Night Changes
16 Pool Party
Notas iniciais
— Albus respondeu? — Rose perguntou, aflita, apertando o celular nas mãos.
Scorpius balançou a cabeça negativamente.
— Disse que não sabe de nada — respondeu, com um suspiro pesado. — Conseguiu falar com alguma amiga dela?
— Só tenho o número dos pais delas. E os Le Rouge devem ter trocado de número desde que gravei, porque o telefone nem chama. — Rose se jogou no sofá, a testa franzida de frustração. — Fui tão idiota por nunca ter pedido os números dessas meninas. Conheço elas desde que eram pequenas, como pode nunca ter me ocorrido que agora são adolescentes e já respondem por si mesmas? — murmurou, derrotada, antes de soltar um suspiro longo.
Os dois estavam há quase uma hora revezando entre tentar falar com Lyra Jane ou com alguém que pudesse saber onde ela estava ou o que planejava fazer.
Scorpius estava pronto para dar mais uma sugestão, mas antes pudesse dizer qualquer coisa, o celular de Rose começou a vibrar. Ela o agarrou com rapidez e atendeu de imediato, enquanto o loiro se inclinava na direção dela, esperançoso.
— Oi, Nora! Tudo bem? — disse a Weasley, com um esforço para soar leve. Scorpius reconheceu o nome de Nora Fawley, mãe de Josephine, e automaticamente prendeu a respiração. — Tudo certo por aqui... Eu só queria saber se a Josephine comentou sobre fazer alguma coisa com a Lyra Jane hoje.
Houve um silêncio breve, e Rose franziu o cenho.
— Ah... na casa das tias? — repetiu, mais para si mesma do que para Nora. — Claro. Claro, devo ter confundido os dias. Mas obrigada mesmo assim... Um abraço para você também. Tchau.
Assim que encerrou a ligação, largou o celular no sofá com um gesto impaciente, quase brusco.
— A Josephine está passando as férias na casa das tias desde a semana passada. Elas não combinaram nada e, por mais ela saiba de alguma coisa, tenho certeza de que não vai falar — disse, fechando os olhos por um instante. O pânico começava a tomar forma em sua expressão. — A gente devia chamar a polícia?
Scorpius hesitou por um segundo, mas manteve a voz firme.
— Ainda não. Espera. Nós vimos que tem contradições nas mensagens dela. Ela planejou alguma coisa, Rose. Só precisamos entender o quê. É só uma aventura adolescente, nós também fazíamos isso.
— E se ela planejou alguma coisa que deu errado? — rebateu Rose, a voz embargando. — E se ela estiver perdida, sem conseguir falar com a gente? Se estiver em algum lugar que não conhece... com alguém que não devia?
Scorpius se aproximou e pousou a mão suavemente no ombro dela.
— Rose, respira. — Scorpius falou com firmeza, tentando manter a calma que ele mesmo estava prestes a perder. — A Josephine não pode ajudar, mas ainda temos a Elsie. E o Zach.
— Não sabemos o telefone dele, muito menos os dos pais dele e já disse que não tenho o contato da Elsie. — ela rebateu, impaciente, o nervosismo transparecendo na forma como apertava as mãos.
— Mas sabemos onde ela mora. — ele insistiu, os olhos fixos nos dela. — Podemos ir até lá agora. Perguntar se ela sabe de algo… ou se, pelo menos, tem o número do Zach. — Fez uma pausa e, com um leve cerrar de mandíbula, acrescentou: — Algo me diz que, se a Lyra está aprontando alguma, esse garoto está envolvido.
Rose engoliu em seco, tentando afastar os pensamentos mais sombrios.
— Você acha que eles...?
A frase ficou no ar, inacabada.
— Pelo amor de Deus, Rose. — disse, exasperado. — Ela acabou de fazer quatorze anos. Eles estão juntos há poucos meses. Nossa filha não é estúpida.
— Certo. — ela assentiu, tentando manter a compostura. Repetia para si mesma que conhecia a filha, que ela não era ingênua. — Mas vamos. Antes que fique mais tarde. — terminou, já se levantando e pegando a bolsa e as chaves com as mãos trêmulas, como se cada segundo desperdiçado fosse imperdoável.
Scorpius a observou por um momento.
— Tem certeza de que quer sair assim? — perguntou, notando a respiração acelerada dela. — Posso ir sozinho, te aviso sobre tudo.
— Você está maluco? Nem pense nisso. — respondeu, decidida, firme como uma pedra. — Eu preciso ir.
Não houve mais discussão. Em silêncio, os dois deixaram a casa e entraram no carro de Scorpius. O trajeto foi tenso, silencioso. O rádio permanecia desligado, e o ruído abafado dos pneus no asfalto parecia amplificado pela ansiedade. Rose olhava para a janela, mas não via nada. Sua perna balançava num ritmo irregular, e ela mordia a parte interna da bochecha com força.
— E se ela estiver lá? — murmurou, finalmente quebrando o silêncio. — E se estiver tudo bem?
— Então a gente respira fundo, dá uma bronca e volta pra casa. — disse ele, com um meio sorriso. — Mas se não estiver, ao menos estamos tentando.
Ela assentiu, agradecendo em silêncio por não estar sozinha. Era quase nove da noite. O céu tingido de laranja parecia belíssimo demais para uma noite tão angustiante. Por mais que a claridade acalentasse um pouco a esperança, a sensação de que o tempo corria rápido demais só aumentava.
Pouco depois, estacionaram numa rua residencial calma. Casas geminadas, jardins pequenos, quase todos bem cuidados. A residência dos Le Rouge era discreta, com a luz da varanda acesa, mas as janelas da sala mergulhadas na penumbra.
Eles levaram Lyra Jane naquela casa vezes suficientes para decorarem até as ranhuras da pintura em suas mentes.
— Vamos. — Scorpius se apressou, já abrindo a porta do carro. Rose o acompanhou imediatamente.
Subiram os poucos degraus e ela tocou a campainha, tentando parecer mais composta do que realmente se sentia. Logo ouviram passos se aproximando. Quem abriu a porta foi uma mulher baixa, de meia idade, cabelos cacheados presos num coque frouxo. Estava descalça e usava roupas leves de casa. Era Georgina Campbell, a babá de Elsie.
— Boa noite senhorita Weasley — disse, surpresa. — E… senhor Malfoy?
— Boa noite, senhora Campbell. — Rose respondeu, forçando um sorriso educado. — Desculpe o horário, mas precisamos falar com a Elsie. É urgente.
A mulher franziu o cenho, mas assentiu.
— Claro. Ela está no quarto. Só um instante. Podem entrar, fiquem à vontade. — disse enquanto subia os degraus da escada.
Rose sempre achou curioso o quanto os pais de Elsie deixavam a filha sozinha. A menina era doce, divertida, educada. Quando dormia em casa com Lyra Jane, se oferecia para ajudar no jantar, colocava a mesa, escovava os dentes sem que fosse preciso pedir, arrumava a cama pela manhã. Era inteligente, ajudava Jane com francês, e adorava ouvir Rose falar sobre sociologia. A ruiva reconhecia na amiga da filha um quê de professora também.
Nunca teria escolhido ficar longe de alguém como Elsie. Por mais encantadoras que parecessem as viagens românticas que os pais dela exibiam nas redes sociais, Rose achava inconcebível que preferissem isso ao tempo com a filha. Por isso, mesmo na tensão daquela noite, sentiu uma pontada de pena da garota. Elsie não tinha dois pais em estado de ebulição por preocupação, como ela e Scorpius estavam agora.
Os dois até obedeceram a Georgina e entraram na casa, mas não se moveram além do hall de entrada. O clima os impedia de relaxar.
Poucos segundos depois, Elsie surgiu no topo da escada, com seus cabelos loiros num rabo de cavalo baixo e vestindo um pijama com estampa de pandas. Sua expressão vacilando entre confusão e culpa.
— O que aconteceu? — perguntou, com a voz cautelosa, provavelmente assustada com o semblante do Malfoy e da Weasley.
— Você viu a Lyra Jane hoje? — Rose foi direta, tentando manter a voz suave apesar do coração disparado.
Elsie hesitou.
— Ela passou aqui no começo da tarde. — respondeu Georgina, por reflexo, antes que a menina pudesse falar. A adolescente lançou um olhar de leve reprovação à babá.
— O que foi? — perguntou a mulher, sem entender.
— Ela veio sim — confirmou Elsie, mais firme. — Por volta das três da tarde. Mas não quis ficar muito. Foi embora logo depois.
Rose e Scorpius se entreolharam, o peso no peito aumentando.
— Você sabe para onde ela foi? — Scorpius insistiu, tentando manter o controle. — Por favor, Elsie. Só queremos saber se ela está bem. Não conseguimos falar com ela desde então.
— O celular dela descarregou quando estava aqui. Como nossos modelos são diferentes, não dava para usar meu carregador. — explicou, com a cabeça baixa. — Desculpa.
— Você não tem culpa de nada. — garantiu Rose, com firmeza. — Mas o que o Scorpius disse é verdade. Estamos muito preocupados.
Elsie mordeu o lábio inferior. Travava uma luta interna entre a lealdade à amiga e o peso da situação. Por fim, murmurou:
— Prometem que não vão contar a ela que fui eu quem disse?
— Prometemos. — responderam os dois, quase em uníssono.
— Ela veio aqui para se arrumar — continuou, os olhos baixos. — Disse que não queria que ninguém soubesse, muito menos vocês. Eu avisei que era arriscado, mas… vocês conhecem a LJ melhor do que eu.
— A gente entende, querida. — disse Rose, com delicadeza. — Contar onde ela está não te faz uma má amiga. Pelo contrário. Mostra que você se importa.
Elsie suspirou fundo, rendida.
— As turmas mais velhas da natação organizaram uma festa de despedida. Uma pool party. Não convidaram todo mundo, ninguém dos mais novos. Mas chamaram o Zach… então ela foi com ele.
Scorpius bufou alto, passando a mão pelos cabelos, tentando conter a irritação.
— Você sabe onde é essa festa? — perguntou, tentando soar calmo.
— Não... Ela só disse que era perto da casa dos avós dela. E me pediu pra não me preocupar, porque estaria com o Zach.
Rose se aproximou e segurou o rosto da menina com carinho, depositando um beijo em sua bochecha.
— Você fez a coisa certa. Muito obrigada.
— Espero que ela não fique brava comigo... — sussurrou Elsie. — É que eu também achei que ela não deveria ir. Esse pessoal mais velho não liga pra gente, mas ela tinha certeza que conseguiria se enturmar.
— Sei bem como é. — murmurou Scorpius. — Obrigado mesmo, Elsie.
Ele se virou para Rose, os olhos decididos.
— Vamos? Não deve ser difícil encontrar uma festa barulhenta no condomínio dos meus pais. E eu estou maluco pra dar um fim nessa gracinha da Lyra.
Sem mais delongas, despediram-se de Elsie e Georgina e voltaram para o carro — um pouco mais próximos de saber onde estava a filha, mas ainda longe de ficarem tranquilos, desta vez, por outros motivos.
O sol já havia desaparecido completamente quando Scorpius e Rose voltaram para o carro. A noite avançava rapidamente, e as primeiras estrelas brilhavam no céu limpo. Scorpius ligou o motor sem dizer uma palavra e saiu com firmeza, os faróis cortando a escuridão da rua.
— O condomínio dos seus pais fica a uns quinze minutos daqui, certo? — perguntou Rose, os olhos atentos a ele. Quase podia ver a tensão irradiando do queixo cerrado de Scorpius.
— Menos, se não pegarmos trânsito. — respondeu, mantendo o olhar fixo na estrada.
O silêncio se instalou, pesado e desconfortável. As luzes dos postes passavam rapidamente pelas janelas, lançando sombras em seus rostos. Depois de alguns minutos, Scorpius quebrou o silêncio, a frustração escapando sem filtro:
— Eu sou tão idiota assim por sempre acreditar nela? — sua voz saiu entre os dentes, carregada de raiva e decepção.
Rose respirou fundo, tentando manter a calma.
— Não dá para condenar os pais por confiarem na própria filha — respondeu, mesmo que, lá no fundo, compartilhasse da mesma sensação de traição.
Scorpius riu amargamente, sem tirar os olhos da estrada.
— Como você consegue estar assim, tão calma? — provocou, irritado — Há poucos minutos você parecia prestes a desmaiar. Não é você a mãe linha-dura e eu o pai molenga?
A Weasley soltou uma risada genuína, surpreendendo a ambos.
— Acho que estou só aliviada por saber que ela não está em perigo imediato. Pelo menos não parece estar. — confessou, ajeitando a postura no banco — Me deixe aproveitar essa sensação de paz antes de ter que bancar a mãe durona quando a encontrarmos.
Scorpius assentiu, o peso nos ombros diminuindo levemente.
— Você acha que ela foi forçada a ir? — perguntou de repente, sem olhar para Rose. — Que o Zach a convenceu?
— Lyra Jane não é fácil de convencer. — respondeu, sem hesitar. — Mas ela não é imune a querer agradar. Principalmente alguém de quem gosta.
Scorpius soltou um suspiro frustrado, apertando o volante.
— Eu devia ter percebido que ela andava diferente. Mais distante, desligada... Achei que fosse só adolescência.
— Talvez seja. — disse Rose, olhando para a escuridão à frente — Adolescência e burrice andam de mãos dadas. Nós sabemos bem disso. — acrescentou, com um suspiro pesado — Eu só pensei que teríamos mais tempo antes de começarmos a ter esse tipo de preocupação.
Scorpius fez uma careta de desespero, mas não respondeu. Não havia muito a ser dito naquele momento. Pouco depois, passaram pelos portões altos do condomínio onde os pais de Scorpius moravam. Felizmente, ele tinha acesso liberado por lá.
A mansão dos Malfoy era a última casa, no alto de uma colina, mas as outras residências também eram grandes, com fachadas modernas e gramados bem cuidados, abrigando as famílias mais ricas da região.
Apesar da hora, havia movimento incomum em uma das casas. Luzes coloridas dançavam por trás das janelas, risadas e música eletrônica escapavam para a rua, ficando mais claras a cada curva.
— Ouviu isso? — Scorpius apontou com o queixo, os olhos mais atentos. — Festa grande. Deve ser ali.
Dobrou à esquerda e estacionou alguns metros à frente, diante de uma casa com luzes coloridas piscando discretamente no quintal dos fundos. Perto do portão lateral, três adolescentes conversavam, as risadas altas e sem sentido típicas de quem já passou do ponto. Um deles parecia especialmente bêbado, balançando o corpo enquanto ria de algo que ninguém mais achava engraçado.
— Ótimo. — murmurou Rose, o desânimo se transformando em irritação.
Os dois saíram do carro, os passos firmes e rápidos no asfalto. Os garotos no portão os fitaram com surpresa, que logo se transformou em desconfiança.
— Boa noite. — disse Scorpius, com um tom firme e direto — A gente precisa entrar. Estamos procurando nossa filha.
— Festa fechada, tio. — respondeu um dos meninos, tentando soar engraçado, mas a voz falhou ao encarar o olhar gélido de Scorpius.
— Não estou pedindo. — completou, já empurrando o portão com uma autoridade que ninguém ali ousaria contestar. — Minha filha menor de idade está aí dentro e eu vou entrar para levá-la comigo. Ou preferem que a polícia resolva fazer uma visita?
Rose passou por eles sem olhar para trás, ignorando os olhares assustados. Cruzaram o jardim lateral e chegaram ao fundo da casa, onde o som da música era mais forte. Luzes de LED cercavam a piscina, que estava cheia de adolescentes molhados ou sentados à beira, muitos com copos vermelhos na mão, outros mais afastados fumando. O ar tinha aquele cheiro agridoce de bebida, cloro e grama molhada, misturado ao perfume doce das garotas.
Em outras circunstâncias, o ambiente até lhes causaria nostalgia, mas o objetivo dos dois era outro.
Scorpius olhou ao redor, os olhos se movendo rapidamente entre os rostos desconhecidos, até que, como se uma força invisível o guiasse, a viu.
— Ali. — disse, apontando.
Lyra Jane estava sentada numa espreguiçadeira ao lado de Zach. Usava um maiô preto que Rose reconheceu como seu, com um short jeans desabotoado. Ria de algo que uma garota visivelmente embriagada dizia ao lado deles. Não parecia bêbada, nem em perigo, mas também não parecia ter noção alguma do caos que causara.
— Graças a Deus. — sussurrou Rose, mais para si mesma do que para Scorpius.
Mas ele não parecia aliviado. Seus olhos estavam fixos na filha, e havia uma mistura de raiva e indignação que fazia os músculos do seu rosto se retesarem.
— Espera. — Rose segurou o braço dele. — Não vamos fazer um escândalo aqui.
— Ela sumiu, mentiu, ficou incomunicável e está numa festa com adolescentes mais velhos. Você quer que eu aplauda? — sibilou, com a voz baixa e carregada de frustração.
— Não. — respondeu Rose, mantendo a calma com esforço. — Quero que respiremos. Depois puxamos a orelha dela. Sem plateia.
Scorpius respirou fundo, uma vez, duas, e assentiu, embora os punhos ainda estivessem cerrados.
Rose caminhou até a espreguiçadeira, os olhos fixos na filha. Quando Lyra Jane finalmente a viu, empalideceu instantaneamente, os olhos arregalados como se visse um fantasma.
— Mãe? — a voz dela saiu fraca, carregada de surpresa e medo.
— Bom ver que está se divertindo. — disse Rose, a voz carregada de sarcasmo — Vamos embora. Agora. — ordenou firmemente.
Zach se levantou, tentando parecer responsável, mas não convenceu, considerando que era só um garoto franzino de quinze anos com camiseta de time e shorts.
— Senhorita Weasley, eu posso explicar...
— Não, não pode. — interrompeu Scorpius, a voz cortante. — E se você tiver um pingo de juízo, vai ficar quieto e encontrar um jeito de ir para casa também.
Lyra Jane se levantou lentamente, os olhos cheios de vergonha. Sem olhar para trás, seguiu os pais em silêncio, deixando para trás a música, as luzes e a falsa sensação de liberdade que aquela festa lhe prometera.
O caminho de volta até o carro foi um desfile de silêncio pesado. Lyra Jane andava entre os pais, os ombros encolhidos, as sandálias na mão e os pés descalços fazendo pouco barulho no asfalto frio. O som abafado da música foi ficando para trás, substituído apenas pelo cricrilar insistente dos grilos e pelo ruído suave do vento nas árvores do condomínio.
Ninguém disse nada enquanto entravam no carro — Scorpius ao volante, Rose no banco do passageiro, e Lyra Jane, molhada e encolhida no banco de trás. Ela tinha os braços cruzados sobre o peito, as pernas ainda arrepiadas, os cabelos pingando gotas geladas sobre a pele. Manteve os olhos fixos nas próprias mãos, como se encarar os pais fosse perigoso demais.
Quando o carro finalmente deixou o condomínio e entrou na avenida principal, foi Rose quem quebrou o silêncio:
— A gente achou que algo grave tinha acontecido com você, Lyra Jane.
A voz da mãe não era alta, não explodiu como Lyra esperava. Era apenas fria, contida, quase trêmula de tão controlada. E aquilo doeu mais na garota do que qualquer grito.
— Desculpa. — sussurrou, sem levantar os olhos.
Scorpius bufou, sem desviar o olhar da estrada.
— Você não faz ideia do que é passar por isso — murmurou, a voz carregada de frustração — Pensar que a própria filha desapareceu, que pode estar machucada, que alguém pode ter feito alguma coisa com ela... — ele balançou a cabeça, os dedos apertando o volante até os nós ficarem brancos — E tudo porque você achou que era uma boa ideia fugir para uma festa cheia de gente mais velha?
— Eu não fugi. — a voz dela saiu mais firme, mas ainda carregada de culpa. — Eu só não contei. Achei que vocês iam proibir.
— Claro que íamos! — Rose se virou no banco, o rosto a centímetros do da filha — Você tem quatorze anos, Lyra. Nem foi convidada, não conhecia metade das pessoas que estavam ali e ainda estava com o celular descarregado! Como queria que a gente não se preocupasse?
— Eu estava com o Zach...
— E isso seria tranquilizador desde quando? — rebateu Scorpius, a frustração crescendo — E você fugiu sim! Mentiu para mim, mentiu para a sua mãe.
Lyra apertou os lábios, sentindo o estômago afundar. Olhou para o pai pelo retrovisor, mas não encontrou nada além de raiva e decepção.
— Você não tem noção da sorte que tem por ser só isso. — continuou Rose, a voz mais baixa, quase num sussurro — Que isso está terminando com você de volta no banco de trás, viva, inteira.
— Não precisa exagerar também. Eu estava bem. — a garota murmurou, mas a voz já vacilava, os olhos começando a brilhar de lágrimas contidas.
Scorpius soltou uma risada amarga, sem desviar o olhar da estrada.
— Exagero? Tem ideia de quantas meninas desaparecem todos os dias? Do que acontece com elas? Do tipo de violência que elas enfrentam?
— Eu sei, pai. — ela sussurrou, a voz agora fraca, quase sumida.
— Não, você não sabe. — Rose respondeu por ele, a voz firme, mas tingida de um cansaço profundo — Para a sua sorte, você não sabe.
Depois disso, o silêncio se instalou novamente, pesado e denso, preenchendo o carro enquanto as luzes da cidade passavam pelas janelas. Ninguém falou mais nada até chegarem à casa de Rose. Quando finalmente estacionaram, ninguém se moveu por alguns segundos, os três respirando fundo, ainda tentando processar o que havia acabado de acontecer.
Quando entraram em casa, Rose tirou os sapatos junto à porta, sem olhar para a filha.
— Sobe, toma um banho, e depois volta para conversarmos. — ordenou, sem rigidez, mas também sem margem para discussão.
Lyra Jane obedeceu sem protestar, os passos lentos e arrastados ecoando pelas escadas. Quando ouviram a porta do quarto se fechar, Rose desabou no sofá da sala, cobrindo o rosto com as mãos. Scorpius permaneceu de pé, olhando fixamente para o vazio por alguns segundos antes de passar a mão pelos cabelos e se sentar ao lado dela.
— Nem acredito que acabou. — ela confessou, a voz abafada pelas mãos. — Que a encontramos, que ela está em casa.
— Pensei que teria que levar você para o hospital no fim da noite. — ele comentou, tentando aliviar a tensão com uma piada sombria, colocando uma mão no ombro dela.
— Quase. — Rose soltou uma risada trêmula — Mas vou precisar de um remédio para relaxar os músculos dos ombros.
Por um instante, ficaram ali, os corpos afundados no sofá, o silêncio da casa finalmente parecendo seguro, mas o medo ainda latejando nos ossos.
— Ela vai odiar a gente por um tempo. — murmurou Rose. — Fizemos ela passar uma vergonha daquelas.
— Ótimo. Que seja só o primeiro castigo. — disse ele, a voz amarga, mas verdadeira.
Rose suspirou, passando as mãos pelo rosto para afastar o cansaço.
— Vai ficar para conversarmos com ela hoje ou deixamos para amanhã? — perguntou, ainda sem desviar o olhar do teto.
— Vou ficar. — respondeu ele, depois se corrigiu rapidamente — Se você permitir, claro. A casa é sua.
— Evidente que pode ficar. — garantiu, lançando a ele um sorriso cansado — Mas vou precisar de café. Estou mais do que moída.
— Ainda guarda o pó no armário em cima do fogão? — perguntou, se levantando com um leve estalo nos joelhos.
— Lá mesmo. — confirmou, fechando os olhos por um segundo e se permitindo, finalmente, relaxar os ombros.
— Então aproveite o breve descanso, Rosie. — disse ele, já seguindo para a cozinha — A noite vai ser longa.
Lyra Jane não demorou no banho como de costume. Talvez por medo de adicionar mais um motivo à bronca que sabia que estava prestes a levar, talvez por querer que tudo terminasse logo, como se a água quente pudesse lavar a culpa junto com o cloro dos cabelos. Ao sair, enrolou os fios numa toalha, vestiu o pijama mais confortável que encontrou e respirou fundo antes de descer as escadas, os passos leves e lentos, como se cada degrau a aproximasse de um julgamento inevitável.
Na sala, seus pais estavam sentados lado a lado no sofá, canecas de café entre as mãos, ombros ainda tensos. Ela não se lembrava da última vez que os tinha visto tão próximos, física e emocionalmente, e aquilo fez seu estômago afundar. Era estranho pensar que sua atitude, mesmo inconsequente, tinha sido suficiente para uni-los daquela forma, mesmo que por pura preocupação.
Assim que a viu, Rose endireitou a coluna, pousando a caneca na mesinha de centro. Scorpius fez o mesmo, ajustando a postura e largando a própria caneca no braço do sofá, os olhos se encontrando brevemente antes de se voltarem para a filha.
— Senta aqui, minha filha. — Rose pediu, apontando para a poltrona em frente a eles. — Vamos conversar.
Lyra Jane obedeceu, se afundando no estofado macio com os ombros encolhidos e as mãos entrelaçadas no colo, os dedos inquietos. Os olhos dela vagavam pelo ambiente, hesitantes em encontrar os dos pais, que a observavam com expressões cautelosas.
Rose respirou fundo, claramente escolhendo as palavras com cuidado.
— Nós não queremos que você tenha medo da gente. — começou, a voz firme, mas sem agressividade — Mas também não podemos fingir que o que aconteceu hoje foi aceitável. Não podemos agir como se você não tivesse quebrado nossa confiança.
Scorpius se inclinou para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, a expressão um pouco menos dura do que momentos antes.
— Não vamos gritar com você. — ele completou, o tom ainda firme, mas tentando soar menos intimidador — Não vamos te castigar sem ouvir o que você tem a dizer. Mas precisamos entender o que passou pela sua cabeça hoje.
Lyra Jane engoliu em seco, os olhos marejando de novo. Parte dela se preparara para um confronto, para ter que gritar para ser ouvida, mas a calma dos pais a desarmou completamente. Quando finalmente falou, a voz saiu mais baixa do que pretendia, frágil e trêmula.
— Eu só... eu só queria me divertir. — confessou, a voz oscilando entre o medo e a frustração — Vocês me tratam como criança, me escondem coisas, não são totalmente francos comigo. — suas mãos apertaram os joelhos, como se buscassem alguma âncora para não desmoronar — Quer dizer, vocês ficam estranhos um com o outro do nada e ninguém me explica o motivo. Num momento estão bem e no outro não se falam. Depois ficam reclamando um do outro para mim... é confuso.
Ela afundou ainda mais na poltrona, os ombros pequenos, a voz subindo um tom, quase um sussurro desesperado.
— Eu sei que não foi certo mentir, mas eu fiz isso exatamente para poupar vocês.
Scorpius franziu a testa, os olhos se estreitando em uma mistura de surpresa e incredulidade.
— Como mentir e sumir poderia ser mais reconfortante do que nos manter informados? — indagou, a frustração voltando a escurecer seu tom.
— Se a mamãe pensasse que eu estava com você e você pensasse que eu estava com a mamãe, nenhum dos dois iria esquentar a cabeça comigo. Vocês estavam sem se falar mesmo, não iriam correr atrás de confirmar a informação. — explicou, a voz quebrando no final — Aliás, eu nem faço ideia de como descobriram. Alguém me dedurou?
Os dois se entreolharam rapidamente, lembrando da promessa que fizeram a Elsie, de não revelarem a fonte que os guiou até a filha. Mantiveram o segredo, decididos a não trair a confiança da amiga.
— Nós somos mais espertos do que você imagina. — Rose respondeu, tentando não parecer conivente, mas também sem entregar Elsie. Seria bom que a filha carregasse a impressão de que os pais sempre descobririam tudo.
Lyra Jane apenas assentiu, resignada, as lágrimas finalmente escapando dos olhos.
— Essas férias estão sendo um porre. — desabafou, a voz ganhando força na medida em que se permitia sentir a própria frustração — A maioria dos meus amigos viajou, a Elsie tem medo de fazer qualquer coisa que envolva sair de casa e vocês não me deixam ficar sozinha com o Zach por mais de dez minutos. Nem na casa dele vocês me deixam ir, mesmo quando eu asseguro que os pais dele estão lá.
Scorpius suspirou, passando a mão pelos cabelos, o peso da paternidade evidente em seus olhos cansados.
— Não conhecemos direito os pais dele, precisamos conversar com eles para, então, deixar que você faça visitas. — esclareceu — E desde o início você sabia que esse namoro teria regras.
— Eu sei, mas me sinto presa o tempo todo. E hoje eu vi uma oportunidade de ter um pouquinho de liberdade. De poder falar besteiras em voz alta, de poder beijar meu namorado, de poder comer besteira à vontade e dançar. Juro que não bebi e nem usei drogas, eu não sou idiota.
Rose, ainda segurando a mão da filha, a apertou com um pouco mais de força, como se quisesse ancorá-la de volta à realidade.
— Nós não achamos que você seja. — disse, a voz firme, mas cheia de carinho — A última coisa que queremos é te privar de ser feliz, de viver coisas novas. Mas você precisa entender que o mundo não é tão seguro quanto parece. Que as consequências são reais. Essa rede de mentiras foi muita imprudência.
Lyra Jane mordeu o lábio, o rosto já molhado pelas primeiras lágrimas.
— Eu sei, mãe. — sussurrou, a voz fraca, mas sincera — Eu sei.
Scorpius soltou um longo suspiro, a tensão finalmente começando a ceder, os ombros relaxando.
— Nós vamos achar um jeito de você viver essas coisas sem nos matar do coração. — disse, ainda com seriedade. — Mas você pisou na bola muito, muito feio. Tem que refletir sobre isso.
Rose assentiu, estendendo a mão para a filha, que a segurou com força, como se aquele gesto simples pudesse desfazer as horas de pânico que tinham acabado de passar.
— Você é nosso bem mais precioso. Tudo o que fazemos é pensando no melhor para você. — a ruiva explicou — Você não pode fazer algo parecido com isso de novo, está me ouvindo?
Lyra Jane apenas assentiu.
Rose se levantou do sofá, ainda sentindo a rigidez nos ombros, e disse com uma firmeza que não deixava margem para discussão:
— Escovar os dentes e cama.
Lyra Jane revirou os olhos, mas antes que pudesse protestar, Scorpius se adiantou, também ficando de pé e estendendo a mão para a filha.
— Ah, espera aí. — disse ele, a voz tão firme quanto a de Rose — Celular.
A garota fez uma careta automática, já prevendo o que viria, e tentou argumentar:
— Eu preciso do celular! E o direito ao lazer e à cultura? E as relações sociais? Como vou falar com meus amigos? Como vou falar com vocês dois?
Scorpius soltou uma risada seca, quase incrédula.
— Ah, agora falar com a gente virou questão de importância? — provocou, o tom levemente sarcástico — Não parecia ser uma preocupação hoje. Anda logo: celular.
Lyra Jane bufou, mas estendeu o aparelho. Sem olhar para os pais, girou nos calcanhares e subiu as escadas pisando firme, os passos ecoando pela casa, deixando para trás um silêncio carregado e o cheiro ainda fresco do café que tomaram mais cedo.
Agora sozinhos na sala, Rose e Scorpius permaneceram em pé, a poucos passos de distância, o clima entre eles oscilando entre alívio e algo que nenhum dos dois parecia disposto a nomear. Rose cruzou os braços, tentando aquietar a mente, mas os pensamentos voltaram automaticamente ao tema da sua sessão de terapia, àquela conversa incômoda sobre questões mal resolvidas. Ela não soube dizer por quanto tempo ficou apenas observando o pai da sua filha, mas foi o suficiente para que ele notasse.
— Tem algo errado? — perguntou Scorpius, os olhos claros a fitando com curiosidade, mas sem perder o toque de desconfiança.
Rose desviou o olhar por um segundo, as palavras presas na garganta.
— Nada. — respondeu, mas sua voz traiu um leve desconforto. — Só... ouviu o que ela disse? Sobre a gente ficar estranho um com o outro?
Ele inclinou a cabeça, os olhos ainda fixos nela.
— Ouvi. — admitiu, coçando a barba rala que começava a se formar em seu queixo — Não vou mentir, aquilo doeu.
— Temos que achar uma solução, Scorpius. — continuou ela, com uma intensidade que o fez erguer as sobrancelhas — Sei que já tivemos essa conversa sobre arquivar definitivamente nossos assuntos pendentes, mas preciso repetir: nós precisamos dar um jeito, pelo bem da nossa filha. Ela está crescendo rápido demais, percebendo muito mais do que imaginamos. Sei que você disse que não somos amigos, mas... talvez devêssemos tentar ser.
Scorpius abaixou a cabeça, a mão ainda passando distraidamente pelo maxilar, os pensamentos parecendo pesar mais do que o habitual. Quando finalmente levantou o rosto, seus olhos tinham uma expressão que Rose não conseguiu decifrar completamente.
— Tudo bem. — disse ele, depois de um longo suspiro. — O que acha de jantar lá em casa? Eu, você, Lyra e... Camille, é claro.
O nome da mulher caiu como uma pedra na água, criando ondas que Rose não conseguiu disfarçar. Ela não esperava que eles ainda estivessem juntos, não depois da conversa que tiveram na cozinha da sua casa. Mas, tentando parecer indiferente, apenas arqueou uma sobrancelha.
— Algum problema? — Scorpius perguntou, claramente percebendo a reação dela — Você pode levar alguém também, se quiser. Quer dizer, não sei como está a sua relação com aquele fulano desconhecido daquele dia...
Ela soltou uma risadinha nervosa, sem conseguir evitar.
— Não temos nada. — apressou-se em esclarecer, talvez rápido demais — É só... algo casual. Físico. Apenas para...
— Aliviar o estresse. — ele completou, um sorriso pequeno e enviesado surgindo em seus lábios. — Eu já fui esse cara mais vezes do que posso me lembrar. Sorte a desse rapaz, seja lá quem for.
O comentário, feito com um tom ligeiramente provocativo, fez o sangue de Rose esquentar nas bochechas, os pensamentos momentaneamente a traindo com memórias do quão... eficaz Scorpius costumava ser em aliviar o estresse. Por um segundo, as palavras pareceram se evaporar de sua mente, a deixando estranhamente exposta.
Percebendo que ela não se manifestaria, Scorpius deu um passo em direção a ela e estendeu a mão. Não como havia feito com Lyra Jane momentos antes, mas sim à espera de um aperto firme, algo que simbolizasse mais do que apenas uma trégua.
— Amigos? — sugeriu, o olhar intenso fixo no dela.
Rose hesitou por uma fração de segundo, o coração batendo rápido, mas finalmente estendeu a mão, os dedos se fechando ao redor dos dele com uma firmeza que não sentia há tempos.
— Amigos. — repetiu, a voz um pouco mais vacilante do que pretendia, os olhos se prendendo aos dele por um segundo a mais do que o necessário.
Eles se soltaram devagar, cada um consciente do peso daquele gesto. O silêncio que se seguiu parecia diferente, mais carregado, mas não tão desconfortável.
Scorpius desviou o olhar primeiro, pigarreando e ajeitando o relógio no pulso.
— Bom, eu... melhor eu ir. — disse, dando um passo para trás — Vou deixar você descansar. Hoje já foi intenso o suficiente.
Rose assentiu, tentando ignorar o leve desapontamento que subiu à sua garganta. Não havia motivo para querer que ele ficasse, não mesmo. Afinal, ele tinha uma namorada. Camille. Aquela que, aparentemente, ainda fazia parte da vida dele.
Ela se forçou a manter o sorriso no rosto enquanto o acompanhava até a porta.
— Dirija com cuidado. — disse, encostando-se ao batente enquanto ele pegava as chaves do carro.
— Sempre. — respondeu, um lampejo de algo que ela não conseguiu decifrar passando por seus olhos antes de ele abrir a porta e atravessar o pequeno jardim da frente.
Rose ficou parada ali, observando enquanto ele destravava o carro, a silhueta iluminada apenas pelos fracos postes da rua. Quando a porta do veículo se fechou e o motor roncou, ela finalmente soltou a respiração que nem sabia estar prendendo.
Fechou a porta devagar, apoiando a testa contra a madeira por um instante. O coração ainda batia mais rápido do que deveria, e ela se sentia desconcertada, quase culpada. Será que tinha se sentido... decepcionada ao ouvir o nome de Camille? Será que parte dela esperava algo diferente, algo que não tinha o direito de esperar?
Certo ou errado, não conseguiu afastar a sensação. E, por mais que a ideia de se permitir sentir algo por ele novamente parecesse arriscada, talvez até tola, Rose decidiu que, desta vez, não iria se censurar.
Pelo menos, não tão cedo.
Sem se importar com seu carro dormindo ao relento do outro lado da cidade, com a casa bagunçada e as compras fora da geladeira, ela se afastou da porta, apagou as luzes da sala e subiu as escadas devagar, com o leve formigamento nas mãos que não conseguia ignorar.
Dessa vez, ela estava disposta a sentir.
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