Night Changes
14 Where's my fucking teenage dream?
Notas iniciais
2011
— Não, pai, nem mesmo chocolate setenta por cento. — Rose insistia ao telefone, tentando convencer um Ronald irredutível, enquanto, com a outra mão, tentava inutilmente fazer Lyra Jane aceitar uma colherada de mingau de aveia. — Eu sei que são os brownies da vovó, mas ela ainda não pode comer açúcar...
— Deixa que eu faço. — Scorpius falou baixo ao lado dela, empurrando-a de leve para que ela saísse da cadeira e ele ocupasse seu lugar de frente para a filha.
Rose suspirou e largou a colher, afastando-se enquanto continuava a conversa.
— Cadê o bocão? Mostra o bocão para o papai. — Scorpius disse com voz boba para a ruivinha, que sorriu, abrindo um espaço perfeito para ele enfiar a colher de mingau na boca dela.
— ... Tudo bem então, pode trazer. — Rose se rendeu, revirando os olhos — Mas prometa que não vai comer perto dela. — Ela lançou um olhar exasperado para Scorpius, que riu da sua frustração, e então voltou à ligação. — ... Também te amo, pai. Até mais tarde.
Ela desligou o aparelho e se voltou para a filha com os olhos semicerrados.
— Traíra. — acusou, fingindo indignação. Lyra Jane riu com sua boquinha suja, e Scorpius, aproveitando a distração, não perdeu a oportunidade de colocar mais uma colherada para dentro.
A sala do apartamento estava um verdadeiro caos, tomada por fitas, papéis coloridos e balões espalhados pelo chão. Era a manhã do primeiro aniversário de Lyra Jane, e Rose, Albus e Scorpius estavam completamente imersos na missão de montar a festa.
Cada um tinha seu papel bem definido: Scorpius era bom com decorações, Rose era boa em trabalhos manuais e Albus era bom em obedecer Rose. Desde o fim de semana, os três estavam dedicados a organizar cada detalhe para tornar aquele dia especial.
Inicialmente, Rose cogitou deixar a comemoração para o sábado, quando o restante da família poderia ajudar, além de poderem usar o espaço amplo da casa dos pais dela. Afinal, o apartamento de Scorpius era espaçoso o suficiente para três adultos e um bebê, mas não tanto para comportar Weasleys e Malfoys ao mesmo tempo.
Mas Scorpius bateu o pé: a festa deveria acontecer exatamente no dia do nascimento de Lyra Jane. Ele queria que, desde sempre, a filha sentisse que aquela data era só dela. Além disso, para ele, aquele aniversário não era apenas sobre a bebê completar um ano de vida, era sobre eles terem conseguido. Conseguido mais do que apenas manter Lyra viva, mas fazê-la crescer bem, saudável e feliz, apesar de todas as dificuldades.
E ali estava ela, exatamente um ano depois, sentada no cadeirão, tomando seu mingau de aveia e mordiscando pedaços de frutas enquanto repetia, sem parar, mamãe, papai e Bubu — sua maneira carinhosa de chamar Albus. Ela também já sabia pedir pela chupeta, por água e por sua inseparável bonequinha Lucy, batizada em homenagem à prima de Rose, a quem Lyra amava de paixão.
A pequena Malfoy começava a dar seus primeiros passos, mas ainda hesitava em seguir em frente sozinha. Um momento de distração e lá estava ela, caminhando atrás de seu trenzinho de brinquedo, as mãozinhas esticadas em busca de equilíbrio. Mas, assim que percebia que estava de pé sem apoio, se sentava apressadamente, como se aquele avanço repentino fosse assustador demais para ela.
Crescer era encantador na mesma proporção que era assustador.
Quando Rose via a filha interromper os passinhos incertos por sentir que estava indo rápido demais, não podia deixar de pensar em si mesma — e na insegurança que vinha com cada novo passo da vida. Lembrava nitidamente do pavor que sentiu ao decidir sair de casa, já no final da gravidez, para ocupar o quarto vago no apartamento de Scorpius.
Foi uma decisão que ela adiou por meses, até o tempo simplesmente acabar. E, apesar dos protestos dos pais — especialmente Hermione, que alegava que ela precisaria de toda ajuda possível na criação de Lyra Jane —, Rose se mudou. Não porque estava pronta, mas porque sabia, com a certeza que só as mães têm, que a filha precisaria mais dos pais do que ela precisava dos próprios naquele momento.
Agora, um ano depois, naquela sala decorada com balões e fitas baratas, vendo Lyra Jane saudável e risonha, Rose soube que tinha feito a escolha certa.
E torcia para estar tomando a decisão certa mais uma vez, agora em relação ao seu futuro acadêmico. Ainda que se sentisse insegura, instável, sem o equilíbrio ideal, havia algo dentro dela que dizia que era hora de dar esse novo passo.
Ser uma estudante de medicina grávida já tinha sido exaustivo. Ser uma estudante de medicina e mãe de um bebê — e uma mãe que não abria mão de cuidar da própria filha — havia se provado impossível.
A UCL oferecia programas de permanência para mães universitárias, os professores eram compreensivos e a maioria dos colegas, acolhedora. Mas o curso de medicina não era um ambiente adaptável à presença de uma criança. Rose precisava sair das aulas para amamentar, trocar fraldas ou acalmar choros. Nos dias em que Scorpius ficava com Lyra Jane em casa, ela ainda assim se ausentava com frequência: seus seios enchiam de leite e a dor era insuportável. Amamentar na sala de aula não a incomodava, mas usar a bombinha de ordenha enquanto um professor explicava o ciclo do ácido cítrico… era demais até para ela.
E o mais complicado ainda estava por vir: em breve começariam as aulas práticas nos hospitais. Não haveria mais como levar Lyra consigo. A ideia de expor a filha tão pequena a um ambiente hospitalar, repleto de riscos, era impensável.
Foi por isso que ela resolveu trilhar um novo caminho. Um caminho só dela.
Até então, apenas Scorpius sabia da decisão. Ele a apoiava, mesmo tendo perguntado dezenas de vezes se era realmente isso que ela queria. E a verdade é que nem Rose sabia com certeza. Havia dias em que a dúvida a sufocava. Mas toda vez que ela olhava para a filha enquanto amamentava e era encarada com aqueles olhinhos cheios de amor, compreendia que não queria — e não podia — estar longe dela.
Colocá-la em uma creche tão nova, ou deixá-la aos cuidados de uma babá, por melhor recomendada que fosse, não fazia parte de seus planos. Ela sabia que não conseguiria se concentrar nos estudos sabendo que Lyra estava em casa, sentindo sua falta. E também sabia que não seria uma boa mãe se estivesse frustrada com o próprio desempenho acadêmico.
Foi quando começou a pesquisar novos cursos. Lembrou das vezes em que ouviu que levava jeito para ensinar, que sua forma de explicar fazia até as matérias mais difíceis parecerem simples. Lembrou das rodas de conversa, dos debates, da forma como se envolvia com as questões sociais.
Sabia que poderia ser uma boa professora. E sabia também que o departamento de Ciências Sociais oferecia projetos de pesquisa bem estruturados, muitos dos quais remunerados, o que poderia aliviar um pouco a carga financeira, e, principalmente, com atividades que poderiam ser desenvolvidas dentro da própria universidade, em ambientes mais seguros para Lyra Jane frequentar.
Ainda era cedo para saber se esse caminho seria o definitivo. Mas naquele momento, entre balões e lembranças, com Lyra rindo e se equilibrando sobre as perninhas tortas, Rose teve certeza de que, pelo menos por agora, estava caminhando na direção certa. E esperava que seus pais entendessem seu lado.
Seus pensamentos foram interrompidos com a chegada de Albus, que entrou resmungando, as mãos abarrotadas de sacolas.
— Rose, se você me falar mais uma vez que a decoração não está alegre o suficiente, eu juro que vou te mostrar pessoalmente o que significa não estar alegre. — reclamou, empurrando a porta com o pé. — Pega aqui. Veja se agora os balões estão amarelos o suficiente para sua majestade. — disse, estendendo uma das sacolas para a prima.
Ela pegou a sacola com uma sobrancelha arqueada, pegando outras também e levando tudo até a mesa onde Scorpius ainda terminava de alimentar Lyra Jane.
— Obrigada, Al. Tenho certeza que a Jane vai ser eternamente grata ao padrinho por salvar o primeiro aniversário dela do ataque de balões tristes. — brincou, mas com um sorriso genuíno, de gratidão.
Potter suavizou a expressão, se lembrando de que aquilo tudo era para a melhor criança do mundo.
Ele havia mesmo mergulhado de cabeça na paternidade, mesmo que não fosse pai. Ainda vivia sua vida de estudante — saía, enchia a cara, namorava — mas, volta e meia, era ele quem estava na sala do apartamento, embalando Lyra Jane nos braços para que Rose e Scorpius pudessem ter uma noite de sono completa. A mini Malfoy não poderia ter escolhido um padrinho melhor.
Com muito esforço — e o sacrifício de um rolo inteiro de fita, único objeto capaz de manter Lyra Jane entretida tempo suficiente para que os três trabalhassem — a festa estava finalmente montada ao final da tarde.
Os balões amarelos, de fato, fizeram toda a diferença. As fitas finas penduradas no teto deram à decoração o toque lúdico que Scorpius havia imaginado, e os brinquedos favoritos da aniversariante foram incorporados à ambientação: o mordedor em formato de disco voador, o ursinho Won-Won que ela ganhara dos avós maternos, a boneca Lucy, e, como toque final, a chave do carro de Scorpius, objeto de fascínio absoluto para Lyra Jane.
Exaustos, os três se sentaram no tapete da sala, onde Lyra ainda brincava, orgulhosa de seu domínio sobre o rolo de fita. Admiraram em silêncio o resultado do trabalho em equipe.
— Por favor, prometam que a gente vai fazer isso todos os anos. — Rose pediu, a voz embargada, com os olhos marejados. Aquela festa era mais do que uma comemoração: era um marco. Uma prova de que eles sobreviveram. E agora ela compreendia perfeitamente o que Scorpius quis dizer quando insistiu em fazer a festa exatamente na data de nascimento da filha.
Os dois assentiram sem hesitar, cansados demais para qualquer palavra.
Depois de alguns minutos de silêncio, foi Albus quem quebrou o momento:
— Vou tomar um banho. Preciso estar apresentável para o jantar, senão minha mãe vai me arrastar pro banheiro e aparar minha barba ela mesma. — anunciou, arrancando risadas dos outros dois.
Enquanto ele desaparecia pelo corredor, Rose e Scorpius voltaram a brincar com a filha, que jogava a chupeta longe, engatinhava até pegá-la e a colocava de volta na boca. O conceito de higiene havia sido amplamente flexibilizado nos últimos meses em nome da sanidade mental dos dois.
— Ei, eu só queria dizer uma coisa... — Scorpius começou, a voz mais baixa. — Obrigado por esse último ano.
Rose virou o rosto para ele, surpresa com a declaração inesperada.
— Como assim?
— Quero dizer... a gente teve que crescer muito rápido. E não foi fácil. Mas você foi incrível, Rose. É uma mãe incrível.
O coração dela apertou. Scorpius sempre fora gentil, mas raramente colocava sentimentos em palavras daquela forma.
— Obrigada... — murmurou, olhando para ele por um instante antes de sorrir. — Mas eu não fiz isso sozinha. Você também foi incrível, Scorpius.
Ele sorriu de lado, coçou a nuca, um pouco sem jeito com o elogio.
— Bom, eu tento.
O clima entre os dois mudou. Era sutil, mas inegável. Eles estavam mais próximos do que o necessário. Rose notou o olhar dele baixar até seus lábios, e por um segundo, ela se perguntou se ele recuaria. Mas ele não recuou.
Scorpius ergueu a mão devagar e tocou o rosto dela com leveza. Foi tudo o que ela precisou para fechar a distância e beijá-lo.
Diferente de outras vezes, não houve hesitação. Não houve culpa. Apenas o alívio de um desejo antigo, o conforto de uma familiaridade que não se perdeu, e a saudade misturada a tudo isso.
O beijo durou apenas alguns segundos, mas os dois se afastaram respirando com mais força, o coração disparado. Rose passou a língua nos lábios, saboreando o gosto dele, antes de encará-lo nos olhos e, com esforço, reunir forças para dizer:
— Está na hora da fruta.
Scorpius piscou, atordoado.
Fruta?
Ela realmente conseguia pensar em fruta depois daquilo?
Mesmo sem entender, apenas assentiu, vendo-a se levantar e seguir para a cozinha como se nada tivesse acontecido.
Ficou ali com Lyra Jane, distraidamente ajudando-a a brincar, enquanto ouvia o som da faca cortando a melancia na cozinha e se perguntando o que exatamente aquele beijo significava.
Ou se significava mesmo algo.
2024
O silêncio no carro só era quebrado pelos suspiros irritados de Weasley ou Malfoy.
Scorpius ultrapassava com gosto o limite de velocidade da via, e Rose sabia disso. Mas não disse nada, afinal, quando ele ofereceu para ela dirigir, ela recusou. E ele só ofereceu para provocá-la. Scorpius sabia muito bem o quanto ela odiava dirigir. O carro dela só saía da garagem em casos extremos. Como aquele.
Mas depois de fazerem Lyra Jane chorar — tudo por conta da própria irresponsabilidade — os dois estavam cansados demais até para discutir.
— Dá para ver se estamos chegando? Tem umas mil confeitarias por aqui. — Scorpius pediu, sem tirar os olhos da rua.
Rose checou o trajeto no celular.
— É logo ali na frente, à direita. — informou, voltando ao silêncio quase automático entre eles.
Graças à ajuda de Lily, tinham encontrado uma confeitaria que poderia ter um bolo grande pronto para ser vendido — pelo preço certo, claro. A agência onde Lily trabalhava havia feito um trabalho de branding para a confeitaria, e ela lembrava claramente da dona, que presenteara toda a equipe com doces personalizados. Agora, sem tempo para se importar com sabores ou decoração, Rose e Scorpius saíram às pressas para tentar consertar a bagunça que causaram, deixando o resto da família encarregada dos preparativos finais da festa e de uma Lyra Jane chorosa, nervosa e ansiosa.
Camille foi até o apartamento de Scorpius buscar roupas para que ele pudesse se arrumar na casa de Rose, já que o tempo era curto demais para qualquer desvio de rota. Ela também ficou responsável por levar o presente da aniversariante: um estojo de pintura novo e uma pasta para guardar as futuras obras de arte da adolescente.
Scorpius estacionou o carro de Rose perto da confeitaria e, antes de sair, comentou:
— A direção está meio dura. Você devia levar esse carro ao mecânico.
Rose apenas assentiu, sem forças para discutir e dizer que, na verdade, o carro dela só era velho mesmo.
Ao entrarem na confeitaria, Rose precisou de apenas alguns segundos para perceber que teria que economizar, no mínimo, três meses de salário para comprar qualquer coisa ali. O lugar era sofisticado até o último detalhe. O ambiente era claro, com tons de azul suave e detalhes em dourado. As louças eram todas de porcelana fina — ela reconhecia uma boa porcelana de longe — e as poucas mesas ocupadas estavam preenchidas por senhoras elegantemente vestidas que comiam sobremesas delicadas e bebiam champagne como se fosse suco de laranja.
Rose estava tão absorta observando tudo aquilo que só notou a movimentação quando ouviu a voz de Scorpius já conversando com a atendente no balcão.
— ...Então, nos disseram que havia um bolo de três andares disponível. Você consegue prepará-lo para viagem? — explicava, tentando manter a calma, embora sua impaciência fosse perceptível.
A atendente, visivelmente confusa, consultou o computador à sua frente antes de responder:
— Sinto muito, senhor, mas o bolo de três andares que temos está reservado para uma festa de noivado. Não sei quem passou essa informação, mas ela está incorreta.
Scorpius franziu o cenho, já se irritando:
— Olha, nós falamos com alguém que garantiu que o bolo estava disponível. Viemos do outro lado da cidade e temos urgência. Seria bom que...
— Querida, oi! — Rose interrompeu, se colocando entre Scorpius e o balcão com um sorriso afável. — Nós não lembramos exatamente quem atendeu ao telefone... Será que você poderia verificar com seu superior ou com a cozinha se houve algum mal-entendido?
A garota assentiu, aliviada com a mudança de tom, e sumiu atrás de uma porta com o aviso “Somente pessoal autorizado”.
— Ela não tem culpa da nossa estupidez. Não precisava surtar com a garota. — Rose ralhou, baixinho.
Scorpius a encarou com uma expressão que deixava claro: não era a atendente que estava irritando ele. Mas não disse nada. Ficou quieto, apenas por cortesia. Ou exaustão.
Poucos segundos depois, a atendente retornou, seguida por uma mulher ruiva de estatura média, que retirava a touca enquanto se aproximava do balcão. Os cabelos curtos em um corte Joãozinho, batidos atrás e com uma franja estilosa na frente, chamaram imediatamente a atenção de Rose.
— Lucy? — ela exclamou, surpresa e empolgada. — Meu Deus, quanto tempo!
Rose se aproximou com um sorriso largo no rosto.
— Eu não sabia que você estava de volta! Lily não me contou que tinha falado com você ao telefone!
Lucy retribuiu o sorriso de Rose com a mesma empolgação. Foi só então que Scorpius a reconheceu. Era a prima de Rose. Ele se lembrava dela ainda criança, por volta dos oito anos, brincando com Lyra Jane. Por um tempo, Lucy foi a companhia favorita da filha deles, sempre presente nas visitas de fim de semana e nos almoços em família. Mas fazia muitos anos que ele não a via.
Se sua memória não falhava, os pais de Lucy haviam se separado, e a mãe — italiana, como o sobrenome Leoni sugeria — havia voltado para a terra natal com as filhas, Lucy e Molly. Pelo visto, ela tinha retornado a Londres recentemente. Recentemente mesmo, já que nem Rose sabia da novidade.
— Lily nem fazia ideia de que era comigo que falava ao telefone — explicou Lucy, divertida. — Estava tão desesperada que nem perguntou meu nome. Eu só soube que era ela quando deu o nome pra reserva. Não há muitas Lily Potters em Londres, não é?
As duas riram e engataram num papo animado, deixando Scorpius plantado entre as vitrines de doces como se fosse invisível — o que, para alguém como ele, era uma tortura. Até que decidiu intervir.
— Oi, Lucy. Tudo bem? Então... sobre o bolo...
— Ah, claro! — ela se voltou para o computador, digitando algumas informações rapidamente, e virou-se para a atendente. — Natalie, não cheguei a te avisar porque a Sra. White tinha reservado esse bolo pra doar ao abrigo de crianças amanhã. Mas esse casal aqui está em situação de emergência.
Ela olhou de volta para Rose, que franziu levemente a testa ao ouvir o termo "casal", desconfortável.
— Como é que você esquece o bolo de aniversário da sua filha, Rose Weasley? — provocou Lucy, com um tom leve, quase debochado.
Rose abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu. Scorpius também não parecia disposto a se justificar. Na verdade, não havia muito o que dizer — a verdade era simplesmente estúpida demais para ser dita em voz alta.
— Enfim... — continuou Lucy, contornando o silêncio constrangedor. — O bolo era pra um noivado. Massa de baunilha, recheio de mousse de limão, pasta de chocolate com pedaços de brownie e cobertura de buttercream. Lily disse que vocês queriam massa de laranja com recheio de chocolate branco e nozes, mas… impossível. Então é isso. Pegar ou largar.
Rose e Scorpius se entreolharam, cúmplices na derrota.
— Pegamos. — disseram, em uníssono.
— Ótimo. Só que tem dois probleminhas. Primeiro: como a intenção era doar o bolo, a Sra. White pediu que, além do valor dele, vocês façam uma contribuição extra. O total vai para o abrigo.
— Nós pagamos. — Scorpius respondeu imediatamente. — O que for preciso.
— Excelente. As crianças órfãs agradecem.
— E... qual é o segundo problema? — perguntou Rose, desconfiada.
— Como a Natalie já disse, o bolo era pra um noivado que, para a sorte de vocês, foi desmanchado. Então é todo branco. Sem nenhuma decoração. Vocês vão precisar improvisar. Eu até me ofereceria pra confeitar, mas estou atolada aqui. Tenho uma encomenda enorme para entregar em três horas e...
— Você tem buttercream e corante sobrando? — Scorpius interrompeu, de forma tão inesperada que todos se voltaram para ele, confusos.
— Tenho, mas... por quê?
— Se importa se eu decorar o bolo?
Rose arregalou os olhos, completamente surpresa.
— Desde quando você sabe confeitar bolos?
— Desde que precisei arrumar um hobby novo pra manter as mãos ocupadas quando ficassem nervosas. — respondeu, com simplicidade. Depois, voltou-se para Lucy: — Posso?
— À vontade, senhor Malfoy — disse Lucy, abrindo um sorriso curioso e apontando para a porta da cozinha. — Por aqui.
O loiro não pensou duas vezes antes de desaparecer por ali.
— Nat — Lucy chamou, voltando-se para a atendente —, sirva um café e um docinho para a senhorita Weasley, por favor. Se a deixarmos esperando de estômago vazio, ela vai acabar com todas as unhas da mão.
E, piscando para Rose, seguiu para a cozinha atrás de Scorpius.
Os quarenta minutos seguintes foram exatamente como Lucy havia previsto: uma tortura para Rose.
Enquanto esperava, ela mandava mensagens incessantes para a mãe, perguntando como Lyra Jane estava. Se ainda chorava. Se estava muito chateada. Se algum dia iria perdoá-los. Elas viviam brigando, era verdade — mas eram sempre brigas pequenas, bobagens do dia a dia, nunca algo tão grave, tão escancaradamente negligente como esquecer o bolo de aniversário. Rose se sentia péssima. Completamente culpada.
E, como se não bastasse o peso emocional, ela ainda precisava se arrumar. O cabelo estava oleoso, a pele suada, e as mãos ainda cheiravam ao tempero indiano que Kiran lhe dera. Delicioso, sim, mas também persistente. O aroma se recusava a sair, como se quisesse lembrar a todo instante da bagunça que o dia se tornara.
Seu coração deu um salto quando viu Scorpius sair da cozinha com uma enorme caixa branca nas mãos, caminhando em sua direção. Por um breve instante, o alívio deu lugar à distração — os músculos dos braços dele estavam tensos sob o esforço leve, e ela não pôde evitar o pensamento involuntário de que ele parecia absurdamente bem assim. Mas logo sacudiu o devaneio e se levantou para oferecer ajuda.
Despediram-se de Lucy, agradecendo mil vezes pela ajuda salvadora, e seguiram direto para a casa de Rose. Agora faltavam menos de dez minutos para o início oficial da festa. Era claro que não chegariam pontualmente — mas, honestamente, isso já nem importava tanto. O importante era que tinham um bolo. Um bolo digno. E isso, naquele momento, era o suficiente.
Sabiam que os Weasley e os Malfoy dariam conta da recepção até eles chegarem. Era o tipo de caos com o qual as famílias sabiam lidar.
No caminho de volta, nenhuma palavra foi dita. Mas, ainda assim, algo havia mudado. O silêncio não era mais tenso, carregado. Era quase leve. Um silêncio de missão cumprida. Aos poucos, o peso nas costas de ambos parecia começar a se dissolver. Por mais que estivessem afastados, por mais idiotas que tivessem sido, eles haviam resolvido. Sempre resolviam. Pelo bem de Lyra Jane.
Assim que chegaram, Albus apareceu correndo até o carro, ofegante.
— Os convidados já estão chegando — avisou, agitado. — E Lyra está muito nervosa. Tipo, muito mesmo.
O alerta renovou a pressa dos dois. Carregaram a caixa com cuidado até a mesa decorada na área externa, e quando Scorpius finalmente a abriu, Rose teve que conter o fôlego.
O bolo era branco, sim, mas Scorpius havia transformado simplicidade em arte. Os três andares estavam cobertos com buttercream trabalhado em bicos perfeitos no topo. Nas laterais, havia detalhes que pareciam pinceladas delicadas, em tons que combinavam exatamente com a decoração da festa. Um trabalho meticuloso e sensível, que não poderia ter vindo de outra pessoa senão ele.
Lyra Jane apareceu ao lado deles, ainda com os olhos ligeiramente vermelhos. Mas, ao ver o bolo, o rosto da menina se iluminou. Scorpius a encarou, quase prendendo a respiração, esperando pela reação.
O sorriso enorme que ela deu foi a resposta mais valiosa que poderiam receber.
— Obrigada. De verdade. — disse a menina, abraçando os dois, um por vez, com força, sem se importar com o suor ou com o atraso, ou com qualquer outra coisa.
E, naquele abraço, Rose sentiu o coração se desarmar de vez. Nada naquele dia valia mais do que aquele momento. Foi como se o alívio de todos os erros evaporasse num segundo, envolvido nos braços da filha.
Com o tempo correndo, apressaram-se para tomar banho e se arrumar. Scorpius foi primeiro, acompanhado por Camille, que o esperava com uma bolsa de roupas. Os dois trocaram um beijo leve antes de se despedirem na sala e ele seguir para o banheiro do primeiro andar, o que incomodou Rose mais do que ela gostaria de admitir. Um incômodo súbito, silencioso, que ela tentou ignorar enquanto subia as escadas para se lavar em seu quarto, onde foi recebida por Lily, armada com um secador de cabelo em uma mão e spray fixador na outra.
— Vai, anda logo, prima. Temos pouquíssimo tempo para fazer você parecer minimamente apresentável.
E, pela primeira vez no dia, Rose soltou uma risada de verdade.
***
A festa já estava rolando há algum tempo e, para alívio de Rose, tudo estava saindo melhor do que o esperado. Os convidados estavam animados, o bolo fazia sucesso e Lyra Jane parecia ter deixado o drama de lado, pelo menos por enquanto. Ela circulava entre os amigos com um sorrisinho no rosto e as bochechas levemente coradas, trocando olhares com o novo namorado.
Foi nesse clima leve que Ron se aproximou da filha, com um copo de suco na mão e um sorriso travesso nos lábios.
— Posso fazer o interrogatório com o namorado da sua filha agora? — perguntou, como quem pede a chave do carro com segundas intenções.
Rose bufou uma risada e negou com a cabeça.
— Não, pai. Os avôs devem ser simpáticos e receptivos. A função de fazer o namorado da filha ficar apavorado é dos pais.
— Ah, mas eu vi que o Scorpius estava todo amigável com o menino! — protestou Ron, semicerrando os olhos. — Alguém precisa dar uma assustada básica no garoto. Só para manter os instintos aguçados, sabe?
— Mesmo assim, não. — Rose riu, cruzando os braços. — Você é avô. Se comporte.
Gina apareceu bem na hora, segurando um pratinho com dois docinhos.
— Do que vocês estão falando? — perguntou, desconfiada.
— Do namorado da Lyra Jane. — respondeu Rose.
— Ah, o garoto do Dino! Eu já namorei o pai dele. — disse Gina, casualmente, como quem comenta a previsão do tempo.
Ron arregalou os olhos.
— O quê? — ele se virou para Rose — Mas você disse que o pai do menino era gay!
— E faz todo sentido! — Gina deu de ombros. — Você não lembra dele? “Dino, o Esquecido”?
— Foi depois do “Miguel, o Atrevido”? — Ron perguntou, franzindo a testa.
— Exatamente!
Ron caiu na gargalhada, batendo na coxa.
— Claro! É aquele que vivia entrando no meu quarto e dos nossos irmãos dizendo que esquecia onde era o seu! Teve uma vez que entrou no quarto do Fred e pegou ele só de cueca, deitado lendo revista!
— E ainda me disse “nossa, achei que fosse você!” — completou Gina, aos risos.
Antes que Rose pudesse pensar em responder mais alguma coisa, Roxy surgiu do nada, sorrindo largamente e já a puxando pelo braço.
— Roubei você para mim um minutinho. — disse, baixinho. — Vem cá.
Rose trocou um olhar breve com o pai e a tia, que ainda estavam rindo da história de “Dino, o Esquecido”, e deixou-se guiar pela prima até um canto mais reservado do quintal, perto do varal decorado com luzinhas e fotos da aniversariante. A música da festa tocava ao fundo, abafada pela distância, e por um instante Rose teve a impressão de que ia receber algum tipo de bronca.
— Fiquei sabendo da confusão com o bolo mais cedo — Roxy começou, cruzando os braços. — Está tudo bem agora?
— Está sim, só estou cansada. Mas feliz. — respondeu Rose, sincera. — Deu tudo certo no fim.
Roxanne semicerrou os olhos.
— Mas tem outra coisa. O que mais está te incomodando?
— Como assim? — Rose franziu a testa.
Roxy fez um gesto amplo, apontando para a casa atrás delas.
— Sua casa está absurdamente limpa, Rose.
Rose piscou, sem entender, e a prima continuou como se aquilo explicasse absolutamente tudo.
— Você só deixa a casa limpa assim quando está lidando com alguma coisa muito grande. Tipo crise existencial, coração partido, ou quando quer matar alguém e está criando álibi. Estou errada?
— Você está viajando. — rebateu Rose, tentando manter a voz firme, mas desviando o olhar.
Roxane fingiu que acreditava, soltando um "uhum" cético, e então lançou a bomba com um sorriso malicioso:
— Sabe, quando cheguei e vi vocês dois com os cabelos molhados... pensei que tivessem, sei lá... resolvido as diferenças horizontalmente, se é que me entende.
Rose arregalou os olhos, indignada e rindo ao mesmo tempo.
— Claro. Com as nossas famílias inteiras dentro da casa? E a namorada dele aqui?
— Ah, então o único problema é que vocês não estavam sozinhos? Interessante... — respondeu Roxy, dando uma risadinha travessa e recuando, claramente se divertindo.
Antes que Rose pudesse responder, Roxane soltou um “Theo, não!” e disparou correndo atrás do filho de quatro anos, que estava se esgueirando por debaixo da mesa onde as amigas de Lyra Jane montavam necessaires cheias de glitter e esmaltes coloridos.
A criança ria alto, absolutamente alheia ao caos que quase causava e à provocação que deixava para trás.
À medida que a tarde avançava, a festa começava a se esvaziar. Depois dos parabéns, das fotos em grupo e da tradicional bagunça com confetes e bolo, a maior parte dos convidados já havia partido. A maioria dos adolescentes foi embora logo depois, e agora Lyra Jane se despedia do namorado, cujos pais aguardavam no portão. Rose e Scorpius fizeram questão de cumprimentá-los com toda cortesia que o momento exigia, um gesto que, para alívio de Rose, foi interpretado positivamente pela filha.
Os pais de Scorpius também já tinham ido, assim como os de Rose. Hermione se sentira indisposta após a sobremesa e Ron a acompanhou, embora tenha resmungado que queria ficar mais um pouco. Dos Weasley, restava apenas Hugo; dos Malfoy, apenas Camille. Albus ainda estava por ali, controlando preguiçosamente a playlist que Lyra Jane havia montado com todo o cuidado — cheia de Olivia Rodrigo e algumas pérolas dos anos 2000 que os adultos fingiam não conhecer.
Lyra Jane permanecia sentada à mesa de cerâmica do jardim, terminando de pintar um porta-anéis ao lado das suas duas fiéis escudeiras, rindo baixinho. O clima agora era tranquilo, quase contemplativo.
Rose aproveitou o momento para ir até a cozinha repor a bandeja de sanduíches da mesa de comidas. Enquanto organizava os pãezinhos com capricho — talvez como distração, talvez por pura mania —, uma voz inesperada atrás dela fez com que se sobressaltasse levemente.
— Foi uma festa muito bonita, Rose. Vocês realmente deram o sangue para deixar tudo como a Lyra queria. — comentou Camille, com sinceridade, mas em um tom sereno e sem grande entusiasmo.
Rose se virou, forçando um sorriso gentil, ainda que um pouco sem jeito.
— Você também ajudou bastante — respondeu. — Jane me contou o quanto você se envolveu. Sou muito grata. Por mais que eu esteja de férias da escola, ainda tem a tese, sabe? Sem o apoio de vocês, eu não teria conseguido fazer nada disso.
Dessa vez, Camille sorriu de verdade.
— Foi um prazer. Lyra é encantadora. Vocês fizeram um ótimo trabalho na criação dela.
Rose agradeceu em silêncio. Aquele tipo de elogio sempre a tocava profundamente. Era uma prova, mesmo que sutil, de que talvez não estivesse falhando completamente como mãe.
O olhar de Camille, no entanto, desviou-se para o quintal. A ruiva acompanhou o movimento e viu que ela observava Scorpius, que conversava com Albus enquanto tomava um refrigerante. Havia algo melancólico naquele olhar distante.
Rose hesitou, incerta sobre o que dizer. Não eram próximas, e ela não sabia se deveria simplesmente retomar os afazeres ou respeitar o silêncio.
Decidiu arriscar.
— Vocês formam um belo casal. — comentou, de forma leve. Não era uma mentira, os dois juntos pareciam casal de capa de revista de noiva.
Camille virou-se para ela com um sorriso triste.
— Nós vamos terminar. — disse com a casualidade de quem comenta sobre o clima — Ainda não sei quando, mas uma hora vai acabar.
A frase caiu como um balde de água gelada para Rose.
— O quê? — ela engasgou. — Não! Você não pode fazer isso. Vai acabar com o coração dele.
Camille arqueou uma sobrancelha.
— E essa função é exclusividade sua?
Rose engoliu seco. Aquilo doeu mais do que ela gostaria de admitir.
— Você é a melhor namorada que ele já teve — disse, após recuperar o fôlego. — Inteligente, bonita, gentil...
— E do que adianta? — Camille a interrompeu, com um sorriso amargo. — Se não é a mim que ele quer?
Rose ficou em silêncio. A voz de Camille tremia levemente, mas não havia rancor, apenas cansaço.
— Ele deve ter comentado sobre a conversa que tivemos — continuou Rose, mais contida. — Não há nenhuma pendência entre nós. Somos pais da mesma menina, nada além disso. Você devia reconsiderar. Sei que ele pode ser difícil, mas Scorpius é o homem mais solícito, cuidadoso e esforçado que já conheci.
Camille soltou uma risada sem alegria.
— Esforçado. — repetiu, como se aquela palavra explicasse tudo. — É, isso ele é mesmo. Ele se esforça para gostar de mim. Se esforça para se interessar. Se esforça para me amar na mesma medida que se esforça para esquecer você. Isso não é justo. Nem com ele, nem comigo.
Rose sentiu o estômago se revirar. Era como levar tapas na cara, um atrás do outro, sem tempo para respirar.
— Eu não posso dar a ele o que ele quer — confessou, num fio de voz. — Você pode. O casamento perfeito, a estabilidade, a vida com a qual ele sempre sonhou...
Camille, então, soltou o que parecia ser a última peça do quebra-cabeça.
— Acontece que esse "alguém" com quem ele sonha nunca foi uma hipótese, Rose. Sempre foi você. E eu fui tola o suficiente para acreditar que era só um mal-entendido entre vocês dois. Que bastava uma conversa franca para resolver. Me enganei.
— Mas está tudo resolvido — insistiu Rose, apesar de sentir que a frase não tinha sustentação nem dentro de si.
Camille apenas a olhou, com um pouco de pena no olhar.
— Pense bem no que está fazendo. Scorpius não é o único que está saindo machucado nessa história.
Sem esperar resposta, virou-se e voltou calmamente ao quintal, deixando Rose sozinha na cozinha, ainda segurando a bandeja de sanduíches, agora completamente esquecida.
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