Notas iniciais
Hello, estou de volta! Respondendo à pergunta da gimansano, já que não dá mais para responder comentários, eu tento postar semanalmente. Nem sempre dá certo, mas é a meta. E, se tem mais alguma scorose shipper lendo por aqui, dê o ar da graça também! Somos um fandom de 5 pessoas, mas ainda existimos. Beijão e até a próxima!

O som repetitivo da esponja contra a louça e a água corrente enchendo a pia eram quase reconfortantes, ajudando Rose a manter as mãos ocupadas enquanto sua mente corria solta. Ela tentou se concentrar no movimento automático de limpar os pratos, mas a tensão no peito teimava em permanecer.

Kiran agora dava aulas em Hogwarts e os dois seriam obrigados a se ver todos os dias, mantendo em segredo a relação que possuíam. Relação essa que permanecia indefinida, deixando-a desconfortável por não ter o controle da situação.

Falando em controle, Scorpius estava a caminho e Rose poderia apostar a própria casa que, mais uma vez, ele iria bater na tecla no controle que ela queria exercer sobre a filha. A Weasley às vezes pensava que, por Scorpius, Lyra Jane poderia fazer o que quisesse, contanto que não morresse e nem saísse do planeta (opcional). Contudo, a ruiva não estava disposta a ceder tão facilmente, sabia muito bem o quanto a filha precisava de uma rotina bem definida e estipulada pelos pais, visto que LJ poderia até ser responsável em alguns aspectos, mas até para escovar os dentes antes de dormir ainda tinha que ser lembrada.

Rose suspirou, enxaguando o último prato antes de secar as mãos no pano de prato pendurado ao lado da pia. Olhou ao redor. A cozinha estava impecável, o chão brilhando, a mesa sem nada fora do lugar. Até o lixo já tinha sido levado para fora.

Talvez estivesse exagerando um pouco na necessidade de distração, mas é que, considerando o tom da última mensagem do loiro, aquela conversa não seria nada leve.

Olhou o relógio. Scorpius chegaria em qualquer momento. Optaram por ter a conversa no horário do almoço, aproveitando que Rose só iria dar aulas de manhã, Lyra Jane ainda estaria na escola e o Malfoy possuía horários flexíveis.

Ela passou as mãos no rosto, tentando se preparar mentalmente. Sabia que essa conversa precisava acontecer — ele claramente tinha algo entalado e não era do feitio dele insistir tanto sem motivo. Mas ela também sabia que não queria abrir espaço para mais tensão entre os dois.

O som da campainha a fez dar um pequeno pulo.

Respirando fundo, foi até a porta e a abriu.

Scorpius estava parado ali, vestindo casualmente uma camiseta de manga longa preta e calça jeans. Os cabelos estavam um pouco úmidos e isso, somado ao cheiro de shampoo caro, deixavam claro que ele havia saído do banho direto para a casa de Rose. Ela, porém, estava descabelada e com suas roupas de faxina, que consistiam nas peças de academia mais surradas do seu guarda-roupas. Porém, ao se deparar com a expressão séria do Malfoy, de quem tinha ido para uma negociação e não uma conversa, se arrependeu por não estar mais apresentável.

— Oi — ele cumprimentou, os olhos rapidamente escaneando o ambiente atrás dela, como se procurando algo ou alguém.

Rose revirou os olhos, cruzando os braços.

— A casa está vazia, caso você esteja se perguntando.

Ele ergueu uma sobrancelha, mas entrou, fechando a porta atrás de si enquanto seguia Rose em direção à sala.

— Vai saber, né? — comentou — Melhor cuidar para não encontrar uma surpresa como a de ontem. — Deu de ombros.

Rose se virou rapidamente para ele, indignada.

— Você aparece na minha casa sem avisar e fica espantado por eu estar vivendo minha vida?

— Não, Rose, eu fico espantado por você agir como se a nossa filha não estivesse no meio disso — Scorpius rebateu, cruzando os braços.

Ela abriu a boca para retrucar, mas fechou em seguida, apertando os olhos com exasperação.

— Do que você está falando?

— Você, por acaso, já pensou em como essas coisas podem afetá-la?

Rose soltou um riso curto, sem humor, enquanto se encostava no braço do sofá.

— O que exatamente vai afetá-la? O fato de eu estar saindo com alguém? — Ela apoiou as mãos nos quadris. — Porque, se for isso, você deveria começar a se preocupar com seu próprio exemplo antes de vir falar comigo. Tudo bem que agora você é um homem comprometido, mas não pense que não sei como seu apartamento era movimentado antes de você finalmente encontrar alguém.

Scorpius soltou um suspiro frustrado, passando a mão pelo rosto.

— Não é sobre mim, Rose. Eu só quero saber se você já pensou em como ela pode se sentir sobre isso.

— E eu estou te dizendo que, por enquanto, não há nada a ser discutido. Se e quando eu achar que ela precisa saber de alguma coisa, eu mesma vou falar.

Ele ficou em silêncio por um momento, avaliando-a com atenção.

— Você realmente acha que consegue manter as coisas separadas assim? — questionou, desafiadoramente.

Ela não tinha certeza, na verdade estava perdida, mas não poderia oscilar, não na frente dele. Então, sustentou o olhar e respondeu com firmeza:

— Sim. A Jane é uma adolescente inteligente, mas isso não significa que ela precisa estar envolvida em tudo. — esclareceu — Eu não vou jogar informações desnecessárias sobre a minha vida pessoal em cima dela, questões que ela nem tem maturidade para lidar ainda.

Scorpius ainda parecia incomodado, mas não tinha muito mais o que argumentar. Rose falava com tanta certeza que qualquer insistência dele pareceria apenas teimosia.

Ele respirou fundo e ambos caíram num silêncio carregado. Rose percebeu que aquilo não levaria a lugar algum, precisavam focar no real motivo daquela conversa.

— O que você quer falar sobre a Jane?

Scorpius se acomodou na poltrona à frente dela, apoiando os cotovelos nos joelhos, as mãos unidas.

— Eu acho que estamos sendo muito rígidos com ela.

Rose bufou, já prevendo o que viria.

— Se por "muito rígidos" você quer dizer que ela tem uma rotina e regras básicas, então sim, estamos.

— Rose, ela tem treze anos. Você se lembra de como éramos nessa idade?

— Sim, e exatamente por isso sei que precisamos estabelecer limites.

Ele riu sem humor, se recostando na poltrona, tentando controlar a indignação.

— Limites ou controle absoluto? — questionou — Porque, pelo que percebo, você decide tudo por ela sem nem considerar minha opinião.

— Isso não é verdade! — rebateu, exasperada.

Scorpius arqueou uma sobrancelha.

— Ontem você ficou irritada quando eu deixei a Lyra dormir na casa da amiga dela. — pontuou — Mas desde quando eu não posso tomar uma decisão dessas? Desde quando tudo precisa passar por você?

— Era uma quarta-feira, Scorpius. Ela tinha aula no dia seguinte.

— E daí? Era uma única noite. Você age como se cada mínima mudança fosse bagunçar a vida dela inteira.

— Porque disciplina é importante!

Os dois se encararam por alguns segundos, nenhum dos dois disposto a ceder.

Scorpius continuou:

— Eu não sou um coadjuvante na vida dela, Rose. — declarou — Eu sou o pai dela. Tenho tanto direito quanto você de decidir o que é ou não permitido.

Ela sentiu o estômago se revirar.

— Eu nunca disse que você não tem esse direito…

— Mas age como se tivesse mais voz do que eu — ele rebateu, a voz calma, mas firme. — E eu deixei isso passar por muito tempo.

Rose apertou os lábios.

Ela queria discordar, queria rebater, mas parte dela sabia que ele não estava totalmente errado.

O silêncio que se instalou entre os dois foi denso. Rose sabia que Scorpius esperava uma resposta, mas sua mente ainda tentava organizar a enxurrada de pensamentos que a acusação dele trouxe.

— Eu não acho que tenho mais voz do que você — ela disse, por fim, com um suspiro. — Mas talvez eu esteja acostumada a ter mais controle sobre certas coisas.

Scorpius inclinou a cabeça levemente.

— Isso quer dizer que você admite que tende a tomar decisões sem me incluir?

Rose abriu a boca, mas hesitou antes de responder.

— Não — ela começou, mas se corrigiu rapidamente: — Quer dizer, talvez às vezes. Mas isso não significa que eu faço de propósito. — Scorpius soltou uma risada sem humor e Rose apertou os lábios. — Eu me acostumei a ser responsável pelas coisas do dia a dia dela — ela argumentou. — Desde que Jane era pequena, sempre foi assim. Eu organizava a rotina dela, resolvia os imprevistos, definia as regras e você não se opunha. Pensei que estivesse tudo bem.

— O fato de eu nunca ter te contestado antes não significa que isso não me incomodava.

Ela franziu a testa, se levantando do braço do sofá apertando os nós dos dedos pelo nervosismo e se acomodando no assento do sofá. Seus ombros começavam a pesar.

— Mas incomodava o quê, exatamente? — perguntou, cautelosa. Estava disposta a admitir erros, porém sua intuição dizia que, caso não tomasse cuidado, poderia ter de começar a se defender de um ataque.

Scorpius a olhou por um instante antes de responder. Uma parte dele não queria estar dizendo aquilo, queria que as coisas continuassem bem entre os dois, mesmo que ele se sentisse desconfortável, porém ele precisava colocar para fora um sentimento que lhe atormentava por anos e que, por vezes, o fazia se sentir menos pai:

— O fato de que, se dependesse de você, eu só saberia das decisões depois que elas já tivessem sido tomadas. Como se minha opinião fosse só um detalhe, como se não quisesse que eu, de fato, fizesse parte da vida da Lyra.

Rose se ajeitou no sofá, desconfortável. Respirou fundo para que a frase não saísse carregada com a raiva que, de repente, a acometia. Seu olhar era irritado, mas até ela se surpreendeu com o tom calmo e aveludado da sua voz quando disse:

— Você não questionava antes porque era confortável estar nessa situação. — sentenciou — Enquanto eu tomava as decisões, você podia seguir com sua vida, sua empresa, seus interesses. E agora que a sua vida está estabilizada, que tem mais tempo, percebeu que, apesar de estar sempre presente, não participava de fato da maior parte das decisões sobre a nossa filha.

Scorpius respirou fundo, mantendo o tom de voz controlado, mas claramente irritado com a acusação:

— Você acha que foi só conveniência da minha parte? Que eu simplesmente deixei tudo nas suas mãos porque era mais fácil pra mim?

A ruiva teve que se livrar do bolo que se formava em sua garganta antes de responder, a sua parte mais sensível gostaria muito de acabar com aquele assunto e correr para o quarto para chorar, mas se ele pretendia sair dali com o troféu de pai do ano, a batalha não seria tão fácil. Se ela tinha que ouvir sobre sua rigidez, ele também precisava lidar com a ausência de sua própria autoridade.

— É exatamente isso, que eu acho Scorpius! — Rose gesticulou, exasperada. — Você confiava em mim para fazer tudo e não questionava porque, no fundo, era cômodo. Mas agora que você tem mais tempo, que a sua vida está menos corrida, que a Jane consegue verbalizar o que sente e o que precisa, de repente percebeu que quer mais voz?

Scorpius passou as mãos pelo rosto, frustrado.

— Rose, eu sempre confiei em você porque eu sabia que Lyra estava bem! Mas isso não significa que eu não quisesse participar. Você se acostumou a tomar todas as decisões sozinha e, mesmo quando eu tentava opinar, parecia que você já tinha tudo resolvido.

Rose soltou uma risada sem humor.

— Ah, então agora a culpa é minha?

— Não é questão de culpa! — Ele elevou um pouco a voz, antes de fechar os olhos e respirar fundo para se acalmar. — Eu só estou dizendo que nós dois entramos nessa dinâmica. Eu me acomodei, sim, mas você também nunca me deu espaço para dividir esse papel.

Ela estreitou os olhos.

— Eu nunca te impedi de nada, Scorpius. Nunca. Se você quisesse participar mais, poderia ter feito isso.

— Poderia? — Ele riu com ironia. — Rose, quantas vezes eu soube das suas decisões depois que elas já estavam tomadas? Você pode nunca ter me impedido de participar, mas também nunca esperou para que eu fizesse parte.

— Então eu deveria esperar? — Ela riu, sem humor — Esperar o quê, exatamente? Você era um garoto rico e mimado, Scorpius, a vida sempre andou mais devagar para você e eu, com uma filha para criar e dívidas para pagar,deveria esperar?

O silêncio que se seguiu foi pesado. Scorpius piscou algumas vezes, como se estivesse absorvendo o que ela havia dito. Rose percebeu que seu peito subia e descia rapidamente, sua respiração mais acelerada do que gostaria de admitir.

— Então é isso que você pensa de mim? — ele perguntou, por fim, sua voz carregada de uma amargura que ela não esperava.

— Scorpius… — Rose começou se arrependendo por ter sido tão dura, mas ele ergueu uma mão, interrompendo-a.

— Não, tudo bem — ele disse, desviando o olhar por um momento antes de voltar a encará-la. — Eu só queria saber quando exatamente você decidiu que eu era alguém com quem não dava para contar.

Ela apertou os lábios, desviando os olhos para o tapete. Não era exatamente isso que queria dizer. Ou talvez fosse, mas não da forma que saiu. Scorpius sempre esteve presente na vida de Lyra, mas Rose, no fundo, nunca soube se podia de fato dividir as responsabilidades com ele. No começo, por medo de que ele se afastasse. Depois, porque se acostumou a fazer tudo sozinha.

— Não foi uma decisão — admitiu, mais baixa. — Foi algo que aconteceu aos poucos. Eu aprendi a não esperar que você assumisse as coisas porque, quando eu precisava, eu mesma resolvia. Você sempre foi um ótimo pai, Scorpius, mas na prática… quem estava lá para lidar com as reuniões da escola, com os professores, com as crises de birra, com os dias em que ela estava doente, fui eu. E eu simplesmente, cansada de esperar uma iniciativa da sua parte.

Ele passou a língua pelos dentes, respirando fundo, antes de assentir lentamente.

— Eu mereço isso — ele disse, num tom de quem não sabia se estava aceitando ou apenas processando. — Mas não significa que você precisa continuar me deixando de fora.

Rose sentiu um nó se formar em sua garganta. Não queria que aquela conversa se transformasse em um acerto de contas de anos de frustração mal resolvida. Não queria feri-lo, mas também não podia simplesmente ignorar o que sentia.

— Eu sei — ela sussurrou, com mais honestidade do que pretendia.

Scorpius a observou por um longo momento. Então, seu rosto suavizou um pouco, embora a tensão ainda estivesse presente em seus olhos.

— Eu só quero que a gente faça isso juntos — ele disse, cansado. — Não quero que a Lyra sinta que precisa escolher um lado ou que um de nós tem mais autoridade que o outro. Quero que ela saiba que pode contar com os dois, igualmente.

Rose assentiu devagar, mordendo o lábio inferior e logo os dois caíram no silêncio novamente, absorvendo as palavras um do outro.

— Eu queria que as coisas fossem diferentes, Rose. — Scorpius declarou — Depois de todos esses anos, eu realmente esperava que a gente pudesse ser amigos de verdade.

Rose soltou uma risada breve, descrente, balançando a cabeça.

— Mas nós somos amigos, Scorpius.

Ele riu, mas sem qualquer humor.

— Não, não somos.

Ela franziu a testa, cruzando os braços.

— Como assim, não somos?

Scorpius a encarou, os olhos carregados de algo que Rose não soube definir completamente. Frustração, cansaço, talvez até mágoa.

— Nós fingimos muito bem. Somos cordiais, educados, nos damos bem quando precisamos. Mas amigos? De verdade? Não.

Rose abriu a boca para retrucar, mas nada saiu de imediato.

— Claro que somos… — Ela insistiu, mas sem tanta firmeza.

Scorpius balançou a cabeça lentamente.

— Amigos conversam de verdade, compartilham coisas, brigam e fazem as pazes sem sentir que estão pisando em ovos o tempo todo. Você e eu… Nós não funcionamos assim.

Ela sentiu um peso no peito com aquelas palavras.

— Nós funcionamos, sim. Construímos uma dinâmica que funciona. Não é porque ela não é cem por cento satisfatória que devemos simplesmente descartar todos os méritos. — A ruiva rebateu, indignada. A boa criação da filha se devia àquela dinâmica.

— Você tem razão, mas uma dinâmica não é amizade, Rose. — pontuou — Ainda mais uma dinâmica que evita conversas difíceis, uma dinâmica onde não nos permitimos falar sobre o que realmente sentimos porque talvez sequer funcionaríamos como amigos sem que outros sentimentos mais profundos estivessem envolvidos.

Rose sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas se forçou a manter a expressão impassível.

— Isso não é verdade.

— Não? — Ele arqueou uma sobrancelha, desafiador. — Então me diz, Rose… se nós realmente somos amigos, por que essa conversa de hoje está sendo tão difícil?

Ela abriu a boca para responder, mas nenhuma resposta parecia certa.

Rose cruzou os braços com mais força, como se precisasse se segurar de alguma forma. Se aquilo que ela tinha com Kiran poderia ser considerado amizade, por que a relação com Scorpius não poderia?

— Tudo bem que essa conversa não está sendo a mais confortável que já tivemos, mas sempre achei que estava claro que gostávamos um do outro como amigos.

Ele soltou uma risada seca, passando a mão pelo rosto antes de encará-la novamente.

— Claro. E quantas vezes foi que a gente acabou transando depois de estarmos "amigos demais"?

Rose sentiu o estômago afundar.

— Isso não tem nada a ver.

— Não tem? — Scorpius inclinou a cabeça, desafiador. — Porque, para mim, parece muito relevante. — Ele juntou as mãos e pôs-se a explicar — Sempre foi assim: A gente se aproxima, se entende, acha que está tudo bem, que pode ser fácil e aí, de repente, estamos acordando no dia seguinte na cama de um dos dois, fingindo que nada aconteceu.

Rose desviou o olhar, irritada com a forma como ele conseguia jogar tudo na cara dela assim, sem rodeios.

— Isso não aconteceu tantas vezes assim…

Scorpius deu de ombros, mas seus olhos não esconderam o incômodo.

— Eu não sei, Rose. Eu só sei que essa nossa "amizade" nunca foi simples. Nunca foi só amizade.

Ela respirou fundo, tentando conter a frustração que crescia no peito.

— E o que você quer que eu faça com essa informação, Scorpius? — inquiriu, ríspida — Que a gente pare de se falar? Que limite ainda mais a nossa relação? Vamos resolver tudo corporativamente?

Ele balançou a cabeça. Rose sempre teve o condão de interpretá-lo da pior forma possível.

— Eu quero que a gente pare de fingir. Porque, sinceramente, eu já estou cansado disso.

O silêncio que se instalou foi pesado, carregado de anos de histórias e de tudo que nunca foi dito entre eles. Rose estreitou os olhos, tentando entender onde ele queria chegar.

— O que você acha que eu estou fingindo, Scorpius? Porque, pela forma que você está falando, parece que a razão pela qual essa situação nunca foi resolvida sou eu. Porque, aparentemente, você tem a resposta guardada por todo esse tempo e não me contou.

Scorpius suspirou, passando a mão pelos cabelos, claramente frustrado.

— Não, Rose, não é isso. É só… — Ele negou com a cabeça, mas sua expressão ainda era intensa.

Ela cruzou os braços, o tom de voz ficando mais defensivo.

— É só o que, porra? — perguntou, exasperada, se levantando do sofá enquanto passava a mão sobre o rosto — Não dá para ser amizade, mas também não é para manter distância. Você namora, caralho! — exclamou, se aproximando dele, que também se levantou de onde estava para encará-la — Que medo absurdo é esse de ir parar na minha cama de novo?

O silêncio entre eles parecia ensurdecedor. Scorpius apertou a mandíbula, seus olhos faiscando com algo que Rose não conseguiu decifrar de imediato. Ele deu um passo à frente, e ela sentiu seu próprio corpo se retesar, como se se preparasse para um impacto.

— Você realmente quer saber? — Scorpius perguntou, sua voz baixa, mas carregada de uma intensidade que fez a espinha de Rose arrepiar.

Ela abriu a boca, pronta para responder com alguma provocação, mas hesitou. Queria mesmo saber? Queria mesmo ouvir o que ele tinha a dizer, sem as barreiras que sempre mantinham entre si?

— Sim — ela respondeu, enfim, quase num sussurro.

Scorpius soltou uma risada breve, mas sem humor.

— Meu medo absurdo, Rose, não tem nada a ver com cair na sua cama de novo. — Ele inclinou a cabeça, os olhos cravados nos dela. — Tem a ver com o que acontece depois. Porque, ao contrário de você, eu nunca consegui fingir que isso não significava nada.

Rose sentiu seu coração martelar no peito. Sua garganta secou, e ela precisou umedecer os lábios antes de encontrar sua voz.

— Scorpius…

— Não, me deixa terminar — ele interrompeu, passando a mão pelos cabelos, claramente frustrado. — Eu passei anos tentando entender o que a gente tem. Anos aceitando os limites que você impôs, porque achei que era o melhor para todo mundo. Mas agora eu percebo que só estava te deixando confortável em uma mentira que você contou para si mesma.

Rose sentiu o rosto esquentar. Suas mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo.

— Eu não estou mentindo para mim mesma — rebateu, mas a insegurança em sua voz a traiu.

Scorpius deu um passo ainda mais próximo. A distância entre eles agora era mínima, e Rose sentia cada célula do seu corpo em alerta.

— Então me olha nos olhos e diz que você nunca sentiu nada além de amizade por mim. Que nunca quis mais do que essa maldita dinâmica que você tanto defende. — Ele desafiou, sua respiração misturando-se com a dela.

Rose abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Porque, no fundo, ela sabia que não poderia dizer aquilo. Pelo menos, não sem mentir descaradamente.

— Como você acha que isso funcionaria, Scorpius? — a ruiva começou, a voz baixa e um pouco rouca por estar perto demais dele, mas se afastou e pigarreou para recobrar os sentidos. Precisava ser firme — Seus avós me odiavam, minha família odiava a sua, e nós dois somos substancialmente diferentes.

— E mesmo assim tivemos uma filha juntos. — Ele rebateu, cruzando os braços. — Então, aparentemente, alguma coisa entre nós funciona.

Rose bufou, passando a mão pelo rosto.

— Isso não significa que a gente teria dado certo como casal.

— Mas a gente nunca tentou. — explanou — Você nunca quis tentar.

— E você quis? — Rose o encarou, desafiadora.

Scorpius abriu a boca para responder, mas hesitou. Rose soltou uma risada seca.

— É, foi o que eu pensei. Você também nunca achou que a gente daria certo. Só que agora, anos depois, você quer jogar isso na minha conta.

Ele apertou os olhos por um instante, respirando fundo, antes de dizer:

— Eu quis. Eu pensei nisso. Mas sempre que eu tentava me aproximar, você já tinha uma resposta pronta, uma barreira levantada. — justificou — Como se fosse mais fácil fingir que a gente nunca teve escolha.

Rose sentiu algo afundar dentro dela, mas manteve o rosto impassível.

— Talvez fosse porque… — Ela disse, a voz mais baixa. — Porque no fim das contas, talvez a gente realmente nunca tivesse escolha.

Scorpius passou a língua pelos dentes, desviando o olhar por um instante antes de voltar a encará-la.

— Isso é conveniente, não é? — Ele soltou, a voz carregada de algo que Rose não soube definir. Ironia? Ressentimento? Cansaço? Talvez um pouco de tudo. — Dizer que nunca tivemos escolha, que não tínhamos como dar certo.

— Não é conveniente, é realista. — Rose retrucou, cruzando os braços. — Olha pra gente, Scorpius. Temos visões diferentes sobre praticamente tudo. A forma como crescemos, as famílias que temos, até a maneira como lidamos com a Jane… A gente sempre fez funcionar do nosso jeito, mas você realmente acha que daria certo se tentássemos ser um casal?

Scorpius não respondeu de imediato. Seus olhos deslizaram para o chão por um momento, antes de ele soltar um suspiro.

— Eu não sei. — Ele finalmente admitiu. — Mas às vezes eu penso que a gente deveria ter tentado.

Rose franziu os lábios e desviou o olhar.

— O que mudaria? — Ela murmurou. — O que, honestamente, mudaria se tivéssemos tentado? Você acha que a gente estaria junto até hoje? Que seríamos um casal perfeito, felizes para sempre?

— Eu não sou ingênuo, Rose. Sei que perfeição não existe. Mas eu queria pelo menos saber. Ter certeza.

Ela riu baixinho, mas não havia humor nenhum no som.

— E agora? O que você quer agora, Scorpius? Uma retrospectiva do que poderia ter sido? Uma confissão minha de que eu deveria ter me jogado nos seus braços e aceitado tudo?

Scorpius a observou em silêncio por alguns instantes, então balançou a cabeça, parecendo cansado.

— Não. Eu só quero seguir em frente. — admitiu — Com a Camille. De verdade. E para isso, preciso que esse assunto entre a gente esteja resolvido.

Rose sentiu algo apertar dentro do peito. Não era tristeza, exatamente. Talvez fosse uma mistura de alívio e um gosto amargo de algo que ela não sabia nomear.

Ela respirou fundo e assentiu.

— Então está resolvido. — disse, virando de costas e se afastando para que ele não visse as lágrimas se formando sob seus olhos.

Scorpius arqueou as sobrancelhas.

— Assim? Só isso?

— Só isso. — Rose respondeu, forçando um sorriso ao se virar de volta para ele. — Você tem sua resposta, Scorpius. A gente nunca tentou porque eu não achei que daria certo. Porque eu não quis. E você também não quis o suficiente para insistir. Então, pronto. Fim de papo.

Scorpius ficou encarando-a por um tempo, como se estivesse tentando decifrar algo nela.

— Certo. — Ele finalmente disse, devagar.

O silêncio entre os dois foi pesado e sufocante.

— Mais alguma coisa? — Rose perguntou, cruzando os braços.

Scorpius negou com a cabeça.

— Não. Acho que era isso.

Ela assentiu.

— Então tá.

Ele hesitou por um momento antes de dar um passo para trás.

— Já vou indo. A aula da Lyra deve estar acabando agora, tenho que esperá-la em casa. — anunciou.

Rose não disse nada, apenas assentiu e observou enquanto ele se dirigia à porta. Quando ele a abriu, parou por um instante, como se fosse dizer algo, mas desistiu.

Então, sem mais uma palavra, Scorpius saiu, fechando a porta atrás de si.

Rose permaneceu ali por alguns segundos, olhando para a porta fechada, antes de soltar um longo suspiro e passar as mãos pelo rosto.

Era isso. Estava resolvido.

Então por que ela ainda sentia como se algo estivesse em aberto? Ficou parada por alguns segundos, os braços ainda cruzados contra o peito, tentando entender o peso estranho que sentia. Não era tristeza, não era arrependimento, mas uma sensação incômoda de algo que não se encaixava direito.

Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos, e foi até a cozinha. Pegou um copo d’água e encostou no balcão, tentando respirar fundo e seguir com o dia.

Mas sua mente insistia em voltar para a conversa.

"A gente nunca tentou porque eu não achei que daria certo. Porque eu não quis. E você também não quis o suficiente para insistir."

As palavras voltavam como um eco, e, apesar da convicção com que tinha dito aquilo, uma parte dela se perguntava se era realmente toda a verdade.

Ela fechou os olhos e apoiou a testa contra a palma da mão.

Seria mais fácil se fosse tão simples assim.