Next Dimension

5 Nem tudo que reluz


Notas iniciais
~ Hello dear Tudo bem com vocês? /taparei u-u Ok, ok sem mais delongas, mais um capitulo da saga da nossa heroína e o lindo do Dante xD Antes de terminar esse papinho, vou deixar algumas musicas - tipo soundtrack -, para vecês: Diva and Alexander Theme (Forgiven - Within Temptation) - mais para frente vocês entenderam o porque coloquei essa u-u Diva to Dante (Arms - Christina Perri) Diva and Dante Theme (Nar Du Ror Ved Mig - Celina Ree) Diva's Sorrow (Fallen - Sarah McLachlan) Diva's Song (Gods and Monsters - Lana Del Ray) Dante Memories (Dancing with the devil - Breaking Benjamin) Por enquanto são apenas essas o/ Espero que gostem >.

COM UM OSTENSIVO HISTÓRICO de jogos de terror na bagagem, possuía uma percepção menos otimista sobre corredores — sinuosos e estreitinhos porque, no geral, é neles que ocorrem as perseguições mais desesperadoras. Como quando o Nêmesis te encurrala em Resident Evil 3 e se não tem uma porta salvadora para escapar, ele acaba conosco ali mesmo sem dó e nem piedade e se não tem equipamento de cura é o fim definitivo.

Não existia, pelo menos não em meu conhecimento simplório, um simbolismo claro em lugares comprimidos que se estendiam quase infinitamente em um único caminho, talvez se eu tivesse pesquisado mais quando surgiu a oportunidade essa questão teria sido respondida sem grandes monólogos e teorias mirabolantes. Entretanto, aqui estava eu: parada, com a mente vagamente nublada e com um feixe de luz calorosa provindo de uma das janelas quase me cegando. Em uma óptica mais positiva, a iluminação natural do sol refletida nos vidros imundos e desgastados oferecia uma visão mais ampla do local e pude enxergar, de longe, uma porta com um aldraba pesada de aspecto envelhecido — não muito sugestiva para tocar.

Costumava, desde que me recordo, a ter sonhos de natureza sombria e que não carregavam um significado específico que me fizesse quebrar a cabeça para desvendar o mistério. Eram simplesmente devaneios tão loucos quanto minha mente poderia produzir em seu apogeu das engenhosidades fantasiosas de uma criança com um teor macabro de um filme estilo “sobrevivência desenfreada” na qual o propósito se limitava a correr o mais depressa para que, a entidade sem nome ou forma, não me alcançasse — caso contrário, seria um verdadeiro game over.

Sem me dar ao luxo de cair na minha própria hesitação, andei pelo corredor sendo recebida pelo fulgor do sol que invadia ainda mais o espaço a medida que se posicionava em seu ápice no céu. Arfei com uma picada no pé que, só então, reparei estarem descalçados e a ardência se fez presente devidos aos cortes por pisar descuidadamente em minúsculas fragmentos de vidros — que sequer entendia de onde vinham.

Minha paciência tinha ido passear e, em um ímpeto tempestuoso, rompi em uma corrida acalorada até a porta, praticamente me lançando contra o móvel com todo peso do corpo na colisão – o que não foi o que chamaria de brilhante.

Acordei com um grito mudo sufocado, a garganta sem estrutura vocal para emitir um som que não fosse um ganido afetado e a respiração acelerada e sôfrega. Ainda sob os efeitos desvarios do sonho, com o cérebro em modo de processamento travado, mexi a cabeça preguiçosamente para o lado vendo a figura espectral sentada com toda pompa há poucos metros de mim e, por um instinto primário, gritei desafinadamente despertando Dante que repousava junto a mim.

— Você ainda está aqui? — inquiri com a voz esganiçada, lutando contra a adrenalina que sacolejava meus outros sentidos entorpecidos.

— Onde mais queria que eu estivesse? — Alexander retorquiu com sutileza, sem demonstrar nenhum nível de perturbação com minha reação estrondosa e um tanto quanto hostil.

— Eu estava dormindo. — Dante murmurou, escovando um pouco o cabelo para trás. — Até alguns minutos, antes de você gritar.

— Vai pro Além tocar flauta e harpa com os anjos! — estiquei o braço indicando a porta fervorosa e nervosamente.

— Sabe, anjos, diferente das crenças, não passam os dias tocando instrumentos e cantando em um coral. — esclareceu didático, replicando meu sarcasmo com uma contra-argumentação irônica.

Dante, sem objeção, levantou da cama e, antes que ele saísse, acenei confusa.

— Ei, Dante, para onde está indo?

— Sair, dá próxima vez me acorde com mais carinho se for pra me expulsar. — bocejou teatralmente, ajustando o cabelo desalinhado.

— Espera! Não estava falando com você! Estava me referindo à ele! — apontei para a cadeira no qual Alexander ocupava sem nenhum remorso. O enigmático homem se portava com a finesse de um aristocrata, sua postura sentado, suas roupas e o cabelo comportado em um penteado pouco sofisticado enfatizavam isso. Geralmente esse comportamento condizia mais com a realeza, a essência da doutrina de alguém de sangue azul, contudo, se trata de algo tão datado para a era moderna que testemunhar uma pessoa que preservava esses costumes sugeria uma idade maior para ele.

— Doçura, entendo que foram muitas descobertas em um período bem curto de tempo... Só não imaginava que tivesse enlouquecido. — arqueou a sobrancelha descrente, um sorriso fino despontando aos poucos. — Não há nada aí.

— Eu disse: ninguém me vê. — o loiro comentou em represália a minha explicação que, para alguém de fora, soava como se eu não batesse bem das ideias. Na verdade, eu mesma acreditava na mera possibilidade de estar alucinando.

— Tem sim! Só que você não vê... Olha, Dante, não sei se vai acreditar em mim... — gesticulei desajeitadamente. — É loucura porque o que revelarei agora pode ser... Só que meio... — tomei fôlego e busquei em meus arquivos pessoais de dinâmica maneiras de contar, elaborando uma elucidação efetiva. — Tem um fantasma aqui, de verdade! Ele está sentado nessa cadeira! Bem aqui! Eu juro! — despejei exasperada sem tomar fôlego, balançando as mãos.

OK, falha minha, não consegui pensar em nada melhor para usar nesse caso. Ansiedade somada ao desespero são uma combinação desastrosa. As engrenagens da minha cabeça pararam de funcionar assim que tudo que, segundo minha “não tão consistente realidade”, deveria ser normal, não se aplicava mais.

Dante alternou seu olhar inteligível entre mim e o móvel, franzindo ligeiramente o cenho e coçando o queixo em uma fisionomia que ficava difícil ler – algo que fortalecia meu receio. Me resignei com a descrença dele, por mais que estivéssemos confrontando uma série de fatores bizarros que nos conduziram à essa situação e o que já tratamos até esse momento, não havia nada que fornecesse uma evidência a meu favor nessa história de figuras fantasmagóricas dando as caras no plano físico. A “profissão” do meio-demônio englobava demônios de todo tipo, agentes do caos que atormentava o mundo dos homens e não criaturas oriundas de uma dimensão pós morte. Nem eu, em minhas numerosas ideias de fanfics, inventaria tamanha discrepância de gêneros — hack'n'slash não combina muito com terror psicológico.

O silêncio embaraçoso se instalou no cômodo, daquele que nada do que dissesse para me “corrigir” renderia um bom resultado. E, quiçá, traria ainda mais problemas. A quietude se prolongou por alguns minutos, o que me fez reconsiderar seriamente o quão precipitada fui ao lançar a bomba sem ter ponderado melhor. Dante examinou meu rosto, avaliando meu estado e, aparentemente, ponderando sobre meu pequeno surto brusco.

— Vou te dar o benefício da dúvida, doçura. Mas fantasma não são o meu negócio. — deu de ombros.

Soltei o ar que nem sequer percebi que prendi.

O meio-demônio se encaminhou ao banheiro e, só nessa hora, que tive uma noção mais clara que ele só usava calça e quase instantaneamente meus olhos se fixaram nele.

Que paisagem.

Assisti todo o curto percurso dele com mais interesse do que deveria mostrar. Não queria dar uma razão para que Dante jogasse com minha paciência em provocações insolentes e pretensiosas.

— Você parece muito interessada nele. — Alexander anuiu, me arrancando do transe.

Engasguei.

Meu plano era justamente não transparecer ter alguma afeição platônica pelo caçador e, por ironia, um morto — no sentido literal — não somente soube interpretar as nuances para concluir isso, provando ter uma boa capacidade dedutiva, como também não perdeu tempo em verbalizar sua descoberta sem rodeios e muito menos eufemismo.

— Ele é bonito. — pigarreei, ignorando a pulsação acelerada e o calor se concentrar em minhas maçãs de rosto. — É meu personagem favorito do jogo, obviamente, como qualquer fã, vou achá-lo atrativo. Nada mais que isso.

Disfarcei meu rubor.

— E você não vai se explicar? Por que está aqui? O que quer?

— Eu adoraria responder todos esses tópicos, mas... Não me lembro. Não consigo lembrar nada de antes de te conhecer. É como uma lacuna, uma parte vazia da minha existência. — tocou a cabeça com visível pesar. — Quando a vi, tive uma espécie de déjà vu, por essa razão fui a seu encontro. Lamento o inconveniente de minha passagem.

Era complicado não simpatizar com Alexander nesse contexto. Não vivenciamos uma experiência semelhante, entretanto, compartilhávamos a falta de conhecimento acerca de quem somos de tal modo que estabilizaria como uma base para desenvolver um laço.

Um panorama otimista para as desventuras recentes.

Um frio desagradável percorreu a minha espinha com o súbito recordar do que Ace dissera ontem, revirando meu pobre estômago.

— Estamos encurralados, Alexander. Tudo que quero saber está nas mãos de um lunático que quer me privar da minha liberdade. — praguejei de frustração incapacitante.

— Não deveria contar isso à Dante?

— Eu desejo conhecer a verdade sobre mim... Só que não quero gerar mais problemas pra ele...

— Problemas pra quem?

Cobri instintivamente os olhos ao visualizar o mestiço parcialmente vestido em toda sua modéstia, secando o cabelo com uma toalha.

— Essa é sua chance. — Alexander encorajou. — Se você quer que ele confie em você, tem que ser sincera. Segredos uma hora acabam saindo pra superfície, cabe a você tratar disso.

— Estava falando de você. — comecei testando as águas. — O Ace... Ele falou sobre saber o que realmente sou, quero dizer... Mais ou menos isso... Só que com escassez de detalhes.

— Pelo que combinamos, foi por esse motivo que viemos, não? — se aprontou, recolhendo suas armas. — Você sana suas duvidas e volta pra casa. Missão cumprida.

— É isso que está o... O mal... — respirei fundo, reprimindo a raiva. — Ele não quer contar o que sabe e disse que não posso voltar. Ele não entende, esse não é meu lugar...

Dante, de costas pra mim, se estagnou.

— Aquele miserável... Bem que senti algo podre nessa encenação toda. Meu velho instinto nunca se engana. — ao se virar, um brilho rubro atravessou as orbes azuis. — Pelo visto problemas nunca tiram férias. — seu semblante relaxado combinado com o tom divertido de seu comentário causou uma sensação de equilíbrio e conforto que dificilmente outras pessoas me proporcionariam. Meu carinho de fã, talvez, estivesse influenciando minha percepção das circunstâncias e atribuindo uma imagem ainda mais favorável para o mestiço, contudo, Dante sempre se mostrou mais solícito quanto as consequências da minha chegada a essa dimensão. Ele poderia simplesmente ter me largado a própria sorte se assim desejasse e não o fez. Baseado em sua personalidade nos jogos, seu apreço pela frágil vida humana serviu como sua bússola moral e tudo isso captei enquanto acompanhava sua jornada em finitas horas de gameplay e que, na realidade, convivendo com ele nesse curto período, provou ser verdadeiro. Ser indiferente a sua franqueza e excentricidade, sobretudo, seu caráter honroso, era um desafio que muitos não seriam capaz de perpetrar.

Brandiu Rebellion com apenas um braço e tal ato provocou uma poderosa ventania que sacudiu alguns móveis, derrubando a decoração e bagunçando o espaço. Estendeu a mão livre em minha direção, esperando o meu ímpeto de coragem.

— Você confia em mim? — sua interrogativa ecoou em minha mente como um estalo que necessitava para romper o choque inicial de sua ação. Não existiam dúvidas em mim para contestá-lo tampouco uma razão que me induzisse a tal, nada me dissuadiria do contrário. Preenchida com um novo fôlego, alcancei a mão de Dante e, nesse intervalo de segundos, me agarrou firmemente contra si. Arregalei ligeiramente os olhos diante de tamanha proximidade, corando ao recostar sem querer a cabeça em seu peito devido a nossa gritante diferença de altura.

Meu coração disparou em um ritmo frenético.

Os últimos resquícios de medo, miraculosamente, se desvaneceram sem resistência ou oposição. Envolvi os braços na cintura do caçador que, automática e gentilmente, me comprimiu junto a si — jurei que fôssemos nos fundir como duas peças que se encaixavam. Sorri com minhas divagações ilusórias que, inegavelmente, causavam boas emoções. Tinha consciência de que nutrir sentimentos por alguém que ficarei perto por um tempo indeterminado poderia gerar danos irreversíveis e a angústia da separação.

No entanto, tudo fluía tão bem entre nós que pensei se seria uma fantasia conveniente para saciar minha euforia de fã fomentado pela paixão platônica. Se eu partisse, Dante voltaria a sua rotina normal sem grandes preocupações e eu seguiria minha vida com a lembrança do ocorrido. Afugentei esses temores infundados e me atentei ao que se desenrolava, meu corpo se arrepiou com o contato da mão quente do caçador em meu quadril e gritei com o salto veloz que ele executou para destruir a parede do quarto e se lançar para fora com uma velocidade humanamente impossível de acompanhar. Encolhida com os movimentos abruptos, notei uma estranha textura no peito dele e que mesmo em sua outrora dura, porém macia, estrutura corporal. Abismada, vislumbrei a majestosa e ameaçadora metamorfose de seu eu demônio — o Devil Trigger ativo em toda sua glória e orgulho. Ele esticou as asas nos quais mostravam padrões de desenhos em um vermelho vagamente alaranjado, as agitando para alçar um vôo performático.

Arfei ao ver, há uma longa distância, Ace nos fitando com as feições assombrosamente tranquilas, como se o estrago e a fuga não lhe despertasse nenhum tipo de cólera irracional e violenta. Não tirei os olhos dele enquanto vagarosamente nos afastávamos de sua vista.

— Ele não vai arriscar um confronto. — a rouquidão no timbre inumano de Dante me congelou. — Aquele cara não iria atacar ainda mais se pôr em um confronto direto. Não se engane, doçura. Até mesmo evitar uma luta já é uma estratégia.

— Onde iremos agora? — murmurei encolhida em seus braços, recusando a baixar a cabeça e checar a altura que voávamos, acovardada pelo medo de cair.

— Para minha agência e de lá, veremos o que fazer. Então se segure bem, doçura. — assenti, cerrando as pálpebras, colada ainda mais à Dante.

Assim que ele pousou, retornando a sua forma humana, cambaleei para fora de seu escopo atordoada com a viagem, exalando superficialmente. O caçador pacientemente me amparou quando minhas pernas perderam forças e cederam a gravidade, assegurando para que a queda não ocorresse e que não despencasse pateticamente como um saco de batatas no chão.

— Está tudo bem, doçura. Estou aqui. — me acalentou com tom brando.

— Obrigada. — entoei aos dois, resfolegando.

Alexander, cuja a presença esqueci totalmente, tocou meu ombro em um sinal de apoio mudo. Sua expressão evidenciava uma apreensão comovente.

— Ei, Dante. — o chamei, atraindo seu olhar intenso em um resplandecente azul celeste. Entre em pânico interno com a proximidade e o fato dele estar me fitando tanto não colaborou com meu estado. Desviei o rosto para que ela não visse o vermelho tingi-lo, mesmo sendo uma manobra de esquiva medíocre e facilmente perceptível, tanto que o escutei rir.

— O que foi? O gato comeu sua língua?

— Não! — gaguejei, o encarando com mais audácia. — É que... — acalmei meu coração traidor que batia descompassado e reformulei minhas palavras. — Acha que ele virá atrás de nós?

— Sim. — respondeu com uma invejável serenidade, como se falasse de um assunto supérfluo. — Se ele está tão interessado em você, não vai desistir tão fácil.

— E diz isso tão tranquilamente?

— Ficar com medo e esperar não é o meu estilo. — retorquiu, sorrindo presunçoso. — E temos algo em comum, famílias disfuncionais.

— Ele não é minha família. — bufei cruzando os braços. — Isso é o que ele afirma, nem tenho certeza no quanto é verídico essa história.

— De qualquer forma, vamos voltar.

Dante não podia sobrevoar a cidade em sua forma demoníaca para não instaurar o caos nos habitantes, nos restando a opção de voltar em outros meios de transporte como o trem. Alexander se acomodou no assento de frente ao meu e o caçador do meu lado, preguiçosamente esticado a ponto do espaço ser comprimido comparado a sua grande estatura.

Obviamente Alexander não se cansava pelos padrões convencionais, mas parecia bastante comprometido em conservar alguns hábitos humanos para que não fosse exclusivamente uma figura fantasmagórica e atribuir a si mesmo um aspecto o mais próximo de um ser vivo, estava empenhado em uma conduta normal.

— Isso não te incomoda? — inquiri diretamente a ele que alternou sua atenção da janela para mim.

— Hm? — Dante exprimiu, abrindo um dos olhos.

— Estava falando com Alexander. — pigarreei, controlando o riso que ameaçou escapar.

— É estranho saber que tem um fantasma por perto e que não posso vê-lo. Ele pode muito bem falar de mim e eu sequer ter consciência disso. — ele proferiu com um traço de divertimento, levando a situação com humor razoável e leve.

— Não se preocupe, eu te digo se isso acontecer. — acabei rindo contagiada.

— Tem certeza que não gosta dele? — essa pergunta rodou as últimas horas e tinha a reação igual em todas as vezes que ela era externada. — Qualquer um com o mínimo de bom senso perceberia.

— Eu já respondi. A prioridade é achar uma forma de voltar para casa. — arquejei discretamente, lutando internamente para permanecer neutra e inalterada. — E você vai ficar com a gente? Como vai funcionar esse... Relacionamento? — fiz aspas com os dedos para frisar o termo com uma dose sutil de ironia.

— Creio que sim. Tenho a impressão que há algo que nos liga. Infelizmente não consigo lembrar. — suspirou conformado.

— E há quanto tempo esteve naquela casa?

— Não muito tempo, ao certo não sei exatamente. — deslizou a mão pelos sedosos cabelos claros. — Não serei de grande valia, mas prometo ajudá-la com o que sei.

Sorri com a atitude prestativa dele.

— Nesse caso, estamos todos no mesmo barco.

Maldita genética, resmunguei internamente. Dante emitiu o que soou, em uma primeira ouvida, uma risada contida. O longo percurso de volta subtraiu mais de três horas do estipulado e, enquanto eu estava só o pó da rabiola, o caçador jazia em toda sua magnificência e beleza viril de um homem de mais de trinta anos em forma e vigor invejáveis. Poderíamos ter feito o teatro todo após uma generosa refeição, com minha barriga cheia – a fome saciada – usaríamos o método mais eficaz e diplomático sem precisar destruir uma propriedade, caso contrário, iríamos escapar com mais estilo. Esfreguei meu estômago imaginando as iguarias que um serviço de comida grã fino poderia nos oferecer, até reconsiderando fazer uma boquinha em algum lugar, embora não tivesse dinheiro.

Sem grana, sem refeição.

Sendo positiva, melhor livre e faminta que em cárcere.

Alexander andava também, em uma velocidade bem mais lenta para me solidariamente acompanhar.

Ele é mesmo um fantasma camarada.

Os genes demoníacos possivelmente favoreciam Dante no quesito resistência e com o sono e alimentação reduzidos não o afetou visivelmente como acontecia comigo. Resmoneei ainda mais pela vantagem metabólica dele e sobre as injustiças da genética humana, mesmo chegando em Devil May Cry, continuei praguejando, o que entreteve o mestiço.

– Finalmente você apareceu, onde esteve? – escutei uma voz feminina perguntar quando Dante entrou primeiro.

– Negócios. – respondeu vago. Sem querer holofotes, me escondi atrás de Dante que sua altura e corpulência me cobria perfeitamente, um esconderijo vivo.

– Seu negócio envolve mulheres? – me encolhi, recostando timidamente nas omoplatas do caçador. – Dante. O que eu disse sobre trazer suas aventuras pra cá? Esse lugar não é motel barato, sabia?

– Tem razão, mas é a minha casa. Aqui sou eu quem dita as regras. – retorquiu com acidez comedida.

– Eu não sou um caso dele não, ok? – repliquei não muito afim de sair da minha zona de segurança. Dante saiu da minha frente para que os presentes tivessem uma melhor visão de mim. Basicamente me entregou de bandeja aos lobos para que me examinassem e me dissecassem.

– É só uma criança. – falou a loira mais boazuda dos jogos, a Trish. Para os leigos de plantão, Trish – ou mais conhecida como a loira demoníaca sensual da franquia – é um clone feito exatamente como a mãe de Dante, como dizem: esculpida em carrara. Mundus – o rei do submundo na época – a criou como uma forma de mexer com o psicológico do nosso caçador favorito no primeiro jogo.

– Eu não sou criança não! – berrei indignada. – Tenho dezoito anos! Dezoito!

– O que está fazendo com ela, Dante? – arqueou a sobrancelha inquisidoramente.

– Longa história. – se estirou no sofá sem ligar muito em explicar a situação, apoiando a cabeça sobre os braços.

Lady se cercou a nós, me analisando de cima a baixo.

Não sabia definir a relação de Lady com Dante, e, de acordo com os jogos e as demais mídias fontes de conteúdo rico e interessante, eles trabalhavam juntos em alguns momentos. Comparado com Trish que era oficialmente sua parceira, Lady se tratava mais de uma negociante e uma colega de serviço.

– Elas são confiáveis? – a voz cautelosa de Alexander fluiu até mim, causando um tremor em minha nuca. – Não me parecem muito receptivas.

– Elas só estão sendo cuidadosas. – dei meu melhor sorriso amarelo. – Meu nome é Diva. – comecei incerta. – E eu meio que acidentalmente vim a esse mundo... E conheço vocês porque são personagens de um jogo no qual eu amo. Inclusive tenho a edição de colecionador do quarto game que vem com uma caixa de pizza da série. – tagarelei empolgada. – E nela também teve a DLC com as duas jogáveis... Adoro jogar com você, Lady, a Kalina Ann é uma arma bem apelona...

– Doçura, se concentre só no principal. – Dante interrompeu meu devaneio, rindo. – Elas já entenderam o recado.

– Desculpa, acabei me excedendo. – fitei as duas caçadoras perplexas num misto de euforia e pânico. Para garantir que não terminaria indo à algum centro de emergência, escapuli estrategicamente para perto de Dante.

– Acho que posso dizer que já ouvi de tudo. – Lady comentou. – Então... Você é de outro mundo?

Assenti.

– E nele somos personagens? – Trish completou.

Assenti novamente.

– Como podemos acreditar na sua palavra? – Lady indagou desconfiada. – Pode muito bem estar inventando. – arregalei os olhos quando ela apontou uma pistola para mim na maior frieza.

– Sendo objetivo: ela claramente não é favorável a um diálogo. – Alexander exclamou e não tinha como não concordar.

– Eu não tenho motivo para inventar! Principalmente com alguém prestes a me pipocar! – gritei apavorada, as pernas mais bambas que gravetinhos.

– Ela está falando a verdade. – Dante se levantou, intervindo na conversa. Lady abaixou a pistola e a guardou no coldre, o que me fez respirar aliviada. Por um breve instante, um segundo há mais, teria ocorrido um acidente deveras vergonhoso.

– Não ligue para a falta de cortesia da Lady, ela não costuma agir assim. Exceto se tiver com ciúmes. – Trish debochou.

– Ciúmes de quem?

A loira deu de ombros.

Um ronco embaraçosamente alto reverberou pelo escritório – e era um ruído bem característica de um cachorro rosnando e vinha do meu estômago vazio. A vergonha não cabia em mim, pois, além de descobrirem que abrigo um monstro, no sentido figurado, na barriga, ele era bem ruidoso. Até demais.

– Fome?

Assenti derrotada.

— Acho que foi o timing perfeito. Se depender de Dante vai viver de pizza e sundae.

Não tinha como negar a verdade quanto aos, nem um pouco saudáveis, hábitos alimentares dele.

– E qual é o mal nisso? – Dante objetou.

— Diabetes, Dante. – Trish balançou a cabeça descrente. – Vem, vou fazer algo decente para você.

Dante deu de ombros com a provocação a respeito de sua alimentação. Lady permaneceu na sala com ele e eu segui no encalço de Trish. Ouvi o telefone tocar e ser atendido após a segunda chamada.

— Com a fome que estou, nem recusaria uma pizza.

— Não seria o mais adequado — Trish comentou. — Os humanos são muito influenciados pela alimentação.

Nisso tinha que concordar com ela, o metabolismo humano e demoníaco eram distintos nesse sentido.

— Quando se está faminta, tudo que vier é lucro. – disse com veemência.

— Dante é um péssimo exemplo nesse caso.

Pigarreei discretamente, sem o intuito de contestá-la. Dei uma olhada na sala, vendo Lady parcialmente encostada na mesa de bilhar. Alexander passeava pelo escritório como se estivesse inspecionando-o para saber se era uma boa residência – apesar dos trejeitos de uma pessoa de grandes aquisições, ele tinha modos mais modestos em comparação com Ace.

– Esse lugar está cheio de energia demoníaca, mas... Não é maligna. – Alexander sorriu ternamente.

— Enquanto vocês brincam de casinha, tenho um trabalho pra fazer. — Dante anunciou pegando Ebony e Ivory, ajeitando Rebellion em suas costas. — Cuidem bem da nossa convidada.

O meio-demônio fez um gesto de despedida, piscando pra mim ao desaparecer porta afora. Não pude conter o sorriso com o ato dele para comigo, enchendo meu coração com um calor suave e agradável.

— Ei, ei. Cuidado para não babar — engasguei com a brincadeira de Trish e, de imediato, recuperei a compostura.

– Eu não estava babando... Minha língua é que estava suando muito.

O cheiro dos ovos com bacon invadiu minhas narinas, abrindo meu apetite, meu estômago roncou bravamente. Fiquei impressionada observando-a cozinhar.

Voltei para sala, meio que estranhando um pouco Lady e ficando a uma distância segura dela. Trish depositou um copo de suco de frente para mim e sentou ao meu lado. Saboreei meu “café da manhã” real com animação. Com o corpinho nutrido, o leve mal estar esvaneceu como uma mera lembrança.

— Pode me contar melhor essa historia? — pediu assim que eu terminei minha refeição.

Alternei meu olhar entre as duas caçadoras. Alexander franziu o cenho, também entretido com o rumo da conversação.

— Ah, claro. Eu estava arrumando meu quarto, empacotando meus pertences, aí achei o jogo Devil May Cry 4, no qual vocês todos são parte integrante, coisas estranhas começaram a ocorrer e nisso fui atacada por um cara e um ser estranho e vim parar aqui. Basicamente nessa sequência. — despejei sem dar tempo de ser interrompida durante os dois segundos de narração.

— É incomum até para meus padrões. Lembra como era a criatura? — Trish questionou.

— Parecia um esqueleto de armadura.

A caçadora cruzou os braços.

— Aparentemente é um demônio de classe baixa.

As caçadoras se olharam, provavelmente abismadas com a existência de uma realidade na qual demônios e feras terríveis provinham unicamente das mídias fantasiosas. Cogitei acrescentar Alexander na jogada, porém não ousei muito porque já era complicada toda essa bagunça, incluí-lo pioraria as coisas – e ele não fazia tanta questão.

— Vendo por esse ângulo, significa que alguém o enviou ao seu mundo justamente para caçá-la.

Um frio percorreu minha espinha.

— Seria uma coincidência estranha se fosse um acidente ao acaso.

— Faz sentido. — murmurei reflexiva.

— É bizarro saber que somos considerados personagens de jogo no seu mundo. — Lady anuiu, sentando no outro sofá. Ambas trocaram olharem e voltaram sua atenção para mim.

— Ao menos vocês tem fãs. — sorri constrangida, querendo amenizar o impacto da novidade.

Como eu queria estar em casa, acordar na minha cama e ver que tudo não passou de um sonho.

— Acho que conheço alguém que pode ajudar... Ou tentar. — Lady comentou para Trish, depois disso, elas pareciam estar debatendo telepaticamente, então Lady continuou: — Eryna é bastante sábia, ela possui o conhecimento de tempos antigos. Talvez ela forneça informações para explicar isso. — concluiu.

— Será que ela aceitaria ajudar a garota?

— Não sei, mas não custa tentar. Posso falar com ela.

Por que sinto que estou sendo excluída da conversa?

Ah, é... Estou sendo e sou a principal envolvida...

— Acho que preciso de um banho. – murmurei. – E um bem longo para desestressar.

As deixei debater entre elas e peguei tudo que era necessário, fui até o banheiro e tranquei a porta. Suspirei relaxada com a água quente que escorria livremente pelo meu corpo dolorido.

Fitei a água verter pelo ralo dispersa, enxergando meu reflexo borrado. Minha cabeça estava mergulhada em um mar caótico de eventos estranhos sucessivos e totalmente ilógicos, ignorando as leis físicas para a metafísica.

Não sei quanto tempo fiquei imersa, assim que reparei que meus dedos já estavam ficando enrugados decidi que era hora de sair.

Sequei-me e vesti uma calça jeans simples e uma regata branca. Nunca me senti tão em paz. O escritório estava tomado com o mais temível silêncio, como se tivesse abandonado.

— Cadê as duas?

– Elas saíram, faz poucos minutos. – Alexander respondeu prestativo. – E deixaram pra você esse bilhete na mesa

Vi um pedaço de papel e o li:

“Desculpe sair assim, docinho.

Enquanto estava no banho recebi um telefonema, sabe, negócios.

Tem um prato pra você na geladeira, Dante chegará em breve, não precisa se preocupar.

Trish”

Se Trish saiu, Lady deve estar com ela.

Estou sozinha. Ou quase.

Beleza.

Ficar enfurnada no escritório não me soava um ótima programação para o resto do dia.

— Ninguém disse que não poderia sair agora. — Conclui com a atenção na entrada.

– Não acho que seja uma boa ideia. Se existe algo ou alguém atrás de você, sair seria como se induzir ao perigo. – Alexander murmurou compassivo, seus olhos de incomum tonalidade púrpura se comprimiu em perspicácia.

– É um passeio rápido, se for comigo pode ser mais cômodo. – sugeri, andando distraidamente até a porta, me certificando se estava trancada ou não — o que surpreendeu pelo fato de não estar. A abri por curiosidade para ver um pouco mais do lado de fora da agência, o fim da tarde projetava uma luz fraca sobre a rua pouco movimentada.

As pessoas que passavam por mim agiam como se fizesse parte daquilo, claro que era bobagem minha acreditar que ter vindo de outro mundo automaticamente me tornaria uma alienígena ou algo do estilo. São mundos diferentes, ainda com suas evidentes semelhanças.

— Você trabalha na Devil May Cry, mocinha? — Um senhor de meia idade com bigode questionou.

— Eu? — distraída, apontei para mim mesma. Não soube ao certo como proceder, só que achei melhor inventar que sim, na pior das hipóteses viverei um tempo por lá mesmo. — Sim, sim. Sou... Secretária, faxineira, enfim, um pouco de tudo — sorri para demonstrar simpatia.

— Finalmente Dante deu um jeito de se organizar. — o homem soprou a fumaça do cigarro. — Eu passaria para dar um Olá, mas tenho trabalho a fazer. E espero que ter você para auxiliá-lo, possa pôr juízo na cabeça dele.

— Eu posso ser faz-tudo, só que não faço milagres — brinquei, o senhor riu. – Ainda não cheguei nesse nível.

Ele riu e, sem estender o diálogo, partiu.

Aquele era o Morrison?

– Algo errado? – Alexander indagou, disperso da minha reação.

– Não, nada. – me virei para confrontá-lo. – Aproveitando o momento, diz aí, como é estar morto?

Alexander arqueou uma das sobrancelhas com o questionamento.

– Isso é relevante?

Estudando-o tão próximo, pude vislumbrar mais como suas feições eram bem desenhadas em seu rosto en destacavam sua beleza com os cabelos longos esvoaçantes emitindo uma vaga luminescência dourada sempre que a uma luz refletia neles. Seus maneirismos eram fluídos e articulados, neles decifrei uma parcela de suas emoções nesse curto intervalo. Ele não se incomodava com o tema “morte”, contudo, não entendia muito a minha mórbida curiosidade.

– Você saberá quando chegar sua hora. – respondeu paciente.

– Espero que não tão cedo.

Naquela área exata o fluxo de pessoas não era dos mais intenso, então, instigada pela vontade de conhecer mais a fundo a região, resolvi dar uma rápida explorada. Só para desfrutar do que essa dimensão tinha a oferecer: vaguei pelas ruas nas proximidades, admirando as comodidades extravagantes e as comuns presentes por ali.

— Realmente não é muito diferente do que imaginava. — murmurei, olhando para as vidraças de um loja aleatória. — Melhor eu voltar, afinal nada de bom acontece se ficar sozinha em um mundo que não pertenço.

Uma canção sussurrada se amalgamava a brisa ligeiramente fria, rodopiando ao meu redor. Me enrijeci ao distinguir a melodia e era a que Nilin cantava quando a conheci.

– Diva? – Alexander chamou.

Fechei os olhos, concentrada no ritmo da música.

– O que estou fazendo?

Chacoalhei a cabeça para afugentar o encanto inesperado.

Corri rapidamente de volta com a estranha impressão de estar sendo vigiada. Dei uma última olhada nos arredores antes de fechar a porta.

— Deve ter sido coisa da minha cabeça.

Sem alternativa de distração, perambulei pelo saguão-recepção: arriscando no bilhar, lendo as revistas jogadas na mesa e usufruindo da liberdade de repousar na cadeira de Dante imaginando como a rotina dele como caçador era corrida. Aproveitei para vasculhar os cômodos existentes na agência-moradia, evitando lugares na qual a escuridão predominava soberana conforme a luminosidade das janelas diminuíam.

Tomei em mãos o cartão que Amara me entregou e que jazia na mesa de Dante no meio de uma papelada que não me atentei muito. Ergui o pedaço de papel e sob a luz, revelando-se como uma película quase transparente.

– O que é isso? – mirei Alexander sem ter uma resposta em mente. – Eu posso ver?

Entreguei o cartão para ele e, para meu assombro, não somente o pegou como também imitou meu ato anterior.

Fantasmas podiam fazer isso?

– Isso parece... – bruscamente se aquietou, seus olhos opacos e perdidos. – Tome, melhor não deixá-lo jogado.

Franzi o cenho com uma reação tão aleatória, guardando o cartão onde lembraria mais facilmente. Do lado de fora, pela janela, podia ver que que o manto da noite já recaíra.

Quase consegui experimentar novamente a incapacitante e sufocante náusea se enraizar em minhas entranhas com o medo sugestivo e crescente. Para mim, independente de onde, sempre haveria um entidade rastejando furtivamente entre as sombras.

Milhares de pensamentos intrusivos me invadiram e não conseguia mais encontrar uma linha de raciocínio segura que não me lançasse contra uma paranóia crescente.

Meu ímpeto fora fugir, entretanto tinha plena consciência de que o mundo, ao cruzar a porta, não era o meu e que não sobreviveria longe da vigilância de Dante — como se sair daquele lugar a noite significasse uma sentença de morte.

– Diva? – o murmúrio expurgou a nuvem sombria de minha cabeça, resgatando-me do pânico. – Ei, Diva. Você está bem?

A preocupação estampada em Alexander me comoveu.

Sorri fracamente.

– Escureceu bastante. – comentei aérea. – Se não fosse por você estaria sozinha e no escuro.

Alone in the Dark?, pensei do nada, lembrando do jogo.

Minha risada desinibida pelo meu raciocínio besta ecoou sinistramente alto – um ruído muito claro para meus ouvidos. Depois que o som se propagou pela área e cessou, tão breve quanto um pensamento apreensivo que emergiu abruptamente, me detive e reparei como o escritório estava vazio e quieto, ausente de vida além de mim (Alexander nem vivo era, então não entrava no cálculo), e parecia um ambiente desconfortável.

Mergulhado nas sombras onde os ruídos se ampliavam perigosamente e se transformavam em uma diminuta cacofonia.

Com a série de acontecimentos, sem uma pausa para realocar minha mente e organizar tudo que não pude nesse ínterim, não tinha me dado conta do quanto estar ali, distante da minha preciosa família e amigos, era também solitário. Não conseguir evitar que o sentimento de tristeza quisesse se dissolver em lágrimas enquanto esquadrinhava o local com a visão borrada pelas primeiras lágrimas – o entendimento de que estava sozinha trouxe ainda mais um motivo para lamentar. Apesar da companhia do diáfano e fantasmagórico Alexander, havia pessoas pelos quais possuía laços e que, se não tivesse nenhuma sorte nessa empreitada, nunca mais veria.

Repousei sobre a mesa com o corpo em espasmos de uma iminente crise de choro, uma parcela disso se cabia ao estresse e o medo e outras emoções divergentes, irrompendo pela minha garganta como um ganido áspero e derrotado. Não me importei com o espetáculo que exibiria ante a Alexander, cada minúscula parte do meu ser só desejava exprimir a tormenta que se abateu sobre mim, me desestabilizando com o choque de realidade.

Ignorando as convenções de comportamento, cerrei os olhos mesmo as lágrimas derramando-se incontrolavelmente, agarrada a ideia de que seria um desabafo momentâneo. Solucei sôfrega com um sutil calafrio em minha nuca, elevando os olhos para a fonte de tal sensação: Alexander estendeu a mão até mim como um gesto mudo de carinho não efetuado como gostaria. Ficava nítido que a falta de composição física – um corpo – o incomodou, mas mesmo sem qualquer toque, só pela gentileza dele em querer me consolar já aquecia meu coração.

– Minhas sinceras desculpas por não poder fazer muita coisa para lhe confortar. – ele encarou melancolicamente as próprias mãos.

– Está tudo bem. – enxuguei as lágrimas no instante que a porta se abriu.

— Cadê a festa de boas vindas? — brincou uma voz rouca e familiar, me levantei sobressaltada e vi Dante na soleira da porta com uma aura felina e divertida.

Me restabeleci e mais recomposta corri para recebê-lo, aliviada e animada por seu retorno.

— Que bom que chegou!

— Sentiu minha falta, doçura?

— Não é isso, ficar sozinha no escuro dá um pouco de medo. — confessei, ele ergueu as sobrancelhas suspeitosamente.

— Mesmo? As melhores coisas acontecem no escuro, sabia?

Abri a boca para retrucar, mas acabei me traindo ao corar de seu flerte descarado.

— Engraçadinho você. – balancei a cabeça levemente, rindo timidamente. — A propósito, Trish e Lady saíram pra uma missão. — informei, fechando a porta.

— Eu sei, elas deixaram um carinhoso bilhete para mim na porta.

Dante me entregou o papel, quando li o que fora escrito entendi a razão do “carinhoso” sarcástico do mestiço. Não dá nem pra comentar o que está escrito.

— Amanhã vamos visitar uma velha amiga da Lady. — expôs vasculhando a geladeira.

— Eryna?

Ele assentiu, com um pedaço de pizza na boca.

— Acha que ela pode me ajudar?

— Não faço ideia, mas Lady diz que sim. Resta ir pessoalmente confirmar. — bebeu uma latinha com a figura de um tomate estampado na embalagem.

— E como não tenho alternativa, vou ter que confiar nisso. — suspirei, jogando-me no sofá.

– Esteve chorando? – sua indagação me surpreendeu. – O que estiver te incomodando, pode me falar. Não sou o melhor conselheiro, mas se quiser chorar no meu ombro estou a disposição.

– Não era nada de mais, fica tranquilo. – mexi as mãos exasperadamente.

Dante optou por não revirar o assunto, terminando sua bebida.

Agradeci mentalmente por seu zelo em não insistir.

FECHEI OS OLHOS, entediada.

Eram duas horas de carro para percorrer todo o trajeto que Lady emendou. Chegamos ao que parecia um museu: uma construção enorme com três entradas principais com arqueovoltas, janelas compridas, finas e com vitrais multicoloridos e uma estrutura pontiaguda — digna de uma arquitetura gótica —, havia pequenos símbolos acima da entrada e as paredes claríssimas.

Fiquei fascinada.

— Os lugares desse mundo parecem mais grandiosos que os do meu.

— Talvez seja o fator estético, aqui as coisas são... Complicadas. — Dante informou.

Entramos no local e a primeira coisa que vimos foi uma imponente estátua de um homem de armadura brandindo uma espada que equivalia o seu tamanho como uma claymore – uma gigante espada escocesa de dois gumes. Não era difícil identificar quem seria a mítica figura que povoava o imaginário: o poderoso e benevolente Sparda. Em minhas conjecturas, pretendi comentar algo com Dante, todavia, tomada pelo bom senso, achei melhor ficar na minha.

— Parece que temos companhia, doçura.

— O quê? — perguntei sem entender nada, olhando em volta igual uma barata tonta. – Companhia? Onde?

— A festa começou, baby.

Mortificada, testemunhei o saguão se encher de uma razoável quantidade de demônios. Cada um mais sinistro que os outros, tinham vários tamanhos e formas, portando armas que dilacerariam qualquer infeliz que tivesse o azar de encontrá-los.

Agarrei o casaco de Dante, apavorada. Ele se safaria dessa enrascada com facilidade e eu estaria meio ferrada.

O meio-demônio se posicionou na dianteira, formando uma barreira entre mim e os penetras sanguinários. Um som de tédio escapou dos lábios dele, seus olhos acompanharam a movimentação das criaturas sem qualquer mera sombra de medo – sequer se impressionou com os números alarmantes de inimigos que fechava o cerco em nosso entorno.

– Você está pronta para correr? – Dante arqueou uma das sobrancelhas com a indolência atrevida.

– Se você não estivesse aqui, já estaria correndo. – resmunguei, encolhida. – As vezes esqueço que demônios existem nesse mundo.

– Você esteve esse tempo todo comigo e não se deu conta? – o sorriso bem humorado de Dante me enrubesceu. Gritei assim que me pegou nos braços, esquivando velozmente dos múltiplos ataques que visavam nossas cabeças.

— Se esconda, doçura. – pediu no instante que me firmou de pé. – Deixe o trabalho pesado comigo.

— Ok! — concordei, correndo para trás de outra estátua das várias que compunham o acervo do lugar.

Escondida e assistindo a luta desenrolar-se, percebi quanto Dante era ágil, seus movimentos eram precisos e fazia com que ele desviasse tranquilamente entre as criaturas que o atacavam com tanta desenvoltura que foi quase hipnotizante. O barulho de tiros, cápsulas batendo no chão e berros estridentes e animalescos encheram o museu.

Algo afiado apertou rudemente meu rosto, me imobilizando e asfixiando o meu ganido assustado. Amedrontada, me debati lutando para escapar do agarro violento. Continuei a me remexer frenética, com um hálito quente e rançoso expelido contra meu rosto. Balancei os pés e notei que não alcançavam o chão. Estava sendo levada voando – pra longe de Dante.

— Oh, Dante! — gritei, contorcendo-me numa falha tentativa de liberdade. — Agradeceria se me desse uma mãozinha!

— Que feio, o monstro tentando levar a donzela indefesa. — Dante apontou Ebony e Ivory para o demônio e atirou.

Com o erro de cálculos, esbarrei com tudo sobre a estátua de Sparda, escorregando pelo mármore e emplacando na espada dele. A única coisa que me impedia de uma queda horrível era a força dos meus braços, já que estava pendurada – até me arrependia de nunca ter realizado exercícios para promover uma melhor condição muscular dos meus membros superiores. O pior de tudo é o meu medo irracional de altura – o que colaborou com a transpiração que deixavam minhas mãos lisas.

— Droga... Dante... Podia ter me poupado da queda... — suspirei, sentindo meus braços fraquejarem com meu peso. Forcei meu corpo para cima, no entanto, não consegui sair do lugar e, de bônus, feri minha mão.

— Aguenta firme, doçura.

— Como se tivesse escolha. — esbravejei, estressada. – Se eu cair, viro pastel!

Novamente testei minha força para me erguer, sem nenhum progresso. Arfei ao ver que dois demônios, com aparência grotesca, segurando foices vieram em minha direção, fechei os olhos aguardando a sucessão de dores violentas que nunca concretizaram-se, em resposta ao horror da possibilidade de morrer, um calor suave percorreu meu corpo e rugidos bestiais ressoaram. Sem forças para permanecer naquela posição desconfortável, acabei me soltando da estrutura, prevendo como o impacto me apagaria em segundos. Entretanto, quando acreditei que fosse cair e virar uma mancha no piso, Dante me pegou a tempo. Tive um vislumbre de algo se movendo entre os objetos assim que meus pés tocaram o chão.

— ERIF! — uma voz proclamou, incinerando o grupo restante de demônios. — Que irritantes!

Uma garota, muito mais jovem que eu, de cabelos loiros, trajando roupas bem estilo alternativo de lolita gótica. Ela bateu as mãos como se tirasse a poeira deles após seu ataque repentino.

— E vocês, quem são? Visitantes?

— Nós fazemos as perguntas aqui, baixinha. — Dante rebateu.

— Olha como fala comigo, seu brutamontes. E não sou baixa! Tenho o tamanho normal para alguém da minha idade! — retrucou mal humorada.

Decidi intervir.

— Nós estamos procurando uma mulher chamada Eryna. Você conhece?

A garota franziu a testa, me olhando fixamente.

— Está diante dela, é seu dia de sorte.

Arregalei os olhos.

— Lady tem pessoas estranhas como aliadas. — Dante coçou o queixo. — É difícil acreditar que uma criança...

— Lady? — A jovem piscou surpreendida, cortando o mestiço. — Vocês são as visitas que... Bem, até que enfim chegaram, minha irmã estava esperando por vocês. — anunciou desfazendo a careta e sorrindo amavelmente. Uma completa divergência a sua atitude anterior.

— Irmã? — inquiri sem entender.

— Sim, eu não sou a Eryna, sou a irmã mais nova dela. Venham comigo, por favor. — instruiu com um sorriso mais tranquilo de todos. — Minha irmã os espera, sintam-se honrados.

— Acha que devemos confiar? — sussurrei para Dante.

Se for pesar no nosso julgamento o fato dela ter trapaceado e quase nos ludibriado, ficava difícil dar o voto de confiança.

— Não, mas ela parece saber de algo importante. Na pior das hipóteses, estou aqui para chutar traseiros.

Seguimos a garotinha, passando por um corredor mal iluminado com um forte cheiro de canela e jasmim.

— Entrem. — pediu, abrindo uma porta de madeira branca. A serenidade e a sobriedade dela, pela minha perspectiva, soavam bem convincentes para crer que ela nos conduziria de bom grado para a irmã. No fim das contas, ela não era tão peste assim. — E boa sorte... Vocês vão precisar. — gargalhou travessa.

Por que raios ela disse isso?