Next Dimension
25 Inferno de Dante: Fim da linha
Notas iniciais

In the eye of the storm
No olho da tempestade
Seek the roses along the way
Procure as rosas ao longo do caminho
Just beware of the thorns
Mas tome cuidado com os espinhos
[...]
Just believe in yourself
Apenas acredite em si mesmo
Hear this voice from deep inside
Ouça esta voz bem lá no fundo
It's the call of your heart
É o chamado do seu coração
Close your eyes and you will find
Feche seus olhos e você encontrará
The way out of the dark
O caminho para sair da escuridão
Send Me An Angel — Scorpions
O SUGESTIVO NÉON VERMELHO com a excêntrica escolha de nome — Devil May Cry — piscou efervescente em um convite para entrar no antro do que identificou ser o estabelecimento frequentado por qualquer um que desejasse contratar serviços específicos e de natureza dúbia. Era isso que escutou dos recorrentes boatos que a designaram para a agência, uma série de invenções fantasiosas e meras especulações infundadas que influenciavam opiniões de outrem a respeito de quem ali visitava quanto do dono.
O eco de seu salto no assoalho irrompeu a quietude branda, a madeira rangendo com o peso novo. Acima, sobre sua cabeça, o ventilador de teto balançava com o movimento de rotação fraco e monótono. Não entendia como e porquê suas pistas apontavam para este lugar, mas se tivesse que vasculhar todas as arestas do ambiente para destrinchar esse mistério, o faria sem hesitar. Pelo ar, ela conseguiu sentir o cheiro pungente de demônios — uma mistura e dois cheiros humanos.
Um deles era de Ivy.
O lugar estava vazio — estranhamente calmo demais.
Não se enganou em vir investigar, no entanto, chegou muito tarde para reencontrá-la e pelo andar das coisas, não a veria tão cedo se não tiver uma noção mais precisa de sua localização. Ao rever seu plano, percebeu, ainda que mecanicamente, que a ausência de vida transmitia uma atmosfera de abandono não muito bem-vinda. O som de sua respiração e dos estalos na madeira duplicaram com a constatação. Havia uma tensão sinistra no modo como tudo soava. Olhou fixamente para o baixo teto da loja, ela não pretendia ficar muito tempo ali.
Com um suspiro, virou-se para encarar a porta. Tocou o pingente que carregava consigo e o aperto por entre seus dedos. Abrindo-o podia ver uma foto antiga, nela estava tanto a si mesma quanto sua melhor amiga.
— Vim aqui para nada! — bocejou entediada. Ela ajeitou os longos cabelos vermelhos e deixou um suspiro de impaciência escapar.
×××
COBRI A BOCA PARA CAMUFLAR o ruído de tosse seca que que ganhava mais intensidade conforme vagueávamos por uma unidade de terra acobreada. O vento árido soprou sutilmente, trazendo o cheiro enjoativo de sangue, agitando meus cabelos castanhos que magicamente ganharam volume e ondas.
O conceito de reencarnação funcionava de um modo arbitrário no plano espiritual — ou eu não tinha o conhecimento primigênio para me basear nas leis que regem o sobrenatural. Viagens astrais revelam mais coisas do que se supõe e descobrir que estava aderindo às características da Arya me deixava confusa.
Estiquei a mão com a ardência singular do fio.
— Alexander... — o mirei com um raio de lucidez tivesse rompido a camada de ignorância que me cercava. — Isso vai nos levar até ele, não vai?
— Me diga você, Diva. — ele sorriu como se entendesse os preceitos. — Você esteve o tempo todo ao lado dele, sua energia e a dele tinham sintonia... Ainda tem alguma dúvida?
Me virei, com o coração a mil.
Atendendo o clamor da minha alma, o cordão prateado continuou emitindo uma luz semelhante a da lua em ascensão — auge da beleza e purificação. Podia sentir uma suave pulsação revibrando através daquele fio.
Então aquilo significava que estaria perto?
Com o vigor renovado e convicta da veracidade da conexão, usei para encontrar meu destino — ir para onde Dante estaria. Sem orientação, desligando qualquer senso lógico que restringisse meu percurso, me vi acompanhando a opalescência que serviu de bússola para dar um norte.
De repente, o medo esmagador que contaminou meus sentidos, as dúvidas impertinentes e falta de confiança desapareceram da minha mente, soterradas por uma camada de valentia e insurgência diante dos limitadores que antes reduzia nossos passos. O elo prateado pulsou em resposta a minha obstinação.
Ainda alerta, andei para longe.
Deixamos para trás o rio Aqueronte, atravessamos ruínas que não era possível identificar. Em silêncio, passamos por emaranhados de pedras, restos de construções e árvores secas e murchas. O lugar tinha uma aparência estranha e vagamente ameaçadora.
Realmente não era um lugar para vivos.
Descemos uma colina de pedras e lama, que escorregava em baixo de meus pés. As horas pareciam eternas, não daria para saber ao certo se amanhecia ou não. O céu não mudara muito, apesar de agora estar um vermelho escuro. E quanto mais adentrávamos pelo caminho estreito, mais desconfortável me sentia. Os dois rapazes mostravam estar bastante atentos a cada ponto. Reduzi o passo, para poder caminhar lado a lado com ambos. Ao nos aproximarmos de um prédio decadente, percebemos uma presença sombria. Ficamos em total alerta, principalmente quando a vulto pousou a nossa frente.
— Que surpresa, não é? — a jocosa voz feminina ardia nos ouvidos. — Nunca pensei que veria três interessantes aquisições perambulando por aqui.
Para um demônio, seu comportamento, forma e aspecto caracterizava muito mais uma elegante modelo. Ela rondou Nero, o enquadrando, como se estivesse catalogando-o em alguma inspeção intrusiva.
— Bonito. — sorriu ardilosamente. — Sou Driade. E você, Querido?
Franzi o cenho.
— Seu cheiro é tão bom — ela inspirou, quase cravando os dentes no pescoço de Nero que foi muito mais ágil que o bote da víbora, escapando dela. — Sinto cheiro de Sparda em você mesclado nesse aroma adocicado humano.
— Fica longe dele, sua tarada! — esbravejei tomando a dianteira contra ela. — Não temos tempo pra essas bobagens!
Driade me encarou com virulência, uma aversão natural a uma adversária.
— O que é tão importante pra estarem por aqui...? — seu tom desdenhoso enviou arrepios em minha espinha. — Será que estão atrás do filho de Sparda?
Arregalei os olhos.
— Acertei, não foi?
Cerrei os punhos.
— Sua reação responde tudo. Engraçado... Essa sua cara é familiar... — Driade me encarou incisivamente antes da zombaria se converter em um semblante de ódio, de fúria tão fervorosa que parecia incendiar o ar ao redor. — Agora eu reconheço... — seus dedos frios agarraram meu pescoço. — Acha que vai conseguir ir para o próximo círculo assim tão fácil, piranha?
Não pude conciliar os eventos que sucederam no instante de um piscar de olhos; tudo que registrei foi Alexander irradiar uma leve rajada de luz que a confundiu o bastante para Nero dar cabo dela. Ou quase.
Assumindo sua verdadeira forma, Driade arremeteu violentamente contra nós.
— É muita audácia voltar aqui. — rosnou. — Quando tiver sua cabeça, estarei mais que satisfeita com a vingança.
Retrocedi horrorizada.
Pela maneira volátil no qual falava jurava que ela nutria uma raiva tóxica por mim, mas não era tão tola para não ter juntado as peças com tudo que foi revelado a respeito da suposta passagem de Arya ali e como nós possuímos uma semelhança física bem evidente, Driade atribuiu todo ressentimento a mim.
— Vou despedaçar seu corpo.
Arfei.
— Eu serei seu parceiro de dança. — Nero se interpôs.
— Saia do meu caminho, garoto estúpido!
— Lamento, mas isso não vai acontecer. A cabeçona ali é minha parceira, se quiser lutar com ela, vai ter que passar por mim.
— Pois bem, vou te matar primeiro e depois me livrarei dela.
Seu rosto retorcido, os dentes afiados e garras vermelhas sangue. Nero pegou-me nos braços e se afastou a tempo de desviar da chuva de pedra enormes que Driade jogava. Com um movimento despreocupado e confiante, Nero me colocou de pé ao lado de Alexander que observava tudo sem anseio.
Driade saltou furiosa em cima de Nero, querendo dilacerá-lo com um golpe certeiro. As garras trucidaram ar pedras, fazendo-as voarem em pedaços enquanto Nero pousou elegante em um ponto distante, desviando a tempo do ataque. Cada gesto dele pareciam controlados e precisos, cheio de segurança e um pouco de arrogância. Alexander cruzou os braços, apreciando a luta.
Em um piscar de olhos, Nero desapareceu e reapareceu ao lado de Driade, que mal tinha absorvido o que acontecia e a cortou ao meio. Um grito estridente de agonia fora ecoado pelo ar antes do corpo cair no chão, jorrando sangue em volta.
— Vamos? — Nero instigou, abrindo caminho.
Esfreguei os olhos.
— Uau. Isso foi uma luta e tanto... E eu não sou cabeçona não, viu? — corrigi indignada. — De qualquer forma, valeu a ajuda. Você salvou o meu traseiro.
— E quando é que eu não salvo?
Acabei rindo.
— Você tem um ponto.
— Ei. — Alexander nos chamou. — Vejam.
Resfoleguei com a densa nuvem que percorria em nosso entorno, um nevoeiro frio e espesso que surgiu tão subitamente que chegava a um novo patamar de bizarro.
Não era loucura ou alguma peça da minha cabeça, com isso já afirmaria com toda certeza.
Entramos mais a fundo no nevoeiro.
Pisquei inúmeras vezes.
Talvez se conseguisse focar melhor minha visão para prosseguir pela trilha. Depois, vasculhei cada canto do caminho com a névoa que impedia de ver com clareza onde estávamos. Entre as lufadas de vento que nos atingiam, estremeci amedrontada e cada som parecia horrivelmente ampliado; o pulsar do meu coração acelerado — e sim, tenho coração e ele bate, já que ainda estava conectada com meu corpo físico que estava vivo — e o esmagador som dos nossos pés pisando no chão pedregoso e lamacento. Percorremos a trilha, mesmo sem poder ver com limpidez.
Escutei um zunido, mas não conseguia ver mais nada na escuridão ou além dela. Podia até ser atacada e nunca saberia o que me atacará. Fiquei alerta, esperando pela dor de algum golpe mortífero e inesperado. Em um lugar assim, sem luz e nebuloso, até mesmo o mais experiente explorador ficaria cego e perdido.
Com passos instáveis tentei me segurar em qualquer um dos rapazes para sentir que não estava totalmente sozinha, mas não conseguia. Mal conseguia raciocinar, muito menos usar minha voz para chamar algum deles. Aos poucos, o chão parecia estar me abandonando, ele parecia não resistir às passadas e provavelmente poderia sucumbir a qualquer instante.
Não era como se eu pudesse resistir à névoa, como se de algum modo ela oprimisse minha mente.
— Nero? Alexander? — gritei a plenos pulmões através da nevoa que obscurecia parcialmente minha visão, buscando toda coragem que podia. Meu corpo começou a entrar em pânico e o meus pensamentos pulsando e ardendo em terror e preocupação.
— Estamos aqui, Diva — senti uma respiração quente na minha nuca. Não virei para saber quem era, porque temia que acabasse esbarrando nele ou ficasse ainda mais perdida do que já estava. Poder sentir suas presenças fora um verdadeiro alivio.
Distraidamente levei o dorso da mão para limpar o suor da testa, constatei que não estava suando realmente. Um espírito não pode suar pelo menos eu acho que não, mas nunca se sabe...
Conforme andávamos a névoa se fora, e assim o caminho tornou-se visível.
Havia um buraco no caminho — literalmente.
Olhei para o assustadoramente enorme abismo. Chutei uma pedra solta e ela caiu na penumbra sem nenhum som. O que fez com que pensasse que o buraco era, de fato, muito profundo. Não sabia o que era pior; a escuridão ou a temível profundidade. As duas coisas juntas eram ainda piores. Uma rajada de vento jogou poeira por cima de nós, nos forçando a cobrir o rosto.
De repente, varias mãos saíram da terra e pegaram os pés de Nero e Alexander, quando me movi para ajuda-los outras mãos me puxaram para longe, para dentro da fenda escura como breu. As mão assumiam formas humanas esqueléticas e de aparência repugnante e cadavérica.
— Alexander! Nero! — gritei miseravelmente, enquanto tentava me livrar das mãos restritivas, lutando violentamente. Todos os meus pensamentos consumido pela necessidade de fugir. Minha batalha pela liberação parecia não adiantar. Eu estava caindo, desmoronando para o derradeiro fim.
Cai para sempre sendo engolida pela escuridão, desmaiei antes de saber se o buraco tinha fundo.
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