Night Changes
3 Fifa
O carro de Scorpius estava há cerca de 5 minutos estacionado na frente da casa de Rose naquela tarde. Ele detestava admitir, mas sentia um certo medo da mãe de sua filha e sabia como ela era paranoica com a rotina. No Fantástico Mundo de Rose, descumprir combinados era pecado capital e deixar de fazer tarefas da escola era crime inafiançável.
O plano que ele e a filha bolaram acabou funcionando muito bem e, por mais que a caligrafia no fim da página não tenha ficado das melhores, o texto foi entregue, e era isso que importava. Ele também torcia para que Lyra recebesse pontuação máxima, para poder jogar um pouquinho na cara de Rose.
Mas sim, ela ainda o apavorava um pouco.
– Ô pai. – Lyra o chamou – A gente vai ficar aqui parado por quanto tempo mais?
Ele a encarou desanimado.
– Quanto você quer para entrar sozinha e ouvir a bronca? – perguntou com sinceridade.
Lyra riu com escárnio, cruzando os braços.
– Ah, não. Você me colocou nessa, você que se vire. Dinheiro nenhum paga ouvidos novos, e os meus já estão bem gastos com as broncas da mamãe.
Scorpius suspirou, apoiando a cabeça no volante.
– Você acha que ela vai gritar muito? – perguntou, claramente preocupado.
– Não sei. Mas, se eu fosse você, tentaria achar um tampão aqui no carro, só por precaução.
Apesar do tom brincalhão da filha, ele sabia que não havia como escapar. Rose tinha toda razão em estar irritada, mas a forma como ela fazia disso grande coisa há 13 anos, começava a irritá-lo, afinal de contas, ele também era pai de Lyra Jane e gostaria de poder tomar decisões sozinho sem a fiscalização de Rose.
Quando o loiro desligou o carro e saiu dele, Lyra o seguiu, parecendo incrivelmente calma, considerando o que estava por vir.
– Por que você está tão tranquila? – perguntou desconfiado, enquanto subiam os degraus da casa.
– Porque você é o culpado dessa vez, e eu só vou ficar assistindo. – respondeu ela com um sorriso travesso.
Scorpius bufou. Quando tocaram a campainha, ele sentiu o coração acelerar. Rose não demorou a abrir a porta, os braços cruzados e um olhar que já denunciava sua irritação.
– Vocês dois estão atrasados. – começou ela, a voz cortante. – Eu falei que a Jane deveria estar em casa antes das dez ontem. Por que ela só chegou hoje de manhã?
Scorpius tentou um sorriso conciliador.
– Então… nós nos distraímos durante o jantar e quando eu percebi, já era tarde. Achei melhor deixá-la dormir lá e trazer de manhã.
Rose o encarou, incrédula.
– Você achou melhor? Melhor para quem? Porque, enquanto vocês estavam jantando, eu estava preocupada, tentando descobrir se algo tinha acontecido. E, para piorar, Jane quase não entrega o trabalho dela na escola hoje.
Scorpius levantou as mãos em defesa.
– Foi um erro meu, eu admito. Mas, ela não estava largada na rua, ela estava na minha casa que, caso não se lembre, é a casa dela também. – Era um saco ter que explicar toda vez para uma mulher inteligente como aquela, qual o conceito de guarda compartilhada – E, tecnicamente, ela entregou a redação, não entregou? E, se você perguntar pra ela, aposto que foi ótima.
– Esse não é o ponto, Scorpius! – Rose exclamou, a frustração transbordando. – Você precisa ser mais responsável. Não é só sobre a redação, é sobre cumprir o que combinamos! Nós temos um sistema, Scorpius. É assim que a vida de Jane funciona. Rotina, consistência. – pontuou – E eu não gosto de ser a "vilã" toda vez que algo sai dos trilhos.
Ele suspirou, derrotado.
– Eu sei, Rose. Foi mal mesmo. Eu só queria que ela tivesse um momento tranquilo, sabe? Achei que um pouco de diversão não faria mal. Não pensei que fosse algo tão sério assim.
Rose o encarou por um momento, balançando a cabeça. Ela sabia que ele não fazia as coisas por maldade, mas às vezes era incrivelmente frustrante lidar com sua abordagem relaxada em comparação com sua própria disciplina rígida.
– Tudo bem. Mas da próxima vez, quando combinarmos um horário, eu espero que você o cumpra. – disse, seu tom mais calmo agora. – E Jane, você vai fazer o favor de refazer seu cronograma de estudos para evitar esse tipo de situação novamente.
– Sim, mamãe. – Lyra respondeu rapidamente, lançando um olhar agradecido para o pai por, pelo menos, amenizar o sermão.
Scorpius, aliviado por ainda estar inteiro, olhou para Rose com um sorriso atrevido.
– E é por isso que nossa filha é um sucesso. – disse ele, tentando descontrair – Ela precisa que eu ensine um pouco de malandragem para que você contraponha com inúmeras responsabilidades. É assim que ela se torna um ser humano completo.
Rose balançou a cabeça, exasperada, mas um pequeno sorriso escapou.
– Vá para casa, Scorpius. E, da próxima vez, assuma que os combinados não são opcionais.
– Sim, senhora. – ele respondeu, com uma falsa reverência antes de sair, aliviado por sobreviver a mais uma bronca.
Mesmo com todas as broncas, ele sabia que fazia o possível para ser o melhor pai que podia. E, no fundo, Rose também sabia disso.
Ao chegar em casa, Scorpius entrou em seu apartamento, sentindo o peso da interação com Rose ainda pairando sobre ele. Aquilo o esgotava profundamente, ele detestava brigar discutir com a mãe de sua filha, mas detestava ainda mais o jeito que ela era mandona e mal-humorada.
Estava prestes a fazer um café para dar continuidade a um projeto que precisava apresentar a um cliente na semana seguinte, quando pegou o celular e olhou para a tela, se deparando com um número considerável de mensagens de Albus. Ignorou as primeiras e respondeu somente a mais recente, que dizia:
FIFA hoje? Eu levo a cerveja.
Por costume, continuou preparando o café, mas respondeu positivamente à mensagem do amigo. Não seria nada mal um momento de descontração depois de um dia cheio. Deixou a cafeteira funcionando e decidiu tomar um banho antes do amigo chegar.
Durante o banho, se deixou levar pelos pensamentos, que o transportaram para o dia que mudou toda sua vida.
Flashback on
Era fim de tarde e a luz suave do sol entrava pelas janelas grandes do apartamento que Potter e Malfoy começaram a dividir algumas semanas antes. Havia resquício de mudança aqui e ali e respingos de tinta no carpete, deixando rastro da pintura recente das paredes. Algumas caixas ainda espalhadas pela sala, a TV ainda no chão, ao lado de um Playstation 3 meio surrado. Albus estava fazendo compras no mercado, e por mercado entende-se despensa da casa de seus pais. Scorpius estava em casa tentando instalar o forno novo na cozinha quando ouviu batidas na porta. Se limpou como pôde e ficou surpreso ao ver Rose em sua frente quando abriu a porta.
Eles não se falavam desde a manhã em que acordaram juntos e despidos na cama de Scorpius. Albus estranhou o fato da prima, que antes estava empolgada em ajudá-los a redecorar o apartamento, não os visitar mais, mas Malfoy o recordou sobre o quanto a Weasley gostava de se adiantar nos estudos e a desculpa, aparentemente, colou.
É claro que Scorpius gostaria de conversar sobre o ocorrido e, por ele, eles poderiam até mesmo repeti-lo, mas não quis apressar as coisas. Por isso foi um misto de espanto e felicidade quando se deparou com a visita da ruiva.
– Rose? Que surpresa! O que você está fazendo aqui?
Ela estava visivelmente nervosa, segurando uma bolsa contra o corpo e, se ele reparou bem, um pouco trêmula também.
– Precisamos conversar. – disse sem cerimônias – É... importante.
Scorpius gesticulou para que fossem até o sofá no canto da sala. Quando ela passou pela porta, ele pôde sentir novamente o aroma fresco e floral que sentiu por horas, misturado ao suor dos dois naquela noite, e recordar o momento lhe causou arrepios. No bom sentido, é claro. Mas, se lembrando da expressão séria de Rose, fechou a porta e voltou-se rapidamente para ela:
– Sente-se e fique à vontade. – ela se sentou e o encarou com uma expressão muito séria, quase sombria – Quer algo? Café? Água?
Rose balançou a cabeça.
– Não, obrigada. Prefiro ir direto ao ponto.
Scorpius sentou-se de frente a ela, intrigado.
– Tudo bem... o que foi?
A ruiva respirou fundo, olhando para as mãos.
– Ok, vou ser direta porque não faz sentido enrolar. – anunciou, mas demorou alguns segundos para completar – Eu estou grávida.
Scorpius piscou, confuso.
– Grávida? Uau, Rose, isso é... inesperado. – ele hesitou, processando a informação – E eu... quer dizer, por que você está me contando isso?
Rose ergueu seus olhos verdes e profundos, olhando diretamente para ele e completou com a informação mais óbvia:
– Porque o bebê é seu, Scorpius.
O silêncio que recaiu na sala era palpável. Scorpius encarou Rose, claramente pego de surpresa, antes de se recostar no sofá, passando a mão pelos cabelos loiros.
– Meu? – perguntou devagar, processando a situação lentamente – Você tem certeza?
– Sim, Scorpius. Tenho certeza. – respondeu defensiva. O medo começou a tomar seu corpo. E se ele não aceitasse? Se não quisesse? E se ele fugisse e nunca se interessasse em saber da criança? – Pelas minhas contas, aconteceu algumas semanas depois do meu término com o Eric e... você foi a única pessoa com quem estive desde então. Eu não sei como pode ter acontecido. – continuou, frustrada e Scorpius reparou que seus olhos começaram a se encher de lágrimas – Eu sei que você disse que tirou antes, por isso não me preocupei, não tomei nenhuma pílula do dia seguinte mas, de alguma forma, não deu certo.
O loiro assentiu, ainda em choque. Até então, ele não sabia se ser pai estava nos seus planos futuros, mas sabia com toda certeza que não estava em seus planos atuais. Primeiro ano de faculdade, muito para viver, um mundo para conhecer, ele mal havia iniciado a sua vida sexual e já estava colocando um filho no mundo? Começou a pensar que era castigo por ser tão irresponsável. Quer dizer, sua família era da indústria farmacêutica, se tinha algo que ele tinha total acesso, eram preservativos.
Ele assentiu lentamente, ainda em choque.
– Certo, ok. – suspirou – Isso é muita coisa para absorver de uma vez.
– Eu sei. – Rose concordou, com a voz trêmula – Eu nem esperava que isso acontecesse, Scorpius. Não foi nada planejado.
– Eu realmente pensei que tinha tirado antes, mas… – ele estava envergonhado em admitir, mas também não queria que ela se sentisse culpada por algo que ele mesmo causou – Eu nunca tinha feito isso antes, Rose.
– Nunca tinha feito o que? – questionou, confusa.
– Bem… sexo. – ele encarou o chão, claramente desconfortável – Aquela foi minha primeira vez. Eu era virgem.
– O quê? – a ruiva arregalou os olhos, a boca abrindo ligeiramente surpresa e indignação – Você está brincando, não está?
Scorpius levantou as mãos em defesa.
– Não, não estou. – assegurou – Eu nunca tinha, bom, feito aquilo antes. E eu sei que deveria ter contado, mas…
– Você deveria ter contado? – Rose o interrompeu, indignada – E Dalila Parkinson? Lisa Abbott? Você ficava com várias garotas na escola!
– É, mas eram só beijos e uns amassos. – esclareceu – Nós nunca chegamos aos finalmentes.
– Scorpius, você não acha que isso era algo importante de se compartilhar antes de... você sabe?
Malfoy recolheu os ombros, constrangido.
– Eu estava nervoso! E você parecia tão confiante, tão segura, que eu pensei que, se eu contasse, isso poderia estragar tudo.
– Estragar tudo? – ela jogou as mãos para o alto – Scorpius, eu confiei em você porque achei que você sabia o que estava fazendo! Você não entende? Eu nunca teria arriscado se soubesse que você era inexperiente. Por mais bêbada que eu estivesse, estava consciente do que estava acontecendo.
– Eu não pensei que fosse fazer diferença. – tentou argumentar – Quero dizer, foi consensual, e eu realmente gostei daquilo.
– Não é sobre gostar ou não, Scorpius! – Rose balançou a cabeça exasperada – É sobre responsabilidade. Sobre ser honesto comigo.
– Eu sei. E sinto muito, Rose. – ele abaixou a cabeça, sinceramente arrependido – Eu realmente sinto. Eu nunca quis enganar você.
Rose respirou fundo, tentando se acalmar.
– Eu acredito em você. Mas isso não muda o fato de que agora estamos lidando com uma gravidez inesperada.
Scorpius se virou para ela ainda assustado, como se a conversa sobre aquela noite o tivesse feito esquecer sobre o real motivo de estarem ali.
– Desculpe, foi um choque tão grande que eu nem perguntei… Como você está? Isso deve estar sendo muito difícil para você também. O que você quer fazer? Quero dizer, como quer lidar com isso?
Rose hesitou.
– Definitivamente, não é algo que eu esperava que acontecesse agora. É uma coisa que muda completamente meu planejamento de vida. – Scorpius concordou – Mas eu quero ter esse bebê. Isso não está em discussão, e vou fazer isso com ou sem você, mas preciso saber: onde você está nisso?
Scorpius a encarou com seriedade. Ele sabia que a resposta que daria ali definiria um marco de sua vida, iria fazê-lo abandonar sua vida como garoto e faria dele um homem.
– Talvez eu não soubesse direito o que estava fazendo naquela noite, mas uma coisa eu sei agora: eu quero fazer isso do jeito certo. Isso me assusta muito. – deu uma risada meio desesperada – Mas eu nunca fugiria dessa responsabilidade. Se é meu filho, eu estarei aqui para ele.
Rose deixou escapar um suspiro de alívio e relaxou um pouco o corpo, recostando-se no sofá
– Obrigada. Eu tive medo de como você reagiria. – confessou.
O loiro deu um pequeno sorriso, tentando aliviar a tensão.
– Bom, vamos ser sinceros, nós dois não planejamos isso, mas acho que somos bons em lidar com o inesperado, não é?
– Acho que sim. – ela concordou com um meio sorriso.
A verdade é que Scorpius sabia que, apesar de ter sido a conversa mais difícil que teve em toda sua vida, era a mais fácil em comparação a todas que ainda viriam. Ele sabia que essa criança mudaria tudo, que o faria repensar todo o seu futuro e que, para Rose, seria ainda mais pesado. Ele estava disposto a suportar todo o peso junto dela para garantir que, além desse bebê, a ruiva também pudesse ser feliz e concretizar seus objetivos. Mas ele também teria suas próprias batalhas para enfrentar, a começar pelos seus pais e, bem, os pais dela.
– Rose, eu preciso perguntar: seus pais sabem?
– Sim, eles sabem. – respondeu com uma careta – Meu pai está surtando um pouco. – parou para pensar – Ok, ele está surtando muito. A minha mãe alterna entre estar brava comigo e dar graças a Deus que o bebê não é do Donnie. – revirou os olhos – Mas, no geral, eles vão acabar lidando com isso.
– Isso soa como Hermione e Ron para mim. Então, posso esperar algumas palavras cortantes do seu pai, imagino.
– Algumas? Ele provavelmente vai tentar arrancar a sua cabeça. – avisou.
Os dois compartilharam um momento de risos, mas a tensão ainda estava presente.
– Rose, se vamos fazer isso, quero fazer direito. – Scorpius a encarava com firmeza, olhando no fundo de seus olhos, na esperança que ela fixasse bem a mensagem – Quero estar presente, quero ser um bom pai. Mesmo que nossa relação seja um pouco diferente da convencional.
– Eu não espero nada além disso. – ela concordou – Eu só que sejamos bons pais.
Ele assentiu, com um pequeno sorriso.
– Então, estamos nessa juntos?
– Estamos nessa juntos.
Scorpius então se aproximou dela e, com um gesto, pediu permissão para tocar sua barriga, o que ela assentiu.
– Ei, bebê, aqui é o seu pai. – começou, meio sem jeito – Você provavelmente já deve ter ouvido muitos gritos e sentido muito desespero aí dentro e vai ser difícil por um tempo, eu confesso. Mas prometo que vai melhorar e nós vamos dar a você a melhor vida que você poderia ter.
O silêncio que se seguiu foi confortável, mas carregado de uma nova realidade que se impunha aos dois. Rose, que antes estava tão apreensiva, sentiu um peso sair de seus ombros ao ouvir aquelas palavras de Scorpius. Ele estava ali, pronto para enfrentar tudo com ela, pronto para ser o pai que ela e o bebê precisavam, apesar da incerteza e da juventude. Era um começo estranho, improvável, mas uma promessa genuína de que, juntos, eles poderiam lidar com o inesperado.
Scorpius olhou para ela uma última vez, seus olhos fixos nela com uma intensidade que ela não havia visto antes. A gravidade do momento não podia ser ignorada, mas algo nas palavras dele e no jeito com que ele tocou sua barriga a fez acreditar que, embora a jornada fosse difícil, ela não estava sozinha.
– Nós vamos fazer dar certo. Eu prometo. – Scorpius murmurou, quase para si mesmo.
Ela o observou, sentindo pela primeira vez, naquele dia tumultuado, uma faísca de esperança. Eles estavam prestes a enfrentar uma montanha de desafios, mas pelo menos agora, ela sabia que não precisaria escalar essa montanha sozinha.
Rose sorriu, de uma forma triste, mas sincera, sentindo que, por mais assustadora que fosse a situação, havia algo inquebrantável nesse novo vínculo que estava sendo formado entre eles.
Com um último suspiro, ela se inclinou para frente, abraçando Scorpius com mais força do que imaginava que precisaria. Ele retribuiu o abraço com a mesma intensidade, e naquele momento, tudo o que parecia incerto e assustador tomou um tom mais suave. Eles estavam começando a construir algo novo, algo que nunca poderiam ter previsto. E, por mais difícil que fosse, o que quer que viesse, eles enfrentariam juntos.
Afinal, a partir daquele momento, eram mais do que apenas eles dois. Havia uma criança a caminho, e aquele pequeno ser já começava a unir suas vidas de uma maneira que nada mais poderia fazer. E, por mais confuso que fosse o futuro, ele agora estava cheio de possibilidades.
E, como qualquer nova jornada, era o começo de um novo capítulo.
Flashback off
Mal dava para acreditar que mais de 13 anos haviam se passado desde então. Mais de 13 anos desde o dia em que conheceu sua filha, o amor da sua vida, e solidificou um vínculo com Rose por toda sua existência. O toque do interfone, porém, o despertou de seu torpor. Enrolou-se na toalha para atendê-lo e autorizou a entrada do amigo no prédio. Quando Potter chegou, Scorpius, que já estava vestido com uma bermuda e camiseta, ainda secava o cabelo na toalha.
– Ah não, pensei que você iria me receber como veio ao mundo. – Albus lamentou falsamente, entregando um engradado de cerveja ao amigo.
– Sinto te decepcionar, cara. – Scorpius entrou na brincadeira – Esse espetáculo está reservado para apenas uma espectadora.
Os dois se ajeitaram para iniciar a noite de diversão da mesma forma que faziam quando mais novos, e logo a sala de Scorpius tinha um ar despojado, com almofadas jogadas no sofá e um pequeno cooler ao lado da mesinha de centro, cheio de cervejas geladas. A televisão exibia uma partida acirrada de FIFA, com Albus segurando o controle com concentração exagerada, enquanto Scorpius bufava ao lado, claramente derrotado, em mais de um sentido.
– Ah, não! – Scorpius exclamou, jogando o controle no sofá ao ver o time de Albus marcar mais um gol. – Você claramente está trapaceando.
– Não é trapaça se você simplesmente é ruim. – Albus riu, tomando um gole de cerveja e jogando a cabeça para trás.
– É que, caso não se lembre, enquanto você treinava pesado no jogo, eu tinha que ficar parando para fazer mamadeiras e trocar fraldas. – o loiro disse quanto encarava o amigo uma expressão de piedade.
– Ah, eu não caio mais nessa desculpa velha. – o moreno riu – Não adianta reclamar, meu amigo. Aceita a derrota.
Scorpius pegou sua cerveja, deu um longo gole e bufou novamente, dessa vez de forma mais pesada.
– Sabe o que realmente me derrota? Rose. – ele soltou, quase sem pensar.
Albus levantou uma sobrancelha, mas manteve os olhos na tela.
– O que foi agora? Mais um sermão sobre responsabilidade?
– Não só isso. – Scorpius passou a mão pelo cabelo bagunçado. – Eu me esforço pra caramba, sabe? Tento ser um bom pai, tento cumprir os combinados, mas parece que nunca é o suficiente. Sempre tenho que andar na linha perfeita que ela traça, e cara, isso é exaustivo. – desabafou, se afundando ainda mais no sofá.
Albus finalmente pausou o jogo, virando-se para o amigo com um olhar curioso.
– Você fala como se estivesse num campo minado. – Ele disse, pegando outra cerveja e abrindo-a com um estalo.
– É exatamente como me sinto. Como pisar em ovos, sempre.
– E tem certeza que é só isso?
Scorpius franziu a testa, desconfiado.
– Como assim?
– Você sabe... Rose. – Albus o encarou diretamente. – Tem certeza que não é mais sobre ela do que sobre as regras?
Scorpius soltou uma risada seca, balançando a cabeça.
– Ah, não vem com essa. Você sempre tenta fazer isso parecer mais profundo do que é. Não tem nada além disso, Albus. Rose é a mãe da minha filha, e a gente tem que conviver por causa disso. Só isso.
– Só isso? – Albus perguntou, cruzando os braços. – Você fala como se fosse pouco! Olha, eu te conheço a vida inteira, você é meu melhor amigo desde sempre, e por isso eu sei que a Rose só foi te enxergar com olhos diferentes naquela noite, mas você gostava dela muito antes daquilo. Todo mundo sabia disso. – Potter se levantou e recostou-se na parede ao lado da TV para ficar em frente ao amigo – E, sinceramente, eu acho que uma parte de você ainda gosta.
Scorpius bufou de novo, dessa vez parecendo mais irritado do que derrotado.
– Não, Albus. Isso foi há muito tempo. – enfatizou – Já passou da hora de superar essa paixão adolescente. Olha, Lyra já está mais crescida e até ela sabe que nada nunca vai acontecer entre mim e a mãe dela.
– Ah é? – Albus inquiriu, deixando Scorpius com uma pulga atrás da orelha – Ela te disse isso?
– Por que está falando assim? – o loiro estreitou os olhos. – Sabe de algo que eu não sei? Porque se for o caso, é melhor desembuchar, Potter. – ameaçou se levantando também.
– Ui, que medo! – Albus respondeu erguendo as mãos ironicamente – Ela é minha afilhada e eu sou o padrinho mais bacana desse mundo, mas exatamente por isso minha lealdade está com ela e, a não ser que seja algo ilegal ou que ofereça risco à vida dela, não vou delatar as coisas que ela me fala.
– Você está blefando. – afirmou o loiro, rindo sem graça.
– Ah é? Quem você acha que orientou que ela contasse a você que ela vai sair com um garoto?
– Espera aí, ela disse que foi convidada, não que vai mesmo sair. – corrigiu.
– Foi mal aí, Malfoy. – Albus voltou a cruzar os braços desafiadoramente – Estou sempre um passo à frente.
Scorpius negou com a cabeça, incrédulo, mas se rendeu a uma risada.
– Você é petulante.
O moreno saiu de onde estava e pegou uma cerveja do cooler, entregando-a ao amigo em seguida. Ambos retornaram ao sofá e ficaram em silêncio por um tempo, até que Scorpius retomou a conversa.
– De qualquer forma, acho que está na hora de me desvincular um pouco da Rose, sabe? De sossegar e seguir minha vida de verdade. Talvez até casar com alguém legal.
Albus estreitou os olhos, parecendo ponderar.
– Certo... E Camille? Ela é esse "alguém legal"?
Scorpius recostou-se no sofá, pensando por um momento antes de responder.
– Camille é bacana. Ela é uma boa pessoa, gosta da Lyra, se dá bem comigo. A gente tem objetivos parecidos. – expôs, e Albus concordou com a cabeça – Não vou dizer que é amor ainda, porque não é, mas pode ser algo sólido, entende? Algo... simples.
– "Simples". – Albus repetiu, com uma pontada de ironia. – Porque "simples" é tudo o que você procura agora, né?
– Exatamente! – Scorpius apontou para ele com a cerveja. – Eu quero uma relação leve, sem complicações, e Camille me dá isso.
Albus ficou em silêncio por alguns segundos, balançando a cabeça lentamente.
– Não estou dizendo que você não merece algo mais tranquilo, Scorp. Todo mundo merece. Mas não dá para fugir do que você sente, ou do que sente falta. – falou, sério – Camille pode ser incrível, mas se você não está completamente na dela, isso vai pesar em algum momento.
Scorpius franziu a testa, mas não retrucou. Ele sabia que Albus estava certo, pelo menos em parte.
– Olha, eu só quero seguir em frente. Fazer as coisas funcionarem de um jeito que seja bom para mim e para Lyra. Rose é passado, Camille é presente. Isso tem que ser o suficiente.
Albus deu um gole em sua cerveja, olhando para Scorpius com um sorriso compreensivo, mas ainda levemente cético.
– Rose não é passado, ela estará presente na sua vida para sempre. Você pode até fugir, mas uma hora ou outra ela vai retornar. – ele parecia ter mais a dizer, mas se limitou a suspirar antes de continuar – Só não esquece que as coisas importantes têm uma forma irritante de ficar, mesmo quando você tenta ignorá-las. Mas se você acha que Camille é o caminho, vou apoiar você.
Scorpius sorriu, agradecido.
– Valeu, cara.
– Agora, me deixa te derrotar mais uma vez para terminar a noite. – Albus disse, pegando o controle e voltando ao jogo.
Scorpius riu, pegando o próprio controle e se preparando para mais uma derrota no FIFA.
O som das risadas ecoou pela sala enquanto o jogo recomeçava, e Scorpius sentia um pouco do peso do dia se dissipar. Mesmo com as incertezas e os dramas da vida, era bom ter alguém como Albus para ouvir – e, às vezes, provocá-lo até chegar às respostas que ele preferia evitar.
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