Next Dimension
34 Tu Fui, Ego Eris!
Notas iniciais

"As you are, I was; as I am, so you shall also be".
"Como você é, eu era; como eu sou, então você também deve ser".
Silent Hill 3
CONTEI DEZ VEZES em um exercício contínuo para atenuar o estresse que vinha da antecipação — repetindo junto a respiração regulada. Tracei mentalmente planos de comportamento, etiqueta e todas as regras convencionais de eventos de grande magnitude, revisando o que conhecia a respeito de cerimônias análogas ao que iríamos participar. Me encarei no espelho de corpo todo somente para julgar com ferocidade minha aparência simplória e pouco lisonjeira: não tive uma pausa para sequer botar uma maquiagem ou acessórios mais apresentáveis e ficar com o visual que combinasse com a ocasião.
Bufei.
Por que me importaria algo tão superficial?
Por um instante, que durou menos que um sopro, cogitei perguntar para Alexander como deveria proceder e recordei que ele não tinha voltado comigo e Dante. Inferi a hipótese dele ter retornado e levado Nero a Fortuna inteiro, uma informação que precisava averiguar mais tarde, ao sair dessa situação que incitava a ansiedade em mim.
— Sabe, doçura, se continuar andando assim pelo quarto todo vai acabar deixando marcas pelo chão. — Dante comentou acomodado em uma poltrona, me vigiando afiado feito uma águia.
— Eu não gosto da ideia de virar o centro das atenções. — forcei uma risada. — A propósito, acha que o Nero e o Alexander voltaram em segurança?
— Não dizem que as notícias ruins são as primeiras a chegar? — assenti com sua indagação assertiva. — Os dois dão conta do recado.
— Tem razão. Eu não preciso ficar mais nervosa, vai dar tudo certo. — respirei fundo retomando a contagem.
Dante estendeu a mão para mim assim que se firmou de pé e imediatamente a segurei, entendendo o gesto como um respaldo físico.
— Vamos?
— Sim.
Rain nos aguardava do lado de fora e, pacientemente, explicou laconicamente o ritual, simbolismo e os paralelos presentes no que se compõe a solenidade. E, para ser bem honesta, não imaginava que seria assim quando ela mencionou que precisaria falar com todos os habitantes. Jurava que fosse um encontro somente para agradecer o apoio de todos. E realmente gostaria de saber quando foi que mudaram o rumo das coisas — que até agora estava claras e certas.
Segundo Orion, com o meu retorno do Submundo — que seria, aparentemente uma provação espiritual — eu tinha que ascender como regente da ilha e a ultima descendente de Unchant das dimensões. E dessa forma, manter o equilíbrio entre o bem e o mal e todas essas coisas repetitivas e clichês. Como uma espécie de reconhecimento, para que todos possam saber quem eu era — duvido que alguém na ilha não saiba a essa altura.
Indo por partes, a cerimônia como me explicaram era que o Paladino — equivalente a um bispo no catolicismo — me reconhecesse como a verdadeira reencarnação da deusa — que no caso é a Arya, para todos da ilha ela é uma espécie de deusa — e que feito isso, eu possa tomar meu lugar como guardiã e protetora não só da ilha como do véu dimensional e os mundos (Eu seria a única que poderia fazê-lo). Era um processo bastante complicado, pois não sabia ao certo se estava preparada para tamanha responsabilidade. Quem que, antes dos vinte, tem a compreensão absoluta de algo dessa estirpe?
Acenei para os pequenos grupos que me lançaram um olhar gentil e eufórico durante o percurso.
Tantas perguntas rodeavam minha mente. Algumas delas nem saberia se um dia encontraria as respostas. Depois de várias coisas acontecendo ao mesmo tempo, já começava a acreditar que ficaria um longo tempo nesse mundo. E tudo só foi possível por... Repentinamente, igual uma percepção que brotou do mais fundo da memória, me questionei de onde aquele pacote de Devil May Cry 4 tinha surgido. Não que me arrependesse de ter ficado ali, mas vendo de uma outra perspectiva.... Se a Arya era como o Alexander, então eu mesma tinha o poder de voltar ao meu mundo? Se é o caso, como acessar tal capacidade? E quem deixou o pacote no meu quarto? Por que Ace cometeu tantas atrocidades por me querer perto?
Uma onda nauseante confundiu minha cabeça e Dante deu um leve toque no meu ombro para me tranquilizar. Talvez ele entendesse meu receio ou sentisse. Uma coisa boa de tudo isso foi ter conhecido pessoas incríveis que me ensinaram muita coisa, principalmente Dante que se tornou meu pilar, uma âncora. Meu protetor e amante. Com ele podia suportar qualquer coisas, faria qualquer coisa e todas as dificuldades sumiam.
Levantei um pouco o vestido que Rain pediu — mais insistiu — que usasse (a cara limpa e um vestido ritualístico deve ter ficado um espetáculo). Era bem diferente de todos os vestidos que me deram de presente quando cheguei; branco de caimento leve, a parte do busto era banhando em ouro como couraças de hoplitas, havias algumas formas emoldurando-o. Em outras palavras, parecia uma daquelas imagens de vaso de guerreiras da antiga Grécia.
Era um longo caminho do casarão até o templo. Atravessamos as ruas sob olhares atentos a cada passo que dávamos. Nunca me acostumaria com esse tipo de coisa. As pessoas estavam alvoroçadas, e dava para entender tanto ânimo. Fomos cercados assim que chegamos ao templo para variar, duas celebridades praticamente.
Todos abriram caminho para Orion, ele mantinha uma expressão pacifica e afetuosa. Sua túnica era branca com detalhes dourados e com pequenos desenhos em prata reluzia em meio as cores mais sóbrias e os olhos inteligentes me analisaram com um meio sorriso se formando em seu rosto. Orion fez sinal para que me aproximasse.
Engoli em seco, e olhei Dante por cima dos ombros como uma permissão muda. Ele assentiu e piscou.
Caminhamos para o centro do grande aglomerado.
— Neste glorioso dia, nossa deusa — Orion aponta para mim, instintivamente me encolhi — se eleva entre nós. Depois de quase quinhentos anos, ela regressa para nosso meio junto com o descendente do grandioso Cavaleiro Negro Sparda.
Dante fingiu um bocejo de desinteresse.
— Agora seja bem vinda, — Orion pôs uma mão sob o peito se ajoelhou e todos imitaram seus gestos — nossa deusa!
Curtiria mais se todos me tratassem só como Diva mesmo.
Ouvi gritos de euforia que me deixaram ainda mais desconfortável. Um jovem rapaz entregou uma espada para Orion, e ele a estendeu para mim. Era uma katana especial com sulcos que se ramificavam por toda lâmina.
— Pode não ser tão poderosa quanto o Santo Graal. Mas será de grande ajuda — peguei insegura — Ela possui esses detalhes para se adaptar ao seu sangue. Essas ranhuras foram especialmente concebidas para que possa fluir para base e distribuído por toda lâmina.
Fiquei admirando o desenho da espada. Podia não ser nenhuma especialista, mas tinha algo de belo e útil nela que me fazia sentir um tremer de adrenalina correr por todo meu corpo. Poderia mesmo usá-la para me ajudar?
— Talvez queira ver se não é de seu gosto — enunciou calmamente.
— A melhor maneira é testando — ouvi uma voz familiar se sobrepor. Virei-me e perplexa, vi que era ninguém menos que Vincent — no campo de batalha.
Vincent rapidamente sacou a espada, andando até mim deliberadamente riscando a lâmina no chão. Ele parecia pronto para cortar qualquer pessoa que atravessasse seu caminho. Podia ver a frieza em seus olhos. Estava acostumada a inexpressividade e o olhar vazio e sem brilho, mas, naquele momento, era muito diferente. Como se na minha frente, estivesse outra pessoa e não o enigmático e tranquilo Vincent.
— Em outras palavras quer lutar comigo?
— Isso mesmo — confirmou, posicionando-se — é melhor que todos se afastem.
Todos obedeceram sem questionar, Dante, porém, optou permanecer no mesmo lugar. Fiquei feliz que ele não tenha interferido a meu socorro. Eu não queria que ninguém impedisse, pois a meu ver seria uma luta não apenas para testar o poder destrutivo da katana, mas saber e medir minha força. Dante pareceu entender bem isso, e essa era uma das vantagens da nossa conexão, ela permitia nos comunicar não só através de palavras.
Estendi a espada em direção de Vincent. Estávamos em uma curta distância um do outro. Dei impulso e saltei para trás. Não era uma boa ideia lutar com vestido, parecia que dificultava meus movimentos. Por sorte eu tinha treinado o básico com Dante o manuseio de uma espada, contudo ainda possuía algumas diferenças entre uma criada por energia e um real. Podia sentir o leve peso da lâmina e sua frieza sob minhas mãos.
Obviamente, Vincent devia ter muito mais experiência no campo de batalha do que eu. Podia perceber no modo que seu corpo demonstrava relaxamento e compenetração.
Mal pisquei meus olhos quando vi um mero borrão negro avançando rapidamente contra mim. Tive tempo somente para usar a katana para me defender do ataque repentino. Agora estávamos cara a cara, e nossas lâminas soltaram faíscas quando se tocaram. Ele exercia muita força e me arrastava para trás. Meus pés tentaram encontrar algo para se apoiar e me travar em uma única posição.
Com esforço, usei a espada para empurrá-lo para longe. E novamente, sem perder tempo Vincent desferiu uma sequencia de golpes. Ágeis e dolorosos, eles cortaram e rasgaram minha pele e o vestido, deixando-o com manchas vermelhas. Mesmo tendo desviado da grande maioria, não consegui evitar recebê-lo. Meus músculos começaram a protestar pela dor e a força que exercia sobre eles.
— Muito lenta — ele ralhou indiferente. Então, golpeou meu estômago com a bainha da espada. A súbita perda de ar me pegou desprevenida e deixou-me momentaneamente indefesa.
Arfei, tentando me recompor.
— Como pode proteger seu povo se mal consegue proteger a si mesma — a lâmina da espada de Vincent roçou fria e cortante meu rosto. Lancei-lhe um olhar gélido, tendo uma impressão familiar com aquilo.
— Em vez de me olhar assim, concentre seu poder em me atacar. Ações são mais precisas que gestos simples. Se quer que eu pare de te humilhar, faça algo! — seu tom era tão monótono que me irritou profundamente.
Cuspi um pouco de sangue e limpei o canto da boca, sentindo o gosto amargo.
Busquei em cada respiração a calma para aquele momento. Tinha que me concentrar apenas no meu alvo. Passei a mão pela extensão da espada e fiz um corte deixando o sangue fluir pelo vinco para todas as ranhuras. Vincent não seria afetado pelo poder do meu sangue, mas fora uma ação quase que involuntária... Não, foi uma intuição, uma vontade primitiva.
Não era uma espadachim experiente, nem uma exímia lutadora nem nada do gênero. Entretanto, preenchida por uma sabedoria ancestral, pude revigorar meus sentidos e me posicionar com mais competência. Vincent atuou com meu súbito elevar de confiança, me arremessando para longe com o golpe que seria potencialmente fatal se intuitivamente não tivesse usado a espada como bloqueio e a derrubando no processo.
— Levante. — Vincent pediu com urgência. — Agora. Descanse quando isso terminar.
Me ajoelhei entre arfadas de ar, ciente que ainda não tinha alcançado grandes feitos com uma espada e que precisaria refinar meu domínio.
— Levante, Diva. — ele chutou a espada para perto da minha mão. — Pegue e lute.
Meu olhar vagou até Dante com o cenho franzido.
— Desceu ao inferno atrás da alma dele e ainda não consegue nem combater. — Vincent repreendeu, severo. — É assim que pretende demonstrar sua força?
Me recompus, usando a espada para me reerguer cambaleante. Vincent, sem se deter, avançou ferozmente contra mim e, queimando com adrenalina, agarrei a lâmina e a parti com a mão envolta pela aura dourada tão característica. Com o coração aos pulos, estendi o braço para afugentá-lo de alguma maneira e uma luz cegante fora emitida com o ato desesperado fazendo-o recuar com os olhos fechados.
Alterada pelo ocorrido e hórrida pela mera suposição de tê-lo afetado gravemente, retrocedi portando a espada.
O gatilho, pensei em choque. O meu gatilho era o medo.
Vincent se endireitou como se não tivesse acontecido.
— Venha. — indicou para me aproximar. Para não atrapalhar, rasguei o vestido. Deixando minhas pernas nuas enquanto o frio batia impiedoso por elas. — Algo você já deu uma amostra.
Munida com uma chama de confiança que cresceu após a combustão da adrenalina, me movi com tanta agilidade que era como trespassar a velocidade da luz. Pela primeira vez, vi uma expressão de surpresa em seu rosto e, em seguida, surgiu um sorriso quase imperceptível. Tentei usar minha energia na lâmina e aumentar o poder, ela uniu-se ao sangue e brilhou. A luz era um brilho incomum, o misto de dourado e vermelho. Muito estranho. No entanto, não me parou e continuei a atacar Vincent que conseguia desviar de cada um das investidas sucessivas. Como, de algum modo, ele previsse meus movimentos.
— Chega. — disse, por um segundo, nem parecia ser minha boca e voz pronunciando aquelas palavras. Em um piscar de olhos e o mais impressionante, eu estava sob Vincent com a espada a poucos centímetros do rosto apático dele. Até mesmo nessa posição, ele não mostrava emoção alguma. Sai de cima dele, espantada com meu desempenho.
Estendi minha mão para Vincent e ele a pegou, rapidamente o puxei. Ele, tranquilamente limpou as roupas, por mais incrível que possa parecer — levando em conta a luta que aconteceu anteriormente — suas roupas negras como a noite estavam intactas. Nem um mínimo corte. Havia somente um minúsculo filete de sangue em sua bochecha. Rain apareceu ao lado do irmão, já ajoelhada.
— Lamento pelos transtornos, mas tinha que ser testada. — agora tanto Rain quanto Vincent me reverenciavam. Nunca me acostumaria com esse tipo de coisa — Provar o quão digna é.
— E eu passei? — indaguei aturdida.
Vincent assentiu.
— Ainda precisa se aperfeiçoar mais, no entanto.
Perdendo o equilíbrio, abandonei a espada e me permiti que meu corpo cedesse a exaustão, sendo interceptado por Dante em um abraço recompensador.
— Essa é minha garota — sorri com sua afirmação. — Estou muito orgulhoso, doçura.
— Acha que sou boa? — perguntei com charme e meio grogue.
— Já vi melhores. — fiz uma careta de indignação. — Estou brincando.
— Meu vestido já era. — olhei para o estrago — ele era tão bonito.
— Se quiser podemos trocar — Rain informou, sorrindo.
— Não, estou bem assim. — Dante me estabilizou e manteve a mão em minhas costas para se assegurar que não iria desmoronar. — Foi um jeito meio maluco de ascensão. — ri. — Se não fosse eu a lutar, teria achado bem épico.
Fechei os olhos e liberei, irrestritamente, minha aura para banhar o espaço que ocupávamos, imbuindo o local com o resplendor de ouro sem medo. Houve gritos e palmas de contemplação que encheram meus ouvidos.
Ergui o punho em frenesi.
— Obrigada a todos pelas orações e apelos pelo sucesso da missão, faremos o possível para trazer o Santo Graal de volta! — garanti determinada, trocando olhares com Dante que assentiu em cumplicidade.
Pisquei deslumbrada.
Um buquê de flores estava pertinentemente estendido na minha frente. Ele estava tremulo, só então percebi que quem segurava o buquê era a mesma garotinha que me abordou quando cheguei à ilha. Seu nervosismo era visível.
Toquei as mãos dela quando peguei o buquê.
— Obrigada — agachei para ficarmos na mesma altura — Como se chama?
— Karen! — ela respondeu.
— Você que colheu essas lindas flores para mim, não é?
Karen assentiu.
— Elas são tão lindas quanto você — Karen soltou uma risadinha animada. Havia muitas flores que quase saltavam aos olhos pela vivacidade e sua beleza. Porém que me chamou mais atenção fora, sem duvida alguma, a rosa azul. Aproximei-a do meu rosto e inspirei profundamente seu cheiro. Era suave e doce. Tirei-a de perto das outras flores e piquei o dedo com os espinhos.
— Oh, não! Sinto muito, esqueci-me de tirar os espinhos — Karen murmurou decepcionada, seus lábios tremeram e quase desencadearam um choro nervoso.
— Não tem problema, mas não quero que chore, sim?
— Uhum, não vou chorar — Karen sorriu e retribui.
Karen correu para a mãe dela que estava entre a multidão. Olhei para o pequeno corte, doía bastante para algo quase minúsculo.
— O que houve com seu dedo? — Dante perguntou, tombei minha cabeça para trás para poder vê-lo.
— Hm, nada! — mexi suavemente na rosa, sendo cautelosa no manuseio.
Dante pegou minha mão e lambeu meu dedo. A princípio fiquei chocada e extremamente envergonhada, mas estava tão hipnotizada que me deixei levar. No momento nem parei para pensar na possibilidade do poder do meu sangue sobre Dante. Afinal ele era um mestiço de demônio e meu sangue aparentemente — assim como de Arya — pode matar demônios exatamente como aconteceu com o Santo Graal. Minha mente focou-se apenas em seu gesto. Senti a língua quente dele deslizar pela ferida com leveza.
Quando me soltou, percebi que não exista mais corte em sua superfície. Minha pele estava impecável.
— Não sabia que podia fazer isso — sussurrei espantada.
— São as vantagens de ser um demônio.
— Ah, qual é! Você não tinha esse poder antes.
Estreitei os olhos desconfiada.
— Depois da nossa volta do Inferno, adquiri umas coisinhas novas. — deu de ombros quase que cheio de si.
— Sério? Tipo novos poderes?
— Não sei bem, mas é o que parece.
— Não é algo temporário?
— Quem sabe?
Sorri. A viagem serviu tanto pra estreitar laços quanto para novas aptidões.
Esfreguei os olhos.
— Sabe o que seria uma boa? Voltar pra casa e descansar. Aqui é tranquilo e legal, mas nada como o lar pra se sentir a vontade. — me espreguicei, mudando repentinamente de assunto. — Preciso de um sono longo e rejuvenescedor, afinal aconteceu muita coisa e tudo de uma vez só.
— Está ansiosa para voltar para o seu mundo?
— Não, quando falei "casa" estava pensando na sua agencia Devil May Cry. — ruborizei com a confissão espontânea. — Quero dizer... Se tornou minha casa também tecnicamente...
A compleição de Dante foi de graça a uma suave ternura, a face de afeição genuína.
— Claro. Você sempre será bem-vinda, doçura. Mi casa es sua casa. — acabei despontando em uma gargalhada. — Também preciso de um descanso. — se esticou, estalando os ossos no ato.
— Você passou um tempo bem longo dormindo, então não é como se fosse necessário. — brinquei.
— Acha pouco ter que cuidar de você?
— Não é culpa minha que querem me caçar. Ou é demais pra você?
— Com tantas coisas realmente chatas e arriscadas no meu ramo de trabalho vou ter problemas para tomar conta de uma garota? — replicou em um tom falsamente acusatório.
— De qualquer forma, temos que ir... — exaltei fundo e com a valentia renovada, proferi: — Atrás do Ace de algum jeito. Contatar Eryna também pode ajudar.
×××
Ao pôr do sol estavam todos reunidos para nos despedimos. Odiava despedidas, então tentei ser o mais breve possível. Rain e Vincent permaneceram na Isla e prometeram me visitar quando puderem. Fiquei um pouco triste em deixar o lugar e a atmosfera acolhedora e mística que me causou boa impressão, mas era melhor assim. Ainda tinha muita terra pela frente e queria acabar logo com tudo de uma vez. Quem sabe em outro momento possamos passar um tempo por essas bandas, dar uns passeios, passar as férias, decerto outras oportunidades surgirão. Por hora me contentaria em ver Eryna e Maya. Fazia um bom tempo que não as via e precisávamos de um enfoque no problema que Ace seria com o Santo Graal.
Recordando o que aprendi no livro que Alexander me deu, peguei as mãos de Dante e centrei minha mente na imagem de Eryna: segundo as escrituras, o teletransporte funciona, para “novatos”, se tiver, pelo menos, ido ao local uma vez. Como já estivemos na casa de Eryna antes, a chances de sucesso seriam maiores do que foi o desastre para chegar a ilha. Quase fui ver se no céu tem pão!
A ardência gentil se espalhou pelo meu corpo e a luz nos envolveu quase que prontamente, sem incidentes, sem interferências, somente um piscar de olhos e já estávamos no saguão de entrada na qual se encontrava a estátua de Sparda.
— Consegui! — comemorei alto. — Dessa vez sem dar ruim!
— Está melhorando. — Dante sorriu. — Sem quedas dessa vez.
— Diva? Feiosos? — olhei para Dante e segurei o riso, ele deixou um suspiro escapar.
— Alguém tem que ensinar essa garota boas maneiras...
Distante, pude avistar a pequena figura de lolita de vestido branco.
— Maya!
Aquele momento parecia uma cena de filme, quando os personagens partem para o abraço em Slow Motion. Maya praticamente jogou-se em meus braços e quase cai, Dante me segurou antes que o pior acontecesse.
— Diva! Dante! — as lágrimas já transbordavam pelas feições delicadas de Maya. Ela me soltou e abraçou Dante, que ficou sem reação e deu leves batidinhas na cabeça dela. Se perto de Dante eu já era pequena, Maya parecia uma criancinha. — Estou tão feliz em revê-los!
Maya nos guiou para dentro do museu.
— Minha irmã ficará contente em vê-la! Ela estava aflita por causa de uma visão. Pensamos que tinha morrido.
— Na verdade eu realmente morri.
— Como?
— É uma longa historia, mas no momento quero ver Eryna e conversa com ela, e assim posso explicar tudo.
— Claro — concordou — Irmã, olha quem está aqui.
A primeira coisa que botei os olhos quando cheguei à sala de Eryna, foi a estranha figura mascarada. Era uma mulher, disso tinha toda certeza. E algo me dizia que a conhecia... De onde?
A mulher ficou me encarando. Tentei dizer a mim mesma que era ridículo, e que ela não teria motivos para me dissecar assim sem mais nem menos. No entanto, sabia que ela olhava diretamente — e fixamente — para mim. De um modo curioso, como se visse através da minha alma.
Foram os minutos mais estranhos da minha vida.
Sem dizer mais nada, ela saiu. Quando ficamos alinhadas momentaneamente, uma sensação de reconhecimento e familiaridade atravessou meu corpo e despertou meus instintos.
— Nos veremos de novo, Ivy. — ela segredou. Desnorteada, virei para questioná-la, contudo ela havia desaparecido. Sumido no ar, era a única explicação coerente.
Quem diabos era ela e como sabia meu nome?
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