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50 Temperança e Unidade
Notas iniciais

ESCOVEI O CABELO COM os dedos, desembaraçando-os com suavidade para comportá-lo em um penteado que não exigisse complexidade nem tempo demasiado de elaboração, ajustando os fios desalinhados para conseguir prendê-los com uma presilha discreta. Ao colocá-lo, movendo os dedos pelo local, senti a fina cicatriz escondida entre mechas, logo na lateral da cabeça e acima da orelha direita, não possuía profundidade para determiná-lo como um antigo ferimento grave, mas era largo o suficiente para representar uma dúvida: não recordava sua procedência.
Tracejei, com o indicador, a linha teorizando sobre as maneiras que a adquiri e não conciliando com nenhuma memória importante da minha tenra juventude ou um período relativamente próximo. Desde que vim parar nesse mundo, qualquer machucado tem uma recuperação quase total, sem cicatrizes visíveis pelo corpo e fica mais fácil saber que foi muito antes.
Fechei os olhos e uma fisgada pulsante atravessou meu cérebro feito uma fina adaga, trazendo flashes meio obscuros de memórias: as pessoas presentes não tinham rostos, como manequins que se moviam e se comunicavam em um idioma estranho e pouco legível.
Até uma ganhar foco;
Esparramada no tapete felpudo, encarei as figuras do livro com seriedade — nele se contava a história de dois irmãos que se separavam e a jornada que realizaram para se reencontrar. Era um conto bastante simples pra uma criança, na época parecia inimaginável se perder de alguém que amava e demorar anos para revê-los.
— Então... Você continua vendo o seu amigo imaginário? — Lyana perguntou, deitada ao meu lado.
— Ele não é meu amigo imaginário. Ele existe. — respondi, distraída com as gravuras. — Ele não vem sempre, só quando estou sozinha ou triste.
— E como ele é?
— Eu já falei várias vezes. Esqueceu? — retruquei ainda dispersa.
— Não, não esqueci é só... — a voz dela ficou distante e tudo ao redor se desmaterializava.
O turbilhão de memórias se desfez em um redemoinho de escuridão me deixando tonta e agonizando com a feroz pulsão dolorida que me tragou.
O que foi isso? Ele quem? Amigo imaginário?
Respirei fundo, afugentando os receios que se agitaram em meu âmago. Abri a janela para que o ar matutino circulasse pelo cômodo deixando que o frescor atenuasse o calor pelo corpo. Enquanto marchava preguiçosamente para porta, tropecei nas roupas que Dante deixou jogado pelo chão do quarto, que significa que terei que arrumar tudo novamente.
Por um instante, um que guardarei para mim, aspirei o perfume impregnado no tecido da camisa e ri baixinho como, mesmo o cheiro dele, tinha algo fora do comum e ser estranhamente cativante. Desde pequena, meu maior trunfo se devia ao meu olfato, com essa excêntrica capacidade olfativa conseguia armazenar cheiros que associava a memórias e sempre que o experimentava casualmente podia descrever claramente o evento no qual está conectado.
O aroma característico do meu Devil Hunter favorito serviu como bússola em determinados momentos com a certeza de que nunca seriam uma simples lembrança.
Chacoalhei a cabeça e, para adiantar, recolhi as roupas e coloquei no cesto para lavar depois. Me deslocando para o andar de baixo, vi Dante cochilando na sua cadeira e, sem se mexer, o ouvi saudar com um tom rouco antes de que alcançasse o banheiro para lavar a cara. De frente ao espelho, notei que meus cabelos estavam um pouco maiores e a coloração vermelha não era tão visível quanto antes. Fazia um bom tempo que cortara o cabelo e os tinha pintado, mas aquilo chegou a ser absurdamente rápido demais.
Tomada por uma epifania, uma noção absoluta de que nunca me dei conta de quanto tempo estive nesse mundo. Passaram dias, talvez meses, aliás, muitos meses.
Eu ainda quero voltar? Deveria? A vida aqui não é fácil, mas me sinto fortemente ligada a isso. Mas... E minha família?
— Ei, Divinha. — Lyana apareceu, quase pondo a porta abaixo, gritando alegremente como uma criança, sua cara tão iluminada que estranhei. Conhecendo-a bem, coisa boa não era. — Dormiu bem, Diva?
— Mais ou menos — forcei um sorriso, para ao menos não aparentar um zumbi. Lyana arqueou as sobrancelhas insatisfeitas, seus lábios flexionados. Automaticamente olhei para o seus braços que seguravam pacotes com embrulhos. — O que é isso?
— Um presente para você e seu namorado? — palpitou esperando que eu a corrigisse. — Seu meio-demônio.
— O nome dele é Dante.
— Ninguém liga. — retrucou com acidez remanescente do contato cheio animosidade de ambos. — Espera um pouco... — ele arqueou a sobrancelha, começando a juntar os pontos e sabia que isso seria vergonhoso antes que ela soltasse a primeira frase. — O Dante que você babava no jogo? O que você escrevia em fanfics? Juro que não reconheci.
Arregalei os olhos, constrangida.
— Eu lembro quando você comprou um daqueles travesseiros de corpo todo dele. — ela gargalhou e tudo que queria fazer era correr o mais longe possível para não ter que confrontar a humilhante revelação.
— Fanfic? — travei com a fala do meio-demônio.
— É ficção de fã. Histórias de fãs. Lembro de ter lido umas que a Diva escreveu sobre você, agora vendo vocês juntos ela deve ter realizado todas as fantasias molhadas dela e não ironicamente o presente será perfeito pra ocasião. Quem diria as coincidências da vida.
Dei uma olhada discreta em Dante e pela respiração trancada e o tremor que corria pelo corpo dele evidenciou que não somente ouviu como esta contendo o riso. Naquele momento, queria uma pá para cavar um buraco e me enterrar lá ciente de que ele usaria isso contra mim futuramente. Minhas bochechas pulsavam em ardor, enquanto meu corpo involuntariamente se encolheu.
— E como eram essas ficções da fã que tanto fala? — Dante incentivou o lado fofoqueiro da Luana, rompendo por completo qualquer inimizade em menos de cinco segundos.
— Ela não te contou? — ela me fito curiosa. — Não contou a ele?
— Não. — guinchei constrangida.
— Opa, foi mal. — sibilou sem graça. — Bem, vou cortar o papo furado e ir direto ao que interessa. Sua surpresa!
— Depois dessa vergonha, espero que valha a pena.
— Você adora surpresas, Diva. Isso nunca falha.
— As de comer no caso.
— Eu sei, mas essa vez não é de comer. Se soubesse teria comprado comestíveis. — Lyana depositou a pacote ao meu lado e foi entregar o outro menor para Dante. Empolgada, retirei a fita da caixa e o desembrulhei. Dentro de um emaranhado de papéis e tecidos brancos, havia uma algema de pelúcia preta e vermelha e um chicote. No começo não entendi onde Lyana queria chegar com presentes tão incomuns e excêntricos, sem contar que eram desnecessários a não ser que fosse fazer uma sessão masoquista ou algum filme pornográfico com esse teor. Porém quando vi o que Dante ganhara, soube exatamente as razões obscuras e insanas na mente dela.
— Já imagino o que você deve estar estranhando a intenção do presente...
— Eu não pratico BDSM — murmurei com uma expressão de constrangimento.
Não pude deixar de ficar envergonhada quando os olhos azuis de Dante escureceram, instigando deliberadamente segundas intenções, e imperturbadamente mostrou os pacotes de camisinha de várias cores. Lyana riu da minha reação e sentou perto de mim.
— Por que...?
— Agora que você tem um namorado, tem que tomar as devidas precauções. — a diversão dançava no tom dela. — Gostou do presente?
— Ah, bem... Sim, só que não acho que vou usar nem nada... — limpei a garganta, tentando disfarçar meu extremo rubor.
— Mas fica como provisão pro futuro. — Lyana chacoalhou a cabeça e me deu o que parecia uma presilha. — Esse é o real presente, tome. É uma lembrança — seu sorriso se tornou momentaneamente melancólico. — Do Alexander.
Não disse nada enquanto a deixava ajeitar o acessório no meu cabelo.
— Ficou linda.
Pensar em como a situação era pra Lyana com o conhecimento que tenho, muitos dos comportamentos dela, que outrora parecia esquisito e impositivo, agora faziam sentido — algumas como técnicas de afrontamento. Ela não ficava com ninguém por estar presa demais no passado, ao que sentia por Alexander. Não julgo as pessoas pelas formas que escolhem abordar traumas e amores antigos, mas as vezes me questiono se isso é saudável pra ela e se a solidão não a incomoda nesse contexto.
— Podemos conversar em particular?
Lyana se surpreendeu com o pedido e acatou de imediato. Ela varreu cada extensão do cômodo com os olhos assim que entrou, estudando calmamente os mínimos detalhes em busca de algo relevante. Ou simplesmente ela estava achando graça da excêntrica decoração.
— Eu esperava outro tipo de decoração considerando que é um quarto de homem solteiro — alfinetou. — Ex solteiro.
— Não é esse assunto que... — massageei as têmporas. — No cruzeiro você falou da relação que tinha com o Alexander. Muitas das coisas que você me dizia agora se encaixam, acho até que você estava projetando — dei um sorriso, sem nenhum rastro de condenação, e mirei Lyana imóvel e com semblante triste.
— Sinto muito por ficar no seu pé, te colocar em situações complicadas. — colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Ei, não estou chateada. Tem lugares e momentos que não combinavam comigo, só que... Você me tirou da minha bolha e me deu um pouco de luz, sou grata por isso. Entretanto... — houve um longo segundo de silêncio. — Gostaria de saber antes, poderia ter feito mais por você.
— Não se preocupe, você já fez só por estar bem. — ela me abraçou apertado e protetoramente.
— Tem uma outra coisa... Preciso que me responda algumas questões pendentes.
— As suas ordens — bateu continência.
— Primeiramente; quanto tempo estou "supostamente desaparecida"? — indaguei dando ênfase na última parte.
— Praticamente há um ano, mais ou menos nove meses.
Nem tinha contado tudo isso, perdi mesmo a noção do tempo.
— E como estão meus pais?
— Eles estão bem na medida do possível, ainda um pouco abalados com seu desaparecimento só que estão um pouco conformados principalmente com a ideia que você possa estar morta.
Arquejei.
De fato virei uma estatística.
— Não se preocupe que quando você retornar tudo voltará a ser o que era. — o sorriso de Lyana fez meu coração se apertar dolorosamente em meu peito.
— Sim... Quando voltar...
— Ugh que cara. — cruzou os braços, estudando meu rosto. — Está cansada?
Uma coisa boa era que Lyana não é tão perceptiva em certas situações, nem sempre ela poderia saber como me sentia. No entanto, era melhor que fosse assim, pois na devida hora contarei minha decisão.
— Exausta você quer dizer.
— Tudo bem, — deitamos frente a frente, Lyana brincou com algumas mechas do meu cabelo. — recorda-se da música que sempre cantava para você dormir quando ficava na sua casa?
— Claro, nunca esqueceria.
— Wandering child of the earth (Vagando filho da terra)... Do you know just how much you’re worth? (Você sabe o quanto você vale?) — ela começou suavemente. — You have walked this path since your birth (Você andou este caminho desde o seu nascimento)... You were destined for more (Você estava destinado a mais)
Esfreguei os olhos.
— There are those who?ll tell you you’re wrong (Há quem vai dizer que você está errado)... They will try to to silence your song (Eles vão tentar silenciar sua música)... But right here is where you belong (Mas aqui é onde você pertence), so don't search anymore (Então não procure mais) — segui junto com ela, aos poucos meu corpo foi se perdendo no cansaço.
Lyana prosseguiu sozinha enquanto relaxei com os efeitos calmantes da voz dela e da doce musica que cantava.
Estava tão frio.
O céu estava tomado por um leve vermelho macabro misturado com o azul enevoado, as nuvens pareciam grossas e carregadas. Apesar de mal poder abrir meus olhos completamente, e o sono entorpecer meus sentidos sabia com absoluta certeza que tinha algo errado. Fui trazida bruscamente a superfície da consciência pela dor excruciante em todo meu corpo, a pior de todas era a que pulsava em meu peito. Meus pulmões rejeitavam a entrada de ar como se fosse um corpo estranho que devia ser erradicado urgentemente. Minha cabeça estava encostada na relva de um ângulo bizarro, inclinada tontamente para o lado. O ar congelado atravessava meu corpo de forma violenta e dolente.
Tentei manter meus pensamentos coerentes e conexos para assimila-los corretamente, porém eles escapavam por entre meus dedos iguais a água. Não conseguia, de modo algum, ter enfoco estável. A única coisa que pensava era a dolorosa força que prendia ao chão. Meus esforços para me movimentar eram em vão. Havia um gosto amargo em minha boca que estava um pouco seca e a língua inchada perto de refrear minha tentativa de buscar oxigênio. Cada respiração era demasiada tortura, no qual não possuía mais forças para combater. Queria chorar e pedir ajuda, mas minha mente gritava autoritária que devia ter orgulho e não fraquejar mesmo naquele estado. O líquido denso e poroso subiu pela minha garganta sufocando-me momentaneamente, e naquele momento pensei que seria meu fim. Em meio aquela confusão de percepções, veio repentinamente em minha mente: Dante. Estava com tanto medo de morrer sem vê-lo, sem ao menos dizer adeus. Embora resistisse ao impulso de me entregar a névoa escura que me puxava cada vez mais para a inconsciência, tinha plena certeza de estar perdendo a luta.
Agora que meus pensamentos voltaram a ferver ao meu redor, perguntei-me quando havia chegado ali, se bem me lembro estava com Lyana e adormeci. Então o que seria tudo isso?
Tossi fracamente para desobstruir minhas vias respiratórias que queimavam como se tivesse ácido dentro dela. Ouvi passos macios se aproximando. Ainda embriagada de sono e dores lancinantes, que me jogavam contra um misto do limbo da incoerência e do completo afogamento em águas fundas e do terrível despertar.
Senti que alguém moveu delicadamente meu corpo, me posicionado frente à figura que para mim e minha visão turva não passava de um vulto. O toque era ardente e cheio de preocupação que comoveu meu coração. Aos poucos minha visão foi clareando, e a imagem foi tomando mais nítida até que já conseguia ver inteiramente. Usando uma mão ele elevou-me para ficar mais perto, tendo todo cuidado para não abrir ainda mais a ferida. Reconheci de imediato às feições do homem; os olhos azuis como o céu, a pele clara e calorosa, os cabelos prateados penteados elegantemente para trás, as roupas que predominam o roxo e preto. Primeiramente ele encarou com pesar meu peito escorrendo sangue, depois seu olhar encontrou o meu. O toque suave em meu rosto foi suficiente para me fazer sorrir — uma ação independente.
— Por favor, mantenha os olhos abertos — Sparda pediu, sua voz era exatamente como imaginava um sopro alto e grave — forte e inabalável —, e perfeito de um sino. Minha mão mexia-se sozinha, sem que eu tivesse controle para evitável e ergueram para tocar o rosto de Sparda. Diferente do que necessitaria — ideal para mim —, elas nem sequer completaram o caminho, Sparda a segurou quando estavam prestes a cair.
— Sparda... — sussurrei, perdendo a força.
— Eu estou aqui, tente não se preocupar e não ouse desistir... Arya.
Ele me chamou de Arya?
Não ouvi errado, ele realmente me chamou assim. Isso seria um sonho?
Mas por que parecia tão real?
— Sparda... — repeti vagarosamente, lutando contra a névoa branca e entorpecente que me envolvia. — É o fim, não é?
— Não fale. Poupe suas forças.
— Não tem mais volta, então... Me prometa... — ele fixou a atenção em mim e nesse momento a imagem sumiu dando lugar ao fervor do pânico.
Acordei assustada e ofegante. Um raio cortou a noite pela janela dando um rápido brilho, iluminada vagamente à escuridão. Olhei com desânimo para os pingos que caiam pela vidraça, recuperando-me do susto. O barulho constante da chuva e do vento deu um pouco de calma para meu coração que faltava subir para boca. Abracei meu travesseiro, notando que não havia ninguém no quarto além de mim. Saltei da cama, indo em direção ao escritório no andar inferior. Kane choramingava pelos raios barulhentos que perturbava o silêncio do local. Acariciei a cabeça dele, transmitindo tranquilidade e sentindo seus pelos fofos sob meus dedos.
Dante devia estar em alguma missão perigosa, enquanto eu estava com medo até da minha própria sombra. Fiquei encucada com o sonho, principalmente pelo fato de que parecia real demais. Considerando que sonhara com Sparda e ele me chamou de Arya, obviamente seria uma lembrança da minha vida passada — pelo que pareceu, mais da minha morte. Esse tipo de experiência me deixou fragilizada a ponto de querer me esconder debaixo das cobertas até cair no sono, mas receava ter um letargo semelhante. A minha determinação me impedia de dar uma de covarde, ainda que... Não fosse um medo real.
É a sensação de solidão, de perda... De sacrifício.
Experimentei uma sequência intrusiva de emoções, todas que, a princípio, não pude definir; angústia beirando o horror, ansiedade ao pânico, a tristeza a impotência e a dor de perder algo. Era confuso toda a percepção de um luto não existente, mas não impediu que me engolfasse.
Permaneci deitada no sofá encarando o teto de madeira ouvindo as músicas aleatórias que rolavam no jukebox. A chuva do lado de fora ganhava força, culminando em uma torrencial tempestade. Entediada passei por todo escritório, uma hora olhando rapidamente as coisas noutra arrumando-as. Inexplicavelmente, uma sensação ruim atingiu a boca do meu estômago que só se aplacou com a chegada dele.
O alívio de ver Dante foi mortificante demais para suportar. Ele estava encharcado da cabeça aos pés, e o incomodo era perceptível. Em um único gesto largou o casaco no chão e sentou despreocupado no sofá.
— Noite difícil?
— Com essa chuva? Com toda certeza. — Dante me encarou com um sorriso. — E você? Achou algo pra passar o tempo?
— Estava te esperando. Parece um daqueles dias que você só quer a pessoa certa com você.
— É uma maneira de dizer que sentiu minha falta?
— Talvez. Então, não deveria tirar a roupa? Vai molhar o sofá.
— Sinta-se livre pra tirá-las pra mim — sugeriu em tom de brincadeira, esticando preguiçosamente os braços para dar fácil acesso a ele.
— Vou buscar uma toalha. — me levantei e peguei a primeira limpa que encontrei, o que não era uma tarefa fácil considerando o número quase escasso delas. — Como sobreviveu sozinho sendo tão descuidado? Não é por ser um meio-demônio que deve ser negligente.
— Eu tenho meus métodos. — a intensidade no qual seu olhar se fixou em mim fora o bastante pra que o calor subisse pelo meu pescoço e se concentrasse em minhas bochechas. — Claro que não reclamo se tiver alguém pra lidar com essa parte do trabalho.
Comecei a secar o cabelo de Dante, passando pelo couro cabeludo com cuidado e deslizando pelas mechas enquanto, também, desembaraçava um pouco. O processo não se limitava somente em enxugá-lo, era também um zelo extra que estava mais que disposta a oferecer. As vezes tinha que lembrar que não havia mais um muro intransponível entre nós, que não necessitava me certificar de cada ação não fosse muito mais do que se deveria.
Agora não tinha razões para evitar.
— Se o meu papel for cuidar de você, farei de bom grado. — toquei suavemente a bochecha dele.
— Assim você me estraga, doçura.
Os desejos reprimidos, trancados a sete chaves, começaram a transbordar junto ao fascínio inerente dele. As dúvidas e questionamentos foram esquecidos quando nossos lábios se encontraram em um beijo urgente. Nem me importei de me molhar, só queria senti-lo desesperadamente.
— Fica comigo essa noite. — minha voz saiu rouca pela falta de fôlego.
— Uma noite?
— Por essa e todas as que virão. — sussurrei perto de seu ouvido enlaçando nossas mãos.
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