tópicos não aparecerem com tanta frequência em suas conversas.

— Não. — disse com convicção. — Apesar de que, sim, você tem uma parcela de responsabilidade por eu estar aqui. — Confessou, deixando-a confusa. — Você falava tanto sobre seus alunos e o quanto gostava de ensinar que me pareceu uma experiência bacana. Então, quando vi a vaga, achei que podia tentar algo diferente.

Rose desviou o olhar, processando aquela informação. Ele estava dizendo a verdade? Tudo parecia um grande acaso, mas parte dela ainda estava tentando entender o que aquilo significava para sua vida.

— E a sua pesquisa? — Perguntou, ainda desconfiada. Como alguém simplesmente parava uma pesquisa promissora, bancada por uma universidade de renome, para dar aulas numa escola?

— Bom, isso também teve a ver com você. Quando vi que você conciliava ser mãe, dona de casa, professora e estudante, me senti um pouco humilhado. — Ele sorriu para Rose, deixando-a desconcertada — Ainda estou trabalhando na pesquisa e acredito fielmente que consigo conciliar as duas coisas. Além do mais, vou ficar aqui por apenas alguns meses e as férias de verão estão quase aí. Acho que aguento.

Ela assentiu lentamente, brincando com o garfo entre os dedos. Não sabia se aquilo a deixava mais tranquila ou apenas a fazia questionar ainda mais a improbabilidade da situação.

— Bom, então… — Rose pigarreou, tentando recobrar a compostura. — Suponho que precisemos estabelecer algumas regras.

— Regras? — Kiran ergueu uma sobrancelha, divertido.

— Sim. — Ela se inclinou um pouco para frente, mantendo o tom firme. — Acho melhor a gente manter as coisas estritamente profissionais daqui pra frente.

Kiran inclinou a cabeça, analisando-a.

— Você está falando da nossa amizade?

Rose desviou o olhar.

— Eu nem sei se podemos chamar de amizade.

Ele soltou um assobio baixo.

— Essa doeu um pouco. Mas, como quiser, professora, prometo não te atrapalhar. — assegurou, com um sorriso que deixava claro que não havia pretensão alguma em cumprir a promessa.

Rose bufou e cruzou os braços.

— E você não pode fazer isso.

— Isso, o que? — indagou, confuso.

Rose se inclinou ainda mais para frente, para sussurrar:

— Ficar me chamando de professora desse jeito sexy.

Kiran a observou por alguns segundos e então sorriu.

— Está bem, serei um colega de trabalho exemplar. — disse, colocando a mão sobre o peito, fingindo solenidade.

Rose revirou os olhos, mas não pôde evitar um pequeno sorriso.

A conversa teve de ser interrompida pois Rose avistou Alice caminhando na direção deles e uma sensação de urgência lhe tomou conta. A última coisa que queria era ser bombardeada com perguntas da amiga naquele momento, e Alice definitivamente não deixaria passar a presença de Kiran.

— Podemos conversar melhor depois? Na minha casa? — pediu, ainda em tom baixo.

Kiran ergueu uma sobrancelha, surpreso.

— Você me convidando para a sua casa? Isso é inédito.

— É sério. — Rose insistiu, mantendo o tom urgente. — Depois da aula.

Ele deu de ombros e sorriu.

— Tudo bem.

Antes que pudessem falar mais alguma coisa, Alice já estava ao lado dos dois, com a mão sobre um ombro de Rose e os olhos brilhando de curiosidade.

— Ora, ora, ora.. olha vocês dois aqui, juntinhos. — Comentou, encarando sugestivamente a amiga.

Rose revirou os olhos.

— Senta e come, Longbottom.

Alice apenas sorriu de lado, mas aceitou o convite, enquanto Rose tentava ignorar ambos os olhares direcionados a ela: os curiosos, vindos da amiga e os desejosos, vindos de Kiran.

***

O relógio marcava pouco mais de sete da noite quando Kiran tocou a campainha da casa de Rose. Ela estava menos nervosa do que mais cedo mas, ainda assim, não havia encontrado uma solução para a situação na qual estava enfiada e, além disso, havia uma parte de si que gritava que ela estava se afundando ainda mais. Uma das razões era exatamente a presença de Kiran na porta da sua casa. Ele nunca havia estado ali antes, ela não queria esse tipo de intimidade, por isso sempre se encontravam na casa dele ou em lugares neutros. Essa mudança de cenário já tornava tudo diferente.

Antes de abrir a porta, conferiu se estava apresentável. Usava roupas confortáveis — um moletom leve e uma calça de tecido solto —, e seu cabelo estava preso de qualquer jeito, denunciando o fim de um longo dia, mas não estava exatamente feia.

“Droga, Rose, não deveria pensar em ficar bonita e sim em acabar com esse caso indefinido”, pensava, enquanto abria a porta.

Quando abriu a porta, se deparou com Kiran usando as mesmas roupas de mais cedo, acrescentando ao visual uma bolsa de couro pendurada no ombro. Fazia sentido, visto que ele morava do outro lado da cidade e provavelmente estava vindo direto da escola.

— Entra. — Ela deu espaço e fechou a porta atrás dele.

Kiran deu uma olhada discreta no ambiente, sentindo a energia feminina exalando. A casa era muito aconchegante, com prateleiras repletas de livros e objetos que pareciam contar histórias das moradoras do local. Algumas fotos estavam dispostas em molduras simples e Lyra Jane aparecia em várias delas. O silêncio se instaurou e apenas os passos dos dois eram ouvidos, mas não era exatamente desconfortável. Ainda assim, Kiran achou melhor quebrá-lo:

— Então… — começou, se apoiando na mesa de jantar e cruzando os braços. — Vai me interrogar agora?

Rose suspirou, passando a mão no rosto.

— Não é um interrogatório, Kiran. Eu só preciso entender essa situação toda.

— O que exatamente? — Ele inclinou a cabeça. — Já disse mais cedo, eu vi a vaga aberta e achei que seria uma experiência interessante. Com todo respeito, isso não é sobre você.

— Sim, mas agora a gente trabalha no mesmo lugar! — Ela gesticulou, frustrada. — Isso complica tudo.

Complica? — Ele franziu a testa. — Rose, olha, o que a gente tem é casual. Você mesma sempre deixou isso claro.

Rose desviou o olhar, apertando os braços ao redor do próprio corpo.

— É que não sei se consigo lidar com você fazendo parte do meu dia a dia, topar com você todos os dias sabendo que a gente… — ela abaixou a cabeça, encabulada. — Você sabe.

Kiran a observou por um instante e então assentiu, como se finalmente entendesse.

— Rose, você é uma mulher adulta. — Atestou o óbvio. — E tudo o que eu menos quero é te constranger ou te magoar. Entendo que pode ser um cenário complicado, mas não precisa ser. Pelo menos da minha parte, as coisas não precisam ficar estranhas só porque estamos dormindo juntos.

Rose soltou um suspiro, passando a mão pelos cabelos, tentando organizar seus pensamentos. Kiran parecia relaxado demais diante de algo que, para ela, parecia um desastre iminente.

— Não é sobre ser adulta, Kiran. — Ela cruzou os braços. — É sobre limites. — Ele inclinou a cabeça, esperando que ela continuasse. — Eu sempre tive um controle muito claro sobre o que era a minha vida pessoal e o que era o meu trabalho. E agora você está nos dois.

— Isso não precisa ser um problema. — Kiran deu de ombros, se aproximando da ruiva. — A menos que você queira que seja.

Ela revirou os olhos, irritada com a calma dele.

— O que você quer dizer com isso?

— Quero dizer que… — Ele segurou as mãos dela, como se fosse explicar para uma criança pequena que os pais logo voltam — Se a gente não fizer disso um grande evento, ninguém vai notar. Eu não vou te abordar na escola como se tivéssemos alguma coisa. Você pode continuar sua vida normalmente, e eu a minha.

— E se eu quiser encerrar isso? — Rose perguntou hesitante, mas firme.

Kiran arqueou as sobrancelhas, parecendo levemente surpreso e, para o espanto de Rose, ao invés de se afastar, ele se aproximou ainda mais, a ponto dela sentir o hálito quente perto do seu rosto.

— Se é isso que você quer, tudo bem. Mas, sinceramente, não me parece que queira.

Rose sustentou o olhar, mas teve dificuldade em encontrar as palavras para responder. Se sentia inebriada pela proximidade de Kiran.

— E você acha que me conhece tão bem assim para saber o que eu quero? — perguntou com a voz vacilante.

— Eu acho que você está confusa. — respondeu quase num sussurro, antes de se afastar e dar um pequeno sorriso, sem deboche, apenas uma constatação. — E que talvez tenha outros motivos para estar tão incomodada com isso.

Os dois caíram novamente no silêncio e Rose soltou um suspiro cansado.

— Não dá para ter certeza que a convivência não vai atrapalhar essa coisa indefinida que temos e nem que essa coisa não irá atrapalhar nossa convivência. — Exprimiu seu incômodo e insegurança, porém com uma pitada de tristeza. Ela realmente gostava dos momentos de distração com Kiran Patil — Agora os personagens da minha vida vão se materializar para você e eu realmente não queria isso.

— Eu prometo me comportar. — Ele disse, levantando as mãos como se estivesse se rendendo. — E, sendo bem honesto, eu gostaria muito de continuar com o que a gente tem.

Rose parou por um momento e olhou para ele com ceticismo.

— Você é insistente, hein?

Ele riu.

— Apenas sincero.

Ela suspirou, se apoiando na mesa de jantar ao lado dele e cruzando os braços em seguida.

— Não quero mesmo misturar as coisas. — a voz saiu fraca, ela sabia que estava quase cedendo, mas a racionalidade precisava falar mais alto. Sua vida só funcionava bem porque era racional na maioria de suas escolhas.

— Mas, Rose… — Kiran começou com a voz ainda mais calma, se colocando de frente para a ruiva e segurando sua cintura — Mesmo que o que temos seja algo físico e sem compromisso, não muda o fato de que você é a mulher mais interessante e atraente que conheci em muito tempo. — Ela sentiu um arrepio percorrer a espinha, mas manteve a expressão fechada. — Vê-la todos os dias e não poder tocar em você? Isso vai ser excruciante.

Rose fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. O jeito como ele falava, o tom baixo da voz, a maneira como a observava… Kiran sabia exatamente como mexer com ela. E aquilo era um problema.

— Não precisa ser. — Ele acrescentou, baixinho.

Ela abriu os olhos e o encarou.

— Você não facilita, né?

Ele sorriu.

— Eu gosto de desafios.

Rose balançou a cabeça, sentindo seu coração bater um pouco mais forte.

— Eu estava fazendo algo rápido para jantar. Quer ficar?

Ele se afastou, confuso com a pergunta completamente fora do contexto da conversa.

— Você me chamando para jantar na sua casa? Mais um evento inédito.

— Não exagera. — Rose revirou os olhos, mas um pequeno sorriso escapou.

— O que você estava preparando?

Ela deu de ombros e indicou a cozinha.

— Spaghetti com molho de tomate e manjericão. — disse, um pouco envergonhada, sabendo que não era exatamente um prato digno de se convidar alguém para comer, mas ela estava cansada e foi o que sua energia a permitiu fazer naquele dia.

Kiran abriu um enorme sorriso.

— Eu amo spaghetti, sabia? — Foi andando em direção à cozinha, com Rose em seu encalço — Como posso ajudar você? — Perguntou já lavando as mãos na pia e procurando uma toalha para secá-las.

Rose não conseguiu esconder o sorriso que apareceu em seus lábios. Talvez, com a ajuda de Kiran ela conseguisse manter a leveza do caso dos dois, coisa que ela estava desesperadamente precisando em sua vida.

Os dois rapidamente deram jeito no jantar. Rose não deixou que o homem chegasse perto de seu fogão, mas ele foi muito útil ralando o queijo e colocando os pratos na mesa. Ela repensou muito sobre abrir um vinho ou não, mas foi convencida por Kiran que uma taça não faria mal.

O jantar foi agradável. Kiran contou sobre seu primeiro dia como professor, disse que se sentiu bem recepcionado, principalmente pelas alunas, que pareciam encantadas com ele — o que Rose compreendeu perfeitamente. Ele contou que alguns alunos foram desafiadores e Rose, com a vasta experiência que possuía com alguns deles, deu dicas para que conseguisse alcançá-los durante as aulas. Ela também comentou sobre alguns professores que demandavam cuidado, pois eram verdadeiras cobras, além de repassar algumas fofocas da escola, tanto sobre alunos quanto funcionários.

— Então quer dizer que o professor de história e a senhorinha da cantina… — o moreno insinuou, em meio a gargalhadas.

— Juro! — reafirmou Rose, também rindo — A primeira vez que os vi no estacionamento não acreditei no que os meus olhos presenciaram.

Aos poucos, o riso foi cessando, dando lugar a um silêncio confortável.

— Ninguém pode saber que já nos conhecíamos antes. — Rose sentenciou, séria.

Kiran inclinou a cabeça, curioso.

— Isso inclui Alice?

Principalmente Alice. — Rose respondeu de imediato.

Ele riu baixo.

— Certo. Vou fingir que você é apenas a professora de ciências sociais que gosta de fazer questionamentos filosóficos durante o almoço.

Rose o olhou com uma expressão ligeiramente apreensiva.

— Nós vamos almoçar juntos?

— Bem, eu não conheço ninguém lá. Então, sim, se você permitir.

Rose ponderou antes de responder:

— Permito. Mas nada de conversas que entreguem que temos um passado.

— Entendido, chefe. — Ele brincou, levando uma última garfada à boca. — Isso está ótimo, aliás.

— Eu sei. — Ela disse, sorrindo presunçosa.

Quando terminaram de jantar, Rose serviu um pouco mais de vinho para os dois e se dirigiu até o sofá, convidando o homem a fazer o mesmo. Kiran sentou-se ao lado dela, conversando e bebericando o vinho, deixando os dedos deslizarem de maneira distraída pelo tecido macio do moletom que ela vestia.

— Então… agora que já estabelecemos limites no trabalho. — começou — E aqui? — Ele perguntou enquanto apertava a cintura de Rose, a voz propositalmente casual.

Rose virou o rosto para ele, os olhos encontrando os dele.

— Aqui não tem regras.

Kiran sorriu de lado.

— Bom saber.

Os lábios dele encontraram os dela em um beijo lento, como se testassem o território. Rose deslizou uma das mãos para a nuca dele, aprofundando o contato. Kiran sorriu contra os lábios dela antes de puxá-la um pouco mais para perto.

As coisas começaram a esquentar rapidamente. As mãos de Kiran subiram pela lateral do corpo de Rose, enquanto ela inclinava a cabeça, permitindo que ele explorasse seu pescoço com beijos. Um calor confortável tomou conta do ambiente.

Até que a campainha tocou.

Rose congelou.

Kiran soltou um suspiro baixo, encostando a testa no ombro dela.

— Você vai atender? — questionou, frustrado.

— Tenho que atender, pode ser uma emergência.

Ela se levantou apressada, ajeitando o cabelo e a roupa enquanto caminhava até a porta. Seu coração ainda estava acelerado, mas agora pelo nervosismo ao imaginar quem poderia ser.

Ao abrir a porta, deu de cara com Scorpius.

Ele parecia sério, mas não exatamente desesperado ou zangado. Apenas determinado.

— Podemos conversar?

Rose piscou algumas vezes, surpresa.

— Agora?

Scorpius cruzou os braços.

— Sim. Agora. — respondeu, mantendo a postura firme à porta, esperando pela reação de Rose.

Ela piscou algumas vezes, ainda processando a presença dele ali.

— Aconteceu alguma coisa com a Jane? — ela perguntou rapidamente, o tom já carregado de preocupação.

— Não, ela está bem. — Scorpius garantiu. — Está dormindo na casa de uma amiga.

Rose franziu a testa.

— Desde quando ela pode dormir na casa de amigas em dia de semana?

Scorpius cruzou os braços, como se já esperasse aquela reação.

— Desde que eu deixei. Afinal de contas, eu também tenho autoridade sobre a nossa filha.

Rose bufou, sentindo uma irritação crescente.

— Scorpius, ela tem treze anos. Você sabe que temos regras para dias de aula.

— E é justamente sobre situações como essa que eu queria conversar com você. — Ele sustentou o olhar dela. — Será que posso entrar?

Rose hesitou, desviando o olhar por um breve instante.

— Acho melhor deixarmos essa conversa para outro dia. Estou ocupada.

Scorpius arqueou uma sobrancelha.

— Ocupada com o quê?

— Estou assistindo a uma aula online. — afirmou, esperando ter soado convincente, mas a resposta saiu rápida demais, e Scorpius imediatamente notou algo estranho.

— Aula online? — Ele repetiu, agora com um olhar inquisitivo. — Estranho porque, veja bem — Levantou o indicador, fazendo uma breve pausa — Eu escolhi vir hoje exatamente porque Lyra me disse que você não tinha aulas.

Rose praguejou mentalmente. Claro que Lyra Jane teria mencionado isso para ele. Então ela sabia que ele estaria ali? Por que não avisou nada?

— Decidi pegar uma aula extra. — Ela tentou parecer casual. — Você sabe, dedicação total à pós-graduação.

Scorpius não pareceu convencido. Ele olhou para dentro do apartamento por sobre o ombro de Rose, como se tentasse enxergar algo além dela.

— Rose — começou, desconfiado — Não está mentindo para mim, está? — questionou, com um olhar curioso e até um pouco divertido.

Ela respirou fundo, mantendo-se firme na porta, porém manteve-se em silêncio. Era uma péssima mentirosa, pelo menos na frente de Scorpius. Havia algo no olhar dele que ela não conseguia explicar, mas sempre arrancava-lhe a verdade.

Scorpius franziu o cenho, observando a ruiva com mais atenção. Seu cabelo estava um pouco desalinhado, a blusa levemente amassada e os lábios, aqueles belos lábios carnudos, estavam mais inchados e corados do que o normal. Ela não parecia exatamente… composta.

Seus olhos estreitaram, e um sorrisinho irônico surgiu em seus lábios.

— Você está com alguém. — Deduziu.

Rose arregalou os olhos por um breve instante antes de se recompor.

— O quê? Não! — Ela desviou o olhar, pigarreando e ajeitando a blusa com um gesto automático. — E isso também não vem ao caso. — respondeu, irritada. — O ponto é que não podemos conversar agora, você perdeu a viagem vindo até aqui. — asseverou, cruzando os braços e franzindo a testa, da forma que fazia com a filha quando queria ser obedecida sem discussões.

Ela esperava que fosse surtir o mesmo efeito em Scorpius, contudo ele soltou uma risada seca, também cruzando os braços.

— Interessante. Nossa filha não pode se divertir em um dia de semana, mas você pode? — indagou, debochado.

Rose sentiu o rosto esquentar, ao mesmo tempo encabulada e irritada.

— Não é nada disso! — rebateu, cerrando os olhos para ele. — E, de qualquer forma, a minha vida pessoal não é da sua conta.

Scorpius ergueu as sobrancelhas, como se tivesse recebido a confirmação que queria.

— Claro, sua vida pessoal não é da minha conta. — admitiu, a contragosto — Mas as decisões sobre a nossa filha são.

— Exatamente. — Rose respondeu firmemente. — Então, da mesma forma que eu não questiono você sobre as suas escolhas pessoais que não causam impacto na vida dela, espero que respeite as minhas.

Scorpius observou-a por alguns segundos, como se estivesse decidindo se valia a pena continuar aquela discussão. Por fim, suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Tudo bem, Rose, eu vou embora. — anunciou, deixando transparecer em sua voz uma mistura entre derrota e raiva — Mas essa conversa sobre a Lyra ainda vai acontecer.

Ela assentiu, mantendo-se firme.

— Amanhã. — Ela achou melhor tomar as rédeas da situação, compreendendo que demonstrar desinteresse na tal conversa que parecia tão importante seria pior.

O loiro ficou surpreso com a postura de Rose, mas segurou o olhar dela por um instante antes de dar um passo para trás.

— Amanhã. — confirmou, já se virando para descer pelos degraus que davam acesso à rua. Rose esperou até que ele saísse de sua vista antes de fechar a porta, soltando um longo suspiro.

Ficou um tempo parada absorvendo o conflito recente e tentando, sem sucesso, compreender o que se passava na cabeça de Scorpius para aparecer em sua casa no meio da noite sem avisar. O que ele esperava? Ser recebido com chá, flores e um pudim?

— Isso foi intenso. — Weasley ouviu a voz de Kiran às suas costas. Por um instante, havia se esquecido que ele estava ali. Ela se virou e o encontrou encostado na parede ao fim do corredor com os braços cruzados e um meio sorriso no rosto.

— Você ouviu? — indagou, constrangida. Não queria ser avaliada pelo Patil, não queria que ele a visse numa situação em que ela havia saído claramente derrotada, mas sua pergunta seguinte não envolveu o tópico da discussão, e isso a deixou mais calma.

— Ele sempre aparece assim, sem avisar?

Rose revirou os olhos.

— Não. Só quando resolve implicar comigo.

Kiran deu de ombros, caminhando na direção dela, colocando uma das mãos na cintura coberta pelo moletom.

— E agora? Está muito estressada para continuar de onde paramos?

Rose bufou, mas não conseguiu segurar um pequeno sorriso.

— Você realmente não perde uma oportunidade, não é?

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Se perdesse, eu não estaria aqui.

Ela balançou a cabeça, ainda sentindo o resquício da tensão da conversa com Scorpius, mas também um certo alívio por ele não ter conseguido estragar sua noite por completo.