Night Changes

15 Terapia de choque


Notas iniciais
Oi gente. Sei que sumi, mas é que passei por alguns problemas pessoais e de saúde, mas voltei. Espero que gostem do capítulo e peço desculpas pelas demora.

— Eu não sei bem por onde começar — confessou Rose, um pouco sem jeito.

— Podemos continuar de onde paramos, como temos feito nos últimos meses — sugeriu Dinah, sua terapeuta. — Ou você pode começar pelo que acha que foi mais importante nas últimas duas semanas. Se preferir, pode contar tudo em ordem cronológica e, juntas, vamos explorando o que merece mais atenção. O que acha?

Rose começou a fazer terapia por obrigação — um requisito para doar um rim com certa urgência. Uma longa história.

O fato é que ela não acreditava que precisava daquilo. Achava que lidava muito bem com a própria vida, que enfrentava problemas reais demais para perder tempo analisando sentimentos. Problemas psicológicos, para ela, eram coisas da cabeça, e quem melhor do que ela mesma para lidar com a própria mente?

Aparentemente, Dinah.

Nas primeiras sessões, Rose se sentia travada. Estranhava a ideia de, a cada quinze dias, ter que se sentar e falar sobre sua vida. Mas então, durante um encontro em que chorou feito criança ao desabafar sobre os conflitos com a mãe, percebeu que não, talvez não fosse tão capaz assim de resolver tudo sozinha.

Naquela semana em particular, porém, ela não queria voltar a falar sobre os impactos de Hermione Jean Granger-Weasley em sua carreira ou na forma como exercia a maternidade. Havia algo mais urgente latejando em sua mente.

Decidiu, então, deixar por um momento as dores da sua criança interior para focar na grande questão da sua vida adulta: Scorpius Malfoy.

Falou sobre tudo o que parecia relevante, ou pelo menos tentou. Mas se pegou estranhando o fato de não ter mencionado em nenhum momento a educação de Lyra Jane. E isso era curioso.

Ela vinha discutindo com Scorpius há meses sobre a rotina da filha, sua falta de comprometimento, sua postura permissiva demais. Vivia ouvindo Lyra dizer que a mãe deveria ser mais parecida com o pai. Poderia ter elencado diversas situações nas quais se sentiu desafiada por ele.

Mas não falou.

Só conseguia pensar em como o peito apertou quando ele contou que estava namorando. Em como sentiu uma necessidade repentina de também desejar alguém — e, mais do que isso, ser desejada. De ser levada a sério a ponto de ser apresentada aos filhos de alguém, quase como se estivesse numa disputa com ele. Silenciosa e solitária, claro.

Poderia ter falado sobre o primeiro encontro da filha, sobre o medo de vê-la machucada por um amor juvenil e desastrado, mas tudo o que vinha à mente era aquele dia na cafeteria, quando teve a sensação de que Scorpius estava flertando com ela, ainda que de forma inconsciente. E sobre como, apesar de todos os anos de história, das idas e vindas, eles nunca haviam tido um encontro de verdade.

E como ela desejava que tivessem tido.

Então ela falou sobre aquela conversa, na sala de casa. A que deveria ter sido definitiva, um ponto final, mas que, ao invés disso, escancarou feridas que ela imaginava já estarem cicatrizadas. Contou sobre a acusação dele: que era culpa dela o fato de nunca terem tentado de verdade.

Mas como poderiam?

Ter uma filha com Scorpius Malfoy havia sido um acidente de percurso, uma consequência de uma noite inconsequente. Viver um romance com ele seria uma escolha consciente e voluntária. E isso mudava tudo.

Como ela poderia se casar com Scorpius e se tornar uma Malfoy? Como trair a própria família dessa forma? Como encarar o pai, que sofreu tanto por causa daquele sobrenome amaldiçoado, e simplesmente dizer: “Ei, pai. Agora sou uma deles”?

Não. É claro que não.

Além disso, havia o orgulho.

Ela sabia muito bem a fama que a perseguia: a garota da família simples que engravidou do garoto rico ainda na adolescência. E lembrava perfeitamente dos olhares que recebeu ao pisar pela primeira e última vez naquela mansão. O avô de Scorpius, aquele homem nojento, a observando como se ela estivesse coberta de lama, como se não fosse digna de se sentar à mesa deles, como se devesse agradecer pela honra de estar ali. E, sinceramente, ela preferia nunca tê-lo visto. A esposa dele não ficava muito atrás. Se ela e Scorpius realmente iniciassem algo, teriam que passar por cima disso também, e seu orgulho Weasley simplesmente não permitiria.

E os pais de Scorpius? Até que ponto gostavam dela ou apenas a toleravam por ser a mãe da neta deles?

Astoria sempre fora gentil, acolhedora, maternal até, mas tinha aquele olhar desconfiado, que parecia pesar cada palavra e cada gesto. Rose nunca soube o que pensar. Será que a via como vulgar? Como interesseira? Ou talvez apenas... inadequada. Simples demais. Pobre demais.

Draco, por outro lado, era um enigma. Ela mal conversara de verdade com ele. Diálogos reais, além das trivialidades cordiais. Lembrava com nitidez da primeira vez: logo após o parto. Depois de quase vinte horas para trazer ao mundo uma bebê gordinha e de cachinhos, até então, loiros, ele a parabenizou. Disse que ela havia sido forte, que esperava que a neta herdasse sua resistência e determinação. E, naquela mesma conversa, pediu desculpas. Dissera que não tinha sido um bom avô até então, mas prometeu tentar ser melhor.

Rose também se lembrava de outra ocasião, anos depois, quando Scorpius decidiu fazer o mestrado na Alemanha e ela achou que o melhor seria sair do apartamento que dividiam. Draco a procurou. Disse que ela não precisava sair, que não havia pressa. Que, independentemente da decisão, ele fazia questão de ajudá-la financeiramente, caso fosse necessário.

Ela, claro, recusou. Mas aquilo ficou com ela. Draco sempre aparecia em momentos de fragilidade, só para oferecer um certo apoio moral. Era sutil, mas, de alguma forma, gentil.

Por fim, Rose deixou escapar o assunto que vinha lhe tirando o sono havia dias: a conversa com Camille.

Se é que podia chamar aquilo de conversa.

Na verdade, parecia mais um anúncio. Uma daquelas mensagens de alerta que surgem de repente na TV, interrompendo tudo para avisar sobre terremotos, tsunamis ou desastres naturais iminentes.

A previsão de uma tragédia.

Não era como quando Roxy fazia piada. Nem como o tom resignado de Albus dizendo “e lá vamos nós de novo”.

Era diferente.

Camille era uma observadora externa, alguém que não tinha o menor interesse em vê-los juntos — muito pelo contrário. Ainda assim, falara sobre Rose e Scorpius como se fossem algo inevitável. Como se fossem um desfecho escrito nas estrelas, que ninguém mais podia impedir.

Rose respirou fundo, recostando-se no sofá, e apertou os próprios dedos, inquieta.

Ela não sabia lidar com aquela culpa. A simples ideia de ser, mesmo que indiretamente, responsável por um possível término entre Scorpius e Camille a consumia.

Mas, ao mesmo tempo, não conseguia evitar a euforia latente.

Uma fagulha. Um sopro de esperança que teimava em reacender, mesmo que ela insistisse em apagar.

Era como a sensação de recomeço. De algo adormecido despertando devagar.

— Eu preciso muito, muito aprender a controlar esse sentimento. — disse, em tom de súplica, a voz quase falhando. Seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer no carpete do consultório. — Isso está errado. Ela tem tudo para fazê-lo feliz de uma forma que eu nunca conseguiria. Os pais dele gostam dela. A Lyra também. Ela é independente, segura, lida bem com essa família toda torta, com tudo. — Rose suspirou, a garganta seca. — Essa sensação em mim... isso precisa morrer.

Dinah não respondeu de imediato. Endireitou a postura na poltrona, pegou a prancheta com delicadeza e passou os olhos pelas anotações antes de falar.

— “Senti raiva da minha mãe, embora não devesse. Ela estava certa em me repreender.” — leu calmamente, virando a página. — “Acho que gostei mais do que deveria de transar com um cara que conheci em um bar.” — Mais uma virada de folha. — “Entendi o lado dele, então não vi motivo para reclamar. Sei que estou errada em ser tão chata.” — Por fim, ela pousou o dedo sobre a última página. — “Essa sensação em mim precisa morrer.”

Ela baixou a prancheta com suavidade e olhou para Rose, agora sem os óculos, com a expressão serena de quem não está ali para julgar, mas para escutar de verdade.

— Reconhece essas frases?

Rose apenas assentiu com a cabeça, engolindo em seco. Sabia exatamente de onde vinham.

— Consegue perceber o padrão entre elas? — Dinah questionou, com delicadeza.

A ruiva franziu um pouco a testa. Suspeitava até onde a terapeuta queria chegar, mas preferiu esperar.

— Vamos tentar por outro ângulo. — Dinah inclinou-se um pouco, largando a prancheta no colo. — Quando um aluno seu tem dúvidas sobre algum conteúdo, qual é o primeiro passo para ajudá-lo?

— Preciso saber até onde ele compreendeu. — respondeu de pronto.

Dinah sorriu, satisfeita com a associação.

— Exato. Então concordamos que, para haver uma dúvida, o aluno precisa ter se esforçado em entender o assunto como um todo, mas houve uma falha na assimilação. Certo?

Rose assentiu lentamente.

— E o que acontece se esse aluno, por medo de errar ou de se frustrar, tentar estudar apenas o que entende, evitando o que é difícil demais?

— Ele vai ter uma defasagem. Vai acreditar que está aprendendo, mas, no fundo, estará empacado.

Dinah abriu um pequeno sorriso.

— Com os sentimentos, Rose, é a mesma coisa. — disse Dinah com calma, apoiando os cotovelos nos joelhos, o olhar gentil mas firme. — E arrisco dizer que é até pior. Quando você reprime algo como a raiva, por exemplo, ela não simplesmente desaparece. Fica ali, escondida, fermentando. E quando menos se espera, ela transborda. Vem com força, causando um estardalhaço, porque você não aprendeu a lidar com ela. Só ignorou, como se o silêncio fosse suficiente para expulsá-la.

Ela fez uma breve pausa, e então continuou:

— E isso vale para tudo. A frustração. O desejo. A decepção. A euforia. A felicidade. O amor…

— Amor? — Rose interrompeu, surpresa, quase como se a palavra tivesse sido um tapa no meio da conversa.

Dinah ergueu as sobrancelhas, mantendo o tom leve.

— A título exemplificativo. — respondeu, com um leve sorriso. Isso bastou para acalmar Rose um pouco. Mas não o suficiente.

— Está querendo dizer que... eu não sinto as coisas?

— Não exatamente. — a terapeuta endireitou a postura, como quem se preparava para esclarecer algo importante. — O que a gente tem percebido nas nossas conversas é que você gosta de ter controle. Controle da situação, das reações, de si mesma. Se permitir sentir algo que não parece o “sentimento certo” para o momento pode soar, para você, como perder esse controle. Mas, na verdade, é o contrário.

Ela deu um meio sorriso, como quem entrega uma chave escondida:

— Quanto mais você se permite sentir, mais aprende a lidar. Mais se fortalece. O que não é sentido com consciência não some, só se acumula.

Rose mordeu o lábio inferior, pensativa. Dinah percebeu o gesto, mas manteve o ritmo da conversa.

— É necessário deixar que o sentimento venha. Olhar para ele, entender de onde vem, o que está tentando dizer. Só então você pode adequá-lo à situação. Ignorar é como varrer sujeira para debaixo do tapete e fingir que a sala está limpa. Mas a bagunça continua lá.

— Mas como eu faço isso? — Rose perguntou, já com a testa franzida. — Não dá para simplesmente virar uma chave e começar a sentir tudo. Minha vida viraria um caos.

Dinah sorriu de novo, compreensiva.

— Não precisa ser assim. Caótico. Você pode começar aos poucos.

Ela cruzou as pernas, relaxando um pouco na poltrona.

— Comece com uma conversa interna. Um exercício de escuta. Pergunte a si mesma: “O que a Rose quer me dizer hoje?” Sem filtro, sem censura. Sem julgar como certo ou errado. Só escute. Como a gente faz aqui.

Rose ficou em silêncio por um momento. Seu olhar vagava pelo consultório, parando em um quadro na parede, depois no relógio.

— E para controlar...? — perguntou, baixinho. Ainda era isso que ela queria. Um botão de emergência. Uma solução prática.

Dinah se levantou com suavidade, pegando o bloquinho de anotações da sessão.

— Se você fizer a lição de casa direitinho, a gente volta a isso na próxima sessão. — disse, abrindo a porta.

Rose se levantou também, ainda com o cenho franzido. Ao sair, trocou um olhar com a terapeuta, como se quisesse arrancar uma resposta que a livrasse da confusão interna. Mas Dinah apenas sorriu.

— Nos vemos daqui a duas semanas, Rose.

A ruiva assentiu, agradeceu baixinho e saiu.

Caminhou até o carro com passos lentos, a cabeça girando com ainda mais perguntas do que quando chegou. Mas havia algo diferente.

Uma inquietação nova.

Quase como se, lá no fundo, ela soubesse que, dessa vez, não tinha mais como ignorar o que sentia.

Mas o que Rose também não podia era se dar ao luxo de ignorar que a vida seguia, implacável. Mesmo com o caos instalado dentro dela — um turbilhão de dúvidas, receios e vontades soterradas —, havia uma rotina a ser mantida, compromissos a cumprir e pessoas ao redor que não mereciam ser atingidas pelos estilhaços dos seus sentimentos. Já bastava os azulejos alaranjados da cozinha estarem quase esbranquiçados de tanto alvejante. Desde o início da semana, era como se cada emoção que não conseguia expressar fosse despejada em litros de produto de limpeza.

Ela sabia que aquilo era um mecanismo de fuga. Que deveria trazer esse tema para a terapia e que provavelmente Dinah já tinha notado. Não era exatamente normal esfregar a mesma bancada três vezes por dia, nem reorganizar a geladeira por cor e altura toda vez que algo a deixava ansiosa. Mas, sinceramente? Rose crescera cuidando de uma filha alérgica. Higiene era prioridade. Se agora isso coincidia com crises emocionais, que mal havia?

Pensando em cozinha, lembrou-se de algo mais prático: precisava fazer compras. E com urgência. A geladeira dava pena. Desde que Lyra Jane fora para a casa do pai, Rose tinha sobrevivido à base de congelados, o que era uma contradição dolorosa, considerando que ela mesma limitava a filha a uma quantidade mínima de comidas processadas por semana. A última refeição decente que fizera foi no domingo, e só porque Kiran apareceu com os ingredientes e preparou um risoto para os dois. Se não fosse por ele, ela teria comido omelete no café da manhã, no almoço e no jantar. E agora nem ovos havia mais.

Ela fez uma anotação mental: ovos, frutas, café. Estava sem maçãs, sem bananas, sem morangos — Lyra amava morangos. Em dias normais, a filha estaria de volta naquela terça-feira mesmo. Mas as férias embaralhavam as rotinas, e Rose resolvera ser mais flexível, permitindo que a menina ficasse com o pai até quinta à noite.

No fundo, foi um bom acordo. Hermione teria uma consulta médica na quarta de manhã, e Rose queria acompanhá-la. Além disso, havia um jantar na casa dos pais na sexta-feira, algo que ela vinha adiando há semanas e não podia mais evitar. Ter Lyra Jane ao seu lado durante o jantar era uma ótima distração. Ninguém conseguiria fazer perguntas constrangedoras com uma adolescente esperta por perto, especialmente uma que herdara a tagarelice da avó. Era mais fácil ouvir histórias da filha do que explicar, por exemplo, que sua dissertação estava travada no último capítulo — e que ela sequer conseguia abrir o arquivo nos últimos dias. Muito menos queria ser obrigada a escutar, de novo, o quanto Hugo estava brilhando no trabalho. Ela amava o irmão e sabia que aquele tipo de orgulho familiar o deixava tão desconfortável quanto ela.

De qualquer forma, já que estava do outro lado da cidade, graças à localização do consultório da sua terapeuta, resolveu aproveitar e ir a um mercado mais sofisticado da região. Não era algo que gostasse de fazer com frequência, preferia apoiar o comércio local do próprio bairro. Mas precisava admitir: as frutas ali pareciam sempre recém-colhidas, as carnes tinham cheiro de frescor, e o ambiente calmo era um respiro depois do turbilhão que estava sua cabeça.

Pegou o carrinho, ajustou a alça da bolsa no ombro e entrou, pronta para enfrentar corredores gelados e etiquetas com preços absurdos. Pelo menos, por enquanto, esse tipo de organização ainda estava sob seu controle.

O mercado estava absurdamente calmo para aquela hora da tarde, e Rose agradeceu por isso. As férias escolares realmente davam uma certa desafogada nas ruas. Empurrava o carrinho devagar, como se cada fileira de prateleiras fosse uma chance de espairecer. Passou direto pela ala dos congelados, com uma pontada de culpa. Foi direto à seção de hortifrúti, onde as frutas estavam dispostas de maneira quase artística, como se fossem joias raras em exposição.

Foi quando os viu. Morangos.

Mas não qualquer morango. Eram grandes, polidos, de um vermelho quase irreal. Tinham o tipo de aparência que fazia comerciais parecerem humildes. Ela pegou a caixinha com cuidado, analisando os frutos como se fossem frágeis demais para serem tocados.

Lyra Jane adoraria aquilo.

A menina costumava mergulhar os morangos em iogurte natural ou apenas comê-los puro, de olhos fechados, como se fosse a maior delícia do mundo. Só por isso, Rose acrescentou mais uma bandeja ao carrinho. Talvez duas.

No caixa, organizou tudo com precisão quase militar. Duas sacolas térmicas para as carnes, uma para as frutas, outra só para itens de despensa. Saiu do mercado com o porta-malas ainda distante e as mãos já doendo de carregar peso. Havia estacionado longe, na primeira vaga fácil que encontrou porque, sinceramente, se fosse depender das suas habilidades no volante, não chegaria à consulta a tempo.

No entanto, antes de dobrar a esquina que a levaria ao carro, ela hesitou. Estava a menos de duas quadras do apartamento de Scorpius.

Pensou nos morangos. Pensou no sorriso que Lyra daria ao vê-los, tão fresquinhos. Pensou também na leveza que seria se livrar de uma das sacolas antes de continuar a caminhada com as outras.

Seria só uma entrega. Nada demais.

Cinco minutos depois, estava parada em frente ao prédio. A fachada elegante parecia mais imponente naquele fim de tarde nublado. Ela olhou para o interfone, a sacola de morangos em uma mão, a chave do carro na outra.

Respirou fundo.

Estava prestes a estender o braço, quando uma voz atrás dela a surpreendeu.

— Rose?

Ela virou-se de imediato, sentindo o rosto esquentar.

Scorpius estava suado, com roupas esportivas e uma garrafinha de água na mão. O cabelo bagunçado colava na testa, e a camiseta cinza escura grudava ao corpo em pontos úmidos. Ele parecia ofegante, como se tivesse acabado de encerrar uma corrida. E não poderia parecer mais atrativo para Rose — quase tão apetitoso quanto os morangos em sua bolsa — o que fez com que seu rosto esquentasse ainda mais. Tinha certeza de que as bochechas estavam vermelhas.

— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, ainda entre uma respiração e outra, confuso, mas não hostil.

Ela segurou a sacola com mais firmeza e tentou parecer natural, embora o coração estivesse batendo rápido demais para sustentar qualquer fingimento.

— Eu comprei morangos. E achei que… bom, achei que a Jane fosse gostar.

Scorpius piscou algumas vezes, como se tentasse entender o que aquilo significava.

— Ah… — ele respondeu, com um meio sorriso ainda surpreso. — Você quer que eu os congele?

— Congelar? — Rose franziu o cenho. — Não, claro que não. Eu trouxe justamente porque eles estão frescos. A Jane adora assim.

Scorpius a encarou com a mesma expressão que os alunos dela costumavam ter quando não entendiam absolutamente nada da explicação. Rose se perguntou se aquela corrida tinha afetado o fluxo de oxigênio para o cérebro dele. Ele parecia saudável demais para ter esse tipo de lapso, mas nunca se sabia.

— Rose, com todo respeito... — ele começou, cauteloso, segurando a garrafinha de água entre os dedos — talvez você devesse levar os morangos para a sua casa, então. A Lyra voltou para lá hoje à tarde.

Ela congelou. Um segundo inteiro sem piscar.

— Como assim? — murmurou, já tirando a sacola de uma das mãos e entregando para ele automaticamente, como quem precisava das mãos livres para raciocinar melhor.

Puxou o celular da bolsa com rapidez e abriu a conversa com a filha. Rolou as mensagens até encontrar o trecho em que Lyra dizia, com todas as letras, que ficaria com o pai até quinta à noite. Logo abaixo, estava sua própria resposta concordando.

Estendeu o celular na direção de Scorpius, ainda sem conseguir juntar as peças.

Ele franziu o rosto, pegando as sacolas com uma mão só e pescando o próprio celular do bolso com a outra.

— Isso é impossível — murmurou, agora com a expressão fechada, o maxilar ligeiramente tenso.

Rose tentou — com dificuldade — não reparar no bíceps dele se contraindo com o esforço ou no modo como as sobrancelhas dele se juntavam enquanto lia.

— Aqui — ele disse, levantando o celular para ela ver. A tela exibia a mensagem de Lyra: “Pai, estou indo pra casa da mamãe mais cedo hoje. Temos um jantar e preciso me arrumar. Vou de Uber, ok?”. Scorpius tinha respondido com um simples "ok" e a confirmação do pagamento da corrida no cartão de crédito dele havia chegado logo depois.

O silêncio entre os dois se instalou por um instante.

Rose engoliu em seco. Aquilo não fazia sentido. Mas ainda podia ser só um erro de comunicação. Nada de mais. Pegou o celular de volta e fez a primeira ligação.

Caixa postal.

Segunda tentativa.

Caixa postal.

Scorpius, mais ágil, já tentava do dele. Primeira ligação, nada. Segunda, nada. Terceira, também não.

Agora, os dois estavam visivelmente tensos. Rose sentia as mãos formigando, a boca seca, e a respiração ficou pesada, quase irregular. Um aperto se formava no peito, desconfortável, como se o ar ao redor tivesse diminuído de densidade.

Scorpius pareceu perceber. Deu um passo na direção dela.

— Não é nada demais, Rose. — falou baixo, tentando manter a calma — Ela deve estar na sua casa. Deve ter chegado, o celular descarregou... talvez tenha dormido. Já aconteceu antes, lembra?

Mas a voz dele também tremia. Só um pouco. O suficiente para que Rose percebesse que ele estava se esforçando tanto quanto ela para não deixar o pânico escalar.

— A gente vai para a sua casa — garantiu Scorpius, firme, pousando a mão no ombro dela. — Vamos encontrá-la lá e dar uma bronca por não ter avisado nenhum de nós.

— Meu carro... — Rose murmurou, a mente embaralhada, como se ainda estivesse tentando acompanhar o que estava acontecendo.

Scorpius balançou a cabeça com firmeza.

— Você não tem condição nenhuma de dirigir desse jeito. Vamos subir até o meu apartamento, você toma uma água, eu pego a chave do meu carro e aí a gente vai. Juntos. Tudo bem?

Ela assentiu, mas os pés pareciam presos ao chão. Só quando ele colocou a mão em suas costas, guiando-a com delicadeza para dentro do prédio, é que finalmente se moveu.

Tudo ao redor parecia irreal. As paredes, o chão, o som dos próprios passos. Era como estar submersa. O peito apertado, a respiração rasa, a cabeça pesada. Ela queria acreditar que encontraria a filha em casa — talvez de fones de ouvido, talvez dormindo — mas algo dentro dela gritava o contrário.

Quando se deu conta, já estavam no carro. O gosto seco na boca havia desaparecido, mas ela não lembrava de ter bebido água. Sabia que havia subido, que tinha estado no apartamento dele, mas as imagens estavam borradas como um sonho. Só despertou novamente quando sentiu a mão de Scorpius sobre sua perna, apertando levemente acima do joelho, um gesto reconfortante, mas cheio de tensão. Ele dirigia com a outra mão e murmurou:

— Está tudo bem... A gente já está chegando.

Estavam virando a esquina da rua dela. E então Rose viu sua casa.

Apagada. Exatamente como havia deixado.

Desceu do carro com o coração batendo tão alto que parecia ocupar o espaço da mente. A porta estava trancada — isso era um bom sinal, certo? Mas a chave de Lyra Jane não estava na fechadura do lado de dentro, como sempre ficava quando a filha estava em casa.

Mesmo assim, entraram. Procuraram por toda parte.

Scorpius ficou no andar de baixo, Rose subiu as escadas correndo. Abriu portas, chamou pela filha, verificou o quarto, o banheiro, até mesmo o pequeno closet. Nada.

Desceu rápido, tentando controlar o pânico, e o encontrou na sala, celular em mãos, ouvindo mais uma vez o silêncio absoluto da chamada cair direto na caixa postal.

O som da gravação ecoou pela sala. Ambos se entreolharam, paralisados.

Os olhos arregalados, o rosto pálido, os ombros rígidos. O choro estava ali, na beira. A ânsia de vômito também. Um peso no estômago, uma pergunta que martelava em uníssono nos dois:

Onde estava Lyra Jane?