Night Changes
12 O meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria
Notas iniciais
Scorpius Malfoy se considerava um sujeito romântico, mas era medroso.
Talvez fosse por ter crescido vendo os pais como um casal modelo — sempre unidos, sempre respeitosos, sem brigas que deixassem rancores. Talvez fosse por ter passado a infância em lugares considerados os mais românticos do mundo, testemunhando mais pedidos de casamento de desconhecidos do que a maioria das pessoas veria em toda uma vida. Conheceu Veneza e Paris antes mesmo de entender o que era o amor. Caminhou por Santorini quando ainda era criança, sem saber que aquele era o destino favorito de casais em lua de mel.
Cercado por tudo isso, como poderia não acreditar em almas gêmeas?
Ele acreditava que algumas pessoas simplesmente pertenciam uma à outra. Que quando o destino cruzava os caminhos certos, não havia como fugir. Quando viu Rose pela primeira vez, ele sabia que estavam destinados. Ele sentiu ser puxado de volta para ela, como se a conexão existente entre os dois tivesse origem em outras vidas. Se sentiu hipnotizado, encantado, perdidamente apaixonado.
E quando ficaram juntos pela primeira vez, ele teve certeza da ligação entre os dois. Claro que dariam certo. Claro que eram feitos um para o outro.
Mas Rose disse que precisava de um tempo para processar tudo o que havia acontecido e ele respeitou o momento dela. Sabia que não era recomendado a ninguém que saísse de um relacionamento longo e logo entrasse em outro. Além disso, ele tinha a certeza de que daria certo. Em algum momento, daria.
Um mês depois, Rose apareceu na porta dele dizendo que estava grávida.
Ele se sentiu perdido e com medo, mas alguma coisa dentro de si estava aliviada com mais uma prova de que o vínculo entre os dois era intenso a ponto de criar uma nova vida.
Ele se agarrou à ideia de que o “felizes para sempre” chegaria, porque era assim que as histórias de amor aconteciam. Era assim que sempre via nos livros e filmes. Era assim que a prima Diana brincou quando ele contou que seria pai: "Que ótimo, adoro plot de gravidez." Scorpius sorriu na época, porque parecia algo passageiro, só mais um obstáculo antes do desfecho perfeito.
Mas o “felizes para sempre” nunca veio.
Porque a vida real não era uma comédia romântica.
Talvez a culpa fosse dele, por nunca ter insistido o suficiente, por nunca ter lutado pelos dois de verdade.
Talvez, se tivesse falado o que sentia antes que outro garoto a beijasse… Se tivesse dito a ela para não sair com Eric McLaggen, admitido que sentia ciúmes, talvez as coisas tivessem sido diferentes. Mas ele engoliu as palavras e fingiu que não se importava.
Talvez ele devesse tê-la alertado quando Eric espalhou para o vestiário inteiro quando tirou a virgindade dela. Mais do que isso, ele deveria ter socado aquele idiota no meio de todo mundo para ensiná-lo a respeitá-la. Mas ele se calou.
Se tivesse enfrentado os avós quando eles a ofenderam, grávida e vulnerável, dizendo que prosseguir com a gravidez era um erro... Mas ele abaixou a cabeça e deixou que as palavras deles ficassem na mente dela.
Se tivesse se declarado depois da festa de um ano de Lyra Jane, quando eles se beijaram…
Se naquela manhã, depois da noite que dormiram juntos em comemoração à primeira semana da filha sem chupeta, ele tivesse dito que a amava, que ainda era apaixonado por ela e que, não importava o que ela dissesse, os dois não eram um erro... Talvez desse certo.
Talvez, se não tivesse ido para a Alemanha por dois anos, deixando-a sozinha em Londres com a filha, mesmo sabendo que ela tinha apoio, mesmo com ela insistindo que estava tudo bem, que ele deveria ir. Ele visitava todo mês, sim, mas e daí? Não deveria ter ido.
Ele deveria ter sido mais corajoso.
Mas teve medo. Medo de ser bruto demais. Medo de parecer egoísta. Medo de que, se forçasse demais, a perdesse por completo.
Na ficção, casais como ele e Rose terminavam juntos. Lutavam contra tudo e todos, mas no fim ficavam lado a lado. Na realidade, Scorpius viu casamentos se desfazerem depois do nascimento dos filhos. Ele e Rose nem ao menos tentaram começar.
Na ficção, membros de famílias rivais superavam suas diferenças e ficavam juntos. Alguns até diziam que ele e Rose eram como Romeu e Julieta. Ele nunca deu muita bola para isso, mas agora sentia que realmente entendia o final trágico.
Não tomou veneno, mas depois daquela conversa com Rose, uma parte dele morreu.
O caminho de volta para casa foi dominado por pensamentos autodestrutivos que Malfoy evitara por anos. Não teve forças para contestar quando Rose insinuou que ele levava uma vida perfeita. Como poderia? Para qualquer um de fora, sua vida parecia mesmo um sonho realizado. Exceto pelo que se passava em sua cabeça.
Cresceu cercado de privilégios, mas nunca teve facilidade em fazer ou manter amizades. Seu jeito e seus interesses eram estranhos aos olhos dos outros garotos, e ele nunca se sentia a prioridade de ninguém. Era inteligente, mas nunca o mais brilhante. Conseguiu alcançar seus objetivos profissionais, mas não se formou com honras. Não era o mais carismático nem o mais divertido em nenhuma roda de amigos.
E se Rose nunca tivera interesse real nele? Se apenas o enxergava como um passatempo conveniente nos últimos anos? No fundo, fazia sentido, afinal, o que havia nele que fosse realmente memorável?
A única pessoa que o via como a melhor pessoa do mundo era sua filha. E, quando estava com ela, ele acreditava nisso.
Raiva, tristeza e vergonha se misturavam, um turbilhão de emoções que não cabiam dentro dele. Deixou que escorressem pelos olhos, embaçando a visão do trânsito. Quando estacionou na garagem do prédio, precisou de um momento para se recompor. Lyra Jane chegaria em breve, e ele precisava estar inteiro. Precisava continuar sendo o homem incrível que ela via. Mesmo que, naquele momento, não se sentisse nada além de um fracasso.
Quando chegou em casa, desabou no sofá, como se suas pernas simplesmente não pudessem mais sustentá-lo. O peso daquela conversa tornava impossível se manter de pé.
Ele sempre soube que esse momento chegaria. Uma hora ou outra, a conta de tantos anos de sentimentos reprimidos viria, e agora estava ali, cobrando tudo de uma vez. Passou muito tempo evitando essa conversa, fugindo do inevitável, e agora tinham chegado ao fim definitivo. Finalmente, o único elo que o ligaria a Rose seria Lyra Jane.
Ela logo faria quatorze anos. Em poucos anos, entraria na faculdade e, depois disso, ele e Rose mal precisariam se falar. Se encontrariam nos aniversários da filha, na formatura, talvez no casamento.
Ele se casaria com Camille. Teriam um filho meio inglês, meio francês, sem nenhum traço ruivo. Lyra Jane seria uma irmã mais velha incrível, ela era ótima com crianças.
Então por que isso não trazia nenhum alívio? Por que a incerteza do que sentia antes parecia mais confortável do que a promessa de um futuro com uma mulher linda, que o admirava sem questionar cada passo que ele dava? Por que, mesmo depois dos tapas na cara que levou naquela conversa, ainda parecia preferir ser corrigido por Rose pelo resto da vida?
Dependência emocional? Culpa?
Não teve tempo para respostas. O som da chave girando na fechadura cortou seus pensamentos, e ele se apressou em se sentar direito no sofá, tentando parecer minimamente apresentável.
Lyra entrou no apartamento balançando a cabeça no ritmo da música que tocava em seus fones, os ombros se movendo de leve enquanto cantarolava baixinho. Demorou alguns segundos para notar a presença do pai no sofá, e quando finalmente o viu, deu um pequeno sobressalto.
— Nossa, pai, que susto! Nem te vi aí.
Scorpius forçou um sorriso, mas não conseguiu impedir que o cansaço transparecesse em sua expressão.
— Chegou cedo hoje. — ela constatou, tirando um dos fones. Mas antes que ele pudesse responder, franziu o cenho, analisando melhor o rosto dele. — O que foi? Você está com uma cara péssima.
— Só uma enxaqueca — ele mentiu rapidamente. — Resolvi sair do trabalho mais cedo.
Lyra arqueou uma sobrancelha.
— Você nunca tem enxaqueca — apontou. — Isso é mais coisa da mamãe.
Scorpius soltou um riso fraco, desviando o olhar.
— Bom, acho que uma vez na vida acontece, não é?
Ela não pareceu totalmente convencida, mas não insistiu. Se não era enxaqueca, então era algo sério, porque ele realmente parecia muito mal.
— Quer que eu pegue um remédio?
— Não precisa, querida. Só descansar um pouco já ajuda.
Ela assentiu, observando-o por mais um instante antes de jogar a mochila no chão e se sentar ao lado dele. Lyra se ajeitou no sofá ao lado do pai, trazendo os joelhos para cima do assento e virando-se levemente para ele. Sua expressão suavizou um pouco antes de bater de leve no joelho dele.
— Você sabe que pode me contar tudo, não é? — assegurou, o tom casual, mas o olhar atento. — Tem certeza que não aconteceu nada?
Scorpius sorriu, porque era exatamente assim que ele falava com ela quando percebia que algo estava errado. Aquela mesma entonação gentil, a tentativa de soar despreocupado, mas com um toque de insistência.
— É só dor de cabeça, Lyra — garantiu, forçando um tom tranquilo. — Juro. Não precisa se preocupar.
Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos, como se avaliasse a sinceridade da resposta, mas logo suspirou e deu de ombros.
— Se você está dizendo...
Lyra não era boba. Algo definitivamente tinha acontecido, mas conhecia bem o pai e sabia que não adiantava pressioná-lo. Se ele quisesse falar, falaria. Então, resolveu fingir que engoliu a desculpa e se levantou do sofá.
— Vou para o meu quarto. — anunciou — Se precisar de alguma coisa, é só chamar.
Scorpius assentiu, observando-a sair da sala, mas a ruiva logo voltou.
— Ah, pai. — disse, retomando a atenção do Malfoy para si. — Pode deixar o jantar por minha conta hoje.
Ele sorriu novamente, satisfeito e orgulhoso com o carinho da filha.
— E o que vai fazer? — questionou, curioso.
— Pedir comida chinesa, claro! — respondeu, como se fosse óbvio.
Ele assentiu com um sorriso fraco e ela se retirou novamente.
Assim que entrou no quarto, Lyra se jogou na cama, pensativa.
"Enxaqueca". Como se fosse cair nessa.
Ela tinha visto muito bem a cara de choro do pai. Ele não ficava tão vermelho quanto ela ou sua mãe, mas era nítido quando se emocionava com algo. Os cílios loiros ficavam mais escuros por terem sido molhados, a pálpebra inchava de leve. Era sutil, mas não passava despercebido para quem o conhecia bem.
E Lyra Jane Malfoy o conhecia melhor do que ninguém.
Seus pais tinham essa mania – que ela considerava idiota – de querer protegê-la, escondendo dela os assuntos que consideravam sérios. Como se ela ainda fosse uma criança. Mas não era. Já tinha quase 14 anos e se considerava madura demais para a idade. Sua avó Hermione vivia elogiando sua argumentação impecável, sabia se virar sozinha na rua, já cozinhava algumas coisas (nada muito elaborado, mas o suficiente para não passar fome). Mais um pouco de prática e uns ajustes e poderia se considerar uma mulher adulta em breve. Agora até tinha um namorado, um cara legal, o que só provava que sabia escolher bem suas companhias.
Então, por que ainda a tratavam como uma garotinha?
Na sala, Scorpius se jogou de volta no sofá, desta vez emergindo levemente de sua fossa ao pegar o celular para checar as notificações.
A maioria eram mensagens de clientes ou da sua equipe no trabalho, o que o fez pensar, mais uma vez, que deveria ter comprado um celular só para assuntos profissionais. A enxurrada de mensagens diárias o deixava maluco, mas decidiu que responderia somente mais tarde.
Entre as notificações, viu uma mensagem de Camille. Ela comentava sobre uma reunião com a sócia e, logo abaixo, perguntava se a conversa com Rose tinha corrido bem. Scorpius sabia que, naquele momento, a namorada era sua maior aliada, a pessoa que mais se preocupava com ele em relação a esse acerto de contas — afinal, aquele assunto inacabado também respingava nela. Mas responder Camille exigiria um nível de filtro e energia que ele simplesmente não tinha no momento.
Por fim, notou a última notificação: uma mensagem de Albus, comentando sobre o jogo da noite anterior. Scorpius pensou que, se os dois fossem mulheres, aquele seria o momento perfeito para desabafar e pedir conselhos profundos.
O Malfoy não sabia se era pela influência da paternidade na sua vida, mas sentiu que, talvez, devesse encarar a situação por um viés mais feminino. Então, ele respondeu de forma automática, dizendo que, realmente, foi um jogaço (mesmo sem ter assistido, afinal, estava ocupado batendo na porta de Rose e, provavelmente, empatando a foda dela). Logo em seguida, digitou: "Está livre hoje à noite?".
Mas antes de enviar, parou.
Lyra Jane estava com ele, não poderia simplesmente sair e deixá-la sozinha em casa até tarde da noite. Consultou o relógio e viu que ainda não eram cinco da tarde.
Apagou a mensagem e reescreveu:
Scorpius: Está livre agora?
Albus respondeu quase que instantaneamente.
Albus: Depende... vai me levar para jantar primeiro ou vamos direto ao ponto?
Scorpius soltou um riso fraco pelo nariz. Ele podia contar com Albus para aliviar qualquer clima tenso.
Scorpius: Direto ao ponto. Mas precisa ser pessoalmente. Está em casa?
Albus: No trabalho. Não posso sair agora, mas se quiser dar um pulo aqui, a gente conversa.
Scorpius suspirou. Não estava exatamente no clima para sair, mas a ideia de ficar remoendo tudo sozinho até o fim do dia era pior. Ele se levantou, sentindo o corpo pesar como se estivesse carregando cimento nos ombros, e seguiu até o quarto de Lyra Jane.
A filha estava deitada na cama, com o celular apoiado nos joelhos e os fones nos ouvidos. Ele bateu na porta duas vezes, chamando a atenção dela.
— Vou até o Aquário rapidinho falar com o Albus. Volto antes de escurecer. — avisou.
Lyra tirou os fones e se sentou.
— Posso ir junto? Faz tempo que não vejo o tio Al — perguntou, já se preparando para levantar.
Scorpius hesitou. Por um lado, a presença da filha sempre era um conforto. Mas, por outro, ele realmente precisava desse tempo sozinho com Albus, até porque, não poderia correr o risco dela ouvir qualquer parte daquela conversa.
— Hoje não, preciso resolver um negócio com ele — disse, tentando não dar um tom pesado à fala.
Ela franziu o cenho, desconfiada.
— Já melhorou da enxaqueca?
— Claro, me sinto bem melhor. — mentiu, sem pensar duas vezes. Ela o encarou, claramente duvidando, mas ele não tinha tempo para elaborar algo mais concreto.
— Se você diz… — comentou, voltando a colocar os fones.
— Aproveita para arrumar essa bagunça que você chama de quarto. — disse, olhando a desorganização ao redor. Roupas espalhadas, mais copos do que ele conseguia contar e pacotes de salgadinhos abertos. Como poderia ter acumulado tudo aquilo em menos de uma semana?
Antes de sair, Scorpius sorriu de leve e bagunçou os cabelos da filha quando viu a cara de desgosto que ela fez com a tarefa dada.
O caminho até o Aquário de Londres era curto, mas cada farol vermelho parecia uma chance para seus pensamentos caírem de novo na espiral de arrependimentos e suposições. Ele ligou o rádio para tentar se distrair, mas todas as músicas pareciam sobre términos, escolhas erradas ou o tempo passando rápido demais.
— Ótimo, era só o que faltava — murmurou, mudando para uma estação qualquer de notícias.
Ao chegar, Scorpius estacionou o carro e soltou um longo suspiro antes de sair. Não sabia exatamente o que esperava daquela conversa com Albus.
O local ainda estava aberto à visitação, então precisou se identificar na recepção. Depois de informar que estava ali a pedido do amigo, foi conduzido até uma sala escura e silenciosa. Demorou alguns segundos para seus olhos se acostumarem à penumbra e distinguirem Albus, sentado próximo a uma ampla janela de vidro que dava vista para um habitat de pinguins. Ele segurava um tablet, concentrado em anotações.
O som da porta se fechando fez o Potter levantar o olhar.
— E aí, cara? — cumprimentou, sem desviar a atenção do tablet. — Que bons ventos trazem você até aqui?
— Antes fossem bons ventos. — Scorpius resmungou, desgostoso. Seus olhos percorreram a sala antes de pousarem novamente no amigo. — O que está fazendo aqui dentro? Achei que estaria lá fora com os seus pinguins.
— Vem dar uma olhada. — Albus indicou com um gesto para que ele se aproximasse. Scorpius caminhou até a janela e encarou o grande tanque do outro lado do vidro. — Eles estão na época de reprodução. Precisam de monitoramento constante e, principalmente, distância do público.
— É a mamãe pinguim? — perguntou Scorpius, apontando para o animal com o ovo equilibrado sobre os pés.
— Não, esse é o pai. — Albus esclareceu, sem tirar os olhos do habitat. — São pinguins-imperadores. O macho fica com o ovo enquanto a fêmea sai em busca de alimento. Poucas espécies funcionam assim. Claro, algumas dividem a criação dos filhotes, como os leões e os mico-leões-dourados, mas essa fase de incubação, que eu me lembre, só pinguins e flamingos participam de forma tão intensa. Bom, e também não tem como mamíferos chocarem ovos, né? Mas, de qualquer forma, não acha fascinante?
— Como assim?
Albus inclinou a cabeça em direção ao vidro.
— Aqui no centro, selecionamos geneticamente os pares mais compatíveis para reprodução, então não é exatamente uma escolha arbitrária como na natureza. Depois, ajustamos o ambiente para que fique o mais parecido possível com o habitat deles. Aí vem o cortejo e o acasalamento, mas isso já é com eles. Podemos criar todas as condições favoráveis, mas não temos como obrigá-los a se gostarem. A se escolherem.
Scorpius franziu a testa, interessado.
— E depois que a fêmea põe o ovo, um único ovo, ela simplesmente vai embora em busca de alimento, deixando tudo na responsabilidade do macho. Mas ele não se desespera. Ele sabe que é assim que tem que ser. Ele passa meses sem se alimentar, perde quase metade do peso, mas mantém o ovo aquecido porque é o seu dever. E, acima de tudo, ele sabe que ela vai voltar. Sempre volta. É a natureza.
Scorpius permaneceu em silêncio por um instante, assimilando aquilo. De fato, era fascinante.
— Mas então? — Albus desviou o olhar dos pinguins para encará-lo. — O que tem de tão importante para falar que precisou vir até aqui? Vai ser pai de novo?
O tom de zombaria fez Scorpius revirar os olhos, mas ele não respondeu de imediato e continuou inexpressivo.
O sorriso de Albus vacilou.
— Espera... — ele engoliu em seco. — Você vai ser pai de novo?
A voz estridente fez Scorpius rir.
— Não, claro que não. — respondeu, divertido.
— Então por que ficou sério desse jeito, porra? — Albus resmungou, aliviado.
Scorpius soltou um longo suspiro, passando a mão pelo rosto. Não sabia nem por onde começar.
— Rose aconteceu. — disse, como se isso, por si só, já explicasse tudo.
Albus arqueou uma sobrancelha e soltou um riso debochado.
— E lá vamos nós de novo… — balançou a cabeça. — Me diz uma coisa: há quanto tempo somos amigos?
— Uns vinte anos?
— Isso. E, desde então, Rose "acontece" na sua vida. O que tem de diferente agora?
Scorpius desviou o olhar para os pinguins, respirando fundo antes de responder:
— O que tem de diferente é que, dessa vez, tudo acabou de vez.
Albus o encarou, confuso.
— Acabou o quê? — franziu o cenho. — Estava rolando alguma coisa entre vocês que eu não sei?
Scorpius soltou um riso sem humor, cruzando os braços enquanto ainda observava os pinguins.
— Não, não estava rolando nada. Nem de longe. — admitiu, balançando a cabeça. — Mas, acho que, lá no fundo, uma parte de mim ainda tinha esperança de que alguma coisa pudesse acontecer.
Albus não respondeu de imediato, apenas analisou o amigo por alguns instantes, como se estivesse escolhendo bem as palavras antes de falar.
— Esperança baseada em quê, exatamente?
Scorpius deu de ombros.
— Sei lá. Talvez no fato de que nós sempre acabamos voltando um pro outro, de alguma forma. — suspirou, esfregando a nuca. — Mas agora eu vejo que nunca foi um "nós", não de verdade. Eu me agarrei à ideia de que tínhamos algo inacabado, mas, no fim, a única pessoa que ainda estava presa nisso era eu.
Albus assentiu lentamente, sem desviar o olhar.
— E como você se sente sabendo disso agora?
Scorpius soltou uma risada fraca, sem alegria.
— Uma merda.
— Faz sentido. — Albus concordou, apoiando os cotovelos na mesa e entrelaçando os dedos. — Mas, se quer saber, eu acho que essa é a melhor coisa que podia ter acontecido com você.
Scorpius franziu o cenho.
— Ah, valeu pelo apoio, Potter.
— Tô falando sério. — Albus deu de ombros. — Você passou metade da sua vida preso a essa história, Scorpius. Talvez seja a primeira vez que você pode, de fato, seguir em frente sem essa sombra no seu caminho.
O loiro respirou fundo, absorvendo as palavras do amigo.
— Mas seguir em frente pra onde? — questionou, a voz saindo mais baixa do que pretendia.
— Pra onde você quiser. — Albus respondeu simplesmente. — Eu imaginei que você tivesse planos de um futuro com a sua namorada.
Scorpius passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro cansado.
— Eu não sei o que fazer a respeito da Camille. — confessou, sem olhar para Albus. — Eu me preocupo com ela, de verdade. Mas, querendo ou não, foi ela quem inventou de mexer nesse vespeiro. Ela sabia que tinha alguma coisa mal resolvida entre mim e a Rose e mesmo assim insistiu que eu devia conversar com ela, acertar as contas…
Albus arqueou uma sobrancelha, impaciente.
— E você está mesmo culpando a Camille por isso?
Scorpius franziu o cenho.
— Eu não disse que estou culpando...
— Mas está. — Albus o interrompeu. — Está dizendo, com todas as letras, que foi ela quem te empurrou pra essa conversa, como se você não tivesse passado a última década fugindo desse assunto.
Scorpius abriu a boca para retrucar, mas se calou.
— Vamos encarar os fatos, cara. — Albus continuou, apoiando-se na mesa. — A Camille só te incentivou a encarar algo que você já sabia que precisava resolver. Você só está puto porque agora não pode mais fingir que isso não existe.
Scorpius apertou os olhos, soltando um riso amargo.
— Não é que eu quisesse fingir que não existia… eu só… — ele parou, procurando as palavras certas. — Eu só queria que essa sensação tivesse ido embora depois da conversa.
Albus o observou por um instante antes de perguntar:
— Que sensação?
Scorpius inspirou fundo antes de responder:
— De que ela ainda é o amor da minha vida.
Albus ficou em silêncio por um momento, apenas digerindo as palavras do amigo.
— E ela é? — questionou, enfim.
Scorpius abriu a boca para responder automaticamente, mas parou. Não sabia mais. Ele sempre achou que sim. Sempre sentiu que sim. Mas agora, depois daquela conversa, depois de finalmente ter dito tudo o que precisava ser dito… Ele ainda sentia aquilo, mas era diferente.
— Eu não sei. — admitiu, e odiou o gosto amargo que aquilo deixou na sua boca.
— Sabe o que eu acho? — Albus disse, com um tom mais brando. — Eu acho que, por muito tempo, ela foi, sim. Mas às vezes o amor da nossa vida não é pra ser a pessoa com quem a gente fica no final.
Scorpius desviou o olhar, apertando os punhos sobre as coxas.
— Eu só queria que doesse menos.
— Eu sei. — Albus respondeu. — Mas está na hora de doer. E depois, uma hora, vai parar.
Scorpius soltou um suspiro pesado e não respondeu. Apenas voltou a observar os pinguins, se perguntando se algum dia conseguiria ter a mesma certeza que aquele macho-imperador tinha ao esperar pela volta da fêmea.
Scorpius Malfoy se considerava um sujeito romântico, mas não tinha muitas certezas sobre o amor.
Fale com o autor