Next Dimension

78 Somos Um (Final Alternativo)


Notas iniciais
Depois de anos, muitos mesmo, tomei vergonha pra postar o final alternativo. Espero que gostem (e aproveitem pra reviver essa longa saga) 🩷

ANTES QUE MEUS PÉS EXAURIDOS tocassem o terreno íngreme e gélido, braços calorosos me ampararam com ânsia fervorosa, a necessidade tangível de tato — uma real troca física. Embora tudo nele gritasse imponência e poder, seu aperto destoava com a imagem que possuía ao me abraçar delicadamente medindo sua própria força, me embalando feito uma peça frágil de porcelana. O aroma cítrico — a mistura singular de pólvora, álcool e uma dose sutil de morango — embriagava meus sentidos, despertando em mim a chama de esperança que por pouco não se extinguira. Durante todo o calvário, tortuosos e incontáveis dias aguardando uma sentença que nunca viria, não conseguiria deixar de pensar nele e em tudo que enfrentamos juntos, todos os preciosos momentos que compartilhamos e os sentimentos que floresceram dessa improvável convivência. Ninguém nunca mais me tiraria dele, nem nos separaria novamente.

Afundei o rosto contra o peito dele, me agarrando firme e desesperadamente quanto a insaciável sede de tê-lo perto, de matar a saudade há muito guardada. Dante riu, sem romper o ato e me permitindo gastar as últimas reservas de energia na contemplação muda dessa união. Tudo que ocorrera antes, agora, após a queda do véu cinza que obscurecia minha razão, parecia um pesadelo que se desvaneceu feito uma recordação assombrada para nunca mais retornar. Soltei um longo suspiro com a onda massiva de esgotamento que me acometeu, trazendo-me a realidade na qual já estava praticamente sem mais fôlego e navegando a deriva pelo mar da inconsciência, resistindo mais alguns minutos para evitar meu destino.

Dante me ergueu com cuidado para que vislumbrasse a imensidão do céu estrelado acima de nós — a prova de que o esforço valera a pena. Focalizei nas diversas constelações que graciosamente testemunhavam o desenrolar da vida no planeta imaginando como seria o futuro dali pra frente, se, com a queda de Ace, tudo se encaixaria em seus devidos lugares. Pensar nele me agitou por dentro, por mais que suas ações tivessem sido movidas por emoções nefastas trazendo consigo consequências severas, não tinha como negar o papel dele nessa trama e que, querendo ou não, era responsável pela minha vinda a essa dimensão.

Ele finalmente poderia encontrar a paz que sua alma tanto almejava.

Sorri com a visão da lua e seu resplendor místico que repousava sobre nós, atribuindo a Dante o mesmo aspecto de quando o vi pela primeira vez, porém mais ciente de sua identidade e muito mais conectada a ele. O cenário parecia tão propício, ideal para me abrir, mas estava perdendo a batalha e o cansaço começava a afetar bem mais que meu raciocínio. Meus lábios se moveram, contudo, nenhum som fora emitido, algo que capturou a atenção de Dante que me fitou com a mesma intensidade de sempre, como se nada tivesse mudado nesse curto intervalo de tempo.

— Queria poder ver mais das estrelas do seu lado. — murmurei ao encontrar minha voz, torcendo para que não falhasse. — Me sinto tão cansada.

— Descanse, doçura.

— Não. — arquejei teimosa. — Não quero dormir. Tenho medo de não estar comigo quando acordar, de tudo não passar de um sonho.

— Prometo que estarei do seu lado quando acordar.

— Mesmo?

— Sim. Acho que já mostrei que levo minha palavra a sério, não é? — o sorriso confiante dele aquietou a sombra de insegurança que obscureceu momentaneamente meu coração. — Eu serei a primeira pessoa a te dar o bom dia, Diva.

Estremeci com o beijo terno e cheio de significado que Dante depositou em minha testa, lentamente sendo conduzida para a escuridão reconfortante.

Esfreguei os olhos com a silhueta prostrada sobre mim, encarando-me com um sorriso afável. A massa dourada sedosa que reluziam a cada movimento e as duas ametistas que, por esse longo período de aprendizado, me transmitiram a confiança que mais precisava para ultrapassar as adversidades e encontrar a força que existia dentro de mim mesma, o sorriso carregado de orgulho que dedicava somente a mim, Alexander se agachou e afagou minha testa como costumava fazer para me consolar quando era criança. Agora que recuperei uma parcela das lembranças, podia afirmar com toda certeza que ele tinha sido meu anjo da guarda e um amigo que me direcionou para o caminho certo.

— Não pude ir sem vê-la pela última vez, estrelinha.

As lágrimas escorriam pelas minhas bochechas em um fluxo contínuo com a menção do apelido carinhoso.

— Essa foi a última lição que deveria aprender.

— Isso quer dizer que vai embora?

— Você não precisa mais de mim. — não havia tristeza em seu tom, algo mais como admiração. — Mas não significa que te deixarei, sempre estarei aqui — indica meu coração. — Seja feliz, Diva. Viva e acredite na sua verdade, em quem você realmente é e no que pode fazer.

Estiquei a mão para alcançá-lo e Alexander desapareceu em pequenos vultos diáfanos púrpuras.

“Acreditar na minha verdade”

Me remexi agitada, minha consciência sendo empurrada de volta para superfície a medida que tudo ao redor ficava claro e real. Abri os olhos para vislumbrar uma fonte de luz suave que não ardeu em minhas retinas bastante sensíveis — uma lâmpada com a luminosidade baixa que conferia ao ambiente uma atmosfera de mistério. Duas mãos aqueciam a minha e, ainda meio grogue, me fizeram encará-lo. Entorpecida, lutei através da névoa que encobria meu campo de visão e arfei com a imagem de Dante segurando-me.

— Bom dia, doçura.

— Você... Está mesmo aqui.

— Exatamente como prometi. — lançou um sorriso travesso. Ele pressionou com leveza ao me aconchegar em si, não aplicando força no gesto e plantando um demorado beijo no dorso de minha mão. — Você passou um bom tempo dormindo.

— Sinto muito a demora, espero que não tenha te deixado esperando por muito tempo.

— Esperaria o tempo que fosse por você.

O peso de sua resolução me preencheu com uma poderosa onda de energia revigorante que soprou para longe os conflitantes e nebulosos receios que, por um instante, se assentaram em meu coração.

No andar inferior podia ouvir claramente vozes conhecidas, não segurei a exultação com a assimilação, pois não há nada que estar com quem se importa comigo assim como a certeza de que nenhuma tristeza pudesse me alcançar com eles perto. Agora não existia mais um perigo nos rondando, pairando sobre nossas cabeças semelhante a uma nuvem negra. O principal adversário morto teria o sossego para viver uma vida tranquila ao lado do homem que amo.

Sorri.

Estou onde nunca devia ter saído: a agência Devil May Cry cercada de pessoas que desenvolvi um poderoso e inquebrantável laço. Esquadrinhando o cômodo que, durante praticamente um ano, dividi com Dante e no qual compartilhamos afeto e segredos, não havia mudado nada nesse interim. Eram poucas diferenças perceptíveis, entretanto continuava sendo o mesmo espaço aconchegante e íntimo de sempre. E, claro, o perfume dele permeava o ar enchendo-me com o cálido reconhecimento.

Sem me largar em nenhum segundo, Dante me ajudou a levantar e, acompanhando meu ritmo mais lento, meus primeiros passos vacilantes tal qual uma criança aprendendo a andar. As vozes ficaram mais altas à medida que avançava pelo corredor e descia vagarosamente os degraus que rangeram suavemente com o novo peso. O cheiro característico do local encheu minhas narinas embriagando-me com sensações prazerosas de conforto e animação. Naquele momento, pareceu uma reunião dos alunos de vinte anos como nos filmes americanos. Eles conversavam e brincavam de um assunto que não compreendi ao certo o que era. Ri internamente pela comparação.

Diminuí a ritmo até parar, observando a cômica cena.

— Isso é uma reunião da turma do ano passado? E esqueceram de me convidar? — questionei num falso tom acusador. E julgando pelas diversas expressões estampadas nos rostos de meus queridos amigos — Nero, Trish, Lady, Anna, Maya, Eryna e Lyana —, eles não esperavam a minha ilustre aparição. Lyana correu desesperadamente para meus braços, prendendo-me num típico abraço de reencontro. Ela chorava baixinho não querendo demonstrar seu estado de lamúria e contentamento.

— Ah, minha Divinha! — sua voz soou abafada e embargada. — Estive tanto medo de te perder!

— Me perder? — repeti meio absorta, procurando uma explicação plausível para a estranha constatação. Lyana afastou-me o suficiente e que a encarasse. As maçãs do rosto dela coradas e os olhos emitindo um brilho molhado desencadeado por lágrimas.

— É que... Mesmo sabendo da sua fragilidade e que... — Lyana começou a titubear sem encontrar uma maneira de me contar. — Bem, Eryna disse que seu corpo chegou no limite quando fechou o portal e que para se recuperar completamente você entrou em uma espécie de hibernação. Resumindo: você dormiu por uma semana inteira.

— Uma... Semana...? — as novas informações atordoaram-me, porém consegui disfarçar. Para mim eu estive desacordada somente por dois dias e saber que dormi tanto é estranho.

— Estávamos preocupados que você nunca mais fosse... — Lyana respirou fundo, aparentemente desgostosa em relembrar. Então balançou a cabeça juntamente com a cabeleira ruiva, afugentando pensamentos negativos e um ligeiro sorriso formou-se nas feições carregadas de júbilo.

— Estou muito bem! — acrescentei sorrindo. — Nunca estive melhor!

Involuntariamente pousei a mão sobre o peito, uma sensação indescritível brotava do meu âmago e estremeci com o choque que me chacoalhou.

— Diva? — escutei a voz de Nero romper o torpor no qual me deixei mergulhar.

Sorri pra ele.

— Ei, você! — Anna prendeu a ponta do meu nariz rudemente e o comprimiu dolorido. — Nunca mais nos preocupe desse jeito, idiota!

— Aí! Eu entendi, por favor, não arranque meu nariz — pedi com voz anasalada devido à pressão que Anna exerceu. — Aí, Anna!

Anna largou-me e dei uma mexida na região dolorida com uma expressão mais aliviada, pensei que ela fosse amputar meu pobre nariz. Para minha surpresa, Anna me acolheu nos braços como se certificasse que estava bem.

— Você é a pessoa mais insana que conheci superando o próprio Dante, mas — ela deu leves batidas no topo de minha cabeça, bagunçando meus cabelos já muito desgrenhados. — não é que você salvou o mundo? Está no caminho certo. Contanto que não viva fazendo besteira como certa pessoa...

Flexionei meus lábios num sorriso sem graça. Aceitei alegremente um a um os comprimentos daquelas pessoas que enfrentaram intermináveis e cansativas lutas para me socorrer quando, de certa forma, desisti da minha própria fé. Nunca teria como agradecer adequadamente cada um deles e verbalizar meus sinceros votos de gratidão. Meus atos de amor fraternal perante todos fora o único modo que julguei ser mais sincero para demonstrar o carinho, queria transmitir o quão plena e amada sentia-me conforme prosseguimos com o ritual — que criamos para eternizar o momento.

Contei detalhadamente o que me fez tomar uma decisão tão precipitada em relação à Ace e que houve durante o tempo que convivi ao lado do inimigo, recebendo olhares compreensivos em troca.

Ainda que houvessem períodos obscuros e perigos além da imaginação, jamais seria maior que os laços forjados através de experiências partilhadas e sabia que não estaria solitária ali. Rodeada de boas vibrações e sorrisos, meu coração transbordava felicidade. A conversa fluía animadamente entre piadas e risos. Enquanto distraídos, meu olhar esperançoso visualizou cada um dos presentes, estudando-os e que fizeram pensar que tinha muita sorte em ter amigos verdadeiros que se preocupavam com meu bem estar e o homem que amava. Por mais “final de anime” que soasse, adorava como tudo aquilo se desenrolava.

Fomos interrompidos por um ruído sinalizando que alguém batia na porta, Lyana correu para atender gritando a plenos pulmões “Eles chegaram!”. A princípio não prestei muita atenção no motivo do alvoroço, no entanto, mudei de ideia ao ver Rain e Vincent entrarem. A postura concentrada e séria de ambos era um pouco incomoda e enrubesci ao se colocarem de joelhos diante de mim como se eu fosse uma figura superior e deveriam prestar respeito. Para mim, eles são preciosos amigos então era desnecessária tanta formalidade. Cruzei os braços em contrariedade, eles entenderam erroneamente e prontificaram em pedir desculpas.

Amável e materna afaguei os cabelos de ambos, sorridente.

— Se acalme, sério, não é necessário tudo isso. Somos amigos, não é? Então gostaria que nos tratássemos assim. — expliquei ajeitando uma mecha rebelde do meu cabelo atrás da orelha.

— Mas... — Vincent começou e logo o cortei.

— Não, não quero que vivam em função dessa missão, de verdade. Ainda que lutem por mim para cumprir a promessa que fizeram pra o Alexander, vocês são meus amigos. Não quero guerreiros, nem guardiões e sim amizade de vocês. — exclamei com simpatia.

— Ah, você as tem, Diva! — Rain respondeu sorrindo entre lágrimas.

— Bem, antes que me esqueça — os fitei com seriedade, certa de que, ao mencionar o artefato, automaticamente acenderia uma chama antiga de pesar neles pelo que aconteceu com Ace. Independente da minha relação complicada e fatal com ele, não podiam descartar os anos que foram uma família.

Pausei para tomar fôlego.

— Preciso pedir um favor. — sustentando a postura plácida e cortês, prossegui com meu pedido.

O sofrimento que se ocultava por trás da máscara de alegria me deixou com um gosto amargo na boca. Se as coisas fossem diferentes, talvez, pudesse ter salvado Ace da ambição desenfreada e da mágoa que ele alimentou por anos. Embora nós tivéssemos nós confrontado inúmeras vezes e que nossos encontros tenham sido regados de raiva, a queda dele acabou sendo triste para os implicados, no caso, para quem o conhecia verdadeiramente.

— Podem levar o Santo Graal de volta? — fechei os olhos momentaneamente. — Ela recuperou o poder que perdeu com meu retorno e restabeleci a energia que faltava — Lady alinhou-se comigo carregando o pingente que a espada se tornou e entregou a Vincent.

— Faremos o melhor para realizar seu pedido, Diva. — Rain sorriu.

— Obrigada.

Mirei minha mão, o ápice de todas as borbulhantes emoções que brotaram em meu interior. Totalmente consciente, sobretudo dos poderes que carregava devido a minha herança espiritual, abri um portal estável que levaria direto para a área de apresentação do que um dia fora a terra natal de Arya e que, na era atual, não passava de ruínas do passado, uma marco histórico esquecido. Não sei a razão principal para que, de todos os lugares para ir, incluindo a ilha onde Rain e Vincent residiam, decidi que seria essa a melhor opção. Sem questionamentos, segui unicamente minhas mais primitivas intuições e, talvez, uma parcela da consciência da minha encarnação anterior.

— Ei, não vá sozinha para qualquer canto. — Dante alertou tocando meu ombro para frisar sua auto inserção na epifania. — Acabei de te trazer de volta, não vai repetir a dose e se perder de novo, certo?

Não pude conter o riso.

— Não. — concordei, atravessando o portal com o caçador em meu encalço.

A quietude abismal marcava a inexistência de vida e a única luz que repousava em todo seu resplendor pelas antigas construções vinha da lua. O vento trazia consigo murmúrios solitários e um frio capaz de congelar até o coração mais bravo de todos, entretanto, ainda continuávamos de pé, juntos naquele pequeno segundo que pertencia exclusivamente a nós dois.

— Você não deseja ver sua família agora que tem o controle de seus poderes? — Dante indagou sem cerimônia. — Eles devem estar cheios de cabelo branco, até os encontre uns vinte anos mais velhos quando retornar — acrescentou espirituoso.

— É estranho pensar nisso a essa altura. — comentei. — Esse era o plano desde o começo e, depois de tudo que houve, meu propósito mudou. Ainda quero vê-los, claro, mas tenho certeza da minha decisão.

— Pretende ficar?

Assinto.

— Isso significa que nossa jornada terminou. — anui com firmeza. — Você... Ainda quer estar comigo?

A pergunta surpreendeu Dante e a mim também, por mais que muita coisa tenha dado frutos e disso tenha amadurecido num relacionamento ainda não queria dar por certo.

— Sei que é uma pergunta estúpida depois de ver todas as provações que passou por mim, pra me salvar.

— Eu fiz minha escolha, e ela é ao seu lado. — Dante disse com a sua irreverente confiança tão apaixonante como sempre. — Além disso, quem mais séria indicado para ser seu protetor? Você tem um péssimo histórico de se meter nas situações mais perigosas. — concluiu com bastante petulância e diversão. — Sou a sua melhor alternativa, no caso, a única.

— Seu ego consegue superar... — minha contestação fora rompida com o abraço repentino e inebriante dele, tão fugaz que me desorientou. Meu coração bateu fortemente contra minha costela, martelando rápido e descontrolado.

Tinha tanto para lhe falar, arrancar do mais fundo de mim o que ansiava contar, da imensidão dos meus sentimentos por ele, contudo, o silêncio entre nós se opôs a quaisquer uma de minhas tentativas. Sem mais distância, equívocos tampouco intrigas, somente duas almas que voltam a se conectar.

Nunca imaginei que vivenciaria a epítome do verdadeiro amor por mais piegas que soasse.

Os olhos azuis celeste contemplavam cada detalhe do meu rosto, retraído numa avalanche de percepções. Ele não trajava seu vermelho sobretudo somente a justa camisa preta, uma visão não tão incomum quanto se sugere. Ouvindo seus batimentos cardíacos não pude deixar de ficar satisfeita; estava aspirando sua fragrância familiar, o calor proveniente do seu corpo que irradiava feito um sol para o meu. Correspondi com toda vontade guardada, experimentei os sentimentos contidos transbordarem por todas as células do meu corpo, e preencheu o vazio de outrora — o terrível e massacrante pressentimento de ser oca, uma peça incompleta.

— Dante, eu... — ele calou-me antes que lhe expressasse meu arrependimento, o beijo brusco e faminto tirou meu fôlego e minhas pernas bambearam pela intensidade do gesto que retribui de imediato. Ele tocou meu braço esquerdo e deslizou até minha mão, ele apertou-a afavelmente depositando o anel, que jurava ter perdido, no meu anelar. Estupefata e contente, admirei o adereço em adoração.

— Estou te devolvendo o que você esqueceu, doçura.

— Oh. Muito obrigada, Dante — sorri agradecida.

Dante tinha um efeito extasiante sobre mim, sendo mais que capaz de juntar os cacos do meu coração quebrantado com seu abraço terno.

— Depois de tudo é a minha deixa: — me fitou. — você está certa do que deseja? Você quer ficar?

— Não há nenhum lugar que eu queira estar que não seja aqui. — sussurrei em segredo. — Não acredito muito em destino, mas se ele existe, sempre encontraria o caminho de volta pra você.

Alguém pigarreou, cortando o clima e como um estalo e separei-me hesitante de Dante. O vermelho brilhante cobriu meu rosto, queimando-o em ondulações do meu pescoço a minhas bochechas. Levou alguns segundo para recuperarmos o sentidos e lembrar onde estávamos e que, independente da nossa redoma, ainda tínhamos aos presentes.

— Desculpe atrapalhar os pombinhos, só lembrem de que tem plateia. — Lyana alegou, estendendo a mão para mim que imediatamente agarrei.

Uma pulsação inóspita me sacudiu com truculência e, antes de atravessar o portal, mirei, por uma última vez, o que sobrou da antiga civilização dos Peregrinos.

— Algo errado, doçura? — Dante perguntou.

Neguei com a cabeça.

— Agora que tudo foi resolvido, mocinha salva — Lyana anunciou, alegre. — Poderíamos comemorar. Uma festa? Confraternização? O que acham?

Não pude evitar sorrir com a proposta, assistindo todos interagir com gracejos e comentários bastante provocativos uns com os outros.

— Dante. — Eryna elevou seu tom, rompendo o ambiente entusiasta que se instaurou. — Tem algo a dizer sobre o que conversamos?

O caçador não respondeu, parecendo um pouco imerso em pensamentos antes de me encarar, de início, imerso em divagações, seu semblante se alterou ligeiramente e um sorriso confiante se formou a medida que ele clareou o que, deduzi, lhe causava dúvidas — seja lá o que tenha sido, Dante estava muito convicto e... Esperançoso. Contagiada pela energia que ele emanava, tão aconchegante e imensurável, que se existia o mais mínimo resquício de angústia florescendo em mim, desaparecera por completo. A resplandecência do azul cerúleo tão fascinante que me prendia sempre que nossos olhares se cruzavam, me fizeram acreditar fielmente que nada no mundo seria um obstáculo que não pudéssemos superar, tudo que precisávamos era um do outro e isso bastava.

Ele mostrou um frasco pequenino com um conteúdo desconhecido e o esmigalhou com a pressão de seu punho cerrado.

— Estou bastante consciente dos riscos, mas não vou deixá-la enfrentar isso sozinha. Posso estar sendo egoísta agora por privá-la de uma vida normal. — seus dedos percorreram meu cabelo com cuidado, escovando os curtos fios com os dedos calejados. — Não estou preparado para te deixar ir, sinto muito por isso.

Essa pequena ação me comoveu a um ponto que não contive as lágrimas que vagarosamente escorriam pelas maçãs do meu rosto. Mesmo que não entendesse o rumo que o assunto tomava, notei que o tópico era eu.

Ele me escolheu, escolheu estar comigo.

— Não tenho nenhum outro lugar para estar. — repeti encolhida em seus braços que me forneciam a segurança que carecia.

Escutei um suspiro longo de Lyana.

— Caramba! Isso foi um susto! — minha melhor amiga exclamou aliviada. — Posso dizer que foi um final feliz.

— Acho que só faltou um pedido de casamento igual nas novelas. — Maya comentou e não segurei a risada.

— Apesar de conhecer bem sua impulsividade e suas motivações, espero que a vida dos dois seja próspera e mais que felizes. — Eryna congratulou com a fisionomia serena, ainda que, por um instante, identifiquei um traço de apreensão. Ocorreu tão rápido que não soube definir se seria uma obra da minha imaginação ou, de fato, real. Dei o benefício da dúvida da questão. — Cuide bem dela, Dante.

— Eu cuidarei. — repousou o braço em meu ombro. O déjà vu me atordoou por uns segundos, trazendo consigo algumas doses de nostalgia.

— A gente está sobrando aqui. — Nero anunciou esfregando a nuca.

— Melhor deixarmos os dois matarem a saudade. — Trish completou brincando.

— Já que é pra comemorar, vamos beber e por minha conta! — Lyana saltou eufórica.

Não achei a melhor das ideias, mas me limitei a observá-los sair, um por um.

— Eles deixaram a gente aqui. — sem controle ou filtro, comecei a rir constrangida. — Acha que eles voltarão?

Dante deu de ombros.

— Quem sabe? — ambos rimos.

Retornamos ao início: igual nossa primeira interação aqui ao que parecia séculos atrás.

— Talvez esteja na hora de sossegar, sabe? — andou até o sofá e sentou desleixadamente. — Ter um refúgio, algo para voltar em segurança. — Dante se ajeitou. — Estou falando como um velho, mas assim é a vida. — deitou a cabeça no encosto do sofá.

— Está pensando em se aposentar?

— Não. — ele me encarou. — Estou mais disposto a me estabelecer com você.

— Espera... — ergui a mão, analisando os sinais óbvios que passaram despercebidos. — Isso foi um pedido de casamento? De verdade? — deslizei o polegar singelamente pelo anel.

— Ainda tem muito tempo pra isso, não concorda? — assenti. — A propósito... Ainda está de pé o encontro com pizza? — arregalei ligeiramente os olhos, emocionada. Ele ainda recordava dessa bobagem. Fazia quanto tempo isso?

— Você é... — a risada ecoou.

— O melhor? Eu sei. — replicou mordaz. — Vamos?

Ele estendeu a mão e a segurei, balançando a cabeça.

— Claro.