Nicky Snow

23 Capítulo 21 – A última corrida da Corça de Gelo


Notas iniciais
Adivinhem quem está de volta? Ele mesmo, Robb Stark. Me amem. Beijos.

Capítulo 21 – A última corrida da Corça de Gelo

Willas observou o corpo da esposa levemente encolhido e em cima dele mesmo enquanto ela respirava calmamente, com um dos braços pousado em seu peito e a mão pousada onde ela podia sentir seu coração batendo, e não pôde deixar de imaginar se ela estava sonhando debaixo dos caracóis dourados.

Em três dias ela o havia conseguido cativar como ninguém nunca havia feito, e tudo o quê ele queria para o futuro próximo dos dois era conhecê-la até o mais profundo e, acima de tudo, entendê-la.

Quando os olhos de Nicky se abriram pela primeira vez naquela manhã, ela sorriu por um segundo ao pensar que seu Robb estava ali. Quando percebeu Willas, escondeu o rosto em seu peito para disfarçar a tristeza enquanto ele imaginava que era apenas constrangimento.

Ambos eram pessoas de poucas palavras pela manhã, e logo ficaram agradecidos por compartilharem da característica. Silenciosamente, ela se aconchegou um pouco mais a ele, e os braços masculinos a apertaram um pouco mais. Sabia que tinham mais de tempo na manhã de seu primeiro dia de casados antes das aias e o escudeiro entrarem nos cômodos, mas não queria que eles os encontrassem nus em pelo.

— Temos de levantar. – Ele sussurrou. – O café da manhã nos espera.

— Temos? – Nicky murmurou de olhos fechados.

O marido riu.

— Acho que às vezes leoas se passam por gatinhas manhosas. – Notou, enrolando uma mecha loira nos dedos e ela soltou um riso que o aqueceu o interior, encorajando-o a falar. – Sei que não é chegada a damas de companhia, mas poderá escolher algumas em Jardim de Cima. Se me lembro bem, você tem alguém a me apresentar mais tarde.

Ela confirmou levemente, sabendo que logo Leona estaria nos cômodos dos dois.

Mas antes, precisavam quebrar o jejum com os outros.

Quando Nicky se levantou, percebeu que estava nua e puxou um dos lençóis buscando cobrir-se, o quê fez seu marido rir. Aparentemente ele estava genuinamente alegre naquela manhã, já que ela nunca o havia visto rir tanto.

— Não há nada que eu já não tenha visto. – Ele lembrou. – Não sei porquê se esconde.

Embora ele estivesse certo, o rosto feminino logo se transformou num tomate maduro e suculento que se manteve ali mesmo enquanto ela penteava os cabelos, que já alcançavam sua cintura.

Mais tarde, quando os lençóis estavam trocados e o desjejum os aguardava, a loira partiu ao lado do marido com o vestido que Willas havia declarado como seu favorito. O tom de verde azulado destacava seus olhos e o corte deixava grande parte do decote alvo exposto. Havia até mesmo um pequeno e leve arroxeado exposto no topo do seio, e ela sabia que ele se espalhava por debaixo do tecido. Seu marido revelara-se um homem voraz, mas ela não se incomodara.

— Está linda. – Willas elogiou. – O verde fica muito bonito em sua pele.

Ela sorriu corada e os dois saíram juntos até os jardins, onde o café da manhã coletivo seria repetido. Todos os olhos estavam nela quando caminharam juntos e, embora Nicky fosse alta, o fato de que Willas se erguia mais de uma cabeça acima dela parecia mais óbvio naquele momento. Ela se sentia tão pequena.

Todos saudaram quando eles se sentaram à mesa, parabenizando sobre o casamento, elogiando a cerimônia e a festa, e Garlan – irmão de Willas – até mesmo se aproximou dos dois para brincar sobre a noite de núpcias.

— Passei pelas portas de seu aposento privado ontem à noite. Sua senhora parecia muito feliz.

Depois dele, foram diversas piadas sobre a noite anterior. Um dos primos de Willas mencionou que havia visto lençóis levemente manchados de sangue nas mãos de suas aias e indagou se ele o exibiria como alguns Lordes tinham o costume.

— Se estão dizendo verdades, todos ouviram muito bem que eu e minha esposa consumamos nosso casamento da maneira correta. Não preciso de lençóis para provar isso.

Além disso, havia a mancha de mão em seu seio que não pôde ser disfarçada com pó, e olhar de muitos corria ali quando a olhavam.

Nicky corou e ele tocou sua mão carinhosamente e logo o café da manhã estava posto para todos eles. Ao contrário do dia anterior, ela comeu calmamente e até trocou gracejos com o marido, que lhe oferecia bocados do próprio prato ocasionalmente e lhe sussurrava coisas que a faziam rir, enchendo várias das donzelas ali presentes de inveja.

Foi seu tio Kevan que iniciou com os presentes que o casal receberia naquela manhã.

Dois dias de presentes e os dois possuiriam roupas durante um ano inteiro.

Ele presenteou os dois com pares de gibões e vestidos combinando que a fizeram imaginar por quanto tempo a aliança havia sido planejada antes que Tywin a informasse do matrimônio. Ele também os ofereceu uma estadia nas terras dos Lannister quando se assentassem.

— São belíssimos. Muito obrigada.

Joffrey os dera cavalos novos, grandes e nobres, e Cersei uma liteira grande, onde podiam andar juntos. Tyrion, por sua vez, os dera vários e vários livros que os dois poderiam aproveitar juntos.

— Sei que minha sobrinha gosta de ler, e isso é algo em que vocês dois combinam. – Ele notou. – Espero que esses exemplares possam agradá-los e incrementar seu acervo em Jardim de Cima.

As obras eram várias, mas Nicky reconheceu “Antes dos Dragões”, “As Nove Viagens” e “Crônicas de Ferro” enquanto os servos se distanciavam.

Ela sorriu e segurou as mãos do tio, beijando-o na testa deformada.

— Muito obrigada. Você sempre foi o tio que me conheceu melhor, por isso é meu favorito. – Sussurrou a última parte.

O feito fez Tyrion corar.

— Não deixe Jaime ouvir. – Segredou-lhe.

É uma moça tão doce. Tyrion notou. Quem poderia dizer que nasceu lado a lado com Joffrey? Willas é um homem sortudo.

Os presentes vieram aos noivos em grande número e, quão logo puderam, Nicky e Willas se retiraram com a desculpa de passar mais tempo juntos. Não faltaram gracejos sobre o quê aquilo significava, mas ambos ignoraram.

— Acho que não terei baús suficientes para tantos mantos, calças e gibões. – Ele lhe segredou num risinho.

— Olhe pelo lado bom, não precisaremos de roupas novas por praticamente um ano.

Ele riu enquanto os dois caminhavam ao grande e novo aposento que haviam recebido no dia anterior.

— Não se compara com nosso aposento e Jardim de Cima. – Ele prometeu. – Pedi que o preparassem quando saí do castelo e equivale ao dobro de tamanho deste, assim como nossa cama.

Ela corou novamente e ele abriu um leve sorriso. A loira estava prestes a se sentar e observar os presentes quando o som conhecido chamou sua atenção e Leona entrou, correndo diretamente para seus braços.

O marido não pôde deixar de ficar surpreso. Quando imaginara o animal, nunca havia lhe vindo à mente que a loba seria tão grande. O pelo dourado brilhava tanto quanto os fios de sua dona, e ele conseguiu imaginá-la nos jardins de seu castelo.

Quando a esposa lhe estendeu a mão ele hesitou, mas logo já estava fazendo carinho no animal.

— Ela é linda. – Elogiou. – Tão linda quanto você.

A mulher sorriu, alegrando-se com a interação entre os dois.

Se fosse Robb, os dois lobos estariam juntos. Não precisaria acostumá-la a ele, ela se sentiria em casa naturalmente.

As aias guardaram todos os presentes em baús e – depois de um almoço particular – o casal caminhou novamente em direção aos jardins. Se antes eles pareciam envergonhados lado a lado, agora estavam um tanto mais confortáveis. De braços dados e sorrindo discretamente, Willas possuía um olhar orgulhoso, enquanto Nicky tentava manter o maior sorriso possível no rosto.

Cada passo que davam era cercado de risinhos, e ambos sabiam que seu casamento e suas núpcias seriam assunto de fofocas por um longo tempo, dentro e fora da corte.

Logo que se aproximaram do coreto onde Margaery e as primas estavam, a noiva do rei abriu um sorriso gigantesco.

— Irmão, irmã. – Saudou. – Achei que fossem passar mais tempo juntos antes de se juntar aos outros.

— Iremos. – Willas corrigiu. – Pensei em falar à nossa avó antes.

— Ela vem aí. – A caçula dos Tyrell apontou discretamente de onde a velha vinha com uma de suas netas e os dois guardas atrás de si.

Ele sussurrou um galante “logo estarei de volta” e se afastou, deixando as duas sozinhas.

— Conte-me tudo, não pudemos conversar no café da manhã. – Margaery olhou a cunhada com uma expressão curiosa e cúmplice. – Ele foi galante?

— Muito. – A loira coriu. – Prometeu não machucar-me e dedicou-me todo o carinho possível.

A donzela sorriu, tomando as mãos da cunhada nas suas.

— Serão felizes juntos. – Profetizou. – Sei que não o ama, mas irá.

A loira começou a gaguejar, mas a prometida do rei pousou um dedo em seus lábios.

— Vejo em seus olhos que seu amor não está aqui, e que olha meu irmão tentando amá-lo e tentando se conformar. As senhoras precisam sacrificar-se, somos donas de destinos muitas vezes terríveis, mas devemos cumprir nossos papéis.

Nicky confirmou tristemente e Margaery beijou sua bochecha. Quando Willas voltou, a loira pôs um sorriso no rosto.

— Venha. Vamos caminhar.

Eles passaram uma boa hora nos jardins antes de voltar aos aposentos, que agora tinham apenas Leona.

— É um belo colar. – Ele elogiou.

Ela havia substituído o usual colar Lannister pelo presente de Robb, com a esperança de passá-lo como apenas mais um presente de casamento.

—Obrigada. – Desviou o olhar e caminhando até o baú onde escondia a adaga que Jon havia lhe dado. – Gostaria de mostrá-lo algo.

Ela não sabia bem por que fizera aquilo, mas sabia que Willas devia saber de alguns de seus segredos mais cedo ou mais tarde. Quando tirou a arma de dentro das roupas e se virou para o marido, ele parecia analisá-la com concentração. Era muito diferente do punhal de Joffrey: Mais pesada e escura, com um cabo muito menos ornamentado. Uma arma de bastarda.

— Devo temer?

Ela negou com a cabeça.

—Foi um presente adiantado pelo dia do meu nome. – Explicou. – Meu irmão me deu.

Pelo olhar dela, ele sabia que o presente não havia sido de Joffrey ou Tommem. Ele logo se pôs de pé e tirou a adaga da mão da esposa, guardando-a no mesmo lugar de antes para beijá-la em seguida.

Ele a tomou novamente, derramando-se duas vezes antes de adormecer na grande cama. A Nicky sobraram apenas os suspiros.

Onde estaria Robb? Como estaria ele agora que sabia que ela era uma mulher casada, que outro homem a havia tocado? Será que lhe responderia? Partiria em seu resgate?

(...)

Foi no 13º dia desde seu casamento que Willas lhe avisaram que partiriam no dia seguinte, e quando a carta de Robb chegou. Quando o marido saiu para resolver os detalhes da viagem, ela correu para ler sua mensagem.

“Minha Corça de Gelo. – Desfiz-me em fúria com a notícia de seu matrimônio, e logo a matilha partirá para resgatá-la das mãos de quem quer que tinha lhe capturado. Não me importa qual seja a flor, a arrancarei da terra e despedaçarei com minhas mãos nuas. Sei que deveria ter contado-lhe antes, mas fui prometido. Uma das gêmeas, não sei seu nome ou seu rosto. Não se preocupe. Não me casarei. Diga-me onde está, irei buscá-la, nem que tenha de guerrear contra todos dos sete reinos para isso. Sonho com você todas as noites em minhas mãos, meus braços, ao meu lado como a rainha que sempre foi destinada a ser. A tomarei para mim nem que precise derrubar toda a casa de seu maldito marido para isso. – Amando-a mais que nunca, seu Lobo da Neve”

Os olhos de Nicky estavam marejados e suas mãos trêmulas quando pegou a pena. Seu Robb prometido a uma garota Frey?

Os Stark eram homens de honra. Ned Stark nunca deixaria que o filho fosse leviano o bastante para descumprir um compromisso como aquele, mas se ele a amasse de verdade...

O quê aconteceria aos dois? Qual seria seu futuro?

Meu Lobo da Neve – Não fosse por um dia sua carta nunca teria chegado à minhas mãos. Meu marido decidiu que viajaríamos para a Campina na próxima alvorada, e infelizmente não poderei mais escrever. Sem os passarinhos que entregam e buscam minhas cartas, não haverá segurança. Esperarei por você dia e noite, nunca deixarei de esperar. Eu poderia pedi-lo que esquecesse de tudo pra fugirmos, mas sei (tristemente) que isso será impossível.”

Estaria Robb Stark disposto a desistir de sua coroa e suas promessas por seu amor? Iria ele resgatá-la ou tudo não passava de simples promessas?

“Sonho com você todas as noites. Sonho com nós dois correndo livres pelos jardins congelados, onde ambos pertencemos, e sonharei todos os dias até que nos encontremos, não importa o quê aconteça. Infelizmente, esta é minha última carta antes de partir. Ainda o aguardo, não no mesmo lugar, com uma esperança ainda maior. Salve-me, imploro. Guarde meu coração consigo. Amo-te com todas as minhas forças. Amo-te. Amo-te. Amo-te – Triste e doente de amor, sua Corça do Gelo.”.