Night Changes

11 Uma noite muda tudo


Notas iniciais
Boa madrugada, nação de leitores (4 pessoas). Cheguei atrasada essa semana, mas cá estou. Perdoem a demora, é que eu sou CLT. Esse capítulo foi um dos que eu mais gostei de escrever até agora em toda minha carreira de fanfiqueira, por isso espero que vocês gostem de ler também. E, se gostarem, deixem um comentário para alegrar essa autora pobre coitada que está aqui de madrugada postando. Beijos e boa leitura!

2009

Rose Weasley não se considerava uma garota romântica, mas era prática.

Os anos de namoro com Eric McLaggen a fizeram pensar que estavam se encaminhando para passar o resto da vida juntos. Ele não era exatamente carinhoso, mas a tratava bem. Era inteligente, vinha de uma boa família e seus pais pareciam gostar de Rose. Os dois teriam um bom futuro juntos e isso confortava a ruiva.

Apesar das borboletas do estômago terem alçado vôo para longe já no primeiro ano que estavam juntos e os beijos não a levarem às nuvens há muito tempo, Rose acreditava piamente que o futuro dos dois estava mais do que traçado: ele se formaria em Administração de Negócios em Oxford e, alguns anos depois, Rose concluiria o curso de Medicina na University College London. Eles morariam juntos por um tempo, se casariam e seriam Sr. e Sra. McLaggen com seus lindos filhinhos, George e Anthony, correndo pela casa enquanto as babás tomariam conta deles a maior parte do dia. Pelo menos até a idade em que pudessem conversar civilizadamente. Ela não era exatamente fã de crianças pequenas.

Rose não se considerava uma garota romântica, mas odiava ver seus planos frustrados.

E Eric conseguiu jogá-la num poço de frustração e decepção.

Ela odiava ser pobre e não ter um celular com uma câmera decente. E odiava ter que pedir o iPhone 3 do namorado toda vez que via algo bonito que merecia ser fotografado. Ela também odiava a barra de notificações do iPhone, que mostrava as mensagens na tela principal. E odiava, principalmente, a vagabunda da Misty Avery, que estava mandando mensagens bem indecentes para o filho da puta do Eric McLaggen.

A Weasley se sentia uma idiota por ter se deixado enganar tão facilmente, por estar feliz que sua — até então — amiga e seu namorado iriam para a mesma universidade, assim não se sentiriam solitários com a ausência dela.

É, aparentemente eles não estavam mesmo se sentindo sozinhos.

Rose não quis saber muita coisa, não ficou para ouvir as explicações de Eric e nem atendeu as ligações de Misty. Lá no fundo, se sentia aliviada por ter se livrado do cara que, pelo que seus amigos de verdade diziam, não era bom o bastante para ela. Mas levar chifre era muita sacanagem. E pior que um monte de gente já sabia!

Ao que tudo indicava, o ditado era verdade mesmo: o corno é sempre o último a saber.

E, por isso, a ruiva estava há semanas sem dar o ar da graça em lugar algum além da faculdade e da sua casa. Não interagia com ninguém, praticamente se fundiu com o sofá da sala dos seus pais. A vergonha a consumia.

Ela havia chegado mais tarde da faculdade na sexta, se jogou no sofá verde musgo e só levantava de lá para atividades extremamente necessárias: fazer xixi, pegar mais salgadinhos e refrigerante na cozinha ou trocar os DVDs, colocando uma comédia romântica atrás da outra para rodar.

Estava quase chegando a cena da primeira dança entre Elizabeth e Sr. Darcy quando Hermione apareceu na frente da TV, desligando-a.

— Mãe! — Rose protestou, se sentando rapidamente — Essa é uma das melhores partes!

Hermione apenas revirou os olhos e cruzou os braços, permanecendo na frente da TV.

— Rose, você precisa reagir. — sentenciou, séria. E, após uma pausa, continuou: — E precisa de um banho também.

A morena saiu de seu posto e se sentou ao lado da filha no sofá, desfazendo sua expressão severa e assumindo uma postura mais carinhosa. Suspirou, observando a filha por alguns segundos antes de estender a mão e afastar uma mecha de cabelo do rosto dela.

— Eu sei que dói, Rose.

Rose bufou e cruzou os braços.

— Você não sabe, mãe. — rebateu, sem olhar para Hermione.

— Sei, sim. — a mais velha retrucou com firmeza, e Rose finalmente a encarou. — Já passei por desilusões, já me decepcionei com pessoas que eu achava que conhecia e já me senti humilhada também.

Rose revirou os olhos.

— Duvido que tenha descoberto seu chifre ao pegar o celular do seu namorado emprestado para tirar uma foto do pôr do sol. — retrucou.

Hermione reprimiu um sorriso diante do sarcasmo da filha, mas manteve o tom suave.

— Pode não ter sido assim, mas ainda assim doeu.

Rose franziu o cenho, intrigada.

— Eu nunca soube disso.

— Porque eu nunca contei. — Hermione deu de ombros. — Mas o que eu quero que você entenda, minha filha, é que a dor passa. Mais cedo ou mais tarde, ela passa.

— É fácil falar... — Rose murmurou, desviando o olhar para as próprias mãos.

Hermione hesitou por um instante antes de pegar uma das mãos da filha entre as suas.

— Você se sente envergonhada, eu sei. — disse, suavemente. — Sei que acha que todo mundo está falando sobre isso e que estão rindo de você, mas a verdade é que essas coisas acontecem com muita gente. O erro não foi seu, Rosie. E, se serve de consolo, um dia você vai perceber que se livrou de uma grande dor de cabeça.

Rose suspirou.

— Eu sei que todo mundo achava que ele não era bom pra mim... — admitiu, a voz soando mais baixa.

— E você ainda acha que era?

A ruiva mordeu o lábio, sem saber ao certo como responder. Eric tinha sido seu primeiro amor, a pessoa com quem ela construiu planos e depositou expectativas. Mas agora, olhando para trás, percebia o quanto se acomodou na relação. O quanto se agarrou à ideia de um futuro seguro, estável, sem nunca parar para pensar se era realmente feliz ou se apenas seguia o fluxo.

— Eu não sei. — confessou.

Hermione apertou a mão dela.

— Tudo bem não saber. — garantiu. — Você ainda está processando tudo isso. Mas o que eu sei é que você não pode passar o resto da vida jogada no sofá assistindo comédias românticas e se entupindo de salgadinhos.

— Talvez eu possa. — Rose retrucou, forçando uma expressão desafiadora.

Hermione riu.

— Não no meu sofá. — rebateu — Ele já está pegando o formato do seu corpo. — pontuou, com uma careta de nojo que arrancou uma risada da filha.

— Tudo bem, eu posso ficar na minha cama lendo alguma coisa. — expressou, já se levantando e recolhendo sua bagunça. Seus pais mereciam uma sala limpa e vazia para eles pelo menos por um fim de semana.

Mas Hermione não se deu por vencida.

— Bem, Gina comentou comigo que Albus vai a uma festa hoje. Você também foi convidada, não foi? — exprimiu com falsa despretensão.

Rose fez uma careta, sabendo para onde a conversa estava indo.

— Fui, mas não estou com clima pra sair. — declarou firmemente. — E não é você quem diz sempre para eu não ficar me enfiando em festas? Que é perigoso, que não sei o que podem colocar na minha bebida…

Hermione balançou a cabeça.

— Eu sei. — admitiu, sorrindo um pouco — Mas talvez, hoje, seja exatamente o que você precisa.

Antes que Rose pudesse protestar, outra voz entrou na conversa.

— Eu concordo.

As duas se viraram e encontraram Ron encostado no batente da porta, observando a filha com um meio sorriso.

— Você precisa sair um pouco, florzinha. — ele insistiu, caminhando até o sofá. — Se distrair, lembrar que existe um mundo lá fora. — Ron fez uma pausa, observando o bolo de cobertores e embalagens vazias nas mãos da filha. — Ou, pelo menos, lembrar que você não mora sozinha nessa casa e que a gente também usa o sofá. — acrescentou, apontando para o móvel ocupado.

Rose não conteve um pequeno sorriso, mas logo suspirou.

— Eu realmente não estou no clima...

— E quando você vai estar? — Ron rebateu, cruzando os braços. — Porque, pelo que estou vendo, se depender de você, esse dia nunca vai chegar.

Rose revirou os olhos.

— Você está insuportável desde que descobriu que eu terminei.

— E você está insuportável desde que terminou. — ele devolveu.

Hermione lançou um olhar de advertência para o marido.

— Ronald...

— Eu só estou sendo sincero! — ele se defendeu, levantando as mãos.

Depois, voltou-se para Rose, suavizando a expressão.

— Olha, se você for e odiar cada segundo, tudo bem. Pode voltar para casa e continuar vendo seus filmes melosos. Mas, pelo menos, tente.

Rose hesitou.

Ela sabia que seus pais tinham razão. Não podia passar o resto da vida se escondendo.

Mas será que estava pronta para sair e encarar as pessoas?

Como se adivinhasse seus pensamentos, Ron acrescentou:

— Além do mais, você pode aproveitar pra dar um empurrão no Albus. Ele está enrolando há semanas para sair da casa dos pais e finalmente se mudar para o apartamento com o Malfoy. — O ruivo se aproximou mais da filha, abaixando o tom da voz, como se não estivessem apenas os três em casa — Harry disse que os móveis para o ateliê da Gina chegam essa semana e o garoto ainda não desocupou o quarto.

— Se duvidar, o Scorpius já terminou a mudança dele há dias. — Hermione comentou.

Ron fez uma careta.

— Esse moleque me assusta com essa mania de ser todo certinho.

Rose finalmente sorriu de verdade e com certa malícia.

Talvez sair naquela noite não fosse uma ideia tão ruim assim.

***

— Pela milésima vez, Al: não é força, é jeito! — Scorpius bradava enquanto corria em direção ao amigo para arrancar o martelo de suas mãos.

Scorpius soltou um suspiro exagerado, passando a mão pelos cabelos loiros e lançando um olhar exasperado para Albus.

— Eu não sei como você conseguiu chegar tão longe na vida sem saber montar uma cama. — comentou, cruzando os braços.

Albus deu de ombros, segurando o martelo de qualquer jeito.

— Eu sei montar uma cama. Só não sei montar essa cama.

Scorpius revirou os olhos e puxou o martelo da mão dele.

— Você não precisa de um martelo para isso, Al. Você precisa seguir as instruções.

A reforma do apartamento havia acabado há duas semanas, a mudança de Scorpius estava toda feita, mas Albus, ao que parecia, preferia realizar sua mudança em doses homeopáticas. Vez ou outra chegava com algumas roupas, alguns itens de decoração… Na opinião de Scorpius, o desmame estava sendo complicado para o amigo.

Albus insistia que não queria espantar a mãe com sua ausência abrupta, mas no dia em que Gina Potter se espantasse com algo assim, o inferno congelaria.

A cama era o primeiro móvel que o Potter se dispôs a montar. Ou pelo menos fingir que estava montando. Afinal de contas, Scorpius estava fazendo todo o trabalho pesado, enquanto Albus insistia que dava sim para encaixar um parafuso com um martelo.

— Instruções são para os fracos. — disse Albus, cruzando os braços e com um sorrisinho no rosto ao ver que Scorpius estava prestes a pegar no batente de novo.

O loiro arqueou uma sobrancelha.

— Então você é um fraco? Porque claramente não está conseguindo fazer isso sozinho.

Albus abriu a boca para responder, mas foi interrompido pelo toque do celular. Ele puxou o aparelho do bolso e olhou o visor.

— É a Rose.

Scorpius, que havia voltado a se concentrar na montagem da cama, ergueu a cabeça de imediato, um tanto quanto surpreso.

— Sério? Atende logo! — exclamou, animado.

Albus riu e atendeu a chamada, colocando o celular no viva-voz.

— Oi, Rosie.

— Oi, Al. — a voz da prima soou do outro lado da linha, um pouco hesitante. — Você acha que pode passar aqui em casa mais tarde?

Albus franziu o cenho.

— Claro. Algum problema?

— Não... — ela suspirou. — Eu só... bom, decidi ir à festa do Liam e achei que seria mais fácil ir junto com você.

O queixo de Scorpius caiu instantaneamente, e ele parou o que estava fazendo para encarar Albus. O moreno sorriu, surpreso, mas satisfeito.

— Sério? Então finalmente resolveu sair do casulo?

— Não enche. — Rose resmungou, mas havia um tom divertido na voz dela.

— Fico feliz que tenha decidido ir. — Albus disse sinceramente. — Você quer que eu passe aí que horas?

— Não sei... Que horas vocês pretendem ir?

Albus ergueu as sobrancelhas.

— “Vocês”?

— Sim, você e Scorpius, não é? Ele vai, não vai?

Scorpius arregalou os olhos, apontando para o próprio peito como se perguntasse “Ela está falando de mim?”.

Albus conteve uma risada e respondeu:

— Vai, sim. E você acabou de tornar o dia dele mais feliz.

Do outro lado da linha, Rose bufou.

— Não exagera. Só achei que seria melhor irmos todos juntos.

Albus mordeu o lábio para não provocar mais.

— Beleza, então. Passamos aí umas nove?

— Fechado. — Rose concordou.

— Até mais tarde, então.

— Até.

Albus encerrou a chamada e olhou para Scorpius com um sorriso debochado.

— Você ouviu isso, né?

Scorpius ainda estava processando a informação.

— Ela realmente quer que eu vá junto?

— Parece que sim. — Albus deu de ombros. — E aí, acha que sobrevive até a festa ou vai precisar de um desfibrilador?

Scorpius jogou uma almofada nele, mas não conseguiu segurar o sorriso.

Scorpius Malfoy gostava de Rose Weasley desde a primeira vez que a viu levantar a mão para responder uma pergunta sobre biologia, na sexta série. Ele não se lembrava da questão, nem da resposta que ela deu. Não fazia ideia de quem estava sentado ao seu lado ou se o dia estava ensolarado ou nublado. Mas se lembrava, com detalhes absurdos, do rabo de cavalo alto que prendia seus fios acobreados, das pulseiras coloridas de miçanga que deslizaram pelo pulso quando ela ergueu a mão e da gola da camisa do uniforme que cedeu levemente no movimento. Lembrava do esmalte azul descascado nas unhas e do brilho do gloss recém-passado nos lábios dela, que se curvaram num sorriso tímido ao acertar a resposta.

Scorpius tinha 12 anos e soube, ali mesmo, que estava perdido. Ele pensava em Rose Weasley o tempo todo, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Então, como uma obra do destino, descobriu que o garoto com quem estava iniciando uma amizade era primo dela. A partir de então, fez de tudo para que Albus a chamasse para qualquer coisa que fossem fazer. A dupla virou um trio, e Scorpius logo percebeu que o encanto de Rose ia muito além da aparência. Ela era inteligente, determinada, espirituosa. Ria alto e sem medo, era afiada nas respostas e, ao mesmo tempo, doce em seus gestos.

Ele só precisava esperar o momento certo para chamá-la para sair. Aos 12 anos, era cedo demais. Aos 13, ele ainda não se sentia pronto. Aos 14, percebeu que ela dispensava qualquer garoto que se aproximasse, então não quis arriscar. Aos 15, finalmente sentiu que era a hora. Mas Eric McLaggen sentiu o mesmo — e saiu na frente.

Desde então, Scorpius assistiu ao relacionamento dos dois de longe, como se aquele namoro tivesse sido esculpido em pedra, imutável. Por anos, acreditou que nunca teria chance. O trio se desfez, voltaram a ser somente ele e Albus. Rose fazia apenas participações especiais às vezes e parecia evitá-lo ao máximo. A amizade entre Albus e a prima continuava forte, porém Scorpius era tratado mais como um conhecido próximo. Ele compreendia e, de certa forma, agradecia por isso. Sentia que vê-la tão perto, sendo que ela pertencia a outro, era doloroso demais.

Mas agora, pela primeira vez em anos, Rose estava solteira. E, mais do que isso, estava fazendo questão da presença dele. Ele só precisava esperar mais um pouquinho, apenas o suficiente para que ela superasse o passado. Então, finalmente, diria a Rose Weasley que ela era a mulher da sua vida.

***

A música pulsava no ambiente, misturando-se ao burburinho das conversas conforme Rose, Albus e Scorpius cruzavam a porta. O apartamento estava cheio, mas não ao ponto de ser sufocante. O espaço era bem distribuído: alguns dançavam perto da sala, outros se espalhavam pelos sofás ou se agrupavam na cozinha improvisada, onde alguém preparava drinks com uma perícia questionável.

Rose entrou primeiro, e Scorpius prendeu a respiração sem perceber. O vestido preto curto e justo abraçava cada curva do corpo dela com perfeição. As mangas longas davam um ar elegante, equilibrado pelo decote nas costas, que revelava a pele clara. O cabelo solto e levemente ondulado caía sobre os ombros como se tivesse sido feito para isso. Os lábios vermelhos selavam o visual com um toque de ousadia. As botas de salto grosso e a meia-calça fina completavam o conjunto, e Scorpius se pegou pensando que aquilo era a própria definição de "se vestir para a vingança".

E estava funcionando.

O perfume dela — intenso, floral e marcante — preenchia o ar entre os dois e só o fazia afundar ainda mais naquela admiração proibida.

— Você está dando muito na cara — murmurou Albus, cutucando-o de leve com o cotovelo.

Scorpius piscou algumas vezes, voltando à realidade. Rapidamente limpou a expressão e forçou um tom de indiferença.

— Não sei do que você está falando.

Albus revirou os olhos, mas decidiu não insistir.

O trio se posicionou lado a lado, observando o ambiente. Do outro lado da sala, Liam Nott, o anfitrião, estava próximo à varanda, ocupado demais explorando a boca de algum garoto que nenhum dos três conseguiu identificar.

Liam era um bom sujeito. Simpático, bem relacionado e dono de um carisma natural que fazia com que todos gostassem dele — qualidades que compensavam sua inteligência, digamos, limitada. Por isso, ninguém escondeu a surpresa quando ele conseguiu entrar para uma universidade. Seus pais ficaram tão felizes que decidiram presenteá-lo com um apartamento. E não qualquer apartamento. Uma cobertura duplex no centro da cidade.

— Um brinde à meritocracia — comentou Rose, pegando uma taça de alguma coisa que estava dando sopa em uma mesa.

Scorpius riu, enquanto Albus olhava ao redor, procurando rostos conhecidos.

— Ok, isso é totalmente anti-higiênico para meu nível de sobriedade no momento. — disse o moreno, retirando a taça da mão de Rose, que gargalhou com a atitude do primo — Vamos pegar bebidas de verdade e depois decidimos o que fazer. — sugeriu, já caminhando para a cozinha.

Scorpius o seguiu, mas antes de ir muito longe, virou-se para Rose e disse com um meio sorriso:

— Se alguém passar mal e precisar de primeiros socorros, sabemos que você está bem treinada para isso, doutora Weasley.

Rose revirou os olhos, mas sorriu.

— E se for você, prometo que não vou pegar leve na sutura.

Scorpius soltou uma risada baixa e se afastou, ainda sentindo o perfume dela no ar.

Ele precisava urgentemente de uma bebida.

A cozinha estava um pouco mais vazia que a sala, mas ainda assim cheia o suficiente para que precisassem se espremer entre os convidados. Algumas garrafas estavam espalhadas pelo balcão e um rapaz que Scorpius reconheceu vagamente de Beauxbatons tentava preparar drinks com mais entusiasmo do que habilidade.

— Isso aqui está com uma cara péssima — comentou Albus, observando um líquido azul brilhante dentro de um copo de plástico.

— Então, provavelmente é forte o suficiente — respondeu Scorpius, pegando duas garrafas de cerveja e abrindo uma para si.

Albus olhou ao redor e pegou uma lata de refrigerante, o que fez Scorpius rir.

— Sério?

— Eu quero lembrar do que vou te zoar amanhã — rebateu Albus, dando de ombros.

Scorpius bufou, mas antes que pudesse responder, Rose entrou na cozinha, já segurando uma nova taça de alguma bebida colorida.

— Vocês demoraram muito — reclamou, parando ao lado deles. — Eu já fiz três amigos novos e recusei dois convites suspeitos para dançar.

Scorpius arqueou uma sobrancelha.

— Só dois? Você claramente está abaixo da sua média.

Ela riu e deu um gole na bebida.

— A noite ainda é uma criança, Malfoy. — respondeu, direcionando a ele uma piscadinha.

Por Deus, ele precisava parar de se sentir impactado por absolutamente tudo o que ela dizia.

— Certo, vamos voltar para a sala antes que o Al se esconda aqui a noite toda. — disse Rose, puxando o primo pelo braço.

— Opa, nem vem! Eu sou um ótimo acompanhante de festa! — Albus protestou, mas a deixou arrastá-lo sem resistência.

Scorpius apenas riu e os seguiu, já prevendo que aquela noite ainda renderia.

E ele estava certo.

À medida que o álcool tomava conta dos convidados, as inibições se dissolviam. Scorpius, atento à quantidade absurda de shots de tequila que Rose virava sem hesitação, tentou manter um equilíbrio mais sensato, alternando entre cerveja e água. O resultado? Uma necessidade incontrolável de ir ao banheiro a cada meia hora.

Albus, que supostamente deveria ser o mais responsável do grupo naquela noite, já tinha abandonado completamente o refrigerante. A última vez que Scorpius o viu, ele estava em cima do balcão performando Single Ladies com uma precisão que só podia ser fruto de horas e horas de prática. E, para ser justo, estava impecável.

Depois de garantir, pela centésima vez, que Rose ainda conseguia andar em linha reta, Scorpius cedeu à urgência fisiológica e foi até o banheiro novamente. Mesmo intercalando bebida e hidratação, ao encarar seu reflexo no espelho, percebeu que o álcool começava a deixar tudo ao redor um pouco menos estável. Acabou demorando mais do que pretendia e, ao sair, foi surpreendido pela presença de Rose, encostada na parede ao lado da porta.

O batom vermelho estava mais apagado, mas não borrado — o que fez Scorpius agradecer mentalmente, pois significava que ela não havia usado a boca para nada além de beber. O cabelo, que no começo da noite estava perfeitamente alinhado, agora caía em ondas bagunçadas sobre os ombros, e sua postura relaxada indicava que já tinha bebido o suficiente para não se importar com mais nada.

Ele sentiu o estômago revirar. Se Rose já era um problema para sua sanidade sóbria, naquele estado, ela se tornava uma catástrofe.

Ela inclinou a cabeça, os olhos brilhando sob a luz amarelada do corredor.

— Fugindo de mim, Malfoy? — provocou, um sorriso malicioso brincando nos lábios.

Scorpius piscou, tentando processar a visão à sua frente. Ele já estava um pouco alterado pelo álcool, mas o efeito de Rose Weasley sobre ele era muito mais forte do que qualquer bebida que tivesse ingerido naquela noite.

Ela inclinou a cabeça para o lado, estudando-o com um brilho travesso nos olhos.

— Não sei do que você está falando — ele respondeu, tentando soar natural, mas sentindo a própria voz mais rouca do que o normal.

Rose riu e deu um passo à frente, reduzindo o espaço entre eles. Scorpius sentiu o perfume dela preenchendo o ar, aquele cheiro floral que o deixava levemente tonto — ou talvez fosse apenas a proximidade.

— Eu percebi, sabe? — ela continuou, encostando a mão na moldura da porta, bloqueando qualquer possível rota de fuga. — Você me olhando a noite toda.

Scorpius engoliu seco.

— Você está vestida para ser olhada, Weasley. — ele poderia ser um tonto e estar completamente perdido no olhar dela, mas não deixaria que Rose ganhasse esse jogo por W.O.

Ela ergueu uma sobrancelha, como se desafiasse a frase dele. Depois sorriu de lado e deu mais um passo à frente, até que a ponta da bota dela encostasse no tênis dele.

— E o que você vai fazer a respeito disso?

Ele queria responder. Queria dizer que estava esperando há anos por uma oportunidade como essa. Queria contar como cada pequeno detalhe dela ficava armazenado na mente dele como um filme que ele revisitava o tempo todo. Mas tudo o que conseguiu fazer foi sustentar o olhar dela e sentir o coração disparar no peito.

E, antes que pudesse pensar em qualquer coisa racional, Rose Weasley eliminou o espaço entre eles e puxou Scorpius Malfoy para um beijo.

A boca dela encontrou a dele com uma mistura perfeita de urgência e descuido. O gosto de tequila ainda estava presente em seus lábios, misturado com o resquício doce do gloss e algo puramente Rose. Scorpius não teve tempo de raciocinar, apenas reagiu.

Suas mãos foram automaticamente para a cintura dela, os dedos apertando a curva do vestido justo, enquanto ela subia os braços por seu peito até entrelaçar os dedos no cabelo loiro, puxando-o para mais perto.

E então o mundo simplesmente parou.

O barulho da festa, a música alta, as vozes ao fundo – tudo se tornou um borrão indistinto. Havia apenas Rose e a forma como ela se encaixava nele como se tivesse sido feita para estar ali.

Scorpius não sabia o que fazer com as informações que se acumulavam em sua mente: o calor da pele dela, o cheiro inebriante, a forma como ela suspirou contra sua boca quando ele aprofundou o beijo. Seu coração martelava no peito, acelerado e fora de compasso, porque ele não estava apenas beijando Rose Weasley.

Ele estava beijando Rose Weasley depois de anos de sentimentos reprimidos, de olhares roubados, de desejar algo que parecia impossível.

E agora estava acontecendo.

Ela sorriu contra os lábios dele antes de mordiscar de leve seu lábio inferior e puxá-lo para outro beijo. Scorpius sentiu as costas baterem contra a parede do corredor, e Rose colou o corpo ao dele, como se quisesse eliminar qualquer espaço entre os dois.

Ele gemeu baixinho contra a boca dela, incapaz de se conter, e isso pareceu incentivá-la. As unhas desceram do cabelo para os ombros, deslizando devagar pela camisa enquanto a língua dela traçava um caminho preguiçoso pelo céu da boca dele.

Scorpius achava que estava prestes a perder completamente o controle.

Mas então, como se o universo estivesse determinado a estragar o melhor momento da sua vida, uma voz conhecida ecoou do fim do corredor:

— Puta merda, finalmente!

Os dois se separaram num susto, virando para encarar Albus, que estava parado ali, segurando um copo vermelho e com um sorriso enorme no rosto.

Scorpius ainda tentou processar o que estava acontecendo. Rose estava um pouco ofegante, as bochechas coradas, os lábios inchados. O cabelo dela estava mais bagunçado do que antes, e isso fez algo dentro dele se inflamar novamente.

— Não me olhem assim! — Albus riu, levantando as mãos. — Só estou dizendo que demorou, porra.

Scorpius passou a mão pelo rosto, tentando ignorar a vontade de desaparecer no próprio corpo. Rose, por outro lado, apenas ergueu uma sobrancelha e sorriu.

— Ah, cala a boca, Al.

E então pegou Scorpius pela mão e o puxou para dentro do banheiro.

O cômodo era pequeno e apertado, mas Scorpius só conseguia focar em uma coisa: Rose, encostada contra a porta, olhando para ele com aquele brilho malicioso nos olhos e o lábio inferior preso entre os dentes.

Algo dentro dele, que ele vinha reprimindo há anos, se quebrou.

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele tomou as rédeas da situação. Em um movimento rápido, segurou-a pela cintura e a virou, guiando-a até a pia. Rose soltou um pequeno riso surpreso antes de encontrar o próprio reflexo no espelho.

— Finalmente tomando uma atitude, Malfoy? — ela provocou, apoiando as mãos na borda da pia enquanto assistia, pelo reflexo, a boca dele indo de encontro ao seu pescoço.

Scorpius não respondeu. Em vez disso, deslizou as mãos por sua cintura, segurando-a com firmeza. Com pouca delicadeza, virou-a de frente para ele novamente e então a ergueu, sentando-a no mármore frio da pia. Rose arfou baixinho quando suas pernas automaticamente se abriram para acomodá-lo entre elas.

Ele se posicionou entre suas coxas e segurou seu rosto com uma das mãos, o polegar roçando sua bochecha antes de traçar um caminho lento até o queixo.

— Você não tem ideia do que está fazendo comigo, Weasley — murmurou, a voz mais rouca do que ele esperava.

Rose sorriu, desafiadora, inclinando-se ligeiramente para ele, os lábios quase tocando os dele.

— Então por que não me mostra?

Era tudo o que ele precisava ouvir.

Scorpius a beijou com uma fome que mal sabia que era capaz de sentir. Dessa vez, não havia hesitação, não havia cautela. Apenas desejo puro. Ele segurou sua cintura com força, os dedos apertando a pele coberta pelo vestido justo enquanto sua língua explorava cada canto da boca dela.

Rose gemeu contra seus lábios e entrelaçou os braços ao redor de seu pescoço, puxando-o ainda mais para perto. Ele sentiu as unhas arranharem sua nuca, enviando um arrepio direto pela sua espinha.

A mão livre de Scorpius deslizou pelas coxas dela, sentindo a textura da meia-calça fina contra seus dedos. Ele subiu devagar, até alcançar a barra do vestido, puxando-a ligeiramente para cima, apenas o suficiente para ter mais contato com sua pele quente.

— Scorpius... — Rose sussurrou contra seus lábios, e só o som de seu nome na boca dela foi o suficiente para fazê-lo perder o pouco de controle que ainda tinha.

Seus beijos desceram pelo maxilar dela, explorando o pescoço macio e exposto. Ele a sentiu inclinar a cabeça para o lado, lhe dando mais acesso, e aproveitou, sugando levemente a pele até deixá-la ainda mais quente.

Rose puxou seu cabelo, fazendo-o encará-la novamente. Seus olhos estavam escuros e brilhantes, a respiração acelerada.

— Tem certeza disso? — ele perguntou, mesmo que sua voz saísse falha.

Rose sorriu, deslizando as mãos por seu peito até segurar sua camisa e puxá-lo para mais perto.

— Se eu quisesse parar, já teria parado.

Scorpius não precisou de mais nenhuma confirmação.

Os beijos continuaram, intensos e vorazes, como se ambos estivessem tentando recuperar o tempo perdido. Rose explorava o corpo de Scorpius sem hesitação, os dedos deslizando por baixo da camisa azul, as unhas arranhando seu peitoral e costas com uma provocação deliciosa. O som baixo e rouco dos gemidos dele contra sua boca a deixava ainda mais faminta. O calor no banheiro parecia aumentar, e a tensão entre eles estava prestes a explodir.

Mas então, no meio de um beijo, Scorpius se afastou abruptamente, respirando fundo, os olhos fechados como se tentasse recuperar o controle. Seu peito subia e descia rapidamente, e suas mãos tremiam levemente enquanto ainda seguravam a cintura de Rose.

Ela o observou, confusa, o desejo e a frustração estampados em sua expressão.

— O que foi? — sussurrou, os lábios ainda entreabertos, os resquícios do batom vermelho manchando um pouco sua pele.

Scorpius passou a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos, mas era difícil raciocinar com ela ali, linda, entregue, exatamente como ele sempre quis. Seu olhar percorreu o rosto dela, descendo para seus lábios, para a curva do pescoço onde ele queria tanto depositar mais beijos. Mas ele respirou fundo e forçou-se a lembrar do que queria de verdade.

— Não é assim que tem que ser — murmurou, a voz rouca, quase hesitante. Ele odiava interromper aquele momento, mas sua consciência gritava pela autopreservação. — Não aqui. Não em um banheiro de festa qualquer.

Scorpius não sabia se Rose já havia transado em banheiros de festa antes, mas ele nunca tinha feito aquilo, e não queria que sua primeira vez com ela fosse assim. Na verdade, ele não queria que sua primeira vez fosse assim.

Rose franziu a testa, ainda respirando com dificuldade, tentando processar as palavras dele enquanto sua mente saía lentamente do torpor causado pelo desejo. Mas então, à medida que assimilava, percebeu que aquilo não era rejeição. Longe disso. Era só Scorpius sendo... Scorpius.

E, bem, isso tinha solução.

— E o que você quer, então? — sua voz saiu mais baixa, carregada de expectativa.

Scorpius a observou por um instante antes de se aproximar novamente, agora mais calmo, mais centrado. Ele deslizou os dedos pelo rosto dela, o toque suave, quase reverente, como se estivesse tentando expressar tudo que sentia sem precisar de palavras.

— Quero que você venha para o meu apartamento. — Ele finalmente disse, a voz firme, mas ainda carregada de desejo. — Quero que seja de verdade. Sem pressa, sem precisar me preocupar se alguém vai bater na porta a qualquer momento. Quero ter tempo com você, Rose. Quero fazer isso direito.

Rose o encarou, seus olhos brilhando com algo diferente, algo mais profundo do que simples desejo. Talvez fosse a certeza que poucas vezes sentiu na vida.

Sem desviar o olhar, ela deslizou da pia para o chão, ajeitando o vestido com a elegância despreocupada de quem já tomou sua decisão. Então, caminhou até a porta, destrancou-a e estendeu a mão para Scorpius, um sorriso provocador brincando nos lábios.

— Venha, Malfoy. — A voz dela saiu como um desafio, um convite impossível de recusar. — Vamos realizar os seus sonhos esta noite.

E Scorpius soube, sem sombra de dúvidas, que não havia mais volta.