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42 Reunião Sombria

ACREDITAVA ESTAR IMUNE a tudo que fugia da normalidade, que nada mais comprometeria a solidez de minhas convicções fortalecidas após ter completado a jornada ao Inferno. Ao sobreviver ao maior desafio da minha vida, me convenci que teria a maturidade emocional para lidar com mais cargas de estresse sem desmoronar, mas, vê-la ali, de todos os eventos caóticos, provava o quão enganada estava e que minhas virtudes arranjadas, a fé e a paciência, poderiam cair com um mero sopro. No fundo, procurei uma interpretação menos brutal para a desafortunada circunstância, examinando as possibilidades para uma teoria que não fosse a de que Lyana mentiu e que, de alguma forma, se relacionava com o fato de ter parado naquele mundo.
Retrocedi letárgica, operando no automático.
— Por quê? — balbuciei com horror. — Por que está aqui?
Levei a mão a testa, desejando conter o tsunami de pensamentos que me assolaram. Queria dizer algo mais enérgico, arrancar dela a verdade por mais crua e dolorosa que possa ser, mas minha voz estava perdida e as palavras que se acumularam no momento acabavam sumindo antes que ousasse pronunciá-las. Agora não era um pressentimento sem sentido, uma merda coincidência ou uma boba especulação, a revelação era real.
Balancei a cabeça em negação.
Lyana tinha o hábito de me abraçar quando estava abalada demais para demonstrar uma reação, sussurrando inventivos e cantarolando uma música que parecia ter sido feita exclusivamente pra mim. Achava que nossa amizade de anos não teria espaço para segredos, aparentemente o fato dela ser um demônio e estar no mesmo mundo que eu atualmente era uma carta fora dessa dinâmica. Apreensiva, ela se aproximou para me tocar, como sempre, só que dessa vez a disposição era outra.
— Fique longe! — ordenei elevando a voz. Lyana parou, os olhos brilhando sob a luz parça do poste. — Você... Achei que fôssemos amigas...
— E somos, Diva.
— Não. Não somos. — cerrei os punhos. — Se somos amigas, por que não me contou?
— É algo que precisava...
— Foda-se! — vociferei. — Estou cansada de todo mundo agindo como se eu não fosse capaz de saber! Eu não sou uma criança! — Lyana arregalou os olhos e se afastou.
— Está certa. Não deveria ter escondido de você, mas me escute...
Entorpecida pela raiva, minha mente processou os acontecimentos com um nauseante sentimento de pessimismo. Me desassociei por um segundo, tendo a vaga sensação de estar fora do meu corpo e vivenciar tudo como uma expectadora assistindo um filme. Embora forçasse a ideia de que precisava ser firme para manter a calma e a razão para compreender a rede de mentiras que se enroscava durante toda minha vida, afinal se a pessoa que considerei digna de confiança e que dividiu uma vida comigo mentiu, quem mais não teria feito o mesmo?
— Eu não quero escutar, não agora.
Lyana se esforçava para respeitar meu pedido e ficar no lugar. Não tinha como não pensar na ironia das coisas: sabia tudo sobre ela desde suas manias peculiares aos defeitos — acrescentaria mentirosa nessa lista —, mas não a conhecia tão bem quanto imaginava. A garota que chamava de melhor amiga é só mais uma mera desconhecida no fim das contas. Fazia até sentido que ela tenha sido a última pessoa com quem falei antes de vir parar nesse mundo. Depois dessa impactante e avassaladora revelação, não ficaria impressionada se Lyana estiver mancomunada com Ace.
— Olha, sei que... — Lyana deu um passo vacilante em minha direção enquanto instintivamente recuei.
Permaneci estática, a mente em branco, os olhos arregalados em choque e o corpo pesado. Busquei no confim mais profundo da minha mente algo que me fizesse voltar ao normal, e que não ficasse parecendo um zumbi sem ter a mínima ideia do que devia fazer.
— Eu já disse...
— Me dê um voto de confiança, como amigas.
— Amigas? — cerrei os punhos, nervosa. A simples menção dessa palavra encheu meu peito, longe de ser uma forma boa, só a mágoa que atravessava meu coração e o corroía. Ela se repetia inúmeras vezes em meus pensamentos, porém não tinham o peso e a força que outra hora tivera. — Isso é o tipo de coisa que amigas fazem? Ocultam a verdade?
Não tinham mais sentido.
Uma suave rajada de vento soprou, fazendo meu corpo se encolher sutilmente devido ao frio e por estar completamente ensopada. Seria bom que assim como a chuva lavou todas as sensações ruins de antes, o vento levasse esses novos sentimentos conflitantes.
Minha visão estava desfocada pelas insistentes lágrimas que queriam cair e que eu lutava para impedir. Acima de tudo, queria manter meu orgulho e para isso não podia chorar na frente de Lyana. Estava com o coração partido, mas ela não precisava saber disso.
— Você não é minha amiga! — rosnei ríspida. Trouxe meu lado selvagem e agressivo à tona para proteger um pouco o que restou do amor e afeto que ainda sentia por ela. Praticamente dezoito anos não podem ser simplesmente jogados fora, ainda assim, ela não é uma lembrança que apagaria com facilidade como se não tivesse um papel importante na minha vida. Contudo a traição aconteceu e nada mudaria assim como não tiraria a ferida. As lâmpadas que iluminam a rua explodiram em pequenas faíscas e fragmentos de vidro caíram nas poças no chão. Não havia nada para iluminar a escuridão inóspita da noite. Nada além de mim mesma e a luz que crescia para fora do meu corpo. Estendi as mãos posicionando-as na minha frente, fitando o brilho dourado que oscilava ao redor delas. Era exatamente disso que Alexander me dissera um tempo atrás, quando minhas emoções são fortes demais a minha aura saia do controle. Agora estava explicado o motivo das lâmpadas terem explodido, e não se limitara nisso, os postes de metal estavam assustadoramente retorcidos.
Respirei fundo, e concentrei-me unicamente em suprimir a energia que pulsava querendo se libertar. De maneira alguma, poderia permitir que ela saísse dos meus domínios e começasse a destruir tudo ao redor. Fora estranho que minha aura fizesse algo assim, já tive péssimos momentos com ela e nunca chegou a tanto. Talvez seja o estresse devido a ocorrido.
Caí de joelhos e involuntariamente meu corpo jogou-se para frente, usei minhas mãos para me apoiar. Nem me importei de me molhar ainda mais. Apenas fiquei parada olhando para o chão, cansada e extremamente abalada.
— Diva! — ouvi sons de tiros, ergui a cabeça e vi dois buracos fumegantes no asfalto próximo aos pés de Lyana que estava a poucos centímetros perto de mim. Apontando firmemente Ebony e Ivory para Lyana, Dante mostrava expressões difíceis identificar ao certo e Lyana o fulminava com fúria animal. Semelhante a uma mãe defendendo sua cria. Se continuasse desse jeito, era capaz de acabar em um confronto. Com toda certeza essa era a última coisa que queria. Confusa e meio atordoada, lancei um olhar interrogativo a Dante que parecia pronto para atacar Lyana se chegasse a fazer um movimento em falso.
— Pensa que não vou atirar em você por ter alguma ligação com a Diva? — Dante afirmou friamente, seus dedos quase pressionando o gatilho — Chegue mais um passo perto dela e vou te mostrar a verdadeira definição de dor.
— Não será você que vai me impedir de ficar perto dela — Lyana rebateu, virando-se para ficar cara a cara com Dante. — Ela é minha amiga, se ficar no meu caminho eu te mato.
Nunca tinha ouvido Lyana falando com tanta imponência e agressividade, bem diferente do daquela que vivia comigo.
Dante esboçou um meio sorriso sarcástico.
— Eu realmente gostaria de ver você tentar isso.
— Eu não sou como as criaturas que você caça, não perca seu tempo tentando me intimidar.
Dante girou as pistolas gêmeas e as guardou, então andou calmamente até ficar perigosamente perto de Lyana. A pressão do ar mudou drasticamente com a proximidade de ambos, era como estar no meio de uma guerra sem lugar para se proteger ou se esconder. Totalmente vulnerável e exposta aos ataques.
— Eu não sou do tipo que gosta repetir duas vezes a mesma coisa, porque além de ser chato é uma completa perda de tempo. — Dante informou em um tom de zombaria sendo rapidamente substituído por um mais grave e sombrio: — Então preste bem atenção que só direi uma vez: saia do meu caminho e fique longe da Diva.
— Creio que não poderei acatar suas exigências.
— Tudo bem — sacou novamente Ebony e Ivory — Faremos do jeito difícil. Vou abrir meu caminho, nem que para isso tenha que te partir ao meio.
Antes que Dante apertasse o gatilho, coloquei-me entre os dois. Rapidamente ele as guardou e deixou um suspiro escapar.
— Sem derramamento de sangue, por favor. — pedi.
Me virei para Lyana que colocou os braços ao meu redor, aquecendo-me contra si. A sensação do seu abraço era tão reconfortante e me fazia lembrar de casa. Coloquei de lado o que ela um dia representou para mim, pondo tudo em uma balança de consciência. E quem disse que estava pronta para aceitá-la e perdoar essa farsa? Eu simplesmente não retribui tampouco permiti que ela continuasse a me oferecer um gesto que considerava falso. Ela sentiu meu distanciamento e a frieza, mas não a enfraqueceu e nem a fez recuar.
— Isso não significa que eu tenha te perdoado. Agora me solte. — disse entre dentes. Sem escolha, ela me deixou e ainda afagou meu rosto antes de se afastar.
— Eu tenho tanto a te dizer, sei que esta confusa e com raiva — Lyana tentou novamente tocar meu rosto, dei um tapa em sua mão e vi pulseira que se encaixa na minha corrente. Unidas formam Yin Yang — o princípio do céu e da terra. — Deixe que eu conte a você! Dê-me uma chance de explicar!
— Você teve anos pra me falar. — respirei fundo, engolindo o choro — Não quero vê-la nunca mais.
Com isso, sai correndo sem me importar de estar sendo seguida. Ouvi os protestos distantes de Lyana. Não percebi por aonde ia apenas deixar que meus instintos me guiassem, levando minhas pernas o mais rápido e distante que podia. Foi um alívio ver que tinha chegado ao hotel em que Dante e eu nos hospedamos. A recepcionista tentou me chamar quando eu entrei feito um furacão, segui meu caminho sem parar. Já transtornada, segurei o medalhão e arranquei do meu pescoço com um único movimento sem me ligar para a dor latejante do corte fino que se formará naquela região. Apertei firme e joguei no chão, ela quicou e acabou no meio do quarto de frente a porta do banheiro. Minhas roupas irritantemente molhadas e senti algumas dores pelo corpo, nada doía mais que meu orgulho e meu coração. Tirei peça por peça com pressa, rasgando um pouco no processo.
Não sabia onde terminava a água do chuveiro e começava minhas lágrimas. Encostei-me na parede fria e escorreguei até chão e estanquei ali, parada refletindo sobre tudo que acontecerá numa noite. Deitei minha cabeça nos joelhos enquanto os envolvia em um abraço desajeitado. Nunca poderia imaginar que seria tão difícil e nem me referia à missão, mas o reencontro com Lyana que fechou com chave de ouro. E pensar que nós éramos inseparáveis e confidentes uma da outra. Depois de tudo isso o que me restou? E o que eu e Lyana somos agora?
A água do chuveiro parou de cair sobre mim, sobrando os sons de pingos intermináveis que se juntaram ao aguaceiro no piso. Encarei os pés do invasor, subindo lentamente até ver Dante parado. Em outras circunstâncias seria constrangedor que ele invadisse o banheiro comigo completamente nua, no entanto, aquela altura a confiança e o desenvolvimento do relacionamento permitia tal intimidade. Ele era meu único porto seguro, um farol no meio de um turbulento oceano.
— Queria ter certeza que não faria nenhuma loucura — justificou sorrindo — Não posso tirar os olhos de você, principalmente sendo um ímã para problemas. E, claro, meu trabalho exige que constantemente te vigie.
— Ainda não cheguei a esse ponto, não se preocupe — tentei soar brincalhona, o tiro saiu pela culatra, pois só fez minhas palavras saírem de um jeito quase amargurado. — Eu só queria ficar sozinha um pouco.
Dante se acomodou ao meu lado, recostando na parede ladrilhada.
— Eu estava esperando que gritasse, chorasse. — disse com um semblante sereno e empático. — Atirasse algo.
Olhei para Dante.
— Queria explodir assim, mas... Não faz sentido. — respirei fundo. — Acho que preciso de um tempo pra ficha cair. Eu estava com medo dessa possibilidade quando notei as coincidências, apesar disso, não estava preparada pra isso. Então... Não tenho ninguém pra confiar.
Dante me ajudou a levantar, me acolhendo em um abraço apertado e cheio de compreensão.
— Talvez não seja o melhor nisso, mas estarei aqui pra te manter a salvo.
— Obrigada, Dante. — nos encaramos por alguns segundos antes de Dante plantar um beijo afetuoso em minha testa.
— Melhor se vestir, doçura.
Assenti. Coloquei algumas roupas confortáveis e arrumei o cabelo.
— Onde ela está? — perguntei.
— Tente não esquentar com isso, ela foi embora.
— Dante?
— Hm?
— Me prometa que nunca, em hipótese alguma, vai mentir para mim.
— Eu prometo. — garantiu com um sorriso convencido. — Agora que deu pra esfriar a cabeça, vamos falar da minha vitória.
— Vitória?
— Deixe-me refrescar sua memória — se sentou na poltrona do quarto. — Fizemos uma aposta. E como a vitória é minha, quero saber qual será minha recompensa.
— Esqueci disso — confessei, rindo. Dante parecia querer afastar o que aconteceu da minha cabeça, mudança o foco de interesse e agradecia pela sensibilidade dele. — Para resolvermos isso, diga uma coisa que deseja.
— Uma? Determinar regras não fazia parte do nosso joguinho, doçura. E não me lembro de especificar quantas recompensas podia ter.
— E você se aproveita de um descuido meu quando não determinei limites. — fingi indignação.
— Exato, e tenho uma lista de coisas incríveis que podemos fazer... Nós dois.
Dante segurou minhas mãos.
— Calma, doçura, a diversão ainda não começou. Meu primeiro pedido... — Dante estendeu meu medalhão balançando-o de um lado para outro. — Eu não fui com a cara da sua amiga, mas dê uma chance a ela. Não perca a oportunidade de estar com alguém que se importa com você. Mesmo que esse alguém mereça um bom chute no traseiro.
Dante abriu minha mão e pôs o medalhão sobre ela.
— Foi uma noite e tanto e vou tomar meu banho. Agora que tudo acabou quero relaxar um pouco.
— Ahn, não quer... Que eu te faça companhia? — sugeri com o coração aos saltos.
— Hm, não. Claro que se quiser e insistir será muito — ele deu ênfase na palavra, com o olhar tão divertido quanto de costume. — bem vinda. Mas se concentre no que é realmente importante.
Dante tinha razão, precisava organizar as ideias e dar a chance para Lyana.
— Não precisa ser agora, não é? — resmunguei baixinho.
Deitada na enorme cama cheguei à conclusão que, por enquanto, não queria nem ver ou falar com Lyana. Com a mente abarrotada de coisas dificilmente conseguiria fazer algo que não me arrependesse no futuro. Depositei o medalhão no criado mudo e me posicionei para dormir. Pouco tempo depois, Dante tomou seu lugar.
— Como está se sentindo?
Afundei o rosto contra o peito dele.
— Confusa, um pouco irritada. Talvez esteja sendo muito dura, mas não consigo evitar. — suspirei levemente mais amena — Em outras palavras, estou me sentindo uma grande merda. Queria não ter descoberto nada disso — me encolhi indefesa. — Ela cresceu comigo... Confiava nela mais que tudo.
Dante esfregou carinhosamente o polegar em minha nuca.
— Não encha sua cabeça com questões mal resolvidas que podem tirar seu sono. Durma, veremos o que fazer amanhã.
No percurso de volta, com as notícias sobre o trágico fim de um casal, me obriguei a escrever minhas angústias no diários mesmo que a disposição não estivesse das melhores. Relatei sobre o sequestro, as motivações do Garrett com um pacto com um demônio pra que a esposa vivesse, a conversa com jovem esposa e o reencontro nada amistoso com Lyana e o fato dela ter ficado no meu pé durante esse tempo — enquanto eu surtava sobre qual seria a identidade dela. Pontuei sobre melhorar meu desempenho com a espada e treinar mais esgrima, talvez se puder me teletransportar para a ilha o Vincent e a Rain irão me acudir.
— Tenho que treinar esgrima — comentei com Dante.
— Quer ajuda nisso?
— Eu adoraria.
Estamos de volta!
Era isso que passava pela minha mente quando atravessei as portas do Devil May Cry. Depois de uma longa viagem, ao invés de fazer o que uma pessoa normalmente faria, ou seja, recuperar as forças dormindo eu estava mais disposta a sair para respirar novos ares — e quem sabe assim poderia absorver os atuais acontecimentos. Embora não fizesse tanta diferença, era só uma questão de perspectiva. Fiquei surpresa quando encontrei Lady no escritório, tinha um bom tempo que não a via. Ela se virou para nós, Dante calmamente cursou até a mesa e sentou-se preguiçosamente na cadeira, colocando os pés sobre ela.
— Espero que não esteja aqui para cobrar minhas dívidas por que esta perdendo tempo — Dante ralhou indiferente.
— Não, vim oferecer algumas missões, além disso, você me deve e o mínimo que espero é que me ajude. Quando você criar vergonha e pagar suas dívidas, não existiria necessidade disso.
— Tudo bem, o que é dessa vez?
— Dante! Vou dar uma volta — informei, ele atirou Blood e consegui pegá-la com uma agilidade que até eu mesma me impressionei.
— Cuidado.
Assenti.
— Dante é bom com as palavras. — uma voz atrás de mim falou, olhei por cima dos ombros e vi Trish parada na entrada.
— E com outras coisas também.
Naquele momento, senti como se estivessem em um tipo de reunião e eu não fazia parte do elenco principal. E o desconforto só piorava a medida que os minutos passavam e eu ainda permanecia ali.
As ruas estavam com o movimento comum do dia a dia. Ficar meses indo e voltando, em alguma hora, teria que aprender um pouco o mão da cidade e conhecia o caminho de volta, então não teria como me perder. O sol brilhava forte no céu e a temperatura era deleitável. Seria um dia agradável para passear.
Em meio à multidão vislumbrei um vulto, dessa vez tinha certeza que não era Lyana. Esta tentava passar pelas pessoas, de forma que, passava despercebido por entre elas. Podia dizer que era como se camuflar em meio à agitação. Na verdade, a figura era quase uma sombra. Estranha e carregada de energia que inexplicavelmente me atraia. Quando sua presença começara a gradativamente sumir do meu campo de visão, parti atrás dele. Facilitaria muito se não tivesse tanta gente atrapalhando minha passagem. A figura não correu, e não havia mais tantas pessoas para ocultá-lo, e isso me deu liberdade para persegui-lo com mais empenho.
Afastei-me bastante do meu limite “pré-estabelecido” para perambular pela cidade. Já estava aqui mesmo então tenho que tirar proveito. O vulto adentrou um estabelecimento vazio. Por dentro era amplo, parecido com um estacionamento e havia muitas coisas espalhadas; caixotes, entulho e restos de mobília. Logo, parou de andar e virou-se para me confrontar.
Eu tenho muita sorte. Devo ser a garota mais sortuda do universo. Pois quais eram as chances de ter dois encontros desagradáveis em menos de três dias?
Bem pouco, quase nulos.
O que diferenciava dessa incidência com o anterior, eram com toda confiança, as emoções.
Nesse eu sentia uma furor possesso e destrutivo. Disposta a destroçar cada membro do corpo dele. Ver seu rosto contorcido enquanto sofre a cada golpe e sem piedade fazê-lo gritar por tudo que me fez. Queria me vingar pela ultima vez que nos vimos. Sem demora, desembainhei Blood e com a expressão mais selvagem que possuía me posicionei para atacar.
Ele sorriu dissimuladamente.
Não é possível.
— Ace... — rugi, minha visão tornou-se vermelha. — Dessa vez vou garantir que não atrapalhe minha vida.
— Venha, eu gostaria de ver você tentar, Ivy.
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