Night Changes
6 Morangos e uvas
Não demorou muito para chegarem ao local designado. Zach indicava as coordenadas para Lyra Jane por mensagem e Scorpius só dirigia, como a filha ordenou pediu. Assim que avistou Thomas-Finnigan ao longe, com uma cesta de piquenique nas mãos, LJ solicitou que parassem e saltou do carro mais que depressa, mal dando tempo para que os pais reagissem ou fizessem o mínimo contato com o garoto.
Enquanto a filha se afastava, os dois sorriam em sua direção, de dentro do carro.
— Puta que pariu, como você está se mantendo calma assim? — Scorpius questionou, entredentes, para não abandonar o sorriso.
— Clonazepam, dois miligramas — Rose respondeu, enquanto acenava simpaticamente em direção à filha e Zach, quando viu que ela o alcançou. Quando os adolescentes viraram de costas, ela parou de sorrir e se virou séria para Scorpius — E você?
— Fumei um cigarro antes de sair de casa. — admitiu, também abandonando a postura de despreocupação.
— Scorpius! — a Weasley ralhou, mas não conseguiu esconder a risada — Meu Deus, estamos muito ferrados.
Os dois riram, com certo desespero. Não era uma situação para a qual estavam preparados. Por mais que sabiam que era normal, que aquele momento chegaria mais cedo ou mais tarde, estavam completamente desesperados. Ainda era a criança deles, a menininha que se escondia atrás de Rose com vergonha de falar com outras pessoas e que dormia no cantinho da cama de Scorpius com medo do monstro debaixo de sua cama.
— O que a gente faz agora? — o loiro questionou, percebendo que apertava o volante — Não podemos ficar parados aqui. A gente volta para casa?
— Não! — Rose respondeu mais que depressa — E se algo der errado? Se começar a chover? E se ela quiser ir embora? Precisamos estar por perto.
— Podemos procurar um restaurante por aqui, então. Uma cafeteria, talvez — sugeriu — Preciso comer algum doce.
Weasley concordou e saíram à procura de algum estabelecimento perto de onde a filha estava, mas longe o suficiente para que ela não pensasse que estavam vigiando. Avistaram uma cafeteria a uma quadra e meia do parque.
— Parece superfaturado. — Rose comentou ao observar a fachada, enquanto retirava o cinto de segurança para descer do carro.
— Não se preocupe, você é minha convidada, Rosie. — Scorpius brincou, deixando Rose levemente desconcertada. Fazia um bom tempo que não ouvia seu apelido saindo da boca de Scorpius.
Resolveu ignorar o arrepio que isso lhe causou, apenas entrando na brincadeira e aceitando o convite. A atmosfera acolhedora da cafeteria proporcionava um alívio bem-vindo para ambos após o pequeno turbilhão emocional que foi deixar Lyra no encontro. Escolheram uma mesa perto da janela, de onde podiam observar o movimento na rua. Rose pediu um cappuccino, enquanto Scorpius optou por um expresso duplo e uma fatia de bolo de chocolate com muita cobertura.
Enquanto esperavam as bebidas, Rose apoiou o queixo na mão e soltou um suspiro leve.
— Você acha que ela está bem? Quero dizer, o que será que ela está fazendo agora? — perguntou, mexendo distraidamente no guardanapo sobre a mesa.
Scorpius ergueu uma sobrancelha, a expressão claramente incomodada. Ele pegou o copo d'água que estava na mesa e tomou um gole antes de responder.
— Rose, sinceramente? Prefiro não pensar sobre isso.
— Ah, não seja assim. — Rose inclinou-se ligeiramente para frente, com um meio sorriso. — É só um piquenique. O que pode acontecer de tão preocupante?
Scorpius bufou, cruzando os braços e olhando para o lado, como se tentasse evitar a conversa.
— "Só um piquenique." É assim que começa. Logo a gente está planejando o casamento da Lyra com esse garoto.
Rose riu alto, claramente se divertindo com o nervosismo dele.
— Exagerado. Você por acaso está casado com a pessoa com quem teve o primeiro encontro?
— Definitivamente, não. — o loiro apoiou a bochecha na mão e continuou resmungando — Acho que a traumatizei ou sou uma espécie de cura hétero. Depois de mim, não fiquei sabendo de mais nenhum encontro dela com garotos. E você?
— Foi um bom primeiro encontro. Eu já estava mais velha que a Jane e namorei com ele por um bom tempo. — a ruiva reconheceu, a expressão de completo desgosto. — Até que…
— Ele te traiu com a sua amiga. — Scorpius deduziu. Rose apenas balançou a cabeça em concordância. — Foi um livramento.
Rose parou para pensar e logo mudou a expressão, voltando a se divertir às custas de Scorpius.
— Se bem que, se ele fosse o pai da Jane, provavelmente não estaria fazendo esse drama todo.
— Nem brinca com uma coisa dessas. — ele expressou, sério, mas logo suavizou a expressão para completo desalento — Eu sei que é besteira, mas não consigo evitar. Ela ainda é minha garotinha. Pensar nela... — ele hesitou, a expressão suavizando um pouco. — Bem, pensar nela nesse tipo de situação me deixa desconfortável.
Rose assentiu, compreensiva.
— Isso é porque você quer protegê-la de tudo, mas sabe que ela precisa viver as próprias experiências.
Scorpius olhou para ela, os olhos cinzentos com um misto de resignação e inquietação.
— Você acha que ela está preparada? Quero dizer, emocionalmente?
— Scorpius, ela é nossa filha. — Rose sorriu, tocando de leve a mão dele sobre a mesa. — Ela tem mais maturidade e bom senso do que nós dois juntos na idade dela. Ela está pronta, e, mais importante, ela sabe que estamos aqui para ela, sempre.
Ele soltou um suspiro pesado e relaxou os ombros, embora um leve sorriso tivesse surgido em seus lábios.
— Ok, você ganhou, mas vamos mudar de assunto antes que eu enlouqueça de vez.
Rose riu de novo, satisfeita, e os dois começaram a conversar sobre as opções do cardápio, até que seus pedidos chegaram. A Weasley tomou um gole generoso do capuccino e Scorpius cortou um pedaço do bolo de chocolate e levou à boca, fechando os olhos por um breve momento enquanto saboreava a textura rica e o sabor intenso. Ele soltou um suspiro satisfeito, o que chamou a atenção de Rose, que olhava distraída para a rua pela janela.
— Isso está incrível — ele disse, abrindo os olhos e sorrindo, enquanto apontava para o bolo com o garfo.
Rose arqueou uma sobrancelha, levemente curiosa.
— É mesmo?
— Você não faz ideia. Quer um pedaço?
Ela hesitou por um momento, mas não conseguiu resistir à expressão genuinamente encantada de Scorpius.
— Tudo bem, só um pedacinho.
Ele cortou outro pedaço do bolo com o garfo e, em vez de entregá-lo a ela, simplesmente o estendeu na direção de sua boca. Rose piscou, surpresa pela espontaneidade do gesto, mas acabou aceitando. Ela inclinou-se ligeiramente para frente, fechando os lábios em torno do garfo. Quando o chocolate derreteu em sua boca, um leve arrepio percorreu sua espinha.
— Uau — murmurou, enquanto engolia o pedaço. — Você tem razão, está maravilhoso.
Scorpius deu um meio sorriso, limpando os cantos dos lábios com o guardanapo.
— Viu? Nunca duvide das minhas escolhas de sobremesa.
Rose riu, mas desviou o olhar rapidamente, tentando ignorar a sensação estranha que o momento havia causado. Para mudar o foco, ela pegou sua xícara de cappuccino e, depois de um gole, perguntou casualmente:
— E então, como está Camille? — Scorpius ficou imóvel por um segundo, como se a pergunta o tivesse pegado de surpresa, o que a fez refletir se estava certa sobre o nome da namorada dele — É Camille mesmo, não é?
Ele limpou a garganta e mexeu na alça da xícara de café, parecendo procurar as palavras certas.
— Sim, isso mesmo. Camille está bem. Quer dizer, trabalhamos muito nas últimas semanas, então não temos passado tanto tempo juntos quanto eu gostaria.
Rose inclinou a cabeça, analisando a expressão dele.
— Isso parece meio vago. Algum problema?
Ele deu de ombros, evitando o olhar dela por um instante.
— Não exatamente. — não era muito confortável dividir essas questões com Rose — Às vezes parece que estamos em ritmos diferentes, sabe? Ela tem as prioridades dela, eu tenho as minhas, e estamos tentando ajustar as coisas.
Rose assentiu lentamente, observando-o com atenção.
— Relacionamentos exigem esforço, Scorpius. Isso você sabe. O que importa é que está feliz com ela.
O comentário pairou no ar por um momento, e Scorpius respirou fundo antes de responder.
— Eu gosto dela, claro. Mas acho que ainda estou tentando entender se estamos realmente na mesma página.
Rose fez um leve gesto afirmativo, mas não disse nada imediatamente. Havia algo no tom dele que parecia familiar, um eco de sentimentos que ela mesma já conhecia. Contudo, resolveu não pressionar, pelo menos por enquanto.
— Bom, espero que vocês consigam resolver. E, se precisar de um conselho neutro, você sabe onde me encontrar. E se for alguma coisa em relação à Jane… — Rose respirou fundo — Eu fico insegura toda vez que trazemos alguém novo para a vida dela, mas acredito que ela esteja pronta.
Ele sorriu de lado, relaxando um pouco.
— Obrigado, Rose. Eu realmente aprecio isso. — declarou, tomando mais um gole do seu café — Mas, e você?
— Eu, o que? — ela se fez de desentendida para ganhar tempo.
Scorpius percebeu o desconforto dela e terminou o último pedaço de bolo no prato, limpando os lábios com o guardanapo, antes de se recostar na cadeira e olhar para Rose com uma expressão de leve curiosidade.
— Está saindo com alguém?
— Eu? — perguntou, como se ele estivesse falando de outra pessoa. Scorpius assentiu lentamente — Não... quer dizer... não exatamente.
Malfoy ergueu uma sobrancelha, claramente intrigado com a resposta evasiva.
— Isso soou incrivelmente vago.
Ela bufou, tentando manter o tom casual enquanto sentia o rosto começar a corar.
— Eu estou... conhecendo alguém. Mas não é nada sério.
— Conhecendo alguém? — ele repetiu, inclinando-se levemente para frente com um sorriso de canto de boca. — E quando exatamente isso começou? Você vive tão ocupada com tudo.
Rose desviou o olhar para a mesa, mexendo no cappuccino como se de repente tivesse encontrado algo fascinante na espuma.
— Semana passada.
Scorpius ficou em silêncio por um momento, apenas observando-a, até que um sorriso divertido surgiu em seus lábios.
— Ah, então foi quando você saiu com suas primas.
Ela o encarou com uma mistura de surpresa e constrangimento.
— Como você sabe disso?
— Não é muito difícil deduzir. Você estava toda arrumada e animada naquela noite, e, sinceramente, eu não culparia ninguém por se apaixonar por você naquele momento.
O comentário foi dito de forma tão leve e casual, quase como se ele estivesse afirmando um fato óbvio, mas ainda assim o impacto atingiu Rose como uma onda inesperada. Ela sentiu um calor subir pelas bochechas e desviou o olhar novamente, tentando esconder o desconforto e a excitação que surgiu em seu corpo. Não, não podia estar sentindo aquelas coisas por Scorpius, ainda mais comentando sobre seu interesse amoroso no momento.
— Você é muito galante quando quer, não é? — murmurou, tentando soar desinteressada, mas não conseguiu evitar um meio sorriso que traía seu esforço.
Scorpius deu de ombros, um brilho divertido nos olhos.
— Só estou dizendo a verdade.
Rose fingiu revirar os olhos, mas não conseguiu evitar pensar em como ele sempre teve aquele charme descontraído que parecia vir naturalmente. Ele sempre soube como usar as palavras do jeito certo, com o tom certo, fazendo com que qualquer coisa soasse genuína e encantadora. Era uma habilidade que ela admirava — e, às vezes, temia.
— Bom, de qualquer forma, não é nada sério — disse ela, tentando recuperar o controle da conversa. — É só alguém que conheci.
Scorpius sorriu, mas seu olhar ficou mais suave, quase compreensivo.
— Tudo bem, Rose. Você merece ser feliz, seja com quem for.
O tom dele era sincero, e aquilo a tocou de uma maneira que ela não esperava. Ela o observou por um momento, se perguntando como ele conseguia, mesmo sem esforço, derrubar suas barreiras com apenas algumas palavras.
— Obrigada, Scorpius — disse ela, baixinho, antes de tomar mais um gole de cappuccino, tentando ignorar o fato de que, por mais que estivesse conhecendo alguém, o exato momento em que ele a fazia sorrir com aqueles comentários despreocupados estava mexendo com ela mais do que deveria.
***
Lyra Jane observou de relance pela janela do carro enquanto seus pais estacionavam na entrada do parque. Apesar da breve viagem ter sido tranquila, ela estava ansiosa para sair antes que um comentário ou outro transformasse sua hesitação em um evento ainda mais constrangedor. Quando Scorpius estacionou e ela desceu, não pôde deixar de notar como ele e Rose trocavam olhares cúmplices, quase como se estivessem preparando alguma piada interna à custa dela.
Lyra caminhou até o ponto de encontro combinado, onde viu Zach já a esperando com uma mochila casual pendurada no ombro e uma cesta de piquenique nas mãos. Seus cachos úmidos caíam sobre a testa, e carregava um sorriso fácil nos lábios, como se aquela situação fosse rotineira. Ele acenou para ela, e, apesar de tudo, Lyra sentiu-se imediatamente mais tranquila.
— Ei, LJ. Tudo certo? — perguntou, enquanto ela se aproximava e percebia que, além de bem bonito, ele também estava muito cheiroso.
— Tirando o show dos meus pais, tudo ótimo, obrigada — respondeu, rindo um pouco e se virando para os pais, que acenavam para os dois.
— Pais... — Zach balançou a cabeça, rindo junto e acenando de volta. — Bem, vem, vamos achar um lugar legal.
Eles caminharam juntos em direção ao gramado aberto. O parque estava animado, mas ainda assim havia muitos espaços tranquilos sob as árvores e perto de pequenos arbustos floridos. Quando encontraram um local agradável, Zach abriu a mochila e tirou uma toalha de piquenique xadrez vermelha e branca, estendendo-a cuidadosamente no chão.
— Você veio preparado para impressionar, hein? — Lyra brincou, notando o capricho nos detalhes.
— Ah, eu me esforço. — Ele piscou, antes de começar a tirar as guloseimas de dentro da cesta.
— Então, o que temos aqui? — perguntou a ruiva, sentando-se ao lado do rapaz, curiosa, enquanto ele organizava os itens.
— Ah, eu só preparei os melhores! — o moreno informou — Trouxe alguns sanduíches de queijo, porque clássicos nunca falham. — Ele mostrou os pacotes embrulhados. — Além disso, um pouco morangos e uvas verdes, porque já vi você comendo no intervalo e imaginei que gostasse e, claro, chocolate. Ah, e uma garrafa de chá gelado, porque achei que seria bom.
Lyra sorriu ao ver o cuidado que ele teve ao pensar no piquenique e ao se lembrar das coisas que ela gostava.
— Parece incrível! — disse, com sinceridade. — E eu achando que ia ser só uma ida qualquer ao parque…
— Meus pais sempre dizem que um ser humano funcional deve ter capacidade de se planejar. — Ele sorriu largamente, seus olhos brilhando de diversão.
— Aliás, minha avó mandou cheesecake. — anunciou, colocando o vasilhame que carregava ao lado dos itens já dispostos sobre a toalha. Havia comida o suficiente para passarem a tarde e a noite inteiras, se quisessem, embora as borboletas no estômago de Lyra não a deixassem sentir fome.
Zach pensou em perguntar o porquê da avó da garota saber sobre o encontro dos dois, mas preferiu guardar essa dúvida para si, principalmente porque não queria interromper a conversa que fluía naturalmente entre os dois. Ele percebeu que o nervosismo da Malfoy foi diminuindo e ela via como ele estava genuinamente descontraído, refletindo nela uma sensação de calma, mas também um pouco de empolgação.
Depois de certo tempo, quando os dois já haviam falado sobre as competições de natação que participaram naquele ano e Zach ter dado dicas a Lyra sobre como passar nas provas finais de química da Srta. Talbot, o garoto anunciou que estava com fome, o que fez Lyra rir um pouco, pois a forma como ele falou, a fez lembrar de seu tio Hugo.
— Para que fique registrado que sou um cavalheiro, a primeira escolha é sua, Jane. — ele sorriu, gesticulando de forma que apresentasse as opções de comida como se fosse um espetáculo. Lyra escolheu começar pelo sanduíche e, quando fez menção de pegá-lo, Zach o fez primeiro, estendendo a ela, logo em seguida — Também faz parte do cavalheirismo, eu acho. — Explicou, dando de ombros.
— Nossa, obrigada. — Ela pegou o sanduíche, sentindo as mãos um pouco trêmulas, mas tentando disfarçar. Enquanto abria o embrulho, olhou para ele e riu. — Está tudo tão arrumadinho que parece até uma competição.
— Claro que é! — Zach respondeu, fingindo indignação. — Quero ganhar o prêmio de "melhor primeiro encontro da história".
— Me parece uma meta muito ambiciosa. — Lyra respondeu, mordendo o sanduíche e escondendo o sorriso.
— É o meu jeitinho. — Ele piscou, pegando outro sanduíche para si.
A conversa continuou fluindo enquanto comiam. Zach perguntou sobre os filmes preferidos de Lyra, descobrindo que ela tinha uma paixão secreta por dramas coreanos e que acreditava que nenhum romance estava completo sem uma boa trilha sonora. Ele falou sobre seu gosto por esportes e como, além da natação, gostava de jogar futebol com os amigos nos finais de semana. As nerdices de ambos não ficaram de fora. Thomas-Finnigan amava RPG enquanto Lyra era craque no video-game.
Depois de terminarem os sanduíches, Zach abriu a caixinha com os morangos e as uvas, oferecendo-as a Lyra.
— Eu disse que vinha preparado, mas confesso que estava meio nervoso — ele admitiu, meio cabisbaixo e rindo de si mesmo enquanto pegava uma uva.
— Nervoso? Você? — Lyra perguntou, surpresa.
— Claro! Eu queria que fosse especial, sabe? — fez uma pausa, como se tentasse encontrar as palavras certas — Você é especial.
As palavras de Zach fizeram o coração de Lyra disparar. Ela desviou o olhar por um momento, tentando disfarçar o rubor que subia pelo rosto.
— Bom, você tá se saindo bem — ela disse finalmente, pegando um morango e mordendo a ponta com um sorriso tímido.
Zach riu, parecendo satisfeito com a resposta.
Depois de um tempo, eles deitaram na toalha, olhando para o céu parcialmente encoberto por folhas das árvores. As nuvens se moviam devagar, e Lyra se sentiu estranhamente calma.
— Isso é tão diferente do que imaginei que seria — ela comentou, quebrando o silêncio.
— Diferente como? — Zach perguntou, virando-se para olhá-la.
— Não sei. Achei que seria mais... esquisito, sabe? Mas está sendo fácil.
— Que bom que pensa assim. — Ele sorriu, e então apontou para o céu. — Olha, aquela nuvem ali parece uma baleia.
Lyra riu, tentando encontrar o formato.
— Uma baleia? Acho que você precisa de óculos.
— Ei, eu sou ótimo com isso. Olha de novo. — Ele se inclinou para mais perto dela, numa distância em que ela conseguia sentir a respiração dele próxima ao seu rosto e a garota não pôde evitar virar-se para encará-lo. Naquele momento, Lyra sentiu o nervosismo voltar por um instante, mas também havia algo mais: uma animação crescente, como se estivesse no lugar certo e na companhia certa.
— Tudo bem, talvez tenha um pouco de baleia ali — ela cedeu virando-se para o céu novamente, rindo.
Eles continuaram a conversa, alternando entre risadas, histórias e momentos de silêncio confortável. Para Lyra, aquele encontro já estava marcado como um dos melhores dias de sua vida.
Conforme a tarde avançava, o sol começou a baixar no horizonte, tingindo o céu com tons suaves de laranja e rosa. O vento leve balançava as árvores ao redor, trazendo um ar fresco que tornava o momento ainda mais especial.
Lyra e Zach estavam sentados lado a lado agora, terminando de comer os últimos pedaços do cheesecake que ela havia levado.
— Ok, confesso que isso está realmente incrível — Zach disse, limpando o canto da boca com o guardanapo. — Dê lembranças à sua avó e, por favor, peça a receita.
— Você cozinha? — a ruiva questionou, curiosa.
Zach soltou uma gargalhada e balançou a cabeça.
— Nem pensar! Isso é talento do meu pai Simas. Ele adora cozinhar e vive inventando receitas, embora às vezes algumas receitas passem um pouco do ponto e fiquem meio tostadas. Eu só dou o toque final.
— O toque final? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— É, polvilhar o açúcar de confeiteiro por cima, ralar o queijo parmesão, derreter a manteiga no microondas. Trabalho difícil, mas alguém tem que fazer. — Ele deu de ombros, com uma expressão exageradamente séria, arrancando uma risada de Lyra.
Ela balançou a cabeça, divertida.
— Vou fingir que não ouvir isso para continuar te levando a sério.
Zach sorriu e olhou para o céu, onde algumas estrelas começavam a aparecer timidamente.
— Você acha que a gente vai lembrar desse dia daqui a alguns anos? — ele perguntou, um tom mais sério na voz.
Lyra ficou surpresa com a pergunta. Ela olhou para ele, vendo uma vulnerabilidade que não esperava. Na verdade, ela não tinha certeza se aquele também era o primeiro encontro dele, porém não tinha coragem para perguntar. Pelos boatos que rolavam pela escola, ele tinha beijado Wendy Trevils num jogo de verdade ou consequência na casa de Ryan Tade, mas Lyra Jane não sabia maiores detalhes. Pelo menos nunca os viu juntos novamente.
— Acho que sim — respondeu, depois de pensar um pouco. — Quero dizer, é um dia especial, né? Eu acho que vou lembrar, pelo menos.
Zach sorriu de lado, parecendo satisfeito com a resposta.
— Bom, então já valeu a pena.
Por um momento, os dois ficaram em silêncio, apenas observando o céu e ouvindo os sons do parque ao redor. Havia algo tranquilo e mágico naquela simplicidade, e Lyra sentiu que não precisava de mais nada.
Finalmente, Zach olhou para o relógio no pulso.
— Acho que está na hora de ir — disse, com um toque de arrependimento na voz.
— Já? — Lyra perguntou, sem esconder a decepção.
— Pois é. Mas pelo menos a gente tem uma desculpa pra marcar outro dia. — Ele piscou para ela, se levantando e esticando a mão para que ela fizesse o mesmo. Logo, os dois começaram a recolher as coisas.
Enquanto organizavam tudo, Lyra percebeu que não queria que o momento acabasse, mas sabia que era inevitável. Assim que tudo estava guardado, Lyra enviou uma mensagem para a mãe avisando que já tinham terminado e ambos caminharam juntos até o ponto onde os pais a buscariam.
Assim que chegaram perto da entrada do parque, o ar entre Lyra e Zach parecia mais denso, carregado por um misto de nervosismo e expectativa. Ele parou de caminhar e virou-se para ela, enfiando as mãos nos bolsos por um momento antes de retirá-las, como se tomasse coragem.
— Então, foi bom? — Zach perguntou, a voz mais baixa e cheia de uma suavidade que fez Lyra engolir em seco.
Ela respirou fundo e assentiu, sorrindo, tentando parecer mais confiante do que realmente estava.
— Foi mais do que bom. Foi perfeito.
Ele também sorriu, um sorriso tímido, mas que iluminava seu rosto de um jeito que fazia Lyra sentir borboletas no estômago. Zach deu um passo à frente, hesitante, até que ficou bem próximo dela, segurando suas mãos com delicadeza, os dedos entrelaçando-se suavemente.
— Sabe, eu... queria fazer isso desde o começo da tarde. — A confissão saiu quase como um sussurro. — Na verdade, desde bem antes de hoje.
Lyra arregalou os olhos por um segundo, o coração disparando, mas antes que pudesse responder ou pensar demais, ele inclinou-se devagar. Cada movimento parecia medido, dando espaço para que ela recuasse se quisesse. Mas ela não recuou.
Quando os lábios de Zach tocaram os dela, foi um beijo gentil, suave, que durou apenas alguns segundos.. Ela sentiu o calor subir até as bochechas, o corpo inteiro ficando leve e ao mesmo tempo com os pés fincados no chão, como se fosse impossível esquecer aquele momento.
Ao se afastar, Zach tinha um sorriso tímido nos lábios, o rosto um pouco corado.
— Boa noite, LJ.
Ela sorriu de volta, tentando conter a felicidade que parecia transbordar.
— Boa noite, Zach.
Continuaram se olhando em silêncio, até que a buzina do carro de Scorpius trouxe-os de volta à realidade. Ela viu os pais esperando no carro, a mãe com uma expressão curiosa e o pai com um misto de alívio e tensão.
Os dois se despediram e Zach acenou para os pais de Lyra Jane antes de caminhar para longe, olhando para trás uma última vez antes de desaparecer na esquina. Lyra levou a mão aos lábios, ainda sentindo o toque do beijo, e não pôde conter um sorriso bobo, que tratou de desfazer, sustentando uma expressão de indiferença quando se virou para onde os pais estavam estacionados.
Respirando fundo, Lyra caminhou em direção a eles, já se preparando para os olhares e perguntas que certamente viriam, mas sabendo, no fundo, que aquele momento especial era só dela.
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