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6 O real inimigo
Notas iniciais

Achei que não seria trouxa... Fui trouxa.
Uma voz no meu subconsciente pontuou os meus níveis de desastre pessoal e minha insólita sorte que nunca trabalhava a meu favor. Normalmente se costuma consolidar a superstição compartilhada das gerações anteriores para as atuais que, para que uma determinada passagem funcione como deseja, o rito a ser realizado provinha de iniciar a nova jornada com, literalmente, o famoso “pé direito”. E, seguindo as tradições crédulas dos antepassados, pisei firme, sem temer a nada e justamente nessa simples ação que cometi um erro gravíssimo.
Maldita Lei de Murphy!
Meu corpo se projetou abruptamente para frente o que, por consequência, me preparou para a queda inevitável que me fez entender totalmente que estava perto da morte pífia — quase beijando algum ceifeiro de almas.
Senti um solavanco com o braço forte serpenteando minha cintura e impedindo o meu ingresso só de ida para o Além encomendada em uma sala vazia e sem, literalmente, chão. Dante facilmente se lançou a um ponto seguro comigo em estado de choque. A garota tinha acabado de nos atrair, sorrateira, para uma armadilha e caímos ingenuamente nela.
Ela gargalhava satisfeita e orgulhosa com sua proeza maldosa.
O caçador me colocou cuidadosamente no chão e sacou Rebellion, cortando a porta ao meio com um movimento simples, bem articulado e sem muita paciência. Observei tudo com cara de paisagem sem compreender o contexto do seu ataque, a respostas para essa dúvida surgiu segundos depois do ato inesperado, pois o estranho feitiço sobre a sala se desfez.
Com uma lógica sensata, decidi que me guiaria com as instruções de Dante por ele possuir mais experiência e conhecimento desse mundo e nunca, somente em algumas exceções, iria questioná-lo quanto a suas atitudes e permitiria, sem grandes interferências, que as coisas possam fluir sem grandes problemas.
— Isso foi muito rude! — esbravejei nervosa devido o susto. — E assustador. Quase fui dessa para melhor! — repousei a mão no peito. Meu coração martelava com violência contra as costelas e estava sendo uma tarefa complicada acalmar os batimentos. — Caramba, que susto!
— Aquela pirralha. — Dante resmungou, guardando Rebellion.
— Cadê ela? — esquadrinhei o local fervorosamente, atingindo os picos mais elevados de ansiedade.
— Vamos achá-la, fique perto. — pediu, tomando a liderança da busca pela pequena e terrível bruxinha.
Me distrai com um ruído que ecoou atrás de mim, olhando diretamente para densa escuridão, como se tolamente achasse que minha restrita visão humana se adaptaria o suficiente para ser presenteada pela capacidade de enxergar nas sombras — o que não aconteceu. Esses segundos desperdiçados foram o bastante para perder Dante de vista, um desserviço providenciado, convenientemente, pelo meu azar e pela minha falta de atenção. Tenho certeza que, em uma possível vida passada, cometi um crime imperdoável e tudo que estou sofrendo é um pacote do carma.
O sinuoso corredor parcamente iluminado não incutiu boas impressões, principalmente pela quietude opressora. Meus passos vacilantes reverberaram pelo espaço vazio, fazendo com que interpretasse aquilo como um claro, além da desvantagem de terreno, alerta de que não era tão bem-vinda quanto acreditava ser.
— Esse lugar está cheio de armadilhas.
Berrei com a aparição repentina de Alexander.
— Céus! Você quase me matou de susto, Alexander! Avisa antes de aparecer do nada! — resfoleguei aterrorizada.
Não sabia se ocultar a presença e emergir do nada fazia parte da natureza dos fantasmas, porém, não gostei nem um pouco de ser abordada daquela maneira quando já estava amedrontada. Vai que eu tivesse um colapso e desmaiasse?
— Sinto muito, não foi minha intenção te assustar. — Alexander franziu o cenho. — Seja cautelosa por onde anda e toca.
— Pode deixar comigo, sou muito cuidadosa, meu caro! — escancarei uma porta e, se não fosse o reflexo rápido de Alexander mandando eu me jogar pra um lado, teria virado churrasco. — Tudo bem... Talvez não seja tão mal assim... — ri sem jeito.
— Não arquitetaram tudo isso com propósito recreativo, então se for ser descuidada vai acabar ferida.
— Não deveria ter confiado naquela menina. — suspirei longamente. — Agora estou perdida, em um lugar potencialmente perigoso e longe do Dante. Tem como piorar?
— Essa frase é um chamariz para problemas. — Alexander anuiu categórico, estudando a área com a sagacidade de uma águia. Ele, além de bastante sábio, era perspicaz e intuitivo e seu auxílio me conferiu certa segurança na medida do possível.
Alexander tinha razão. Uma rajada a queima roupa passou de raspão por mim, cortando minha bochecha no processo e deixou um enorme rombo na parede atrás de mim.
Com o pescoço rijo de tão tenso, virei lentamente para enxergar o atacante sem sucesso.
— Mas que merda foi essa? — gani exasperada. O odor de queimado me induziu a tocar no meu cabelo notando o rastro de cabelo sutilmente queimado. — E ainda queimaram meu cabelo! Alguém vai ter que pagar bem caro pra consertar isso!
Outra rajada potente fora arremessado contra nós e sai correndo, desviando dos disparos que pareciam ser letais. Uma pulsação misteriosa trespassou-me e latejou por meu corpo — uma sensação distorcida semelhante a uma pressão sonora que atordoava o canal auditivo a ponto de despontar uma zonzeira incapacitante. O estalo bruto, uma pisada poderosa no assoalho que soava como se esmigalhasse a madeira conforme se aproximava, reverberou até onde eu e Alexander paramos e, por um instinto primitivo, enfoquei no escuro abissal que se estendia infinitamente atrás de nós.
Retrocedi, buscando freneticamente uma rota de fuga, dependendo exclusivamente do meu senso de direção e da minha intuição para me socorrer. A respiração vaporosa surgia em meio as sombras opressoras enquanto aquilo que se mantinha recôndito adquiria uma forma mais concreta para que meus olhos pudessem distingui-lo no mar opaco de trevas, me apavorando por completo. Sem Dante, estava a mercê do monstro, totalmente indefesa.
— Corra, Diva! — Alexander instruiu imperativo.
— Claro, como se fosse ficar parada e deixar ele me fazer de lanchinho da tarde. — choraminguei.
Sem qualquer oposição, forcei minhas pernas cambaleantes a sair do torpor proporcionado pelo choque inicial, esbarrando estupidamente nas paredes. Meus músculos doeram pelo esforço que ultrapassava meus limites, travando gradativamente pela exaustão. Ao contrário de mim que definhava em cansaço, a criatura prosseguiu ferozmente em meu encalço — um predador implacável se assomando sobre sua presa.
— Vamos seguir essa garota, parece ser uma boa ideia — reclamei irônica. — Péssima decisão. Péssimo dia! — praguejei, ofegante e nas piores condições físicas possíveis e me desgastando ainda mais a medida que a corrida se intensificava. Uma pancada forte atingiu minhas costas com tudo e caí feito uma boneca de trapos no chão e lá permaneci.
— Alguém anotou a placa do caminhão? — disse meio aérea.
— Diva? Você está bem? — Alexander indagou em alarde.
— Já estive melhor. — Tossi, arfando com as dores. Despenquei pateticamente em todas as minhas tentativas de me levantar. Ondas de pressão comprimiram meu cérebro tão atordoantes que mal conseguia registrar o que via.
O grunhido animalesco congelou meu corpo e o pânico entorpeceu minha razão, operando no piloto automático. O monstro rugiu e antes que seu ataque mortal se desdobrasse, estendia a mão e, em resposta ao meu gesto, um campo de força se projetou entre mim e a criatura. Desconcertada, rastejei para fora do epicentro da reluzente parede que bloqueava os avanços do ser estranho. Fitei minhas mãos com um turbilhão de pensamentos se embaralhando e um fantasma bastante perplexo me mirava.
— Você viu isso, Alexander? Viu o que fiz? — gaguejei eufórica. — Tenho poderes! Tenho mesmo poderes!
Passado a adrenalina e o entusiasmo pela surpreendente descoberta, a ficha caiu com a constatação:
— Céus, eu tenho poderes desde quando? Que raios está acontecendo? — gritei desesperada, principalmente com a besta estilhaçando o campo de força. — Eu já vi isso em fanfics e geralmente não termina bem!
— Diva, fica calma. Precisa se controlar. — Alexander murmurou prudente. — De preferência enquanto corre!
Desajeitadamente, me levantei vacilante, reunindo coragem, estiquei as mãos esperando que os tais poderes recém revelados surtissem algum efeito que nocauteasse o monstrengo... Mas nada aconteceu. Nem faíscas. Nem um brilhinho fraco.
— Essa não é hora de falhar!
Desmoronei, vulnerável e aterrorizada, colando o corpo contra a parede com tanto empenho que quase seria capaz de me fundir a ela.
— Não desista! Corra, vou tentar distraí-lo!
Alexander gesticulou suavemente, como se suas mãos dançasse no ar a medida que desenhava padrões no nada, invocando uma espécie de círculo mágico que imobilizou o ser.
— Fuja!
Assenti e, aos tropeços, destranquei uma porta aleatória com cautela, torcendo para que ela me levasse a um lugar seguro e, de preferência, com Dante. Entretanto, para terminar de esmagar minha última fagulha de esperanças, no momento em que parei, para acalmar meus batimentos galopantes e frenéticos, algo úmido melou minha mão que apoiava na parede. Enojada, acreditando ser uma gosma aleatória — que poderia ser caca de algum bicho ou algo podre crescendo por ali ou mesmo musgo —, balancei o braço pra me limpar e, assim que fui, destemidamente, examinar o ponto que toquei, dezenas de olhos se abriram, um maior que o outro e todos estava focados em mim. As íris iam de um verde vivo a um azul cristalino que dissecavam minha alma.
— Isso não pode ser real... — os olhos continuavam me acompanhando para meu desgosto. — Parece uma obra psicodélica...?
Não pude achar nenhuma expressão que se enquadrasse para melhor descrever tamanha bizarrice. Perdida de Dante e, agora, de Alexander também, andei sem rumo pelo corredor infindável e aterrorizante com a maior atmosfera de espaços incômodos bem estilo Silent Hill. Analisei minhas mãos com uma tola expectativa de captar particularidades seja de cores, temperatura ou mesmo um aspecto pouco humano — porque realmente queria ter certeza de que não fora um milagre ocasional —, não tendo nada que pudesse respaldar aquela experiência de manifestação de poderes. Uma brisa soprou sobre mim, obrigando-me a me proteger de sua influência gélida com os braços trêmulos e fisicamente desgastados.
— Perdida, querida? — arquejei, olhando uma idosa se aproximar no que não parecia mais um sinuoso caminho que não dava a lugar algum, ainda assim, não conseguia descrever com clareza que seria exatamente onde me encontrava.
— Acho que sim. — balbuciei desorientada.
— Venha, talvez eu possa guiá-la.
— Acho difícil isso acontecer para ser honesta. — declarei, esquadrinhando a área desconhecida. — Além disso, — a mirei com certa preocupação. A senhora era bastante idosa, baixinha até para os padrões comuns de medida e trajava peças gastas de roupas muito estranhas. Faria mais sentido eu conduzi-la de volta a sua residência que o contrário. E somando a minhas memórias de meus avós, quase ansiava por protegê-la de quaisquer riscos que se avizinhariam. — Não quero dar trabalho a senhora.
— Não me dá trabalho algum. — sua voz ecoou dócil e prestativa. — Aqui não é um bom local para se ficar, então venha.
Sem alternativa, segui no encalço da anciã, e abordada pelas sombras em meio ao percurso.
— Não precisa se preocupar, não lhe farão nada. — arregalei os olhos com pavor com o comentário.
— Obrigada pela ajuda.
— E como veio parar aqui, querida? — sua voz me encheu com uma inesperada e confortável calmaria.
— Nem eu mesma sei dizer. Na verdade, estou começando a achar que estou alucinando. — forcei uma risada sutil. — É bem confuso. — pigarreei, me sentindo estúpida por ter dito aquilo. Ela estava sendo tão prestativa.
Acho que poderia dizer que ela seria meio que o Mestre dos Magos, a diferença é que ela não falava com enigmas e abandonava a própria sorte.
Enquanto caminhávamos em silêncio solene e um clima ameno, decidi me ocupar de memorizar pontos de referência para caso nós separássemos e me perdesse novamente, ao menos, teria um mapa mental que me auxiliaria na jornada. A idosa andava bem lentamente como se calculasse bem os passos que executava e não quisesse desperdiçar fôlego em ações bobas. O frio se espreitou pelo ambiente com rajadas sutis pelo ar, porém bastante incômodas por não estar nas melhores condições para suportar uma baixa temperatura sem a devida proteção. Estremeci com o fluxo mais intenso do vento, pensando se a senhora não estaria sentindo o mesmo que eu naquele momento.
— Senhora, está tudo bem? — indaguei, abraçando meus cotovelos como uma forma de preservar meu calor corporal e evitar congelar.
— Oh, não se preocupe, estou bem. Só precisamos andar mais um pouco, se não tiver problema.
Neguei com a cabeça.
Uma onda, dessa vez mais violenta, se lançou contra nós, o que instintivamente me fez tomar a dianteira e permanecer de frente a anciã, percebendo, uma forma que se movia em nossa direção. Um monstro ameaçador deslocou-se pesadamente para perto, seus movimentos erráticos e os grunhidos molhados que emitiam me alertaram de que, talvez, viraríamos um apetitoso lanchinho pra ele degustar. Estava morrendo de medo e seria mais uma possível maneira de atrasá-lo que uma ajuda real para a senhora, entretanto, não queria vê-la ser atacada e a ideia de ser fraca o suficiente para deixar isso acontecer só me manteve aferrada ali para impedir que ele encostasse nela. Tinha ciência que facilmente morreria em prol do que acreditava ser o correto e honestamente não me importava muito. Se ao menos tivesse como me despedir de Dante... Mal nos conhecíamos e ele resolveu me ajudar mesmo assim, nunca esqueceria seu comprometimento.
Me posicionei para lutar do melhor modo possível, engolindo o terror paralisante. O monstro que, outrora, se movia mais devagar, disparou em frenesi em nossa direção tão bizarramente como seria esperado.
Coragem!, gritei para mim mesma, não recuando.
Em um último salto de esperança, uma aposta com toda minha fé, estendi minhas mãos trêmulas e coloquei tudo de mim no gesto, experimentando um ardor suave viajar de alguma parte de meu interior que não soube dizer exatamente para minha palma em um resplendor cegante que ofuscou momentaneamente minha visão. Fiquei imóvel, de olhos fechados e com o corpo fraco, contudo, incapaz de mexer tanto pelo medo que se rastejava por minhas entranhas quanto pelo esgotamento.
Minhas pernas fraquejaram e cederam a gravidade, resfoleguei abrindo os olhos lentamente para ver meu entorno, sem sinal da criatura para meu alívio. Virei-me para verificar como a senhora estava e sorri com ela sem ferimentos nem nada do tipo.
— Está tudo bem? Você se machucou? — questionei um pouco atordoada.
— Não, não. Estou bem. — sorriu deixando mais evidentes suas rugas suaves e os olhos cansados, expondo uma íris de cada cor: verde e azul. — Você é uma boa garota, mesmo com medo arriscou sua vida pra ajudar uma mera desconhecida.
Confusa, me levantei e a encarei.
— Passou no teste, minha cara. Parabéns.
— Teste? Que teste?
O cenário se desfez como se o encanto que estivesse nos cercando fosse uma nuvem de fumaça que se esvaia com uma mera brisa. Assim que a ilusão caiu, uma sala substituiu o lugar sombrio e meu primeiro impulso fora desmoronar no chão quando a idosa se transformou em uma mulher em cadeira de rodas. Ela ergueu a mão e a última coisa que recordei antes de apagar fora um brilho estranho atravessar meu peito em forma de um projétil espectral.
Uma luz me recebeu muito antes que meus olhos se abrissem e franzi o cenho com a estranha visão que estava se projetando. Minha vista turva capturou imagens borrosas do meu entorno e uma figura masculina se assomou sobre mim, me fitando. Sua silhueta bastante nítida mesmo que não reconhecesse de quem se tratava. Ele dizia coisas que não pude entender e estendeu a mão para mim, esperando minha reação. Instintivamente a alcancei e isso fora o que me tragou de volta para a consciência.
Pela primeira vez em muito tempo, o mal primordial que perturbava meus sonhos não oferecia risco e, enfim, sentia a paz de sonhar livremente.
Franzi o cenho com o diminuto foco de luz que repousava sobre mim, vinda de uma fonte desconhecida. Apesar dela estar praticamente fixada em mim, estranhamente o brilho intenso não irritou meus olhos sensíveis, mesmo durante o período de ócio que não desviava a atenção daquela luminosidade, permanecia inócua. Meu corpo estava submergido em água e envolta em um breu infindável, imóvel e confusa e sem saber o motivo de estar ali.
Algo cintilando em tons de azul encontrava-se preso em meu peito, mas, com a mente entorpecida, não pude identificar. Pensei na quantidade de vezes que desmaiei desde que cheguei a esse mundo e que não era brincadeira e, também, comecei a achar que é algum tipo estranho de conspiração universal. Ri do meu raciocínio lento, um pouco letárgica.
Uma memória fugaz atravessou minha mente.
Uma música suave, entoada por uma voz masculina, encheu meus ouvidos e vislumbrei Alexander com um brinquedo acima de mim como se estivesse me distraindo. A cena foi trocada para uma na qual estava encolhida, abraçando meus joelhos, senti um toque reconfortante — um carinho gentil em minha cabeça que expurgou quaisquer sombras de males de mim. Meu impulso inicial fora erguer a cabeça e encontrar Alexander me consolando... Mas parecia uma lembrança perdida.
O que significa?
— Espero que não tenha sido tarde. — um aroma forte invadiu minhas narinas, forçando minha mente a sair dos braços singelos de Morfeu.
Reclamei com o odor desagradável.
Encolhi-me com o torpor do sonho que não permitia-me voltar a realidade, embora estivesse começando a despertar das barreiras oníricas. Eu me sentia péssima. Minha cabeça rodava e meu corpo doía horrores. Era como se estivesse de ressaca — a pior de todas as ressacas. E nem sequer bebi para embasar minha tese. Na verdade, estava bastante sóbria apesar da tontura que me saudou como um golpe bruto direto na cara, feito um socão que se vê geralmente na WWE.
Espera... Onde estava mesmo? Acho que estava com Dante e estava no mundo do jogo de Devil May Cry? A velhinha? O que mesmo?
Não consigo lembrar... Será que foi tudo um sonho?
Alexander?
– Ei, consegue me ouvir? – uma voz máscula proferiu soando urgente. Tateei o lugar onde estava que logo identifiquei como um colchão. Peguei o cobertor e enterrei-me debaixo dele para não ser obrigada a sair da cama, cuja superfície era convidativamente bem macia. Rolei por ela procurando uma posição confortável para voltar a dormir, pensando em que desculpa usar para amenizar a ira da minha progenitora ao ser surpreendida com minha baderna meio organizada. Poderia afirmar que a queda de energia atrasou meu trabalho.
– Só mais cinco minutinhos, por favor.
Escutei uma risada.
— Ela nem está mal, só está dormindo. — diversão soava pela voz da pessoa que supus ser uma garota.
Houve um silêncio longo após meu pedido sonolento, o que deduzi como uma autorização para recompensar meu árduo trabalho. Entretanto essa paz ilusória não durou, porque senti um puxão abrupto que trouxe todo frio do cômodo sobre mim. Balancei-a ignorando a dor vertiginosa para reunir todo meu descontentamento e fúria para reclamar com o dito cujo que me desafiou.
— Ei, bela adormecida. — o tom brincalhão familiar murmurou, tão hipnótico e trazendo-me a realidade.
Pisquei inúmeras vezes para clarear meu campo de visão.
— Dante? — balbuciei sonolenta, sentada no colchão. — Eu... Acho que peguei no sono... Tive um sonho tão estranho...
Me levantei trêmula, despencando nos braços seguros do caçador. A vertigem me tomou e meu corpo tremia com uma luminescência que circulava sobre mim que faziam-me lembrar estrelas. Arregalei ao notar que ainda encontrava-me no aperto fortes de Dante, causando uma descarga intensa que, por consequência, me fez corar.
— Já estava considerando beijá-la para ver se despertava. — brincou. — E aí, se sente melhor? — um par de olhos bicolores me encaram fixamente e muito perto. — Você ficou um bom tempo desacordada, sabia?
Arquejei.
— Desacordada? Onde estamos? E a mulher? Eu vi uma mulher! — balancei a cabeça atordoada. — Teste... Ela falou de teste... — levei as mãos a cabeça com a dor.
— Calma, doçura.
— Eu... Fui atingida por algo... — esfreguei a testa para atenuar o desconforto. Mais consciente e ligeiramente energética, toquei meu peito para verificar o dano ocasionado pelo projétil ou o que fosse aquela bizarrice, sem encontrar nada. Nem um vestígio. Agradeci mentalmente por nada ter ocorrido e que, em tese, estava bem plena. — Juro que tinha sido atacada, foi tão estranho e confuso.
Escutei um pigarreio. Após cair a ficha finalmente reparei em que tinha mais presentes no local quanto imaginei.
— Relaxe agora, doçura. — O mestiço afagou carinhosamente minha cabeça, o que frisava mais nossa diferença gritante de altura.
Pequeninas e reluzentes esferas rodopiaram ao meu redor, atraindo minha atenção — quase podia jurar com veemência que tratavam-se de criaturas vivas pelo modo que se comportavam.
— O que significa? — murmurei a ele para evitar expor minha dúvida.
— Significa que encontramos a pessoal certa. — respondeu efusivo. — Tive que convencer a pivete aí a nos trazer a verdadeira Eryna.
— Vocês são muito bobos se acharam que deixaria falarem com minha irmã tão facilmente. — a menina de antes cruzou os braços. — De qualquer modo, foi como minha irmã previu. Um pouco conturbado por conta dos demônios, eles realmente não cansam de invadir a propriedade alheia. — comunicou. — Tive que dar um jeito neles. — estalou os dedos convocando um feixe de fogo bem diminuto. — Mas é bem estranho tantos demônios surgindo esses últimos dias.
Abracei meus braços instintivamente. Estar em um recinto no qual residia uma — teórica — bruxa, não me permitia ficar muito relaxada. Haviam numerosos fatores que adicionava em minha lista, como o ataque e todo resto.
— Podemos ir agora? — a garotinha perguntou entediada. — Não quero demorar mais que o necessário.
Dante me apoiou em si para que não caminhasse como se estivesse bêbada. Ao caminhar por um corredor, vislumbrei um vitral multicolorido com a imagem do que idealizavam como Sparda. Travei sob a luz fosca com uma impressão confusa, porém logo me recompus e retomei o trajeto com o meio-demônio a me guiar.
Como a Divina Comédia.
Esquadrinhei o local, atordoada.
— Espero que não tenha lhe deixado mal, minha cara.
Fomos recebidos por uma mulher por volta dos vinte nove ou até trinta anos — uma idade que batia com a de Dante — em uma cadeira de rodas adornada por pequenos cristais e símbolos, seu corpo estava todo envolto por faixas e seu cabelo era de um tom de loiro claro.
A mulher de antes!
— Ei! Você! — gani.
— Fiquem a vontade.
A garotinha nos encaminhou a cadeiras de assento acolchoado com cortesia, como se cumprisse um papel de suporte. Sentamos rapidamente, tentei me acomodar sem ser interpretada como desleixada, Dante, ao contrário, de mim ficou totalmente descontraído. Arrumei minha postura, não sabendo onde olhar sem ficar incomodada. Uma parcela de mim sentia muita paz naquele pequeno cômodo, entretanto a outra ainda não conseguia tirar da mente aquela sensação desagradável que só crescia a medida que os minutos passavam. Alexander se ajustou em um canto mais recluso de nós.
— Agradeço que tenham vindo até mim. — entoou com ternura materna. — E lamento pelo estranho teste.
Minha expressão se contorceu em diferentes reações, porque era basicamente o que sentia: uma mistura abstrata de sentimentos.
— Para que foi esse teste? — me alterei, porém modulei o tom para não gritar.
— Lady me explicou que, segundo seu relato, veio de outro mundo, então decidi que deveria testar se teria algo interessante para mostrar. — ergueu a cabeça, embora não conseguisse enxergar bem seu rosto, tinha a noção que ela exprimia curiosidade. — Mas... Existe algo...
— Algo?
Eryna pendeu seu olhar entre mim e Dante.
—Bem, de qualquer forma, tive que fazer uma Magia de Análise para entender melhor.
Franzi a testa, vagamente irritada. Não quis transparecer volatilidade pela experiência traumática, especialmente após um duro e frio ponderamento, priorizando o objetivo da nossa vinda.
— Só tem gente estranha nesse mundo. — balbuciei conformada.
Dante riu.
— Lamento pelas travessuras da minha irmã. — Eryna falou após o climão.
A garota virou a cabeça com ar petulante.
— Ela quase nos matou... — acusei, o que fez a menina rir.
— Foi uma brincadeirinha bem bobinha. — ela argumentou com vivacidade cínica.
Bufei.
Seria uma comparação estranha, mas o modo como Eryna articulava suas palavras e mantinha a vocalidade terna, me lembrava muito os vídeos de ASMR que costumava escutar para estudar — o que geralmente acabava comigo dormindo em uma poça de baba.
— Lady tem um dedo podre para amigos. E apesar das pessoas que ela recomenda sejam de índole duvidosa, não tivemos muitas opções. — Dante exclamou com sua sinceridade um tanto quanto inconveniente. — Ainda mais por tudo que tivemos que passar.
A jovem garota fechou a cara com os modos do meio-demônio.
— Mostre um pouco de respeito. — proferiu indignada.
— E você quem seria? — questionou sem interesse e com uma pontada de desdém. — A advogada dela? Já começou mal quando tentou nos enganar lá atrás.
Mordi o lábio inferior para não rir.
— Não te ensinaram bons modos?
— E não te ensinaram a não se intrometer nos assuntos dos adultos? — replicou.
A garota ficou sem argumentos para contra atacá-lo, embora ficasse nítido o quanto a rispidez sarcástica de Dante a irritou.
— Não seja rude com os convidados. — Eryna repreendeu a menina.
Isso é embaraçoso.
O rosto da garotinha se retorceu em contragosto e sinalizou que estava de olho.
— Você tem dados interessante, Diva — Eryna focou em mim, cuja voz era doce e harmoniosa ao falar diretamente comigo me acalmou, como se quisesse transmitir tranquilidade etérea.
— Obrigada? — franzi a testa sem saber o que responder.
— Dezoito anos, tipo sanguíneo O negativo, portadora de um mana fraco comum a humanos e...
— Você soube de tudo isso só com esse feitiço?
— Claro que sim! — a menina interferiu na conversa com um sorriso convencido em relação as primorosas habilidades da irmã. — Minha irmã é uma bruxa poderosa, assim como eu também serei. — se gabou.
— Oh! Impressionante! — arfei ligeiramente surpresa e intrigada. — Essa parte até explica o teste, só que e o monstro?
— É uma espécie de guardião, um golem. — a menina, com um semblante mais sério, explanou. — Infelizmente não é raro ter demônios rondando por aqui, então, para manter as coisas seguras, esse lugar cria ilusões cheias de armadilhas. Para humanos normais, isso tudo são salas e mais salas de exposições de arte, para seres com algum tipo de energia demoníaca ou estranha, se converte em um labirinto complexo.
Arregalei os olhos.
— Você teria encontrado a saída mais rápido. — se dirigiu a mim. — Mas ao manifestar poderes, foi considerada uma ameaça em potencial.
Oh, é mesmo... Os poderes...
Encarei minhas mãos com a dúvida flutuando para longe — não tinha nada de diferente em minhas mãos e conseguia a proeza de criar um campo de força.
— Dante, eu tenho poderes! — me virei pra ele em uma explosão de euforia. — Poderes de verdade! Uou! Eu consegui me defender da criatura! Não é loucura?
Dante riu da minha animação e tocou minha testa com delicadeza, me desarmando completamente.
Ruborizei.
— Só agora notou que tinha algo de diferente? — roçou o polegar em um específico ponto em minha testa. — Ficou bastante óbvio quando se curou bem rápido.
Toquei minha testa exasperada.
As duas orbes ametistas de Alexander irradiava um fulgor fraco, quase perdido e inerte. Pelo meu panorama, ele não somente se eximia da conversa como também suas ações destacavam certa apatia, uma visão tão contraditória do seu eu pacífico, reservado e sensato. Ao cruzar nossos olhares, nos meus haviam preocupação e nos dele melancolia, ele desviou perturbado com o contato e como nos conectamos por um breve momento.
O perfume adocicado que permeava o ambiente se modificou para um aroma pútrido e Eryna inclinou vagamente a cabeça para o ângulo no qual eu também fitava, uma luminosidade sutil se manifestou por um dos olhos cobertos dela.
— Espero que esteja livre para se unir a nós. — pronunciou com clareza e probidade.
Todos no recinto, exceto Dante e o próprio Alexander, arquejaram com a astúcia e a percepção apurada da bruxa — sendo eu a mais afetada com sua assertividade.
— Você consegue vê-lo? — indaguei atônita. — Achei que somente eu podia... O Dante e as outras pessoas que encontrei também não o veem.
Eryna alternou sua atenção entre ele e eu.
— Vocês possuem uma energia semelhante, quase sintonizam. — concluiu com seriedade. — A aura dele entra em ressonância com a sua, isso lhe atribui tal capacidade.
— E isso significa algo?
A pausa na cadência ritmada de suas afirmação me encheu de ansiedade. Alexander absorveu a mesma vibração que eu, como se, de fato, entrássemos na mesma frequência por alguns segundos.
— Que ele é ligado a você. — murmurou categórica.
Alexander tinha sido um verdadeiro guardião desde que nos conhecemos e ficaria feliz de termos uma ligação, quase poderia considerar meu fantasma da guarda. Ele me protegeu e me guiou então ele, em teoria, tem funções designadas a anjos. Apesar de ter uma óptica otimista das coisas, Alexander esboçava certa preocupação. Seu olhar se ficou em mim e ele sorriu com ternura.
— Alexander. — pigarreei reunindo coragem. — Ele comentou sobre isso, mas nenhum de nós conseguiu pistas a respeito até agora.
— Creio que é correto dizer que essa jornada não é somente sobre o que é, mas sobre sua ligação com ele.
Lancei um sorriso a ele que me fitou com simpatia. Contudo, esta não durou muito, seu semblante tão sereno quanto as águas cristalinas de um lago sossegado, se franziam com consternação. Ele desviou o olhar de mim, como se não quisesse que o visse expressar abertamente tais emoções.
— Doçura? — escutei o chamado de Dante e o fitei com uma sensação estranha de deslocamento. De não pertencimento.
Percebi que o mestiço estava tenso, de bônus, não conseguia projetar frases de conforto. O histórico dele era muito mais consistente que o meu em critérios de confiança.
— Eu também gostaria de saber mais. — sorri tentando convencer ele e a mim mesma. — Então o que... — minha frase fora cortada pela metade com a paralisia brusca e inexplicável que me travou no lugar, experimentando uma sensação de choque impactante, assistindo várias imagens em uma sequência rápida demais para assimilar.
A vertigem fez o mundo ao meu redor girar.
Dentre todas, a mais terrível: uma figura sombria amorfa imóvel, deslocou-se passivamente e ganhou uma forma mais humanoide. Exatamente como se as trevas tivessem uma aparência humana e vontade própria.
— Diva? — Dante estalou os dedos.
O toque firme e cálido de Dante em meu ombro suscitou uma reação que acabou me imergindo mais na complexa ilusão no qual não conseguia sair.
A figura de preto estava há uns bons metros de distância, não esboçava uma ação ou vocalizava. Simplesmente permaneceu congelado, mirando-me. O desconforto familiar rastejavam pela minha pele, como se existisse uma outra consciência dizendo para fugir dali.
Girei com os calcanhares, ansiosamente para encontrar uma abertura, notando que o meio-demônio já não estava. E a presença obscura o substituía, tão próximo de mim que mal podia ministrar o ato mais normal que era o exercício de respiração.
Arquejei em absoluto pânico, recordando dos numerosos pesadelos no qual um ser desconhecido me perseguia implacavelmente.
E ele estava bem na minha frente.
Era real.
Retrocedi, esbarrando em algo que, como um gatilho, me fez berrar como nunca antes — tão alto e assustado que minha garganta ardia com o esforço. Não nasci com o timbre mais elevado a ponto de que minha voz se sobressaísse dentre tantas mais imponentes, entretanto, naquele instante, tinha, certamente, superado todas elas.
Um pequeno círculo formou-se sob meus pés com desenhos estranhos em uma coloração azul reluzente que desfez a entidade.
— Diva?
— Dante... — sussurrei, resistindo a ânsia de chorar, embora as primeiras lágrimas já rolassem pelas minhas bochechas. O abracei trêmula, sendo prontamente retribuída, algo que, mesmo aflita pelo ocorrido, me surpreendeu.
— Já passou, doçura. — me alentou, afagando minhas costas com toda paciência.
Esfreguei gentilmente minha testa como se estivesse prestes a lembrar alguma coisa, porém, também sentia como se todo meu ser empurrasse essa lembrança de volta para seu devido lugar: esquecido nos confins da minha mente.
Notei que o círculo mitigou em pequenos fluxos de aura roxo azulada até que fora sugada por um pingente que Eryna carregava. Assim que o pesadelo sumiu completamente, a bruxa estendeu a joia em minha direção e a ofereceu.
— Fique com isso, Diva. — peguei o acessório com cautela e o apertei contra mim, ciente de que ia me ajudar como aconteceu há pouco. — Maya, pode levar Diva para tomar um pouco de ar?
— Claro, irmã.
Relutei um pouco para romper o gesto carinhoso com Dante.
— Eu não quero ir.
— Não se preocupe, vai ser uma conversa rápida e logo você me terá só para você. — o meio-demônio provocou com o sorriso convencido que suavizando meu terror.
O olhar solene e calorosamente confiante de Dante me encorajou a sair, embora estivesse um pouco tensa com a ideia — dar espaço para que os dois dialogassem se tornou a única opção viável para as circunstâncias. Infelizmente não me encontrava em posição de recusar tampouco de teimar com a proposta, de certa maneira, era uma encruzilhada.
Me recostei na parede, teorizei sobre os possíveis tópicos que me obrigaria a ser excluída disso. Achei piamente que as pessoas desenvolveram uma função básica de me expulsar das dinâmicas.
Após a arrebatadora experiência do tortuoso pseudo teste — se é que posso chamar de um —, minha tolerância a comportamentos estranhos se reduzira drasticamente e a lolita me admirava com muita insistência e o rubor subiu com a constante vigilância e em um período relativamente longo. Seus olhos bicolores se prendiam a mim de um jeito um tanto medonho. À princípio acreditei que ela fosse aprontar uma de suas perigosas peripécias como fizera antes, sobretudo pela alegria que transluzia de sua face com uma maquiagem tão bem feita que causaria inveja em profissionais mais antigos no mercado. Entretanto, com o passar dos minutos, sua aparente devoção se mostrava bastante legítima, ela mordia os lábios rosados com notável inquietude.
Domada pela curiosidade, pressionei a orelha levemente na porta para captar o menor som que fora emitido dentro daquela sala.
— Nem adianta, se minha irmã quiser nem com todo esforço e improvisação vai conseguir escutar algo.
Suspirei frustrada. Cogitei solicitar uma mãozinha fantasmagórica de Alexander para espionar por mim, mas ele estava imerso em algum monólogo extremamente complexo e não ousei atrapalhá-lo.
Sem muitas alternativas, decidi puxar papo com a garota para extrair informações mais relevantes e passar o tempo mais produtivamente.
— Ah... Bem... — balbuciei desorientada. No que tange as relações fundamentais de socialização, podia afirmar com clareza que não detinha as melhores habilidades. No geral, achava que minha capacidade de interação era a mais medíocre e, se tivesse uma classificação, estaria nas mais baixas, portanto desqualificada. — Como se chama?
— Sou Maya! — os olhos dela tremeluziram de eufórica contemplação. — Seu nome é Diva, certo?
— Sim, sim. Aproveitando a deixa, por que enganou a gente?
— Oh. — Maya assumiu uma postura menos implicante e mais dócil. — Tenho que proteger minha irmã, obviamente.
A mulher que utilizou de métodos pouco ortodoxos para descobrir coisas sobre mim carecia de proteção?
— De que exatamente? Sua irmã parece ser bem poderosa para se cuidar sozinha.
Maya desviou o olhar, então percebi que tinha cavoucado em terreno delicado.
— Desculpe, não quis ser invasiva.
— Não se preocupe, está tudo bem. — saltou para perto de mim com destreza, me assustando um pouco com sua velocidade incomum para alguém tão jovem. — Aquilo que você fez foi incrível!
Corei com o elogio a minha performance um tanto desastrosa e com a mudança brusca do tom
— Você está meio crua, mas nada que um treinamento não resolva.
Tomar consciência de ter capacidades sobre-humanas era como uma afronta ao racional, entretanto, negar a realidade e que eles se manifestaram seria, no mínimo, uma tolice.
Além disso... Achava legal ter alguma magia.
Redirecionei minha atenção na porta, mais esperançosa e preenchida com altas expectativas. Apoie-me parcialmente nela para que, assim que fosse destrancada, pudesse tomar a dianteira e tentar descobrir no que tanto discutiam que necessitava tanto segredo. Me espreguicei contra a estrutura de madeira no justo segundo que ela se abriu, muito antes da minha previsão, desencadeando o uma sequência rápida que me derrubaria em uma queda patética e vergonhosa.
— Algo me diz que sua tendência é de cair nos meus braços, doçura. — Dante proferiu com aquele sorriso galanteador, que arrepiava até a alma e confundia minha mente, ao me resgatar pela sei lá quantas vezes ele me salvou de cair desde que cheguei.
Esses acidentes aleatórios facilmente me classificariam como desajeitada em toda extensão do termo — com um número recorde de tropeços — e uma potencial desastre ambulante.
— Obrigada.
Me aprumei e espiei atrás de Dante que cobria parcialmente o meu campo de visão.
— Vamos, doçura. Não teremos respostas aqui. — pisquei atordoada.
— Mas... — sem alternativa para por escusas em permanecer ali, cedi e me permiti ser guiada por Dante para fora.
— Espero vê-la novamente, Diva! — Maya exprimiu alegremente, suas bochechas levemente rosadas.
— Eu também, Maya. — repeti o nome mentalmente para me certificar que ainda lembrava.
Dei um sorriso amarelo.
— E quanto a você, feioso, espero nunca mais ver essa sua cara horrível! — Maya provocou, mostrando a língua para Dante.
— Pena que você acha isso, Diva tem uma opinião bem diferente da sua, não é, doçura? — Dante me puxou para perto dele.
Maya ficou vermelha, só que de raiva. E eu corei.
— Morra, seu maldito!
Oficial e desoladamente aprisionada. Prostrada no meio de uma rua deserta no intrigante e sufocantemente mortal mundo no qual — por um mero acidente ao acaso — me transportei inconsciente, avaliei os planos disponíveis, demarcando mentalmente os que fracassaram antes de serem executados. Não tínhamos obtido informações relevantes ou evidências que nos proporcionasse uma resolução no caso, era como se vagássemos às cegas e sem rumo. Encarei Dante que andava preguiçosamente há uma distância razoável, o sedoso cabelo claro balançava suavemente e seus passos, embora despreocupados, transmitiam confiança — um bálsamo no epicentro do caos.
Acho que fiquei nessa posição por mais tempo que previ, pois Dante se virou com a fisionomia interrogativa e a linguagem corporal muito receptiva — pelo menos para mim.
— Sei que falei que não vejo problema que fique me admirando, mas que seja enquanto andamos para poupar tempo, sim? — acelerei o passo para me unir a ele após o comentário jocoso. — Decepcionada?
Suspirei.
— Um pouco. Difícil definir meus sentimentos nesse momento.
— Antes de voltarmos para a loja, vamos ver uma última possível pista. — Dante informou.
BURBURINHOS ESTOURARAM timidamente pela lanchonete, o zumbido de várias vozes se propagavam mesclado com os ruídos de passos apressados das garçonetes que acompanhavam diligente e competentemente os pedidos nos quais lhe foram designados. Naquele horário o fluxo de pessoas parecia razoavelmente menor — que não sobrecarregava o trabalho das duas jovens que atendiam — nos permitindo escolher os assentos mais cômodos.
Meus dedos tamborilaram na mesa tediosamente enquanto assistia a iluminação da rua, uma luz parca em um poste precário e decadente, piscar freneticamente em seus últimos suspiros de sua vida útil. Conforme a noite estendia seu manto escuro no céu, menos gostava da ideia de ficar parada em um lugar só. Peguei o chá que fora servido há poucos minutos e mexi em seu conteúdo rosado, hipnotizada pela forma que o líquido se balançava sob minha influência.
Dante estava no balcão esperando sua pizza sem azeitonas, ocasionalmente olhando-me de soslaio para checar se estava bem. Seu zelo em relação a meu estado de espírito me animava, ainda que a razão gritasse que seria uma má ideia alimentar um sentimento por ele. Chacoalhei a cabeça para jogar os pensamentos para uma parte esquecida da minha mente.
Um pequeno grupo de jovens entrou no local e se ajeitaram nos assentos atrás de mim. Dois deles deram a volta para me abordar sem mais nem menos. Revirei os olhos para obviedade de suas ações, deve estar estampado na minha testa “alvo fácil” por ser uma garota sozinha em um estabelecimento parcialmente cheio. Conhecia o truque e não tinha paciência para lidar com bobagens hormonais de desconhecidos.
Antes que abrissem a boca para declarar suas intenções, Dante se acomodou do meu lado.
— Nem dá pra acreditar que me fizeram esperar tanto por uma pizza. — Ele encarou os dois rapazes com escárnio, seu olhar vagou deles para mim com a compreensão dos fatos. — Estão te aborrecendo, querida?
Arregalei os olhos pela maneira exageradamente afetuosa que falou comigo, assumindo uma postura mais divertida.
— Finalmente, achei que me deixaria sozinha.
— Imprevistos. — esticou o braço sobre o encosto do meu assento. — Posso ajudá-los?
Prontamente os dois rapazes saíram sem dizer uma palavra enquanto o restante do grupo se dissolvia em gargalhadas pela abordagem frustrada.
— Obrigada. — dei uma breve risadinha.
Dante acenou com a cabeça com o agradecimento. Beberiquei o chá, atenta ao Devil Hunter.
— Como está se sentindo agora? — perguntou, limpando um pouco as mãos.
— Um pouco cansada. — bocejei. — A propósito, o que conversou com Eryna?
Dante parou de comer, reflexivo. Seu silêncio durou pouco, pois assim que expus minha dúvida, ele me fitou e cruzou os braços.
— Era uma conversa de adultos.
Franzi o cenho com uma resposta tão evasiva.
— Você não vai contar, não é?
— Não é nada que você deva se preocupar. — disse com segurança. — Confie em mim.
Não tinha muito o que protestar, então peguei uma fatia da pizza e comi com vontade, não desperdiçando nada. Ao mordiscar o queijo, me dei conta de um detalhe imprescindível: que Alexander não estava em canto nenhum. Desde que ele se uniu a mim, sua figura diáfana nunca se afastava tampouco sumia — ou o que seria ficar na dele quando se trata de uma alma errante. Fiquei preocupada com seu paradeiro, mas assegurei a mim mesma que ele não passaria tanto tempo longe, somente o necessário para espairecer. Enquanto minha mente matutava a respeito do fantasma perdido, observei em contemplação tácita Dante em sua apreciação degustativa das últimas fatias de pizza. Disfarcei a risada enxergando uma fagulha de positividade nesse mar de frustração e que, talvez, não fosse tão ruim ficar naquele mundo com o Devil Hunter — e minha paixão platônica.
Sorrindo com minha resolução, experimentei uma mudança no ambiente que arrepiou-me dos pés a cabeça em um instante. Poderia descrever como uma poderosa onda fria que soprava pela área que, teoricamente, não deveria ser influenciada pelo comportamento estranho do clima externo. Estremeci com o fluxo gélido que rastejava dolorosamente pela superfície deixando para trás um rastro insensível pela pele. O ar, que outrora mantinha uma temperatura aconchegante para terminar o dia, se convertia em uma névoa sutil que que flutuava sobre o chão.
Dante me agarrou com tamanha velocidade que meu cérebro desacostumados não foi capaz de processar seu movimento surreal. Ele se muniu com a mesa para nos proteger com o jato congelante que jorrava direto em nós dois. Tudo ao redor se cobriu de gelo, um infindável tapete branco sobre tudo, exceto Dante e eu. No entanto, não me isentava dos primeiros sintomas de hipotermia em meu metabolismo. Não importava o quanto quisesse abraçar o que me restava de calor, ele se extinguia rapidamente como a chama de uma vela gasta.
Grunhi com uma fisgada lancinante no abdômen, pressionando o braço de Dante numa vã tentativa de chamá-lo com a voz esvanecendo em gorgolejos sôfregos. Arfando, examinei a fonte da dor com horror ao deparar com um grande fragmento de gelo preso na lateral do meu abdômen.
— Diva? Merda. — Dante rugiu abafado com minha lamúria com o ferimento, carinhosamente pegando minha mão.
Um soluço escapou por entre meus lábios ressecados.
— Aguenta firme, doçura. Vou terminar com isso rápido e procuraremos ajuda. — suas mãos aqueciam as minhas com tanta delicadeza que, mesmo em meio ao medo, me comovi. — Consegue segurar mais um pouco até lá?
Fitei Dante com os olhos transbordando grossas lágrimas. A ternura e o zelo que transmitia naquela singular troca de palavras me imbuiu de coragem para suportar a dor, busquei um pouco de consolo no pingente que ganhei, mas em meio ao caos, perdi ele.
Assenti, reafirmando internamente meu empenho.
— Você é uma garota forte, doçura. — em outras circunstâncias coraria com seu discurso incentivador. — Vou chutar o traseiro desse miserável em seu nome.
— Desculpem meus maus modos. — uma voz desdenhosa pronunciou, limpando as roupas que trajava. — Vocês dois me deram bastante trabalho, estive quase perto de interceptá-la, minha cara. E como um rato ainda conseguiu escapar.
O vento vergastando meu rosto não contribuía para minha melhor assimilação dos acontecimentos.
— E novamente nos encontramos, filho de Sparda. É quase um prazer vê-lo.
— Pena que não posso dizer o mesmo. — Dante retrucou com menos humor que o habitual. — Não ficou satisfeito com a surra que tomou antes? Ou gostou tanto que veio repetir a dose?
— Que arrogante. — o estranho rapaz ruivo comentou indiferente. — Oh, vejo que a acertei sem querer.
Ele balançou a cabeça como se estivesse se dando conta de uma ação mal calculada.
— Isso foi inesperado até para mim. — ajustou as luvas nas mãos displicentemente. — Meu propósito é levá-la com vida. Você é mais valiosa assim inteira.
— Ela não é um objeto. Ou um brinquedo quebrado. — a voz imperativa de Dante vibrou e causou uma oscilação no lugar que me assustou um pouco. — Dessa vez vou me certificar que não se levante mais.
Arrastei-me cuidadosamente para longe do embate e estagnei ao sentir dedos gelados em meu pescoço.
— Não faça movimentos bruscos se ainda quiser manter a cabeça no lugar. — a voz rouca aconselhou, sendo prontamente silenciado com dois tiros de alerta próximo aos pés.
— E sugiro que mantenha suas mãos longe dela se não quiser ficar sem a sua. — Dante mirando o novo intruso com Ebony.
— Dante. — sibilei com a escuridão engolindo tudo paulatinamente.
— Diva! — Dante correu para me alcançar.
Pisquei repetidamente para que meus olhos enxergassem nada além de escuridão inóspita e fúnebre. Não podia me mover e minha consciência resvalava entre a letargia e o choque profundo — temia o que resultou do ataque. Nem meus pensamentos frenéticos se aquietaram com o medo que se apossava de mim.
— Eu avisei que você não sairia daqui. — arregalei os olhos com a silhueta familiar se projetando sobre a única fonte de luz no recinto. — Seja bem vinda de volta, Diva.
— Ace... — suspirei desolada.
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