Night Changes
4 Girls Night
Era sexta à noite e Lyra Jane arrumava uma mochila com itens básicos para ir para a casa do pai. Costumava levar somente o essencial, como os fones de ouvido e o kindle. Era acostumada a ter tudo duplicado, o que lhe dava certa liberdade, mas às vezes confundia sua mente.
Embora não tivesse quase nenhuma memória dessa época, ela sabia que, por um certo período, seus pais moraram juntos para facilitar o convívio com ela. Porém, assim que ela cresceu um pouco, eles seguiram suas vidas individualmente. Não era algo que a afetava profundamente, era basicamente a vida que conhecia, mas não podia fingir que nunca havia pensado sobre seus pais juntos. Eles se amavam, isso era evidente, e ela se sentia parte de uma família junto deles, só não era um modelo convencional. Apesar de não morarem mais juntos, sempre estiveram presentes, e a faziam acreditar que sempre seria assim: papai, mamãe e Lyra Jane.
Porém, há algum tempo, as coisas foram mudando de figura. Na verdade, Lyra acreditava que à medida que crescia, foi percebendo detalhes que não eram tão claros antes. Apesar da certeza de que seus pais se amavam, eles não se abraçavam e pareciam sempre manter uma distância segura um do outro, como se fossem levar um choque se chegassem perto demais. Ela também notou que, volta e meia, eles interrompiam uma conversa ou discussão quando ela chegava perto, e isso era mais frequente do que ela gostava de presenciar.
Com o tempo, Lyra Jane foi reparando em rusgas aqui e ali, captando sinais. Ela via que a relação entre sua mãe e sua avó estava longe de ser o que demonstraram durante a infância da pequena Malfoy, certamente havia muitos assuntos inacabados entre elas. Da mesma forma, ela sentia que seus avôs, Draco e Ron, mal se cumprimentavam, provavelmente nunca trocaram mais do que dez palavras numa conversa em toda sua vida, e isso a intrigava. Ela tinha um faro investigativo, como seu pai gostava de pontuar. Costumava saber fazer as perguntas certas para alcançar as respostas que queria, mas algumas coisas ela não gostaria de ter de perguntar, outras imaginava que estavam além de seu alcance saber.
Por isso, decidiu que passaria a focar mais em sua vida e pararia de se intrometer em assuntos que não eram da sua conta, mesmo que, com a família de fofoqueiros que possuía, isso se tornasse mais difícil.
Seu tio Hugo sempre a surpreendia com alguma mensagem que começava com “você não vai acreditar no que eu descobri”, trazendo em seguida informações que LJ não fazia ideia de como chegaram até ele. E, muitas vezes, com prints e provas!
A prima Lily era aquela com quem compartilhava as notícias do mundo das celebridades. Como publicitária, ela acabava ficando por dentro de muita coisa nova, e Jane ficava feliz quando a Potter lhe pedia opiniões sobre o que os jovens estavam curtindo no momento.
Mas nada superava o padrinho Albus. Ela sentia que, com ele, sempre haveria um espaço seguro para conversar. Ele a ouvia e aconselhava sem qualquer julgamento, soltando somente um “seu pai não vai gostar nada disso” de vez em quando, mas constantemente guardando um “sua mãe fez muito pior quando tinha a sua idade” na manga. Pensando nele, lembrou de colocar na mochila a jaqueta jeans estilizada que ganhou dele de aniversário, com um pinguim com óculos escuros desenhado nas costas. Era a peça favorita da ruiva no momento.
A adolescente estava terminando de esticar a colcha em sua cama quando a mãe apareceu na porta do quarto trajando um vestido preto, com a saia mais solta, indo até um pouco acima dos joelhos, e a parte de cima sendo segurada por Rose, devido ao zíper aberto atrás. O look acompanhava uma sandália de salto de tiras, também preta, e o cabelo em ondas.
– Fecha para mim, por favor? – se aproximou virando-se de costas para a filha.
Jane subiu o zíper, que ia até o meio das costas, fazendo um decote em V nada profundo, acompanhando o mesmo tipo de decote da frente. Fazia tempo que ela não via a mãe arrumada daquela forma, mas ficou feliz, não somente por ela estar saindo para se divertir, mas também por si mesma e pela paz que teria naquela noite, sem nenhuma mensagem às dez da noite para conferir se ela havia escovado os dentes.
– Acabei engordando desde a última vez que usei esse vestido. – Rose refletiu – Acho que foi no jantar de formatura do Hugo.
– O tio Hugo não se formou há, sei lá, sete anos? – a mais nova questionou, franzindo a testa.
– É, por aí. Naquela época você estava aprendendo a ler, lembro de ter recitado o cardápio a noite toda. – respondeu – Mas, o que achou? – Rose deu uma rodadinha para mostrar a produção à filha.
– Está linda. – respondeu sorrindo – Vai usar qual bolsa?
– Eu não pensei nisso, na verdade. – Rose arregalou os olhos, deixando claro que havia esquecido desse detalhe. – Tenho aquela carteira toda preta, que tal? Ela não é exatamente nova, mas quebra um galho.
Lyra balançou a cabeça negativamente.
– Aquilo está puído, mãe. – argumentou, logo se dirigindo ao próprio guarda-roupas e tirando de lá uma bolsinha de festa que havia ganhado de sua avó Astoria. Entregou-a à mãe que, meio a contragosto, aceitou.
– Obrigada. – resmungou – Mas não gosto de usar as coisas que eram da sua avó, ela deu a você!
– E eu estou te emprestando, oras. – a pequena ruiva estreitou os olhos para a mãe – Relaxa, mãe. O que é meu, é nosso.
– Espero que isso não signifique que o que é meu também seja nosso. – avisou, fingindo medo.
– Já era, mamãe. – lamentou Lyra falsamente – Você já assinou esse contrato há muito tempo.
A campainha ecoou pela casa, interrompendo a conversa entre mãe e filha. Lyra, que já havia terminado de organizar sua mochila, foi até a entrada, enquanto Rose ajustava os últimos detalhes do vestido diante do espelho do quarto.
Ao abrir a porta, a garota encontrou Scorpius com o cabelo ligeiramente bagunçado e o semblante tranquilo. Ele tinha uma expressão leve, até que seus olhos passaram por cima do ombro de Lyra e captaram a figura de Rose no corredor.
A ruiva surgiu, colocando um brinco, com o vestido preto moldando sua silhueta de maneira simples, mas elegante. Ele reparou nas ondas suaves que caíam por seus ombros e nas sandálias de salto, que faziam com que ela parecesse ainda mais alta.
Scorpius ficou sem palavras por um instante, desviando o olhar para disfarçar.
– Oi, Scorpius – Rose cumprimentou casualmente, aproximando-se deles com um sorriso, como se não percebesse o impacto que sua presença causava nele. E ele agradeceu por isso.
– Oi... – ele piscou, tentando recuperar o foco. – É… Você vai sair? – a pergunta escapou, como se ele não tivesse controle das suas próprias palavras.
Rose hesitou por um instante, como se não quisesse entrar em detalhes, mas preferiu dizer, afinal de contas, se alguma emergência acontecesse, ele deveria saber onde ela estava.
– Vou, sim. Encontrar a Roxy e as meninas – respondeu enquanto abria um sorriso casual. – Sabe como é… noite das Weasley! E como Jane já ia ficar com você, eu nem pensei…
– É claro, não precisa se preocupar. – assegurou – Só perguntei por curiosidade. E você está linda – mais uma vez, escapou antes que ele pudesse segurar a frase. Ele pigarreou imediatamente, tentando contornar a situação. – Quer dizer, faz tempo que não te vejo assim.
Rose riu de leve, o tom levemente embaraçado.
– Não sei se fico lisonjeada pelo elogio ou indignada pelo tom de surpresa, mas obrigada, Scorpius.
Lyra, que acompanhava os dois como num jogo de ping-pong, percebendo o leve constrangimento no ar, soltou um suspiro exagerado.
– Pronto, pai. Já podemos ir?
O loiro olhou para baixo, como se só naquele momento tivesse percebido a presença da pequena Malfoy ali. Ele acenou afirmativamente para a filha.
– Ei! – Rose chamou a atenção da garota – Não vai se despedir? – perguntou já abrindo os braços para e indo de encontro à filha. E Scorpius, vergonhosamente, também sentiu vontade de fazer parte daquele abraço.
As duas se despediram e sua mini-ruiva, que de mini já não tinha nada, passou por ele para que pudessem seguir caminho. Ele estava pronto para acompanhá-la, mas lembrou-se de ser cavalheiro.
– Se quiser, posso te dar uma carona. Não seria problema. – ofereceu, voltando-se para Rose, que estava mais perto da porta desta vez, fazendo com que ele pudesse sentir o hálito fresco e o perfume floral.
– Não precisa, obrigada – Rose respondeu rapidamente. – Roxy vai passar aqui.
Scorpius assentiu, mas demorou um pouco mais do que o necessário para sair. Quando finalmente se afastou, Lyra, que já o aguardava encostada no carro, lançou um olhar divertido para o loiro enquanto ele caminhava para ocupar o banco do motorista.
– Quer um babador, pai?
– Muito engraçada você. – ele respondeu, tentando soar indiferente, mas sem conseguir esconder o sorriso.
Ela não podia negar que se divertia com essas situações, principalmente com o constrangimento dos pais quando ela, propositalmente, os deixava em maus lençóis.
Lyra Jane sabia que os pais, embora tentassem esconder, eram muito curiosos a respeito do que o outro fazia, coisa que ela não via como defeito, mas os deixava com a mania de se justificarem demais, o que ela usava como artimanha para se entreter. Foi assim quando chegou em casa no dia seguinte ao jantar com Camille. Depois da bronca, a mãe foi perguntar como havia sido, se ela era legal e, mil rodopios depois, perguntou se ela era bonita.
Contudo, a curtição só se completava depois, quando ela comunicava o padrinho Albus sobre todas as situações embaraçosas nas quais colocava os pais, inocentemente ou não, e aquela ali ela guardaria para compartilhar com uma boa caneca de chocolate quente.
No fundo, ela sabia que os sentimentos entre seus pais eram mais complicados do que gostavam de admitir. E, para ela, essa era apenas mais uma noite típica no mundo caótico e intrigante de sua família.
***
Quando Rose fechou a porta de casa, bateu o arrependimento de ter transformado o que deveria ser um chá calmo com Roxanne numa girls night com suas primas. Ela estava cansada, mas precisava confessar, estava se sentindo bonita como há muito tempo não sentia. Colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e se aproximou para verificar se a maquiagem estava toda no lugar. O corretivo conseguia esconder bem as olheiras, mas não pôde ignorar as rugas que começavam a se formar ao redor de seus olhos. A ruiva tentava não pensar muito sobre isso, mas ver a filha tão grande – quase a ultrapassando em tamanho – e já vivendo as experiências da adolescência, Rose se sentia velha.
Entretanto, naquele momento, ela preferiu impedir que os pensamentos melancólicos tomassem conta, afinal, a noite era para ser divertida. Então, deu uma última ajeitada no vestido e saiu para aguardar sua carona. Roxy havia aproveitado a rara disponibilidade de Rose e convocou todas as primas Weasley para sair. Obviamente, a maioria não poderia estar presente, todas muito focadas em suas próprias vidas, como era de se esperar. Contudo, chegaram a um bom quociente, com as ilustres presenças de Lily Luna e Dominique, além das outras duas.
Roxanne Weasley, bem, agora Roxanne Zabini, era uma das mulheres mais lindas que Rose já vira na vida. Ela não sabia o que era mais encantador: sua pele negra reluzente até nos dias mais nublados, seu sorriso perfeitamente alinhado, os cílios naturalmente curvados, o cabelo sempre cheiroso ou a “energia de gostosa” que ela transmitia, mas havia algo de diferente ali. Roxanne era a voz da razão, o exemplo que Rose sempre pensou que deveria ser seguido. As duas nasceram no mesmo ano, tinham a mesma idade, mas a morena fez tudo no tempo certo: viveu intensamente os anos de faculdade, aproveitando todas as experiências que a instituição poderia oferecer, incluindo intercâmbios para estágio, namorou e se casou no tempo certo.
Roxy era terapeuta ocupacional especialista no atendimento de crianças com mobilidade reduzida, e foi nesse ambiente que conheceu seu atual marido, Anthony Zabini, um advogado bem sucedido e que acompanhava o sobrinho em algumas sessões, quando sua irmã não conseguia levá-lo. Dois anos depois, se casaram, uma festa linda, diga-se de passagem. O pequeno Theo veio em seguida, e havia completado seu quarto aniversário na última primavera. Roxy era prática e não tinha medo de falar a verdade sem rodeios, por isso Rose a elegeu conselheira oficial de sua vida, pois sabia que precisava de uma sacudida de vez em quando.
Dominique Weasley era uma aventureira incorrigível, o que era de se esperar. Cresceu praticamente dentro do mar, sempre correndo livre pela praia, escalando as pedras sem medo algum. Rose se lembrava de quando passava os verões na casa dos tios e tinha que segurar Dominique, que sempre queria entrar mais fundo no oceano, enquanto ela ficava somente onde seus pés alcançavam o chão, observando a cabeleira loira da prima submergir e aparecer novamente, cada vez mais longe. Rose não saberia dizer se os astros tinham alguma responsabilidade sobre isso, mas percebia que, talvez por terem nascido com um só dia de diferença, Domi e James, irmão mais velho de Albus, dividiam o mesmo espírito. Eles se tornaram parceiros inseparáveis, até moraram juntos na época da faculdade. Depois de formado, James se mudou para a Irlanda, enquanto Dominique continuou em Londres e se tornou repórter num programa semanal de esportes, viajando por aí apresentando os destinos radicais da Europa.
Lily Luna Potter era a mais nova e, consequentemente, a mais desesperada. O local de trabalho da coitada também não ajudava muito. Ela trabalhava numa agência de publicidade em que tudo era para ontem, o que não fazia sentido para Rose, afinal de contas, o que poderia ser tão urgente numa agência de publicidade? De qualquer forma, ela não sabia muito o que acontecia lá dentro, somente quando Hugo comentava que recebia ligações desesperadas de Lily implorando que ele fosse até lá arrumar algo em algum computador com problema, tudo na camaradagem. O irmão de Rose sempre comentava como aquele lugar não demoraria a fechar, mas em três anos que a Potter estava lá, apesar dos sinais de falência, a empresa continuava de pé. Rose amava a companhia de Lily, pois ela sempre tinha uma boa história para contar. Na verdade, era o jeito da garota que melhorava tudo. Ela sempre ajeitava os óculos e começava a falar sobre a maior violação aos direitos trabalhistas ou sobre a fofoca mais cabeluda dos famosos com total naturalidade.
As primas não demoraram a chegar. Ao contrário do que Rose imaginou, não foi o carro de Roxy que dobrou a rua de sua casa, e sim o mini cooper azul de Lily. Rose correu para mais perto da rua para que a prima a visse, porém, mesmo assim, a pequena ruiva deu algumas buzinadas. Rose deu uma risada contida e sacudiu a cabeça ao ouvir as buzinas insistentes de Lily. Caminhou até o carro, sentindo o vento frio da noite, e abriu a porta do passageiro. Antes mesmo de se sentar, ouviu a música alta que vinha do rádio: "Toxic", da Britney Spears.
— É claro que vocês estão ouvindo Britney! — comentou, rindo enquanto se acomodava.
— Tem algo mais icônico para uma girls night? — Lily respondeu, ajustando os óculos e cantando junto com a música, sem um pingo de vergonha. Ela vestia uma blusa preta, com decote de ombro a ombro, uma mini-saia jeans, além de uma bota western prateada, que apertava o pedal do acelerador com mais intensidade do que era permitido naquela via.
Roxy estava no banco de trás, ao lado de Dominique, com um sorriso de canto que parecia dizer "isso é tão Lily", contudo, Rose não conseguia vê-las com clareza.
— Anda logo, Rose, ou vamos congelar com essa porta aberta! — Roxy brincou, puxando a prima para dentro.
Assim que Rose se ajeitou, Dominique se inclinou para dar um tapinha no ombro dela.
— Uau, você está incrível! Esse vestido é novo? — perguntou.
— Nem tanto... — Rose respondeu, meio sem graça. — Só estava esquecido no fundo do armário.
— Bem, deveria usar mais vezes. Está um arraso. — Domi completou, piscando. — Acho que hoje vai ser uma noite interessante…
— Não começa. — Rose revirou os olhos, mas o tom leve de sua voz entregava que estava começando a entrar no clima.
Dirigiram por pouco mais de vinte minutos e chegaram a um pub escolhido por Dominique, parecia comum, porém desconhecido aos olhos de Rose.
— Nunca vim aqui. — Ela comentou assim que entraram.
— Grande novidade, Rose. — Lily revirou os olhos — Acho que na última vez que saiu para se divertir, o que estava em alta eram as tabernas medievais. — provocou.
— Ali. — Roxanne indicou uma mesa vazia próxima ao balcão, ignorando completamente a fala de Lily e seguindo diretamente para o local.
As garotas se acomodaram e iniciaram sua noite. O local ficava mais cheio à medida que suas taças ficavam vazias e as vozes começavam a elevar de tom.
— Então o cliente me manda mudar toda a campanha no último minuto porque a esposa dele não gostou da cor! Como se eu tivesse uma varinha mágica, sabe? — Lily exclamou, bufando. Ela era a motorista da rodada, mas não é como se precisasse beber para se soltar — Publicidade não é pra qualquer um, não. Acho que vou explodir aquela agência qualquer dia desses.
Roxy riu.
— Pelo menos você ainda não encontrou brinquedos no micro-ondas ou um desenho de dinossauro na parede da sala. — ela disse, sacudindo a cabeça. — O Theo está numa fase artística, digamos assim. Outro dia, ele conseguiu escalar a bancada da cozinha e espalhar farinha por toda a casa. Eu ainda estou limpando até hoje.
— Olha o lado bom, Roxy. Um dia, ele vai ser um grande chef ou artista. — Dominique brincou, rindo.
— Ou um terrorista da farinha. — Roxy respondeu, rindo também.
Rose ouvia tudo com um sorriso, mas ficou em silêncio até que Dominique se virou para ela, curiosa.
— E você, Rose? Como estão as coisas com a Jane?
Rose suspirou, sentindo-se à vontade para desabafar.
— Um desafio. Um dia ela é um doce, no outro está raivosa e insuportável. E agora tem esse encontro marcado com um garoto da escola... Eu sei que é natural, mas não estava pronta para vê-la crescer tão rápido. — Ela olhou pela ao redor, pensativa. — Às vezes me sinto velha, sabem? Como se eu não estivesse mais no ritmo.
As primas fizeram uma pausa respeitosa antes de Roxy, como sempre, encontrar o tom certo.
— Rose, você está no ritmo, sim. Talvez só precise de um lembrete de que ainda tem muito a aproveitar. E é pra isso que estamos aqui hoje.
— Exatamente! — Lily acrescentou. — Hoje é sobre diversão. Esquece a Jane por umas horinhas. Ela está bem com o Scorpius, e você merece isso.
As outras concordaram, enfatizando o quanto a ruiva merecia um descanso. Rose aproveitou para desabafar sobre a sobrecarga com o trabalho e com os estudos, enquanto secava mais uma taça de gin e tônica.
— Você precisa relaxar mais, Rose! Tem que fazer algumas loucuras, sabe? — Dominique aconselhava com a voz embolada, resultado de toda tequila que havia ingerido. — Eu, por exemplo, estou relaxando bastante nas artes.
Rose e Roxy encararam a loira, confusas, até que Lily se intrometeu para explicar:
— Ela quer dizer que está relaxando com uma artista, isso sim. Está saindo há um mês com uma artista plástica e já está toda apaixonada.
— Apaixonada não! — Dominique rebateu, mas seu olhar a entregou — Está bem, talvez só um pouquinho. — admitiu, fazendo um sinal quase encostando o indicador no polegar enquanto piscava um dos olhos — Ela é fantástica, o que posso fazer?
As outras três perceberam que Dominique amuou um pouco, o que era espantoso para Rose. Quem diria, Dominique Weasley estava apaixonada. Tentando manter o clima agradável, Roxy retomou a conversa.
— Já que iniciamos o tópico “relacionamentos”, vou contar uma, mas ninguém aqui vai me julgar, certo?
— Claro que não, Roxy. Isso aqui é uma zona livre de julgamento. — Rose assegurou, erguendo a sobrancelha com curiosidade.
— Tá bom. — A morena tomou um último gole de sua margarita antes de começar. — Anthony e eu decidimos... experimentar algo novo. Compramos umas algemas. A ideia parecia super divertida na teoria, sabe?
Lily já estava segurando a risada.
— E como foi na prática?
— Bem... digamos que eu perdi a chave das algemas. — Roxy cobriu o rosto com as mãos, mas estava rindo junto. — Anthony ficou preso à cama, sem roupas, enquanto eu procurei a casa inteira. Quando não encontrei, tive que pedir uma serra emprestada para o nosso vizinho.
A mesa explodiu em gargalhadas.
— Meu Deus, Roxy! O que o vizinho disse? — Dominique perguntou, já com lágrimas nos olhos de tanto rir.
— Eu inventei uma desculpa terrível, algo sobre um projeto de arte. Mas o pior foi o Anthony. Ele ficou me encarando como se nunca fosse me perdoar. Ainda me joga isso na cara de vez em quando.
— Eu amo que sua vida conjugal é uma comédia romântica em tempo integral — Lily comentou, enxugando os olhos.
Quando as risadas começaram a diminuir, a Potter decidiu compartilhar sua própria história.
— Ok, agora é minha vez. Mas não contem isso para ninguém, sério. — ela se aproximou da mesa e indicou que as outras fizessem o mesmo. Logo, começou a falar em tom baixo — Então... eu tentei um ménage. — Lily fez uma pausa para observar a reação das outras, que imediatamente ficaram boquiabertas.
— Uau! — Dominique exclamou, enquanto Rose já estava inclinada para ouvir mais. — E como foi?
— Horrível — Lily confessou, fazendo uma careta. — Achei que seria uma experiência libertadora, mas foi o contrário. Eu me senti super desconfortável, e ainda tive que fingir que estava adorando para não estragar o clima.
— Por que você não parou? — Rose perguntou, genuinamente curiosa.
— Porque sou uma idiota, basicamente. Mas aprendi a lição. Nunca mais.
— Eu não acredito que essa é a mesma Lily que discutia ética sexual na escola com argumentos dignos de um Ted Talk. — Dominique disse, rindo.
— Cala a boca, Domi. — Lily atirou um guardanapo nela, mas estava rindo também.
Depois de mais algumas provocações, todas se voltaram para Rose, que estava quieta novamente, observando as luzes do bar refletirem em seu copo.
— E você, Rose? Alguma história picante para compartilhar? — Dominique perguntou, com os olhos brilhando de curiosidade. — Qual foi a última vez que teve um orgasmo?
— Dominique… — Roxanne lançou um olhar repreensivo à loira — A intenção é fazer a Rose se divertir hoje, não colocá-la contra a parede. — A morena se virou para Rose — Só fale o que se sentir confortável, está bem? Por mais que eu também esteja morrendo de curiosidade. — terminou, rindo.
Todas começaram a rir, inclusive Rose. Ela não se sentia, de fato, constrangida com as primas, pois uma rodinha com elas era um local seguro, sem julgamentos. E, afinal de contas, Rose era muito mais aberta e divertida antes de se tornar mãe, porém, depois de Lyra Jane, ela passou a sentir medo de se expor e, por consequência, expor sua filha. Ela tinha que dar o exemplo de bom comportamento e seriedade, mesmo que, no fim do dia, fosse taxada como chata.
— Tudo bem. — ela começou marota — Meu último orgasmo foi na semana passada. Aproveitei que estava sozinha em casa e… bem, as coisas aconteceram.
Roxy sorria, cúmplice, enquanto Lily estava boquiaberta.
— E com quem foi? — Dominique ansiava por respostas. — Qual o nome dele? O que ele faz? Vocês vão se ver de novo?
— Ah, isso realmente importa? — Rose questionou, já sabendo a resposta das primas, que assentiram com veemência — Tudo bem. — suspirou, derrotada — Acho que vamos nos ver novamente, sim. Ele não está longe de mim, sabem? E não sei exatamente o nome dele, mas posso verificar quando chegar em casa. — as mulheres a encaravam embasbacadas, sequer piscavam, tamanho choque — E o que ele faz? Bom, ele tem cinco velocidades de vibração diferentes e o tamanho não vou revelar, mas é bem satisfatório.
As primas se afastaram, recostando nas cadeiras quase imediatamente, frustradas.
— Fala sério, Rose. — Dominique negava com a cabeça — Isso não se faz! Eu achava que ia ganhar minha aposta com a Lily.
— Aposta? — Rose inquiriu, um pouco indignada, mas sem conseguir segurar a risada — Estão apostando sobre a minha vida sexual?
Lily se inclinou na direção de Rose, com um sorriso travesso, enquanto ajustava os óculos.
— Claro que estamos, querida. Somos suas primas, o que você esperava?
Dominique balançou a cabeça em concordância, com um sorriso largo e desafiador.
— Exatamente. E, caso você queira saber, apostei que você estava há menos de um ano sem transar. Já a Lily aqui — Domi apontou com o polegar para a prima mais nova — foi mais ousada e disse que já fazia mais de dois anos.
Rose arqueou as sobrancelhas, incrédula, mas também divertida.
— Vocês realmente não têm limites, têm?
— Não mesmo. — Lily piscou, encostando-se na cadeira. — Agora, conta logo. Quem venceu?
Rose suspirou, olhando para o copo quase vazio à sua frente. A ideia de confessar aquilo para as primas a deixou um pouco desconfortável, mas ela sabia que, no fundo, elas estavam apenas brincando, sem maldade. Ainda assim, sentiu uma pontada de vergonha.
— Tudo bem. — ela começou, com um leve revirar de olhos. — Lily venceu.
Imediatamente, Dominique soltou um suspiro dramático enquanto Lily ergueu os braços em comemoração.
— Eu sabia! — Lily exclamou, quase derrubando o copo de água que estava à sua frente. — Sabia que você estava escondendo algo de nós, Rose!
— Não é como se fosse uma grande conspiração. — Rose murmurou, tentando minimizar a situação.
Mas Dominique, com sua expressão inquisitiva e um sorriso travesso, não estava disposta a deixar o assunto morrer.
— Tá, mas agora queremos saber: com quem foi?
Rose sentiu o rosto esquentar. Não era como se ela pudesse escapar daquela pergunta. Elas já deviam ter uma ideia, afinal de contas.
— Eu nem me lembro. Foi há tanto tempo! — mentiu.
Roxy se aproximou rindo da tentativa de enganação da prima.
— Rose Weasley se esquecendo de alguém com quem passou a noite? Que tipo de virginiana você é? Aposto que tem anotado numa tabelinha. — provocou — Foi tão ruim assim que preferiu esquecer?
Bom, agora Rose estava desconfortável. Sabia que as provocações iriam continuar enquanto ela não falasse. Uma parte dela não queria falar, e ela poderia esconder tranquilamente, o resto da vida, simplesmente não ceder à pressão das primas. Porém, existia uma outra parte, um pouco mais profunda, que se sentiria muitíssimo aliviada se essa informação fosse compartilhada, pelo menos para o público pequeno que a ruiva tinha em sua frente.
Após minutos de expectativa das demais Weasleys, ela resolveu falar.
— Não foi ruim, foi muito bom, inclusive. E já adianto que é o único detalhe sórdido que vou dar. — se adiantou — Mas é que… foi uma recaída. — ela admitiu, relutante, sabendo que as primas entenderiam imediatamente a quem se referia.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas carregado de tensão divertida. Dominique foi a primeira a reagir, com um grito dramático.
— Eu sabia! Foi o Malfoy, não foi?
— Fala baixo, Domi! — Rose repreendeu — Mas sim, foi. — respondeu, suspirando pesadamente enquanto Roxy e Lily trocavam olhares cúmplices.
— Ai, Rose. — Roxanne começou, cruzando os braços. — Isso é como tropeçar na calçada e decidir cair no mesmo buraco de novo.
— E bem fundo, pelo visto. — Lily acrescentou, rindo. — Bom, por mais que eu precise de detalhes, vou me conformar com essa informação bombástica. Já foi o suficiente para que eu me deleitasse com a vitória.
Dominique jogou o cabelo para trás dramaticamente, inclinando-se para frente e encarando Lily com determinação.
— Isso não vai ficar assim. Eu ainda não perdi a aposta, posso ganhá-la essa noite. — A loira se virou para Rose, encarando-a com seriedade e apontou o indicador em sua direção — Vamos resolver sua vida amorosa agora mesmo.
Rose arqueou as sobrancelhas, surpresa, enquanto Lily e Roxy soltavam gargalhadas animadas.
— Domi, nem começa... — Rose tentou, mas sua voz já soava menos firme do que deveria.
— Ah, vou começar, sim! — Dominique se levantou, ajeitando a jaqueta de couro como se fosse uma agente secreta em uma missão. — Olha esse lugar, está cheio de opções! E nós vamos encontrar alguém digno de você.
— Eu realmente não acho que isso seja necessário... — Rose começou, mas parou ao perceber que estava sorrindo. Talvez fosse o álcool ou a atmosfera leve da noite, mas parte dela se sentia curiosa.
Lily se inclinou sobre a mesa, com os olhos brilhando.
— O que acha, Rose? Vamos fazer uma curadoria especial só para você.
Roxy já olhava ao redor, avaliando o público do bar como se estivesse em um leilão.
— Qual é o seu tipo, Rose? Loiro? Bem, isso nós sabemos que você curte. — brincou, fazendo as outras rirem — Mais o que? Moreno? Alguém que goste de vinho e livros ou que te tire completamente da zona de conforto?
Rose suspirou, tomando mais um gole de sua bebida. Ela já estava rindo, e isso a deixou menos resistente.
— Tudo bem, mas sem exageros, hein?
— Isso é um sim! — Dominique bateu palmas e saiu em busca de pretendentes, enquanto Lily e Roxy riam, divertidas.
Dominique voltou rapidamente, trazendo descrições exageradas de potenciais candidatos.
— Ali, aquele cara alto no balcão, com a camisa azul. Total vibe de “romance de verão”. Ou que tal o de jaqueta de couro perto da jukebox? Ele parece um bad boy clássico.
— Muito bad boy. — Rose recusou com um gesto, rindo.
Lily apontou para outro.
— E aquele de óculos, lendo um livro? Parece intelectual.
— Demais, parece que ele vai corrigir até minha forma de respirar. — Rose respondeu, rindo mais.
Depois de mais algumas tentativas frustradas, Dominique voltou para a mesa, levemente exasperada.
— Você é mais exigente do que pensei, Rose. Está difícil.
Foi então que Roxy, que até então tinha ficado em silêncio, apontou discretamente para um homem sentado sozinho em uma mesa próxima. Ele tinha cabelo castanho levemente despenteado, barba por fazer, e estava mexendo no celular, com uma expressão tranquila e uma taça de vinho à frente.
— Que tal aquele? Não é bad boy, nem nerd. Parece equilibrado.
Rose olhou para ele por alguns segundos e deu de ombros, sorrindo de leve.
— Ele parece... interessante.
— É agora! — Dominique disse, já se levantando.
— Domi! — Rose tentou protestar, mas a loira já estava a caminho, confiante como sempre.
As outras duas primas riram, incentivando Rose, enquanto Dominique se aproximava do homem para puxar conversa. Quando voltou, tinha um sorriso vitorioso no rosto.
— Ele é simpático e está solteiro. E mais: ele quer te conhecer.
Rose arregalou os olhos, surpresa. Antes que pudesse reagir, Dominique já fazia sinal para o homem vir até a mesa.
— Você não disse que ia trazê-lo aqui!
— Relaxa, prima. — Dominique piscou, sentando-se de volta. — Confia em mim.
O homem se aproximou com um sorriso amigável e, por um instante, Rose pensou que talvez Dominique tivesse acertado dessa vez. Ele parecia genuinamente interessante.
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