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24 Inferno de Dante: Mundo de trevas
Notas iniciais

ENQUANTO CRESCEMOS, se há uma predisposição dos adultos, aprendemos sobre o conceito primordial do Inferno e os requisitos para não acabar virando uma aquisição do inóspito desconhecido. Lembro-me de quando era bem jovem e li, pela primeira vez, a Divina Comédia tendo a experiência de ver, pelos olhos de Alighieri, como seria supostamente o reino de sofrimento eterno. Na época, é claro, não suspeitava na ínfima possibilidade de me aventurar por ali, na verdade, nem era tão crédula na ideia da existência de um lugar assim mesmo com as numerosas fontes que fundamentavam sua realidade.
O ambiente não queimava como se a atmosfera predominante fosse composta por enxofre ou gases tóxicos — o oxigênio em si era bastante respirável mesmo para uma forma extracorpórea. Não se comparava ao ar do mundo humano por ser ligeiramente mais pesado, muito se devia pela energia carregada que se fundia mais ao miasma, mas não mataria ninguém asfixiado ou acarretaria complicações respiratórias leves.
Por mais que tivesse um conhecimento prévio do Submundo pela lote do jogo, visando que se tratava de um reino praticamente infinito, teríamos que encontrar meios viáveis para encontrar a alma do meio-demônio. Para acrescentar mais desafio a busca: Dante conservou, durante sua carreira nem um pouco lisonjeira, uma quantidade alarmante de inimigos que o queriam morto tanto por ser o filho de Sparda quanto por ser um cretino desbocado que não tinha medo de debochar dos adversários — um traço divertido e charmoso da sua personalidade.
“Lasciate ogni speranza voi che entrate!”
— Deixai todo esperança vós que entrais. — recitei mais por recordação ao poema fresco em mente. — Esse é o lugar... A casa de Sparda.
“Ainda que tivesse que cortar esse elo, aqui nunca deixou de ser o seu lar” uma voz estranha ressoou em minha cabeça.
No cerne da constatação, uma onda de emoções nauseantes que acometeu, uma melancolia muito íntima e intrusiva que contaminou, por um efêmero segundo, meu senso crítico e a razão, confundindo minha percepção do que seria real ou não. Não podia esperar que a jornada não extraísse o mais perturbador do meu espírito, ainda mais por ser a “casa do eterno infortúnio”.
No fim, nem todas as versões literárias seriam capazes de descrever com grande precisão como, de fato, era o Inferno.
Nem mesmo eu, estando ali, uma parte ativa do grupo, poderia me aprofundar com certeza nós meandros daquele terreno hostil.
Iniciamos a peregrinação sem grandes interferências, os primeiros passos tortuosos por morros de variados tamanhos, casa um mais árduo que o outro, nos encaminharam a um novo cenário. Quando acreditava que não teria mais fim, chegando na beirada de um monte, notei uma densa floresta que se estendia vale abaixo. Majoritariamente concebida para ser uma réplica bizarra, seca e agourenta de uma mata fechada, as árvores eram secas e sem vegetação, o tronco possuía um tom de vermelho acastanhado mais voltado para um ferrugem nos estágios finais.
O cheiro em si irritou minhas narinas e fiz uma careta ao saborear um gosto estranho de sangue na boca graças ao olfato mais apurado.
Seguimos, com todo cuidado, com o risco da terra lisa ceder e o alívio só veio depois ao nos estabilizarmos no terreno plano e um pouco lamacento. Resfoleguei e instintivamente quis olhar para ver o percurso que atravessamos, porém fui prontamente impedida por Alexander.
— Não olhem para trás. — alertou imperativo. — Estamos no limiar da vida e da morte.
Pelo que sabia de histórias, sempre que alguém dizia, com propriedade, “não olhe para trás” já toma o juízo de que não é para desobedecer tal pedido. Sem pestanejar, assenti e me mantive a fronteira da curiosidade, ainda que ela fosse um animal incontrolável, não vali a pena perder tempo me rendendo a uma vontade irracional.
O céu estava em um misto de vermelho e cinza, formando uma cor opaca, sem vida. Prosseguimos floresta adentro, os troncos velhos possuíam formas sinistras e suas sombras pareciam monstros na insondável escuridão.
Engoli em seco.
Nero apertou minha mão delicadamente, só então percebi que ainda estava com as mãos ligadas as dele. O olhei amistosamente, retribuindo o consolo.
Paramos em frente a uma passagem de galhos e plantas que formavam um arco.
— Que lugar horrível — sussurrei desgostosa. —
— É o lar de demônios, estava esperando o que? Uma festa? — Nero ironizou, quebrando o clima de tensão.
Revirei os olhos, reprimindo o ligeiro impulso de rir.
— Vamos! — proferiu Alexander.
Logo que entramos, o vento trouxe ruídos tenebrosos, gritos, prantos e choros que ecoaram penosamente pelos ares putrefatos. Os lamentos sejam de dor, raiva ou simplesmente tristeza eram de cortar o coração. Tampei meu ouvidos para não ouvir, mas parecia não adiantar. O cenário a nossa volta era de ruínas de o que podia ter sido castelos. A primeira impressão do inferno era justamente o que esperava; nojento, assustador e mortal.
Em meio a tantos barulhos, pude identificar risadas grotescas. Ao longe, vi humanos acorrentados andando um atrás do outro em círculos e demônios rindo e atacando-os com chicotes.
— Acham que são bem vindos humanos? — disse uma voz amarga e cheia de zombaria.
— Aqui vocês iram sofrer pelo resto da eternidade — outra voz acrescentou. Então ouvi sons de chicote batendo na pele.
— Gritem! Implorem! — gritos e mais berros foram lançados ao vento.
— Alexander! — chiei pasma, minha visão estava embaçada e as lágrimas ameaçaram sair a qualquer momento — Temos que ajuda-los!
— Não podemos — Alexander murmurou, tristemente. — Sinto muito.
Um bolo inchou minha garganta e as lágrimas que lutava para manter em meus olhos, saíram facilmente. Reprimi um insistente soluço. Precisei apenas olhar para o sofrimento daquelas pessoas para sentir a forte energia negativa e a profunda desolação. Ali mesmo, agachei-me e abracei meu corpo, imaginando que no lugar quem me abraçava era Dante.
— Diva, o que houve? — Nero perguntou preocupado, se abaixou tocando meus ombros — Se machucou?
— NNã.o— um soluço escapou.
— A alma dela esta sensível — Alexander expos, acariciando o topo da minha cabeça — Tente se concentrar Diva, há muita energia negativa aqui. Não a deixe corromper você.
Outro soluço escapou. Nero me puxou para seus braços com força e intensidade.
— Fique calma. — Nero pediu, afagando minhas costas. — Estou aqui por você, para te proteger.
Respirei fundo, puxando o máximo de ar que podia. Não precisava necessariamente respirar em forma espiritual, mas era um hábito de quando se está vivo. A nuvem negra carregada de negatividade que me envolvia se dissolveu. Nero me ajudou a levantar. Assim que me pus de pé continuamos nossa jornada.
— Ora... Temos visitas, irmãos.
Em meio ao caos, surgiram criaturas esqueléticas de olhos vermelhos com chicotes e foices.
— Vamos nos divertir muito com vocês.
Seis das criaturas tentaram investir por cima, Nero os cortou rapidamente. Alexander cuidava dos outros que foram direto para nós. Havia muitos deles e quanto mais destruíamos, o dobro surgia para compensar a perda. Seria cansativo lutar com todos eles, optamos fugir.
— Droga — resmunguei, pegando impulso.
A medida que despeitávamos os demônios, mais ciente estava da estranha massa escura que se moldou ao meu braço, uma mancha que tentava se infiltrar na barreira energética proporcionada pelo anel ao dosar minha aura. Chacoalhei o braço para me livrar do que quer que fosse aquilo e prossegui no encalço de Alexander e Nero que formavam uma fortaleza para me resguardar do que estivera na frente — uma linha de frente da batalha.
Pela minha ignorância, nunca imaginaria que no Inferno, haveria mudança singulares no céu — ainda duvidava se julgar o ponto mencionado como “céu” seria o correto. Para todos os efeitos, escureceu em tons de vermelho escuro com nuances de preto assim que alcançamos a margem de um extenso rio.
— Um mapa seria bem necessário nesse tipo de situação. — comentei, fazendo uma varredura da área.
— Se sente melhor? — Nero perguntou.
— Um pouco. Foi tão estranho. Não imaginava que encontraria almas humanas por aqui... — mordisquei a unha do polegar em um reflexo nervoso. — Claro que existia a chance de ver, só não... É tão estranho. O destino final... Isso me preocupa um pouco. Se a alma do Dante estiver passando por algo assim...?
— O Dante já passou por coisas piores, acho que ele daria conta disso também. — Nero sorriu amável.
— Tem razão. Temos uma missão, não podemos desviar dela. E também, devemos confiar que Dante também não desistiu.
Apesar do sopro de empenho temerário, não evitei encarar com apreensão as águas que separavam a gente do outro lado. Segundo Alexander, o rio se chamava Aqueronte, o mesmo da mitologia grega. O famoso Aqueronte que leva as almas para o outro lado do inferno — ou pelo menos era isso que sabia. Não dava para atravessá-lo nadando; primeiro que eu não sabia nadar e segundo que esse rio definitivamente não daria nunca para nadá-lo, pois além das águas serem escuras e sinistras — dá medo até de olhar —, possuíam almas atormentadas que poderiam ser perigosas e nos afundar com elas.
— E agora?
— Vamos esperar, ele logo estará aqui.
— Ele quem? — Nero indagou, sério.
— Vocês verão.
Observei as ondulações da água, então uma figura surgiu em um pequeno barco.
— O que é aquilo?
— Ou melhor, quem é. — Alexander retorquiu, um sorriso se formou em seu rosto — É Caronte.
Pisquei inúmeras vezes surpresa. O barco parou exatamente onde estávamos. Recuei instintivamente quando vi o barqueiro. Ele tinha uma mascaram de prata assustadora e usava vestes negras, segurava do lado direito um remo que na base pendia uma lamparina.
— Precisamos da sua ajuda para atravessar, Caronte — Alexander pediu.
— Aqui não é lugar de vivos. — Caronte disse, sua voz causou medo no mais profundo da minha alma — Não posso ajudá-los!
— Por favor, precisamos passar! — Caronte me olhou, um arrepio passou pela minha espinha.
— Você... Seria Arya?
Alexander e Nero me olharam.
— Você conhece a Arya?
— Sim, não é a primeira vez que a vejo. Ela veio uma vez para tratar de um assunto e justamente com Sparda — arqueei as sobrancelhas. — Sua aura é inconfundível. É difícil não reconhecê-la.
Respirei fundo.
— Então nos ajude, como um favor. — Desde o começo, quando me foi revelado que era a possível reencarnação de Arya, neguei com todo meu ser. Mas nunca pensaria que essa informação poderia ser útil algum dia.
Caronte balançou de leve a cabeça.
— Ajudarei com uma condição.
— E qual seria?
— Quero uma mecha do seu cabelo como pagamento.
— Meu cabelo? — repliquei confusa.
— Ela não fará acordo com você. — Nero vociferou — Muito menos lhe dará algo.
— Você fede a Sparda, garoto. — Caronte desdenhou, estudando a expressão de Nero.
Nero empunhou Yamato e apontou perigosamente para o pescoço de Caronte.
— Não adianta, garoto, se me matar nunca poderá atravessar o rio.
Toquei o Devil Bringer de Nero, dando lhe um olhar tranquilizador. Ele relutou, por fim, acabou se acalmando. Alexander me entregou uma faça bastante afiada e raspei uma mecha de cabelo, deixando um corte desigual com metade do cabelo, que já curto, muito repicado. Entreguei para Caronte que pareceu muito interessado nos fios, quase que um tesouro.
— Por que justo uma mecha de cabelo? — Alexander perguntou.
— Arya me presenteou com uma flor da mesma cor. Ela usou a terra infértil do inferno e usou uma mecha do próprio cabelo para fazer nascer uma vida. O resultado foi essa flor — Caronte mostrou um minúsculo vaso com uma lindíssima rosa de cor castanha. Era a primeira vez que via uma daquela cor — E a deu justamente a mim, um pouco irônico até.
Caronte ficou um bom tempo admirando a flor, dava para ver que ele estava meio perdido em memórias.
— Entrem! — Caronte deu-nos passagem.
Nero foi o primeiro a entrar no barco e me ajudou, Alexander embarcou logo em seguida.
— Mantenha as mãos dentro do barco, não temos muitos espíritos amigáveis nesse rio.
Uma estranha névoa começou a se formar, conforme íamos em frente. Senti uma leve turbulência no barco, fazendo-me agarrar o braço de Nero. Observei as águas escuras do rio, e apesar de não ser tão limpa, ainda consegui ver meu reflexo. No entanto, não vi exatamente o que esperava, meus cabelos estavam longos e caiam em grandes cascatas pelas minhas costas e ombros. Eu estava realmente parecendo a Arya.
— Aqui esta a verdadeira natureza das coisas — Caronte anunciou, parando em seguida. Saímos do barco com um salto — Daqui é por conta de vocês. Adeus! — e com isso Caronte desapareceu.
Por onde seguir agora?
O cordão que de prata amarrado ao meu mindinho ressoou.
Algo me diz que ele indicará o caminho a partir de agora.
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