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41 Sentimentos em Tempestade

I feel it's gonna rain like this for days
Eu sinto que irá chover assim por dias
So let it rain down and wash everything away
Então deixe esta chuva cair e lavar tudo o que há
I hope that tomorrow the sun will shine
Espero que amanhã o sol brilhe
With every tomorrow comes another life
Com todo amanhã começa uma outra vida
I feel it's gonna rain for days and days
Eu sinto que irá chover, por dias e dias
[...]
I tried to figure out I can't understand
Eu tentei descobrir, e não consegui entender
What it means to be whole again
O que significa ser completo novamente
Trapped between the truth and the consequence
Preso entre as verdades e as consequências
Nothing's real nothing's making sense
Nada é real, nada tem sentido
[...]
Fall down
Então caia
Wash away my yesterdays
E lave todo o meu passado
Fall down
Então caia
So let the rain fall down on me
Deixe esta chuva cair sobre mim
Rain — Creed
ALGO CAIU NO MEU ROSTO.
Era frio e escorregava lentamente pela minha bochecha. Talvez tenha sido uma gotinha de água, não sei ao certo. No entanto, o toque dela em minha pele fez com que ficasse um pouco consciente — mesmo que minimamente. Pelo menos tinha um pouco de noção daquilo que estou pensando, apesar de ainda estar agonizando em sensações confusas. Embora ainda lutasse contra a escuridão, ela conseguia me engolir ainda mais fundo. Estava entre o estado de alerta e a inconsciência, oscilando constantemente entre os dois. Demorou para que meu corpo recebesse os impulsos que meu cérebro insistia em dar, cada músculo parecia fraco e muito debilitado para simplesmente reagir. Minha garganta estava dolorida como se tivesse gritado ininterruptamente e também muito ressecada.
Forcei minha mente a emergir em um salto lúcido, contudo uma densa névoa me entorpecia e levava-me novamente para o estado vegetativo de incoerência. Queria me lembrar da razão de estar assim, vasculhei minhas últimas memórias e encontrei fragmentos incompreensíveis. Então, uma lembrança mais forte me despertou; da minha visão do assassinato, estar sendo perseguida e o encontro com Garrett. Aquele maldito havia me dopado com o chá. Fui ingênua o suficiente pra ter ignorado as bandeiras vermelhas que praticamente piscava na minha cara semelhante um semáforo em uma luz carmesim ofuscante e chamativa demais.
Não podia deixar essa situação passar por alto, sem consequências. Quando encontrar esse cretino vou dar uma boa lição nele, uma que nunca esquecerá.
De imediato, fui empurrada abruptamente para a realidade. Lutei para abrir os olhos, franzindo o cenho com a ardência inicial do foco de iluminação. A luz vacilante do teto cegou-me, pisquei inúmeras vezes até poder me adaptar a ela. Não reconheci o lugar onde estava tampouco quanto tempo estivera desacordada. Minha percepção estava alterada pelo cansaço e a tontura vertiginosa, nem meu estômago suportava tamanho enjoo. Com esforço, levantei e encarei atentamente meu entorno. Assemelhar-se a aquelas salas de cientistas malucos dos filmes do Frankenstein, um cenário perturbador que só uma mente perversa seria capaz de projetar. O leito no qual me encontrava claramente se tratava de uma mesa de cirurgia com um forte aroma de éter. Pelo local havia muitos equipamentos distintos, alguns podia definir com clareza o que era; três monitores, itens cirúrgicos e, ao meu lado, uma mesa metálica similar a que estava. Porém, com uma estranha protuberância encoberta com fino lençol.
Aparentemente, estava em um tipo de sala cirúrgica clandestina. Movimentei-me com dificuldade para fora da maca, mas algo me impediu. Pequenos cateteres transparentes se prendiam aos meus braços, um deles anexados a uma bolsa de soro. Cuidadosamente retirei cada um deles, evitando arrancá-los com mais força do que o necessário e me ferir no processo. Apoiei-me na superfície metálica para não cair já que minhas pernas pesavam e mal conseguia manter-me de pé, fiquei parada esperando que os efeitos da droga desaparecessem, ou ao menos passasse o suficiente para não ficar tão atordoada como agora. Até o mínimo movimento produzia dor, seria difícil — podia dizer impossível — escapar nesse estado deplorável.
O pior é que não conseguia formular um plano ou ordenar meus pensamentos. Estava em uma daquelas situações que denomino “falta de estratégia de emergência”, ou sem um plano B. De qualquer forma, não pretendo ficar muito tempo para esperar para ter uma ideia. Seria muito arriscado e estúpido da minha parte se o fizesse.
Cambaleante, caminhei em direção à mesa a minha frente. Não sabia se a força propulsora que me movia era curiosidade ou outra coisa. Toquei o lençol puxando lentamente. Quando vi o que era, desejei nunca ver mexido nisso. Amaldiçoei mentalmente minha bisbilhotice. Mortificada e enojada, recuei dois passos quase a ponto de tropeçar na bagunça que havia ali. Imóvel e encarando fixamente o teto, deitada na maca jazia o corpo de uma jovem mulher não muito mais velha que eu. Pelo pouco que sobrou e ignorando as feições mórbidas, a jovem tinha os cabelos longos e loiros. Ela usava um vestido hospitalar ensanguentado, um enorme corte se estendia da clavícula a bacia expondo todo seu interior. Podia ver a falta de alguns órgãos e repulsiva massa de sangue em volta. Meu estômago ameaçou soltar o que custava a segurar desde que despertei, e minha mente zuniu e girou. Para completar o horror, havia alguns recipientes transportadores empapados de sangue.
A ficha tinha caído. Garrett deve ser o assassino e eu, imprudente e completamente idiota — como sempre —, acabei nas garras dele e quase virei a próxima vítima. Devia ter tido mais cuidado e não confiado facilmente nele, principalmente pelo jeito estranho que ele olha. Aprendi a lição da pior maneira.
Convenhamos... Tinha um azar que só!
Já descobri — considerando as provas, que são incontestáveis — metade do mistério, mas ainda teria que saber a razão por trás disso. Não acho que uma pessoa de plenas faculdades mentais faça algo tão cruel sem um motivo. E Garrett não era nem de longe aqueles genéricos de assassinos psicopatas que se veem na TV. Tenho que pensar em algo; o que as séries que retratavam esse tipo de situação diziam? Ah, sim! Não entrar em pânico!
Reuni toda energia que podia mesmo uma pequena quantidade — em vista que mal conseguia ficar de pé — e permiti que ela envolvesse meu corpo em luz. O lado ruim é as possíveis consequências por usar o teletransporte no pior estado, quer dizer, não tinha ideia para onde acabaria indo.
Situações desesperadas pedem medidas desesperadas.
Chovia do lado de fora quando despenquei com tudo no chão cimentado de um prédio depois de me teletransportar com sucesso para longe. Era bom que não estaria mais naquele lugar repugnante e ruim por não ter a mínima ideia de onde me enfiei. Meu corpo pesava como chumbo e o peso não me permitiam me mover livremente, sem escolha permaneci deitada respirando profundamente e recebendo impotentemente as gotas frias da chuva. A medida que a tempestade ganhava mais intensidade, meus músculos congelavam e contraiam em uma sutil tremedeira. Encolhi-me, ficando em posição fetal para conservar um pouquinho de calor e assim poderia me aquecer.
Foi estranho o jeito que a chuva parecia lavar todo tipo sentimento ruim que se impregnara em mim. Ouvi sons de passos perigosamente perto, enquanto caminhavam batendo os pés, mais poças de água se formava e mais respigavam em minha direção. Eu devia correr, mas não conseguia. Juntei forças nos braços e arrastei-me para longe. Finquei minhas unhas nas irregularidades e falhas do concreto, usando-os para impulsionar-me para frente. Ao passo que queria fugir a presença ficava mais próxima. Sabe aquelas tentativas que temos certeza que é inútil e mesmo assim fazemos totalmente guiados pelo instinto de sobrevivência?
O pânico cresceu e corroeu-me por dentro. De alguma forma o medo me deu poder suficiente para me erguer desajeitadamente e andar para o mais distante possível. Percebi que estava chegando ao fim da linha, onde o parapeito era o limite.
Virei-me para encarar meu algoz e não fora nenhuma surpresa encontrar a mulher que se tornou minha sombra nos últimos dias. Ela aparecera em péssima hora. Tranquilamente andou para perto enquanto eu recuava, pior que além de ainda estar com um pouco dos efeitos da droga ainda não tinha nada para me defender.
Nem mesmo Blood.
Em outras palavras estava ferrada.
— Não... Se... Aproxime! — gritei estranhamente calma do que realmente me sentia. Além de minha garganta estar dolorida, se apertando em um bolo.
— Diva, não vá para aí — ela pediu serenamente como se falasse com uma criança.
Tossi, tentando limpar minha garganta.
— Vá embora — minha voz soou embargada e tremula.
— Não tenha medo, não vou te machucar.
Queria rir de tamanha ironia, mas não podia por que estava tendo outra crise de tosse. Forcei-me a respirar pausadamente quando esta cessou.
Com uma fraqueza e confusão vertiginosa, arremessei-me para trás com os braços estendido para frente para simular uma barreira com ambos os membros. Inevitavelmente, para variar minha cota de sorte, esbarrei com as grades de berro que magoaram minhas costas no instante que me pressionava contra ele para escapar do cerco fechado. E, para minha infelicidade, não tinha rotas alternativas de fuga ou alguém para ser uma cortina de fumaça, ali, no topo daquele prédio, estavam somente eu e ela. Na minha investida não me importei em distribuir o peso e jogá-lo contra o metal fino e contorcido, ignorando todos os alertas possíveis de uma atitude tão inconsequente. A grade deu um leve estalo, um ruído bem audível, e se amassou até finalmente ceder.
Se antes, com a estranha, minhas hipóteses de sucesso e sair intactas pendiam entre 50%, agora, no entanto, teria chances ainda menores pela queda.
Esperei pelo espatifar grosseiro e doloroso, as múltiplas dores e a agonia protocolar de acidentes como aquele. Contudo, não houve nada, nem dor ou variações tenebrosas que me fariam duvidar de estar viva. Um repuxo me chacoalhou no ar como se fosse leve e flutuasse em meio ao aguaceiro, me pondo em uma zona de segurança. Braços se apertaram ao meu redor e o suave som de que parecia ser asas batendo. Pela nossa proximidade reconhecei um familiar cheiro de frutas vermelhas. Relutei por um breve momento, até abrir meus olhos e ver quem estava me carregando tão protetoramente.
— Por que me salvou? — questionei pasma.
— Eu tenho meus motivos para fazê-lo — ela sussurrou. E calmamente me pousou no chão. Podia ver detalhadamente as asas que lembravam as de morcego, negras e encobertas por uma fina película. Isso, no entanto, não lhe caia mal. Pelo contrário, fazia parecer sombria e bela ao mesmo tempo — o que só me fez crer que definitivamente essa mulher não pode ser ela.
Seria impossível!
— Tente ficar bem, sim? — pediu, um vinco de preocupação em sua voz.
Mas não podia negar tantas semelhantes coincidências; o modo como me chamava, o suave cheiro de frutas vermelhas e a pulseira, e o cuidado comigo. Seria um erro meu não refletir sobre isso. Não é possível duas pessoas compartilhar os mesmos hábitos e outras similaridades.
Do jeito que esse mundo era, capaz de ser só uma merda coincidência.
A misteriosa mulher desapareceu nas sombras, deixando-me confusa e um pouco perturbada. Olhei ao meu redor, vendo que a avenida era familiar para mim. Significava que estava a poucas quadras da casa dos Thompson.
Será que eu fui a única vítima viva? Qual o objetivo dele dissecando pessoas?
Uma jovem mulher caminhava distraída e em seu encalço uma figura vestida com um longo sobretudo marrom. Garrett encarnou mesmo uma versão moderna e perturbadora do Jack o Estripador, caçando mulheres para construir sei-lá-o-que — compondo sua própria mulher do Frankstein com partes de outras. Como um predador voraz que se espreita nas sombras, ele ficou atuando como um civil comum sem grandes bandeiras vermelhas. De acordo com meus cálculos, deduzindo que estavam relativamente próximos de mim, consegui ter uma maior localização e não tinha como relacionar esse maluco com o infame assassino no modus operandi. Saltei beco a dentro para não ser notada estando encoberto pelo breu, encostada na parede e espiando-os. O homem portava um bisturi e o segurava com veemência absurda, embora parecesse resistir a princípio.
Com a letargia fora do meu sistema, me prontifiquei a ficar firme, embora não totalmente estável. Não ousei pensar muito — cada segundo determinaria o desfecho da história —, e disparei em uma corrida frenética até eles e saltei sobre Garrett, a mulher deu um grito e encarou-me abismada.
— Vai! Agora! — consegui gritar alto o bastante para que ela ouvisse em meio ao medo. Não precisei falar duas vezes, a jovem correu desesperada. Garrett se desvencilhou do meu aperto, fazendo-me tombar para trás.
— Eu sabia que no momento que abri a porta para você, algo assim aconteceria. Só não entendo como consegui fugir.
— Era você o tempo todo... O assassino... — joguei todos os fatos e descobertas na cara dele.
Garrett não olhou para mim. Senti uma pavorosa sensação, e ficou ainda pior quando o hálito quente bateu no meu cangote. Minha espinha dorsal ficou mole. No instante seguinte, a enorme mão agarrou meu braço direito e a outra apertou meu tronco. O ar me escapou pela maneira bruta que me pegara. E a criatura apareceu, emergindo na escuridão. Ele era enorme; a cabeça virada no sentido contrário e se assemelhava a uma máscara de Halloween — sem expressão —, acima do "rosto" se abriam chifres tortos e o corpo avermelhado.
Ele pressionou meu tronco e braço e deixei escapar um grito de agonia.
Afinal que diabos está acontecendo? Por que um demônio está aqui?
Eu estava quase certa das minhas suspeitas, agora não possuía certeza de mais nada.
— O que espera? — a criatura questionou, a voz grossa e assustadora ecoou. — Ela é uma ameaça!
Garrett apertou o bisturi entre os dedos.
“O sangue da Arya é venenoso pra demônios” o pensamento fugaz me ocorreu.
Afundei as unhas na pele macia de minha mão e não soltei antes da dor formigar por ela, e o sangue deslizar. O líquido carmesim caiu diretamente na criatura que urrou, balançando-me violentamente de um lado para o outro e por fim jogando-me contra o chão.
— Maldita! — ele arrancou a própria mão e a viu sucumbir ao poder venenoso do meu sangue. — O que você fez?
Recompus-me a tempo de esquivar de um ataque quase certeiro.
— Não previu essa reviravolta, não é? — debochei entre respirações ritmadas com uma tirada mais típica de Dante.
— Ele deveria ter arrancado suas vísceras, mas já que ele não o fez... Morra, humana. — vociferou agressivo, logo correu em minha direção. De repente, o braço do demônio caiu aos meus pés em uma poça de água e sangue. Ele, por sua vez se retorceu e gritou, e tanto meus olhos quanto os do alvo pousaram na nova presença.
— Finalmente consegui um pouco de atenção, — Dante teve a audácia de fingir descontentamento e em seus lábios um sorriso preguiçoso cresceu — por um momento me senti ignorado, principalmente vendo que começaram a festa sem o convidado especial.
— Aproveite a festa ainda não terminou — anunciei aliviada.
— Ainda bem que cheguei antes do fim, não pegaria bem perder a diversão. — Dante se colocou a minha frente, estendendo a mão para ajudar a levantar enquanto a outra segurava Rebellion. Peguei a mão dele, e com uma facilidade inumana me pôs de pé. Em momento algum, Dante tirou os olhos de mim.
Emanando sua tranquilidade habitual, ele disse:
— Vou deixar uma bela marca no seu traseiro por ter ousado tocar nela.
Dante deu uma piscadela provocativa, e meu rosto esquentou em resposta.
— Maldito filho de Sparda — o demônio fez menção de se aproximar.
Era de se admirar tanta coragem — ou rir de tanta estupidez — daquele demônio por enfrentar Dante vendo a óbvia desvantagem. Em um simples movimento, sacou Ivory e disparou contínuas vezes contra a criatura. Nem mesmo isso lhe tirou atenção, parecia algo sem importância para ele.
Ele deu um cínico bocejo.
— Você falava muito pra quem não deu nem pro gasto. Um ponto de estilo pra mim. — cantarolou, finalizando com um único tiro criando uma estranha poça de sangue.
— Estou começando a achar que você tem algum tipo de relógio que faz com que sempre chegue na hora certa.
— Timing Perfeito, doçura. Tenho o poder de sempre chegar na melhor hora.
— Aliás, onde sabia onde eu estava?
— Bem, eu ouvi seu pedido... Você sabe disso já que compartilhamos uma ligação. Eu sai para te procurar quando a encontrei, a mulher me disse que você estaria onde ele — Dante apontou para um Garrett desorientado — estava.
Dante voltou sua atenção para Garrett e guardou Ivory.
— Matando mulheres para manter sua esposa viva, não é? — Era a primeira vez que via seriedade legítima em seu rosto. Como se aquilo não fosse uma trivialidade, mas algo que merecesse muito mais que palavras zombeteiras e sarcasmo. Ele geralmente era tão engraçado — conseguindo quebrar a tensão de qualquer momento — que essas foram uma das coisas que mais me atraíam nele. Não obstante, também sabia ser sério quando convinha — Isso não é o que posso considerar uma atitude nobre, no mínimo egoísta.
Garrett olhou-nos gravemente.
— O que você sabe sobre isso? — o corpo de Garrett tremeu e ele apertou os punhos — Vocês não entendem! Nunca entenderão! Sabe como é terrível ver a pessoa que você ama estar prestes a morrer?
Meu coração deu uma batida forte, começando a bater descompassado. Sabia exatamente do que ele falava, conhecia de perto tal sensação e o pavor que vinha dessa concepção: A dor inevitável e amarga da perda. Não pude evitar lembrar como sofri quando... Quase perdi Dante. Toquei meu rosto de limpei uma lágrima. Estava familiarizada com esse sentimento.
— Como dói vê-la definhar sem poder fazer nada!
— E para tentar salvar ela arriscou tudo fazendo um trato com um demônio?
Encarei Dante atônita.
— Demônios não costumam se importar com a vida humana, e você achou que ele realmente poderia te ajudar?
— Cala a boca! Não podem me julgar sem ao menos saber como é!
— Na verdade, eu te entendo. Sei exatamente como se sente — interrompi não suportando ouvir a dor em cada uma de suas palavras, decidi que abriria meu coração — Eu sei que a dor da perda destrói, fere e dilacera a alma... Mas acredito que quando o amor é verdadeiro e forte ele pode transcender os limites da vida e da morte. Eu sei bem disso, aprendi sentindo isso na pele.
Dante afagou meus cabelos, e enxuguei minhas lágrimas, dando um leve sorriso. Ele também sorria para me acalmar do modo que somente ele conseguia.
— Porém nada justifica...
— Tirar vidas de inocentes... — uma voz cortou-me. Em passos leves e tímidos, Michele se aproximou de nós seu olhar era um misto de condescendência e mágoa.
— Obrigada por me trazer — Michele agradeceu diretamente a Dante.
— Não... Não olhe isso! — Garrett gritou aflito, ela não se abalou — Michele... Você... Sabia?
— Sim, — ela fungou, respirando rapidamente — no começo não quis acreditar que pudesse fazer algo tão terrível... Mas quando percebi o que estava fazendo era real e... Ah, céus! Tudo isso... O que você se tornou é tudo minha culpa.
— Não! Não é sua culpa, fui eu que fiz... Somente eu sou culpado, eu cometi esse pecado...
Michele se afastou vendo Garrett chegando perto, desesperado. Ela girou nos calcanhares e correu, fui atrás dela.
Dante
Dante colocou a mão sob o ombro do rapaz atordoado, impedindo de seguir a esposa. Ela precisava de tempo para assimilar todos os fatos.
A chuva se tornou uma leve garoa.
— O que foi que eu fiz... — Garrett sussurrou a voz embargada pelo sofrimento.
— Ela precisa pensar sobre o que aconteceu aqui, não deve ser fácil descobrir algo dessa gravidade envolvendo uma pessoa que confiava.
— Eu queria protegê-la e mantê-la viva. Não quero perder a mulher que amo!
— Olha — Dante começou estudando momentaneamente a expressão de Garrett — Tem coisa que nem mesmo com todo esforço podemos mudar, o inevitável fim é uma delas. Ficar triste pela simples ideia de perder algo não nos dará forças para recomeçar. Acho que a única coisa que podemos fazer é manter as boas memórias e seguir em frente por todos que depositaram sua confiança e seus espíritos em nós — Dante ergueu a cabeça e olhou para o céu, aquelas palavras que ele mesmo dizia pareciam aquecer seu coração de uma maneira reconfortante, eram o que ele queria ter ouvido quando seus sentimentos saíram do controle há anos.
— Eu...
— Não estou dizendo que perder não vai doer, mas diminui até que seja suportável quando aceitamos.
Garrett ficou em calado absorvendo as palavras do mestiço.
— Você acredita em amor verdadeiro? — indagou repentinamente depois de um breve silêncio.
— Amor? — ele se lembrou de quando Diva disse que o amava pela primeira vez, mesmo no fundo já soubesse disso — Bem, é um pouco relevante se tratando de um sentimento passageiro. — Dante cruzou os braços — Se você tivesse me perguntado há alguns meses atrás eu não saberia o que responder talvez até risse, mas agora... — a ultima parte sai em um sussurro inaudível. — É um vínculo importante.
— Então você deve entender que para proteger quem amamos arriscamos tudo... Se for preciso até nossa vida. — Garrett respirou fundo — Mas vendo o pranto da minha doce esposa, pergunto-me se tudo que fiz valeu a pena a ponto de machucá-la.
×××
Michele estava sentada em um banco próxima ao parque. Ela parecia inerte em pensamentos, seus olhos focavam nas nuvens escuras que traziam a chuva, embora realmente não a chovesse mais. Lentamente me aproxime dela e sentei ao seu lado.
— Está tudo bem? — perguntei tentando mostrar compreensão e apoio.
— Sinto muito... — murmurou escondendo o rosto com as mãos.
— Como?
— Garrett não era assim, por favor, não o odeie.
— Não se preocupe, não o odeio. Posso não concordar com o que ele fez, mas entendo.
— Estou tão triste pelas pobres jovens que morreram. Elas deviam ter família e sonhos...
Michele soluçou e começou a chorar. Instintivamente, envolvi-a em meus braços tentando afugentar a forte tristeza que a afligia. A princípio, ela se espantou com minha atitude, porém não resistiu ao meu consolo.
— Eu estou com uma rara doença que faz com que todos os meus órgãos fiquem fracos e não funcionem como deveriam. Passei meses internada e quase morri — pronunciou, a voz abafada. Sabia disso pela estranha visão que tive. — Foi nesse momento que meu marido começou a agir diferente. Estava sempre apático, preocupado e estressado. O resto você já deve concluir.
Assenti.
— Pode não ser uma desculpa, mas ele fez por que te ama.
— Eu sei, eu o amo também. Isso não suaviza o crime.
— Nenhum ser humano nasce perfeito, cometemos erros mesmo sem querer. E é com eles que aprendemos e isso que nos faz crescer e ser melhor para que não os cometamos novamente. E acima de tudo, não existe pecado grave o suficiente que não mereça perdão.
Michele olhou-me espantada, que logo virou um olhar compreensível.
— Apesar de ser tão nova você parece saber bem o que diz. Por um motivo que desconheço, sinto uma grande paz perto de você.
É por causa da minha aura, acrescentei mentalmente.
— Você emana confiança.
Ruborizei.
— Digamos que nunca fui essa garota confiante e corajosa que está te aconselhando agora. Antes de me tornar quem sou hoje eu precisei chorar, cair e me perder. Entretanto sinto que estou no caminho certo. — sorri gentilmente e Michele retribuiu.
— Acho que não se aprende nada na vida pelos caminhos mais fáceis.
— Às vezes crescer é doloroso. — respondi.
— A vida é dolorosa. É como se nascêssemos para sofrer.
— Uh, que pensamento mais pessimista.
— Desculpe.
— Tudo bem, acho deveríamos voltar.
Michele assentiu.
— Garrett e você precisam conversar e esclarecer as coisas.
— Tem razão. Só espero ter forças para tal.
Michele se levantou.
— Não vem?
— Depois, vou ficar aqui mais um pouco.
Com um rápido aceno de cabeça, ela sumiu do meu campo de visão. Fiquei ali aproveitando a tranquilidade da noite. Uma brisa varreu seu caminho até meus cabelos e esfriou meu rosto. Sensações ruins encheram minha cabeça e giraram meu estômago. Seria uma boa hora para voltar. Segui pela mesma direção que outra hora passara Michele. Apertei o passo, e súbito alívio acalmou-me quando vi de longe Dante... Ele não estava sozinho. Com dor no peito notei dois corpos e encobertos de sangue.
Os dois estavam abraçados — semelhante a Romeu e Julieta.
Garrett e Michele.
Como isso aconteceu?
Coloquei a mão na boca, abafando o grito de horror. Não apenas isso que me chamara atenção. Na verdade, não podia tirar os olhos da figura de cabelos ruivos caindo em ondas pelos ombros e costas. Ela vestia a mesma roupa que usara antes, para me salvar. Do ponto que estava não conseguia ver claramente seu rosto — tinha certeza que estava sem máscara — e algumas mechas bloqueavam um pouco. O vento soprou sutilmente os cabelos dela para trás e foi impossível não estagnar de abrupto choque de reconhecimento.
— De todas as pessoas que conheci e pelo qual são intimamente ligadas a mim... — pausei buscando forças onde acreditei não ter, enquanto a raiva fervilhava em meu peito, e continuei friamente: — Você era a última pessoa que esperava que fosse mentir... Não é... Lyana?
Lyana virou espantada.
E pude assim ver, enfim, seu rosto.
Ela estava da mesma maneira que me lembrava; a pele levemente marrom, os olhos com a incomum cor vermelha que estavam arregalados com incredulidade. Ela era a misteriosa mulher do museu, a minha perseguidora, aquela que salvou minha vida e minha melhor amiga. Finalmente entendi as emoções familiares que sentia quando ela estava perto e o fato de carregar a pulseira com o símbolo Yin e do meu colar da sorte aparecer nesse mundo. Chegou a ser tão óbvio que me recusei a acreditar. Entretanto, a verdade estava na minha cara debochando da minha ignorância e ingenuidade.
Se pelo menos tivesse tido a decência de ter me dito antes não doeria tanto como agora.
De todas as coisas, não queria ficar ali; vendo-a e sentindo sua presença sem me experimentar o azedo sabor da traição. Era simplesmente inaceitável e inacreditável que justamente a pessoa que depositei toda minha confiança, fosse uma mentirosa.
Talvez eu nunca a tenha conhecido de verdade.
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