Night Changes
13 Torta de climão
Naquela tarde chuvosa de quinta-feira, Lyra Jane tentava se convencer de que tudo estava normal. Que o estresse dos pais era consequência das vidas agitadas que levavam e apenas refletia na organização da festa. Mas era difícil. Uma parte dela — aquela que sua psicóloga chamava de autossabotagem — insistia em sussurrar que, de um jeito ou de outro, o problema sempre voltava para ela.
Quando via sua mãe dormindo com a pistola de cola quente ainda na mão, Lyra Jane tentava se convencer de que Rose estava se esforçando na decoração porque queria. Porque ver a festa bonita, como idealizaram juntas, a faria feliz. Mas, no fundo, uma voz cruel lhe dizia que sua mãe já tinha uma rotina exaustiva e, ainda assim, chegava em casa para atender aos caprichos da filha adolescente. E mesmo quando conseguia racionalizar que Rose era assim, acostumada a fazer mil coisas ao mesmo tempo, a culpa permanecia — porque, no final das contas, aquela vida só existia por causa dela.
O pior era que, mesmo tendo consciência de tudo isso, Lyra Jane não conseguia se conter e ser a filha perfeita que Rose provavelmente desejava. Às vezes, confrontar a mãe era quase instintivo. Ela sabia que Rose tinha aberto mão de muitas coisas para criá-la, mas isso não significava que achava a mãe justa o tempo todo. Rose era exigente, dura, e Lyra Jane não era do tipo que abaixava a cabeça. As duas eram feitas da mesma matéria-prima: teimosia, orgulho e um desejo incessante de estarem certas.
E talvez fosse exatamente por isso que discutiam tanto. Porque nenhuma das duas sabia ceder.
Quando se tratava do pai, Lyra Jane tinha ainda mais dificuldade em decifrá-lo. Scorpius era incrível — atencioso, presente, sempre disposto a tudo por ela. Mas, pelas conversas que ouvia escondida quando sua mãe achava que ela já estava dormindo, sabia que nem sempre tinha sido assim.
Ainda assim, sentia que Scorpius tentava compensar algo. A culpa transparecia em seus gestos, em sua insistência em ser um pai impecável. Mas culpa pelo quê? Pelo fato de que, por causa dele, a vida de Rose tomou um rumo completamente diferente — mesmo que ele tivesse sido tão vítima da situação quanto ela? Ou por algo ainda mais antigo, algo que sempre pareceu pairar entre os Weasley e os Malfoy, mas que ela nunca conseguiu entender completamente?
Talvez tivesse a ver com os bisavós. Seu bisavô Arthur, antes de falecer, nunca a chamava pelo sobrenome Malfoy. Quando a apresentava a algum amigo, sempre dizia “minha bisneta Weasley”. Molly, sua bisavó, também parecia carregar um certo rancor, mas Lyra Jane nunca soube ao certo de onde vinha. Ela já estava velhinha e, quando a visitava, LJ preferia ouvir suas histórias sobre o avô e os irmãos dele, em vez de fazer perguntas desconfortáveis.
Já os bisavós Malfoy, Lyra Jane lembrava de ter visto poucas vezes. Sua bisavó, Narcisa, havia partido quando a ruiva era muito nova, mas nas poucas lembranças que possuía, ela não parecia muito amigável. Na verdade, ambos pareciam indiferentes. E foi essa indiferença que, com o tempo, alimentou um sentimento que ela sempre carregou, um sentimento que provavelmente levou seus pais a colocá-la na terapia aos nove anos de idade: rejeição.
Desde pequena, LJ entendia que sua família não era como as outras. Compreender as estruturas tradicionais fez com que ela percebesse que seus pais não tinham como tê-la planejado. Geralmente, as pessoas se casavam antes de decidir ter filhos. Conhecia uma colega de classe cujos pais, já mais velhos e com a vida estruturada, fizeram um acordo para terem uma filha sem qualquer compromisso romântico. Mas seus pais não tinham feito um acordo. Seu nascimento não tinha sido uma escolha cuidadosa, e sim uma reviravolta na vida de ambos.
E, por mais que soubesse que era amada, essa verdade sempre pesava sobre ela.
Em parte, Lyra Jane gostava de ter pais jovens. Era divertido quando seus amigos reclamavam das dificuldades dos pais com tecnologia ou com burocracias no geral, porque, para ela, esses problemas simplesmente não existiam. Scorpius e Rose sempre souberam lidar muito bem com essas coisas. Além disso, ela sabia que a pouca idade deles significava que provavelmente estariam saudáveis por mais tempo do que os pais dos seus amigos. Quando, de fato, começassem a envelhecer, ela já estaria envelhecendo também, e a diferença de idade entre eles pareceria cada vez menos significativa.
Era meio louco pensar que os pais de Zach, seu namorado, tinham praticamente a mesma idade de seus avós Weasley.
Mas, apesar das vantagens e da energia contagiante de se ter pais jovens, também havia o peso de crescer sabendo que foi um acidente. Quando os pais são casados, mesmo que uma gravidez aconteça de surpresa, há sempre a possibilidade de esconder essa informação da criança para sempre. Mas quando os pais engravidam aos 18 anos, no início da faculdade, essa verdade é impossível de disfarçar.
E era essa sensação de rejeição, que por mais que tentasse ignorar, sempre voltava para assombrá-la. Era o que fazia com que ela se sentisse culpada cada vez que algo dava errado na vida dos pais, como se, de alguma forma, tudo fosse culpa dela.
Talvez por isso as últimas semanas estivessem sendo tão difíceis. Por isso ela estava naquele carro, revirando os olhos ao ouvir o pai reclamar de forma contraditória — ora dizendo que Rose era controladora demais, ora dizendo que ela deixava tudo nas mãos dele.
Na casa da mãe, a situação não era muito diferente. Rose vivia soltando comentários sobre como Scorpius não conseguia cumprir uma única tarefa sem errar alguma coisa no meio do caminho.
Era, sem dúvida, a organização mais caótica da qual Lyra Jane se lembrava em seus quase 14 anos de vida.
Ela não se lembrava de ter visto os pais assim antes. Claro, sempre tiveram suas diferenças, mas, quando o assunto era ela, funcionavam bem juntos. Lyra Jane cresceu com a certeza de que, independentemente do que acontecesse, os dois estariam na mesma página quando se tratava dela.
Agora… bom, agora parecia que alguém tinha virado a página sem avisá-la.
Assim que o carro estacionou na garagem do prédio, ela agradeceu mentalmente por finalmente poder escapar das reclamações do pai. Não perdeu tempo e, tão logo entrou no apartamento, largou os sapatos pelo caminho e anunciou para Scorpius:
— Vou tomar meu banho premium!
O que significava que iria passar uma eternidade no banheiro lavando e hidratando o cabelo, esfoliando o corpo inteiro, depilando as pernas e aplicando três tipos diferentes de hidratante na pele. Um ritual que, além de essencial, lhe daria tempo para colocar a cabeça no lugar.
Ela queria — e precisava — se animar com a festa. Afinal, era uma tarde no quintal de casa, cercada pelos amigos e familiares que mais gostava, com suas comidas e doces favoritos, um bolo de três andares todo confeitado e, como não poderia faltar, muitas flores. Flores do jardim dos avós Weasley, que a avó Astoria usaria para montar os arranjos. Além disso, ela e o pai passaram dias pintando os vasinhos onde as flores ficariam e customizando os copos que os convidados usariam. Era trabalhoso, sim, mas valeria a pena.
Afinal, não se fazia 14 anos todos os dias.
Depois de quase uma hora debaixo do chuveiro, saiu sentindo-se um pouco mais leve ou, pelo menos, menos sufocada por pensamentos pesados. Ao desbloquear o celular, viu que não era a única animada: o grupo das amigas estava fervilhando de mensagens e imagens de inspiração.
Mais cedo, estavam comentando sobre ideias de penteados, uma das coisas que havia decidido durante o banho, então decidiu se manifestar antes que Elsie enviasse mais uma ideia de trança:
Lyra: Acho que vou fazer ondas no cabelo para a festa, como a Fawley sugeriu.
Fawley: Óbvio, eu só ando com gente que tem bom gosto.
Elsie: Sei que é uma indireta para mim, mas vou fingir que não percebi.
Lyra: Vocês me ajudam a escolher a roupa amanhã?
Fawley: Sempre. Aliás, já pensou na make?
Lyra: Preciso pensar nisso também…
Ela suspirou. Havia tanto a ser feito em apenas dois dias que tinha certeza de que enlouqueceria, assim como, aparentemente, já havia acontecido com seus pais.
Ao sair do quarto, vestindo um roupão fofinho e com uma toalha enrolada na cabeça, percebeu que não era apenas Scorpius quem estava na cozinha. Sentada à mesa, segurando uma xícara de chá quente entre as mãos, estava Camille. O cabelo castanho, ainda úmido, caía sobre os ombros, e a camiseta folgada que vestia era uma que Lyra Jane reconhecia como sendo do pai.
— Oi, querida! — Camille sorriu calorosamente ao vê-la. — Espero que não se importe, mas resolvi passar aqui para ajudar no que for preciso para a festa. Só não esperava que essa chuva me pegasse no caminho. — Comentou, apontando para os fios ainda molhados.
— São as chuvas de verão, meu bem. — Scorpius brincou. — Vêm de repente e nos pegam desprevenidos.
Ele se virou para a filha, oferecendo-lhe um pouco de chá, mas Lyra Jane recusou com um aceno de cabeça. Em seguida, puxou uma cadeira e se sentou, observando a cena diante dela.
Havia algo de confortável naquele momento. O calor da cozinha, o cheiro do chá misturado com o perfume amadeirado de Scorpius, a forma natural como Camille se encaixava ali, como se sempre fizesse parte daquele espaço. Mas, ao mesmo tempo, algo lhe parecia fora do lugar.
Talvez fosse Camille.
Não que Lyra Jane não gostasse dela. Muito pelo contrário. A namorada do pai era gentil, educada e, acima de tudo, parecia estar se esforçando para se aproximar sem ultrapassar limites. Tinha sido uma ajuda e tanto na organização da festa, auxiliando Lyra Jane na identidade visual, coisa que ela nem sabia que precisava, mas que estava fazendo toda a diferença.
Ainda assim… havia algo. Algo que ela não conseguia definir completamente.
— Tem algo errado? — Camille perguntou, franzindo ligeiramente a testa ao notar o silêncio de Lyra Jane.
— Não. — LJ respondeu de imediato, espantando os pensamentos questionadores. Forçou um pequeno sorriso e desviou o olhar. — Estava pensando que poderíamos fazer laços para enfeitar os vasos das flores. O que acha?
O rosto da morena se iluminou.
— Brilhante! — exclamou. — Vocês compraram as fitas?
Lyra Jane se virou para o pai, esperando que ele respondesse. Scorpius, distraído, demorou alguns segundos para perceber que a conversa era com ele.
— Eu comprei, em média, um bilhão de itens, mas a bendita da fita ficou faltando. — brincou, dando um sorriso culpado. — Mas não se preocupem, eu resolvo isso agora.
Ele se levantou rapidamente, pegando a chave do carro em cima do balcão.
— Lyra, me mande por mensagem exatamente o que precisa. — pediu, já caminhando até a porta.
A ruiva assentiu e, antes mesmo que ele saísse, já tinha terminado de digitar o recado.
Assim que a porta se fechou atrás de Scorpius, Camille tomou um gole do chá, pousando a xícara sobre a mesa antes de puxar assunto:
— Seu pai comentou que seu namorado vai à festa. Thomas-Finnigan, não é?
Lyra Jane ergueu o olhar para ela, piscando algumas vezes. Não esperava que Camille mencionasse Zach e, sinceramente, não sabia bem como reagir.
— O que tem o Zach?
— Você não pareceu muito empolgada quando mencionei que ele vai. Achei que fosse ficar feliz.
A adolescente deu de ombros, desviando o olhar.
— Estou feliz. Ele é meu namorado, faz sentido que vá ao meu aniversário.
— Mas...?
Lyra Jane hesitou por um instante antes de admitir:
— Mas meus pais estão uma bagunça e eu não queria que ele visse isso.
Camille sorriu com gentileza.
— Eu entendo. Mas posso te contar um segredo?
A ruiva assentiu.
— Ninguém tem uma família perfeita, Lyra. Algumas só disfarçam melhor que outras.
Lyra Jane suspirou, refletindo sobre as palavras da namorada do pai. Camille parecia realmente acreditar no que dizia, e isso a fez se perguntar se ela também vinha de uma família bagunçada.
— É, talvez você tenha razão. — murmurou, brincando com a borda do copo. — Só que os pais dele são tão perfeitos, cultos e calmos. Eles são tão organizados e estão sempre em perfeita sintonia que... — ela se interrompeu, soltando um suspiro. — Desculpe, você deve achar uma chatice ficar ouvindo uma pirralha.
Camille riu baixinho, balançando a cabeça.
— De forma alguma. — Camille sorriu de maneira acolhedora. — Sabia que fiquei com um pouquinho de inveja quando sua mãe disse que trabalhava com adolescentes? Acho vocês fascinantes, especialmente você.
— Eu? — Lyra Jane franziu a testa, surpresa.
— Claro! Você é inteligente, articulada e tem muita personalidade. — justificou. — Na sua idade, eu parecia uma massa disforme, um elemento meio sem forma. Mas olhe para você: além de tudo, ainda é linda!
Lyra riu.
— Duvido que você tenha sido feia em algum momento da sua vida.
— Sério, assim que eu for visitar meus pais, vou trazer fotos minhas adolescente. Era um desastre! — garantiu, rindo.
As duas compartilharam mais algumas risadas antes de Camille retomar o assunto com um tom mais leve, mas sincero:
— Quanto a se sentir no meio de uma bagunça… preciso confessar que, por um tempo, morei com uma tia minha porque minha casa era um caos. Ela era professora de etiqueta, toda refinada, e eu achava que, ao viver com ela, conseguiria me desvencilhar da imagem dos meus pais, que na época eu pensava que me envergonhava. Mas, no fim das contas, apesar de eu, pessoalmente, preferir o silêncio e a calmaria, senti falta de ver gente dançando pela casa sem medo de parecer louco. Senti falta daquela agitação que não era minha, mas estava ligada às pessoas que eu mais amava na vida.
Ela sorriu com a lembrança antes de concluir:
— Não podemos deixar que nossos pais projetem em nós seus sonhos, vontades e personalidades, mas também não podemos ignorar que, mesmo nos lados mais errados deles, ainda há muito amor por nós. Os pais do Zach devem ser incríveis, de verdade. Mas o seu pai também é, assim como seus avós, que conheci na semana passada, o seu padrinho e a sua mãe.
Lyra Jane ficou em silêncio por um momento, digerindo aquelas palavras.
— E se ele ficar envergonhado pelo jeito deles? — perguntou, mordendo o lábio inferior.
— Você se sente envergonhada quando está com sua família? Se sente desconfortável entre eles? — Camille questionou.
Lyra negou com a cabeça.
— Então não há motivo para que ele se envergonhe também. — disse, com um sorriso suave. — Aposto que ele vai se acostumar e até gostar, contanto que você se mantenha firme sobre quem você é.
Lyra Jane ficou em silêncio por um instante, absorvendo tudo o que Camille havia dito. Havia algo reconfortante na forma como ela explicava as coisas, sem julgamentos, sem minimizar seus sentimentos. Diferente dos pais, que provavelmente tentariam justificar suas próprias atitudes ou negar que algo estivesse errado, Camille simplesmente a ouviu e a compreendeu.
— Obrigada por isso. — Lyra disse, finalmente. — Sério. Acho que se eu tentasse falar sobre isso com meus pais, cada um teria uma interpretação completamente diferente. Eles nunca me entenderiam do jeito que você me entendeu agora.
Camille sorriu, inclinando levemente a cabeça de lado.
— Isso acontece porque, assim como você, eu só tenho a visão de filha. — explicou, com doçura. — Já seus pais enxergam tudo sob a perspectiva de pais. São pontos de vista completamente diferentes, e às vezes isso cria uma barreira na comunicação.
Lyra Jane franziu a testa, ponderando sobre aquilo. Nunca havia pensado por esse ângulo antes. A ideia de que seus pais interpretavam o mundo de maneira tão diferente dela fez algo dentro dela se agitar, como se uma nova peça do quebra-cabeça estivesse começando a se encaixar.
Ela ficou em silêncio por mais alguns segundos, encarando a xícara de chá na mesa, até que Camille deu um leve tapinha em sua perna para chamar sua atenção.
— Vamos? — disse, com um sorriso animado. — Ainda precisamos preparar a sala para montarmos os laços, e aposto que seu pai já deve estar chegando.
Lyra soltou um suspiro e assentiu, se levantando.
— Verdade. Melhor começarmos logo antes que ele volte e nos distraia com alguma ideia absurda.
Camille riu, pegando sua xícara de chá antes de seguir a adolescente até a sala, onde ambas se perderiam entre fitas, laços e uma conversa mais leve sobre cores e combinações. Mesmo sem dizer em voz alta, Lyra sentia que, de alguma forma, a noite já parecia um pouco menos caótica.
***
O dia amanheceu agitado na casa de Rose.
Na verdade, ela já estava de pé desde antes do sol nascer. Sempre ficava ansiosa perto de datas comemorativas. Havia tanto a ser feito e, por mais que tentasse adiantar tudo, algumas coisas simplesmente precisavam ser concluídas no próprio dia do evento. E Rose era perfeccionista demais para deixar qualquer detalhe escapar. Gostava de tudo no lugar, encontrava beleza na organização.
Enquanto preparava seu café, seus olhos percorreram a cozinha abarrotada. Havia cestos repletos das flores que seus pais haviam colhido no famoso jardim dos Weasley e deixado à disposição para Astoria Malfoy montar os arranjos. Em uma caixa ao lado, estavam os vasos que Scorpius e Lyra Jane haviam pintado juntos. Rose pegou um deles, admirando os detalhes, a forma como as cores conversavam entre si.
Naquele ano, Lyra Jane tinha decidido que era uma pessoa solar, que o universo havia sido generoso ao fazê-la nascer no verão. E, como o verão combinava com calor e energia tropical, seu aniversário precisava refletir essa vibração. Rose sabia que sua filha havia passado horas e horas conversando com Camille sobre isso, detalhando suas ideias como se a namorada do pai fosse sua assistente pessoal.
Agora, observando as flores e as decorações espalhadas pela cozinha numa harmonia vibrante de tons de laranja, rosa, vermelho e outras cores cítricas, Rose não pôde negar que Camille era, de fato, muito talentosa.
E, claro, ela ficava feliz que sua filha estivesse construindo uma relação com a provável futura esposa do pai. É claro que queria que aquele aniversário fosse perfeito, exatamente como Lyra Jane idealizou.
Mas uma pontada incômoda permanecia ali. Uma parte dela queria que fosse ela, a mãe, a principal responsável por tudo aquilo estar dando certo.
Era egoísmo, ela sabia, mas já sentia que perdia para Camille em tantos aspectos...
Camille era estonteante, elegante e, pelo que Lyra Jane falava, extremamente inteligente, sempre sabendo exatamente o que dizer e quando dizer. Parecia tão... adequada. Os Malfoy provavelmente a adoravam. Ela era o tipo ideal que eles teriam sonhado para Scorpius. Bem, só por não ter engravidado na adolescência e não carregar o sobrenome Weasley, já estava dez passos à frente.
Provavelmente viera de uma família rica, o que explicaria toda a pose impecável. Isso e o fato de ser francesa. Não tinha uma única ruga, nenhuma celulite à vista, e sua barriga era trincada. Rose definitivamente precisava parar de passar tanto tempo stalkeando o Instagram da namorada do pai da sua filha.
A Weasley
podia se lamentar o quanto quisesse, mas era inevitável: até ela se apaixonaria por Camille se estivesse no lugar de Scorpius.
E, bem, ele merecia ser feliz, não?
Além disso, quanto mais afastados os dois estivessem, melhor para Rose. Sim, ela estava muito feliz por ele ter seguido em frente. Felicíssima.
Além disso, ela não podia perder tempo pensando sobre o que ele fazia com a vida, ainda havia muito o que fazer, começando pelo café da manhã especial de aniversário de Lyra Jane.
Era uma tradição boba, mas preciosa, que começou quando Rose completou 23 anos e Lyra tinha apenas quatro. Naquela época, elas ainda moravam no mesmo apartamento que Scorpius. Albus havia acabado de se mudar para a Escócia para iniciar o mestrado em Fauna Marinha, e Lyra finalmente ganhou um quarto só para ela.
A noite que antecedeu aquele aniversário foi tranquila, até que, de madrugada, Scorpius recebeu a notícia da morte de sua avó, Narcisa Malfoy.
Rose se lembrava nitidamente do momento. Scorpius parecia constrangido por estar sofrendo, como se não tivesse direito ao luto por causa da forma como seus avós haviam encarado a existência de Lyra Jane. Ele tentou se conter, mas Rose o confortou e, no fim, ele chorou em seu ombro. Passaram longas horas conversando, recordando lembranças, compartilhando a dor.
Quando amanheceu, Scorpius partiu para a casa dos pais, e Rose, exausta, resolveu comer o resto da pizza da noite anterior como café da manhã. Foi pega no flagra por Lyra Jane, que, surpresa, perguntou o que aquilo significava. Ela nem sabia que era possível comer pizza de manhã.
Num impulso, Rose inventou ali mesmo que aquela era uma tradição especial, permitida apenas nos aniversários.
Desde então, todos os anos, elas pedem pizza na véspera do aniversário e deixam alguns pedaços para a manhã seguinte.
Rose suspirou.
Já haviam se passado dez anos desde aquele primeiro café da manhã improvisado. Muita coisa havia mudado desde então — a vida se transformou, se desfez e se refez de formas inesperadas — mas pelo menos aquilo permaneceu.
E, de alguma forma, isso era reconfortante.
Ela não tinha mais uma criança em casa.
Lyra Jane estava quase alcançando a mãe em altura, já pegava roupas emprestadas do guarda-roupa de Rose, e estava vivendo seu primeiro namoro. As bonecas haviam se tornado meros itens de decoração, os enfeites de cabelo tinham sido deixados para trás.
Rose sempre achou graça dos dramas do pai sobre os filhos crescerem rápido demais, mas agora percebia que estava exatamente igual a ele.
Fez um lembrete mental para avisar Ron Weasley que, enfim, o compreendia.
***
Algumas horas depois, a casa estava tomada pelo caos organizado que precede qualquer grande evento.
O cheiro das comidas em preparação se espalhava pela cozinha, misturado ao som de passos apressados pelo quintal. Hermione e Rose estavam ocupadas organizando as travessas e finalizando os pratos, enquanto Scorpius, Camille e Draco iam e vinham com uma caminhonete da empresa, trazendo mesas, cadeiras e outros itens que ainda faltavam.
Astoria estava no quintal, montando os arranjos florais, enquanto Hugo e Ron carregavam as estruturas da decoração de um lado para o outro. Lyra Jane, por sua vez, estava no quarto, se arrumando com a ajuda de Lily.
Não demorou para que Albus chegasse trazendo os doces e tomando conta da cozinha no lugar de Rose, permitindo que ela se dedicasse a outra tarefa importante: preparar as mesas das oficinas.
Com cuidado, organizou cestinhas cheias de bottons, patches, presilhas de cabelo e itens de maquiagem, tudo para que as meninas pudessem personalizar as nécessaires que levariam como lembrança do aniversário. Além disso, ela também ensinaria as convidadas a trabalhar com cerâmica fria. Como as peças não estariam secas a tempo de levarem para casa, Rose montou pequenos kits com tintas e pincéis para que pudessem finalizar os trabalhos depois, além de deixar algumas peças pré-moldadas, prontas para decoração, para que as garotas pudessem se divertir naquela tarde.
Deu trabalho, claro, mas quando apresentou a ideia a Lyra Jane e viu os olhos da filha brilharem de animação, ouviu um “Mãe, isso é genial!” tão entusiasmado que soube que havia acertado. E, por um instante, sentiu que finalmente tinha feito algo perfeito para a filha.
Quando terminou de organizar as almofadas ao redor das mesinhas improvisadas para as oficinas, Rose ouviu uma voz suave atrás de si:
— Sabe, eu pensava que minha neta havia herdado toda a criatividade do Scorpius, mas você não fica muito atrás, não é? — comentou Astoria com um sorriso gentil, enquanto cortava os caules de algumas rosas com uma tesoura.
Rose se virou para responder e, no mesmo instante, compreendeu o porquê de Camille parecer sempre tão adequada.
Astoria Malfoy estava com as mãos manchadas de verde e o avental sujo após passar horas preparando arranjos de flores em suportes de madeira com terra, estruturas cobertas de musgo e vasos cheios d’água. E, ainda assim, continuava impecável.
— Posso dizer o mesmo sobre a senhora. — respondeu Rose, sinceramente impressionada. — As flores ficaram lindas. Muito obrigada pela ajuda.
E ficaram mesmo.
A estrutura montada por Hugo e Ron sobre a mesa principal sustentava um delicado jogo de flores que caíam elegantemente, sem encostar nas comidas ou brigar visualmente com os arranjos que Astoria havia preparado. O caminho florido ao redor da mesa deixava espaços estratégicos para as bandejas de doces e a boleira, posicionada ao centro.
As mesas dos convidados, espalhadas pelo quintal, estavam decoradas com grandes arranjos floridos e velas coloridas, finalizadas com os laços feitos por Lyra e Camille. Na mesa das oficinas, pequenos vasos — aqueles pintados por Scorpius e Lyra Jane — acomodavam arranjinhos discretos, com uma ou duas flores apenas.
E, para completar, a passagem entre a cozinha e o quintal era marcada por uma linda cortina de flores, criando um efeito mágico para quem entrasse na festa.
Estava tudo perfeito, como um sonho.
Rose mal podia esperar para ver a reação de Lyra quando ela visse tudo montado exatamente do jeitinho que havia imaginado.
— Eu que devo agradecer, Rose. — disse Astoria, puxando-a de volta de seus devaneios. — Apesar de todo ano Draco chegar em casa resmungando que poderíamos simplesmente pagar alguém para montar as festas e poupar suas dores nas costas, eu prezo muito por esses momentos. Gosto de mostrar à Lyra que estaremos sempre unidos por ela.
Rose sorriu.
Ela sabia que Scorpius poderia pagar alguém para cuidar de cada detalhe, mas era exatamente como Astoria dissera. Desde o início, sempre fez questão de que todos participassem.
Porque não havia orgulho maior do que olhar para tudo aquilo e saber que cada detalhe havia sido feito por mãos que amavam sua filha.
Faltavam cerca de duas horas para o início da festa quando Scorpius apareceu, carregando um aparelho de som e colocando-o ao lado da mesa onde Albus jurava que assumiria o papel de DJ.
— Mãe, precisa de mais alguma coisa? — perguntou ele, aproximando-se de Astoria e ignorando completamente a presença de Rose.
Vinha sendo assim desde a última conversa que tiveram, quase um mês antes.
Rose se perguntava se um dia voltariam a se falar, mas aquela claramente não era a hora. O clima entre os dois estava desconfortável demais e, naquele momento, ignorar a existência um do outro parecia a melhor opção.
— Não, meu filho, já terminamos por aqui. O que achou? — Astoria respondeu, apontando para a decoração.
Scorpius percorreu o olhar pelo quintal e sorriu.
— Perfeito, como tudo o que você faz. — elogiou, beijando a bochecha da mãe com carinho.
Rose achou fofo.
— Meu pai está te esperando no carro. Disse que tem certeza absoluta de que adquiriu uma hérnia de disco hoje. — acrescentou Scorpius, rindo.
Astoria revirou os olhos.
— Seu pai e seus dramas... — brincou, antes de se virar para Rose. — Esta é minha deixa, querida. Até mais tarde.
Ela se afastou, caminhando em direção à cozinha e passando cuidadosamente pela cortina de flores, certificando-se de que tudo continuava no lugar.
Por um instante, Rose e Scorpius ficaram parados ali, presos em um silêncio desconfortável.
Até que ele quebrou o silêncio:
— Eu preciso ir agora. Estou imundo e a Camille está praticamente desmaiada no carro. — disse, rindo.
Rose, no entanto, não o acompanhou na risada. Apenas assentiu com a cabeça.
— Eu volto antes da festa começar para ajudar a receber os convidados. —garantiu.
— Claro que vai voltar antes, você tem que pegar o bolo. — retrucou ela, como se fosse óbvio.
Scorpius piscou. Ele tinha certeza de que essa responsabilidade não seria dele, mas como só queria se enfiar debaixo de um chuveiro logo, aceitou sem discutir.
— Ah, certo. Só me manda o endereço. — Ele pegou o celular, pronto para anotar. — Em qual confeitaria está?
Rose arregalou os olhos, incrédula.
— Como assim, Scorpius? Você que encomendou o bolo e eu que tenho que saber em qual confeitaria foi?!
O silêncio que se seguiu foi carregado de tensão. Scorpius franziu a testa, ainda segurando o celular na mão, como se esperasse que, por algum milagre, Rose se corrigisse e dissesse que estava brincando.
— Você está de brincadeira, né? — ele perguntou, sem acreditar.
— Eu?! — Rose levou a mão ao peito, indignada. — Você que ia encomendar o bolo!
— Eu?! Desde quando isso ficou sob minha responsabilidade?
— Desde quando eu não sou a única organizando tudo sozinha, Scorpius!
— Ah, claro, porque eu estou aqui de férias, né? Não passei a manhã inteira carregando móveis e trazendo coisa para cá!
— E quem você acha que planejou tudo isso, Scorpius? Você acha que as coisas aparecem magicamente?
Scorpius soltou uma risada irônica.
— Ah, me poupe, Rose! Você quer que eu participe, mas só até onde você quer! Se eu tivesse dado opinião no bolo, você ia reclamar do mesmo jeito!
Rose cruzou os braços, furiosa.
— Pelo menos a gente teria um bolo agora!
— Mas é claro, você não pode cometer um erro, né? Tem que jogar na minha cara que eu sou o irresponsável da história!
— Você é o irresponsável da história! Você disse que conhecia uma confeitaria ótima e que ia resolver! Como isso não significa que ia encomendar?
— Significa que eu conheço uma confeitaria ótima, Rose! Ponto. Eu não disse que ia resolver nada!
Ela jogou as mãos para o alto, incrédula.
— Meu Deus, você é insuportável! É claro que você deveria ter encomendado!
— Você não pensou em confirmar? Você simplesmente assumiu que eu ia fazer?
— E você, não pensou em perguntar? Você assumiu que eu ia resolver?
Os dois se encaravam como se estivessem prestes a avançar um no outro. O ar parecia carregado de eletricidade, e o desconforto acumulado das últimas semanas transbordava naquela discussão absurda sobre um bolo.
Respiravam pesadamente, os olhos cravados um no outro, prontos para disparar mais acusações, quando uma voz os cortou.
— Vocês dois… esqueceram do bolo?
O tom trêmulo fez os dois congelarem.
Viraram-se ao mesmo tempo para a porta da cozinha, onde Lyra Jane estava parada.
Os olhos verdes brilhavam com lágrimas prestes a cair, o rosto tomado pelo pavor.
Rose sentiu o coração despencar.
Scorpius perdeu o fôlego.
Porque, em meio a toda a raiva e frustração, eles haviam se esquecido da única coisa que realmente importava naquele dia: Lyra Jane.
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