Nicky Snow
16 Capítulo 14 – Sangue e lágrimas
Capítulo 14 – Sangue e lágrimas.

Lancel, agora cavaleiro, lançava olhava furtivos a Nicky nos corredores, embora não fosse bravo o bastante para se aproximar dela novamente. Uma curta ameaça antiga de Robert, a nova posição da moça e a companhia constante de Joffrey pareciam ser o bastante para mantê-lo afastado. Os dois passavam pelo menos alguns minutos juntos por dia, e ela podia até mesmo dizer que sentia um pouco de carinho pelo irmão depois de tê-lo ao seu lado por tanto tempo.
Estavam juntos na sala do trono enquanto ele apontava o quê deveria ser mudado ali dentro, deixando-a do seu gosto, quando se virou para Nicky.
— Parece até estar segurando uma chave com a língua. – Notou. – O quê quer me dizer?
Ela mordiscou o lábio. Fazia aquilo de propósito, sabia que a curiosidade iria incitá-lo a descobrir o quê estava em sua mente.
— Não quero que se chateie. – Ela desviou.
— Não irei me chatear se me contar. Eu prometo.
Nicky mexeu nervosamente no cabelo, como se ainda estivesse hesitante.
— É só que... Você já é um homem feito.
Ele sorriu com o elogio e ela diminuiu o volume de sua voz.
— Não acha que não precisa mais de nossa mãe mandando e desmandando em você, dizendo o quê deve ou não fazer? Um rei não deveria se submeter à sua mãe, ele tem uma autoridade muito maior que a dela.
Joffrey lhe franziu as sobrancelhas. Nunca havia pensado daquela forma. Cersei realmente possuía um grande controle sobre ele, quando deveria ser o contrário.
Quando ela corou tristemente e se afastou, ele a segurou pelo cotovelo.
— Eu não devia ter dito isso. – Se corrigiu. – Ela vai enlouquecer comigo, por favor, não diga nada. Por favor, esqueça.
— Não precisa se envergonhar. – Ele acariciou o tecido com firmeza o bastante para ela sentir em sua pele. – Só está preocupada comigo. Aprecio isso.
Ela sorriu por fim e ele mudou de assunto.
— Ainda conversa com Sansa?
— Não nos falamos há muito tempo.
A ruiva agora já não lhe dava o mínimo olhar, o quê magoava um pouco. Desde que Robb Stark massacrara alguns milhares de vassalos Lannister, a moça andava sendo cada vez mais alvo da raiva de Joffrey.
A situação estava se tornando tão violenta que a agredira e desnudara na frente de toda a corte no dia anterior. Se estivesse presente (estava com o irmão mais novo), talvez convencesse o rei a usar de menos violência. Ele estava bastante frustrado por ter de se casar com ela.
— Preciso me desfazer desse contrato. – Bufou como um garoto teimoso que precisava comer os legumes antes dos doces. – Garota estúpida...
Ela não respondeu. Ainda pensava sobre o quê Joffrey queria dizer quando lhe perguntou sobre sua opinião sobre os costumes Targaryen.
Ela almoçou com Joffrey naquela manhã e logo se retirou para ter com os outros irmãos.
— Joff anda ocupado com o reino. – Tommen comentou com a irmã enquanto ela mexia em seu cabelo, sentada atrás dele ao lado de Myrcella, que bordava.
— Eu sei. – Murmurou, acariciando os fios dourados do irmão. – Joffrey tem um forte peso nos ombros, mas você... Você é o meu príncipe.
O menino riu e Nicky sorriu, lembrando-se de Bran e Rickon.
— Eu poderei ver você crescer e ajudarei nosso irmão a escolher sua esposa. Escolherei a dedo, não se casará com ninguém que não seja muito bela e muito inteligente.
— Quero um casamento bonito. – Avisou.
— E terá. – Prometeu. – E eu verei Lords e Ladys correndo pelo Rochedo sempre que for visitá-lo.
— O rochedo? – O menino se virou.
Ela confirmou. Tywin nunca deixaria Tyrion ser Senhor do rochedo.
— Não sabe? – Ela o olhou nos olhos. – Nosso tio Jaime é da guarda real, e nosso Tio Tyrion não parece alguém que planeja casar e ter filhos. Acredito que você será o senhor do Rochedo. Mas quem sou eu para dizê-lo com alguma certeza?
Ele sorriu e ela voltou ao que fazia.
— Você se parece com a mamãe.
A cada dia todo o castelo notava mais sua semelhança física com Cersei. O próprio tio havia se assustado ao vê-la com em um dia ensolarado com os cabelos presos de uma forma diferente e com um vestido vermelho.
“Por um segundo, me vi no Rochedo há décadas com sua mãe”, ele disse “quase fugi correndo”.
— Espero que isso seja um elogio. – Brincou. – Nossa mãe não parecer ter muito tempo para passar conosco, os filhos.
Tommen negou tristemente.
— Não tem hoje. Mas ela costumava ter. Passava os dias conosco, nos ensinava o quê sabia... – Ele contou. – Mas não mais. Anda ocupada com o reino.
— Bem. – Sorriu. – Eu não preciso me ocupar com o reino. Preciso me ocupar com você e Myrcella.
O garotinho sorriu, deixando os dentes muito brancos à mostra no rosto rechonchudo.
— Eu poderia trazer Leona para você vê-la. – Comentou. – Mas parece ter tanto medo dela...
— Não gosto de lobos. – Fez bico. – Mamãe não expulsou seu animal do castelo por você ser apegada a ela.
Leona a lembrava do norte e dos Stark. Nunca abriria a boca para dizer, mas se pudesse estaria com Robb Stark, marchando contra os Lannister. Esperava que, quando os nortenhos vencessem, eles a perdoassem por se manter em silêncio. Ou que pelo menos a dessem uma morte rápida e indolor.
— Quando acha que essa guerra vai terminar? – Ele indagou.
— Em breve. – Prometeu. – Joff vencerá e viveremos felizes.
Naquela noite, passou a madrugada cantando e brincando com a loba, algo que não fazia há alguns dias.
— Tenho a impressão de quem as coisas vão mudar por aqui, garota. – Tocou o pelo dourado. – Mas talvez não seja de uma forma boa.
(...)
A morte de Renly foi anunciada dias depois. Cersei estava radiante e Joffrey eufórico. Corriam boatos de que uma mulher – Sim, uma mulher – de sua guarda havia executado o serviço, enquanto outros diziam que uma sombra havia feito o trabalho sujo.
Naquela manhã, as aias a separaram um vestido verde elaborado, com um par de joias combinando. Apenas usava aquele tipo de vestido quando precisava se portar como uma princesa.
— Tenho alguma atividade na corte? – Indagou às aias.
Ninguém lhe respondeu coisa alguma, e foi Tyrion que a buscou nos aposentos.
— Creio que saiba que ligações são importantes. – Ele narrou. – Às vezes temos de nos afastar de nossas famílias para um bem maior. Somos mandados para muito longe para o bem do reino.
Ela o olhou, intrigada.
— Está me mandando para a muralha? – Alfinetou.
— Não, minha querida. – Se adiantou. – Tenho planos diferentes para você.
Seu coração parou no meio do peito. Se ele não estava falando dela...
— Sua irmã será esposa de um Lord poderoso, num lugar lindo e...
Ela não pôde acreditar no quê ouvia.
— Para onde está enviando Myrcella? – O interrompeu. Não tinha estômago para baboseiras e desculpas.
— Dorne.
(...)
Nicky permitiu-se chorar apenas quando estava ao lado de Tommen. Soluçava como um bebê enquanto a irmã se despedia da família sem derramar uma lágrima sequer. Enquanto a princesa mais nova ia embora num barco, era ela quem estava abraçada ao irmão menor enquanto Joffrey o chamava de bebê de peito.
Voltou para o castelo ao lado da mãe e do irmão, montada numa égua negra como a noite sem luar na capital empoeirada. Atrás de todos, não soube bem o quê houve para iniciar a revolta, mas os gritos contra a mãe soaram altos e claros. Fora ainda mais cercada de guardas quando a luta se iniciou, mas não se importou de correr entre a multidão ou bagunçar os cabelos.
Todas as vezes que correu nas florestas do Norte com Jon e as poucas vezes com Robb lhe vieram à mente enquanto ela voava entre a multidão, que lhe abria caminho ao notar que sua fúria não seria diminuída por sua presença. Que se danassem os cavaleiros se não fossem rápidos o bastante para alcançar seu cavalo.
— Nicky. – Cersei berrou atrás de si.
Quando o animal parou na passagem pequena demais que tomara, ela logo sentiu um de seus pés a ser puxado por dois rapazes e caiu do cavalo. Os dois estavam mal vestidos e sujos, provavelmente moradores das ruas da baixada das pulgas buscando por uma donzela que pudessem estuprar.
Não seria ela, certamente.
Uma vez, em Winterfell, havia sido encurralada por alguns dos bastardos que andavam com Ramsay Snow e, não fosse por Jon, teria sido ferozmente agredida. Desde aquele dia o irmão decidira que ela devia saber se defender como um homem, e ela havia aprendido muito bem.
Embora não fosse forte, a adaga que ganhara de presente estava anexada a sua perna como sempre desde o incidente com Sandor Clegane.
— Veja o quê temos aqui. – O mais velho, que não devia tem mais de 22 anos, sorriu. – A princesa está sozinha. Não tem medo do perigo mocinha?
“Que os deuses me ajudem”— Ela implorou mentalmente.
Ela o olhou dos pés a cabeça com nojo e medo, e logo o mais novo se aproximou, tentando empurrá-la para o chão e surpreendendo-se com a força com a qual ela se segurou em seu braço, usando um dos joelhos para atingi-lo nas partes mais sensíveis.
— Você é arisca. – O primeiro sorriu, abrindo as calças com uma mão e agarrando seu cabelo com a outra. – Gosto disso.
Ela caçou a adaga entre os vestidos com pressa, sabendo que não teria muito tempo antes que ele conseguisse derrubá-la. Ele não percebeu quando a lâmina brilhou e infiltrou a mão entre as pernas femininas, rasgando os vestidos, não tendo tempo antes que ela cortasse parte de sua pele com o aço afiado. O rapaz puxou a mão com o susto, vendo o sangue correr surpreso.
Antes que ele pudesse reagir, ela empurrou a adaga em seu peito mais vezes que pôde contar, mas não pareceu durar mais que dois segundos. Quando ele caiu, o outro estava de olhos arregalados e ela correu inconscientemente em sua direção, puxando-o pela cabeça e cortando sua garganta.
Sem testemunhas.
Nicky correu para o cavalo logo que guardou a arma, e o animal parecia não ter se mexido naquelas poucos minutos. Ela pulou em seu lombo e correu em direção à fortaleza vermelha com as mãos e roupas sujas de sangue, sem que seu corpo estivesse ferido. Seu coração estava acelerado e seus cabelos desgrenhados, e ela agradeceu mentalmente pelas lições do irmão.
O cavalo negro atravessou a porta da fortaleza e ela só percebeu que havia e estava chorando no chão quando o tio se aproximou preocupado, vendo o sangue que havia se transferido de suas mãos para sua face.
— Pelos deuses. – Ele exclamou. –Nicky, você está machucada?
Ela negou com a cabeça, assustada com o quê acontecera o quê fizera. Nunca havia se importado com a morte dos outros, mas era a primeira vez que havia matado um homem.
Dois.
Todos os outros estavam cercando o rei, e ela agradeceu mentalmente por isso. Joffrey nem mesmo havia percebido que ela estava ali, parecendo furioso.
— Não senhor. – Conseguiu dizer.
— Vá para seus aposentos. Limpe-se e... Faça o quê quiser fazer.
Quando ela se pôs de pé, o rei abriu espaço entre os cavaleiros para ir até sua direção.
— Está ferida? – Ele se preocupou e ela negou com a cabeça, vendo que seu rosto estava sujo de merda. – O quê houve? De onde veio todo esse sangue?
Nicky negou com a cabeça, assustada demais para falar sobre aquilo.
— Eu preciso ir para meu quarto. – Desvencilhou-se dele com pressa. – Com licença.
Antes que a mãe pudesse lhe ver, correu entre os corredores até o próprio cômodo, onde um banho lhe esperava.
— Senhora... – Uma delas começou a dizer ao vê-la, assustada com sua condição.
— Fora. – Mandou. Quando elas não se mexeram, sua voz se tornou um grito. – Todas vocês, fora daqui. Agora!
Limpou-se sozinha e à adaga com parte do tecido do vestido. Quando terminou, o jogou no fogo.
A cama nunca lhe pareceu tão convidativa. Acordou para o jantar e voltou a adormecer naquela noite. Na manhã seguinte, tinha dores estranhas na barriga, como se lhe houvessem cortado o ventre.
Sua mão correu pelo tronco, procurando por cortes ou sangue onde não havia nada. Não ali.
Levantou-se com lentidão temendo que doesse mais. Seus olhos, mais que rapidamente, pousaram na mancha vermelha e redonda nos lençóis, logo sabendo que se estendia por sua roupa de dormir.
Não. Não. Não. Não. Mil vezes não.
Estava sendo paga pelo sangue que havia derramado na baixada da pulga.
Era uma mulher agora. Podia se casar e ter filhos.
E podia ser afastada da corte.
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