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79 Promessa Pacífica (Epílogo Alternativo)


COM O BADALAR DA MEIA-NOITE um novo ciclo nasce — sagrado como o juramento de dois amantes. Abrigados no remanso, os corações batendo no mesmo compasso, sem nada a ser proferido com um interlúdio entre a ação e a resposta, ele facilmente poderia recitar infindáveis vocábulos para convencê-la, contudo, se dedicou a exprimir em gestos — derramar sua segurança em atos.

A luz argenta se filtrava pela cortina que tremulava com o sopro suave da brisa noturna, repousando mansamente sobre a figura a sua frente — criando um cenário etéreo que nunca imaginou ser possível. Embora ostentasse a fachada de extravagância na qual sempre fora sua marca registrada, naquele curto instante, viu somente o meio-demônio desvelando um lado mais vulnerável, muito mais determinado que o normal. Ajoelhado em contemplação devota, destituído de qualquer traço de hesitação, seus lábios alçaram o dorso da mão que segurava com firmeza, depositando um beijo repleto de promessas não ditas.

Envolta na ternura da troca de contato, lentamente se rendeu a trama que ele teceu com tanto esmero. Dante sorriu sem desviar a atenção, sem perder de vista o que precisava fazer, não um mero capricho que surgiu de um devaneio: com as palavras entoadas carregadas de certezas, pediu dois favores para Diva que não recusou. As vezes, mergulhado em seus monólogos internos e o constante sentimento de não merecimento, percebia o quão surrealista se tornou a dinâmica que desenvolveram, da confiança que lhes concedia a compreensão mútua sem verbalizá-las. A relação não era algo que procurou ativamente, mas aquilo que carecia mais.

Os dedos calejados pelas árduas batalhas, para assegurar que vivesse uma vida sem se preocupar com a incerteza de um amanhã, alisaram os contornos de seus dedos em um pedido tácito para acompanhá-lo, sem nenhum plano ou aviso prévio, simplesmente uma fuga ao acaso — no meio da noite. Não seria a primeira escapada tampouco seria a última, mas havia algo diferente, uma atmosfera muito mais íntima do que a irreverência habitual. Não soube distinguir a origem, se vinha do próprio meio-demônio ou mesmo da brisa noturna que os acolheu com frescor.

Decidiu aceitar essa mudança sem medo, disposta a ir para onde ele quisesse levá-la apenas para desfrutar de sua companhia. Ela não questionou suas ações nem quando, com uma destreza gentil, arrumou um acessório que, depois de posto, percebeu ser um véu modesto. A maneira como ele a fitava ao finalizar o arranjo fez Diva sentir como se fosse a única luz no mundo dele, como se ele finalmente tivesse encontrado o que buscava com tanto fervor — o elo com a esperanças. Mal conseguiu mesurar a intensidade expressa na compleição de fascínio, a troca de olhares solidificou ainda mais seu desejo de segui-lo.

Dante podia ser tanto um porto seguro que garantiria que experimentasse os aspectos mais mundanos do cotidiano enquanto te mantém sã quanto alguém capaz de te tirar dos trilhos para se lançar ao desconhecido ao lado dele. Pelos anos que estiveram juntos, enxergava nele algo que ninguém se igualaria: a renovação. A chama que continuaria a queimar sem nunca se extinguir.

— Tem algo que quero te mostrar — murmurou. — Se aceitar, será um segredo só nosso. O que acha?

Assentiu sem hesitar.

Percebeu que havia uma nota de delicadeza mais acentuada em seu tom. Não a alegria boba de um jogo ou a brandura ao se referir a ela, algo muito mais emocional. Com as mãos unidas, banhados com o fulgor da lua, atravessaram mundos alheios para chegar ao destino.

— Eu volto logo. — plantou um beijo demorado na testa dela.

Não reconheceu o lugar, contudo, se surpreendeu com a visão de uma capela isolada. Por curiosidade, se permitiu explorar seu interior abrindo as portas que rangeram, pensando se estavam no lugar certo ou se era somente uma parada estratégica, seja qual fosse a razão de Dante deixá-la ali, permaneceu no lugar com brilhos diminutos flutuaram quase que cientes da nova presença.

Perseguindo as partículas luminosas com o olhar cativo, ela se entregou as lembranças; cada experiência que pavimentou o caminho até ali, as dores e tristezas que traziam um amargor, as pequenas alegrias e prazeres que faziam com que as escolhas que tomou tivessem um propósito.

Relegada as intempéries do tempo, a capela ainda conservava resquícios de sua época: o altar modesto cercado por vegetação sob o revérbero dos vitrais multicoloridos ligeiramente foscos. As ilustrações retratavam um eco da história de duas criaturas enigmáticas, uma antítese da outra, a essência dos dois lados da mesma moeda. Se não fosse a luz fraca que se projetava na superfície dos fragmentos nunca distinguiria as formas ornadas tampouco o que simbolizava. O som de passos interrompeu suas divagações, ritmado, calculado e sereno — uma combinação de leveza e confiança.

— Minha mãe disse uma vez — a voz sussurrou com ternura ao resgatar traços de suas memórias mais doces com sua amada mãe. — Que se, um dia, encontrasse alguém que fizesse tudo valer a pena, deveria trazê-la aqui. Onde as pessoas faziam seus votos. — o meio-demônio fitou a jovem que tanto o ansiava com a mesma candura. — Naquela vez, eu não entendi, na verdade, não imaginava que fosse acontecer e, para ser honesto, não sou material de marido como pode perceber. É bem fora do convencional, mas meus pais se casaram aqui.

Diva observou com mais cautela.

Dante encurtou a distância que os separava, segurando a mão de Diva e entrelaçando seus dedos, entregando-lhe um buquê de flores que recolheu nos arredores.

— Agora finalmente consigo ver. E quero fazer isso com você — clamou como se todas as dúvidas e receios se esfumassem, podendo enfim se descortinar para o que desejava sem nenhuma amarra. — Cada momento, cada instante, você fez isso valer a pena. Quero continuar essa estranha jornada do seu lado.

Sem restrições, Dante se ajoelhou, estendendo a mão esperando que a mulher lhe oferecesse de bom grado. Diva assentiu lentamente, temerosa que um ato brusco pudesse demover o encanto na atmosfera.

Diva esquadrinhou o espaço quieto, a aura que o cercava, toda a composição para se dar conta de que estava em seu casamento. Complacida pela constatação, sorriu ao vislumbrar o traje que Dante vestia, não era nada luxuoso, um terno simples com as suas cores principais: vermelho e preto.

— Não preparei nada muito elaborado — confessou com graça. — Infelizmente não tenho muito a dar.

— Seu amor é o suficiente pra mim. — respondeu prontamente.

— É mesmo? Eu escolhi a mulher certa. Espero ser esse alguém que vai te fazer feliz e criar boas memórias com você. Que vai afastar suas dores e males. Que estará ao seu lado sempre. — cantarolou como um discurso decorado, frisando seu esforço de proporcionar a ela uma celebração digna. — É aqui que eu quero que saiba que é você com quem eu quero estar, até o fim.

— Não tenho votos mais bonitos pra compartilhar — tentou dizer em meio as emoções que afloraram e ameaçavam transbordar. — Mas você também é o único com quem quero estar, até o fim.

— Você aceita esse velho idiota arruinado como seu marido? — indagou com descontração expectante.

— Sim — comprimiu os lábios para evitar que a voz falhasse. — E você, aceita... Essa boba imprudente como sua esposa?

— Acho que não é necessário, sempre será sim. — disse sem brechas.

— Falta o anel — controlou as lágrimas piscando os olhos. — Ainda tenho o que me deu, nunca tirei. É meu tesouro mais precioso. — mostrou o pingente tendo o adereço como símbolo principal, mesmo depois de seis anos.

— Dessa vez quero fazer algo mais especial — pegou a mão esquerda dela, beijando seu dedo anelar, concentrando uma parcela de energia demoníaca para formar a aliança de casamento que se destacou com um fulgor cálido. — Pensei... Se posso fazer balas, também poderia testar a teoria de moldar outras coisas. — explicou sem erguer a cabeça, as mechas soltas do cabelo dele deslizando em sua pele desnuda. — Espero que seja do seu gosto.

O aro encaixado perfeitamente em seu dedo com um material que se assemelhava a prata tinha um design discreto, sem pormenores ou exageros que exigisse um olhar mais avaliador. Diva encarou Dante com uma miríade de sentimentos prestes a escapar, levando a mão ao rosto dele, acariciando sua bochecha permitindo de que cada uma delas se libertasse, conectando-os na mesma frequência em um só coração. Se surpreendeu um pouco com o meio-demônio se aninhando em seu toque, adorando os segundos nesse gesto carregado de cumplicidade e amor.

— Tem uma última coisa que quero fazer — sorriu, serpenteando a cintura dela e a rodopiando. — O noivo, ou melhor, o marido solicita uma dança com sua esposa. Quer dançar, doçura?

Diva recostou a cabeça no peito dele e ele a conduziu pela catedral para terem seu momento sob as luzes fractais.

— Eu prometo, Diva Lockhard, que você nunca mais estará sozinha... — pousou a mão dela sobre seu peito com os olhos azuis presos ao dela. — Porque você tem parte do meu coração e espírito. Agora eu posso beijar a noiva?

Com um suspiro, Diva o beijou, selando o pacto de casamento.

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