Next Dimension

26 Inferno de Dante: Overdose de Ilusão


So much to tell you

Tanta coisa para dizer-lhe

And most of all goodbye

E acima de tudo adeus

But i know that you can't hear me any more

Mas eu sei que você não pode me ouvir mais

[...]

It's so loud inside my head

É tão alto dentro da minha cabeça

With words that i should have said

Com palavras que eu deveria ter dito

And as i drown in my regrets

E enquanto eu me afogo nos meus arrependimentos

I can't take back the words i never Said

Eu não posso ter de volta as palavras que eu nunca disse

[...]

I haven't been all that you could've hoped for

Eu não tenho sido tudo que você pode ter esperado

But if you'd held on a little longer

Mas se você tivesse aguentado um pouco mais

You'd have had more reasons to be proud

Você teria tido mais motivos para se orgulhar


WordsSkylar Grey


NUNCA FUI FÃ DE LEVANTAR cedo, a proeza em si tinha certa competência em realizar se precisasse e por motivo de força maior — como o compromisso da vida acadêmica que me aguardava. No geral, para alguém com um horário biológico desregulado, dormir mais se elevaria em uma benção que fora concedida para minha pobre carne mortal. Me remexendo entre lençóis macios que não se terminavam em minha agitação semi consciente, aclimatada com a posição, atestei torpemente que não usava pijama, pelo jeito que estava coberta a impressão seria de que simplesmente me joguei na cama sem me vestir adequadamente.

A ideia de dormir sem nada me apavorava tanto quanto a possibilidade de ser pega no flagra com nada além de tecidos para esconder minha nudez. Resmunguei, em meio a relutante alegação interna de estar como vim ao mundo, com um balançar ininterrupto e uma voz familiar cuja potencia vocal escalonou após me virar para retornar ao mundo dos sonhos. Empurrada para a realidade e obrigada a sair do torpor, pisquei para me adaptar a nova luz que se lançava sobre minha cara, visualizando uma silhueta de cabeleira vermelha que me encarava com severidade.

— Acorda, criatura. Estou há meia hora tentando tirar você do coma. Esqueceu que tem uma apresentação para fazer? — Lyana repreendeu, tocando a testa com exasperação. — Depois de todo trabalho que teve até entendo estar cansada e querer dormir mais, só que as prioridades no momento são outras.

— Do que você está falando?

— Vamos, levanta a bunda daí e vai lavar a cara. — mandou impaciente, arrancando a proteção de lençóis do meu corpo despido. — Sei que a noite com seu namorado foi ótima, mas hora de voltar a labuta.

— Labuta? Namorado?

— Está dormindo ainda? — beliscou minha bochecha e grunhi. — Pare de me repetir e vai logo.

Me sentei na beirada da cama com uma sensação esquisita nas pernas — quase que a sombra de um cansaço bem específico. Sem alternativa, me arrastei para o banheiro e tomei um banho rápido e me arrumei em tempo recorde com Lyana soltando fofocas paralelas a nossa rotina.

— Agora está apresentável.

Assenti grogue.

Não sei o que aconteceu nos minutos seguintes, cerrei as pálpebras por um instante, tendo a última visão o carro de Lyana, e quando voltei a abri-los, estava em um ambiente completamente diferente.

Tudo estava assombrosamente claro.

A luz do sol emanava da janela, atravessando à persiana. O ar trazia o suave aroma de terra. Houve um tremular na persiana com o vento. Confusa e cansada, não fazia ideia de onde estava. Busquei algo que me ajudasse a identificar. Havia fileiras de mesas e carteiras muito familiares. Meus pensamentos, minha consciência pareciam tão longínquas e ao mesmo tempo torturantemente próximas e abstrusas. Experimentei um vazio mental — algo que fazia muita falta. Como um flash, tudo voltou com descarga devastadora. Quase que minhas pernas cederam e me abandonaram. Sentia que não deveria estar ali. Mas onde deveria estar?

Apertei minhas mãos e ergui a cabeça, abismada.

— Srta. Valentine? — a voz chamou, em misto de preocupação e indignação. — Srta. Valentine?

Um estalo foi necessário para despertar completamente. Levantei abruptamente da cadeira que estava deixando cair em um baque atrás de mim. Espantada e extremamente abalada, encarei a Senhora Folgers, minha professorada da universidade.

— A Srta. Está em condições de continuar?

Continuar o quê? Minga mente estava embaralhada com várias imagens desconexas.

Não! — escapou estrangulado em minha garganta.

Vi-me mirando um círculo de observadores intrigados. Eles se mexiam apreensivos vendo o desenrolar dos acontecimentos. Em outras circunstâncias, seria um momento muito constrangedor. Contudo nada daquilo me importava. Lágrimas ardiam em meus olhos e no momento apenas uma ideia fervilhava em minha mente: Dante. A lembrança de algo inacabado pulsava latejante em minha mente. Dante precisava... Ou precisou de mim.

Eu deveria estar no inferno buscando pela sua alma.

Por que estou aqui?

— Diva? — me virei para encarar a dona da voz conhecida carregada de afeto e cuidados. Os olhos vermelho escarlate me encaravam tristemente, como se por ver meu sofrimento fizesse ela sofresse também. Era bem isso mesmo. Lyana sempre estava lá por mim, quando estava cheia de remorso e esmagadora angústia para me consolar.

— Lyana! — gemi, as lágrimas tentavam sair em meio a audíveis soluços. Lyana me puxou para um caloroso abraço.

— Sra. Folgers, podemos...? — ouvi Lyana pedir, seu tom mostrava harmonia maternal.

— Sim, claro.

Com a permissão da Sra. Folgers, pegamos nossas coisas e retiramo-nos da sala o mais rápido que podíamos.

— O que houve? — Lyana indagou, preocupada.

— Eu... Não... Aqui... — respondi entre respirações pausadas.

— Calma e me explica direito!

— Não era para estar aqui! — despejei, transtornada. — Quer dizer, eu não sei mais...

— Do que esta falando?

— Dante... — abracei meu próprio corpo, completamente desolada.

— Quem é Dante?

Essa era uma questão que não saberia explicar. Talvez se disser a ela o que me aconteceu as coisas poderiam ser um pouco mais fáceis ou isso terminaria com qualquer rastro de sensatez. Decepcionada, percebi que não adiantaria nada. Aquele seria um segredo só meu para sempre.

— Quero ir para casa.

Lyana assentiu, sem questionar.

Em silêncio, caminhamos lado a lado. Sem trocar nenhuma palavra, permanecemos no status quo do desconhecido sem ter ciência de como proceder diante do abismo que nos separava. Imersa em culpa e pesar, não me importei muito com o que me rodeava, incluindo Lyana.

Parei para olhar o céu azul límpido com leve nuances de laranja. Uma leve rajada de vento tremeu as folhas das altas árvores, assim como agitava as plantas que cresciam em volta e nas falhas do chão asfaltado. A calma transbordava por todo canto, enquanto tentava entender a mim mesma. Não conseguia descrever muito bem o tumulto de emoções que me consumia em chamas retraídas; o peito de tão pressionado chegava a esmagar.

Para todos os efeitos, deveria estar feliz... Meu mundo.

Um mundo que parece uma grande farsa.

O que aconteceu não foi real?

Contive em meu interior a tempestade que me rasgava para sair, escancarar tudo sem temor. A respiração se entrecortou a medida que uma onda de choque atingiu-me com uma pancada paralisante. Podia me reunir novamente com minha família, amigos e reaver a vida habitual e humana. Claro que a experiência de viver temporariamente no universo de um jogo muda radicalmente o que se estabelecia como “normal” nos moldes do “comum”.

Agora parando para pensar, havia tantas coisas que deixei para trás, muito mais do que tinha nesse mundo. No outro lado, eu tinha Dante... E até onde me lembro, ele se sacrificou para me salvar, em uma via, estava desfrutando minha vida. Isso era tão egoísta. Era para tê-lo salvado!

Eu nunca ficaria totalmente satisfeita com isso. Não sabia o que faltava, o que queria...

O que eu queria realmente afinal de contas? Sim, sabia muito bem o que queria.

Queria ver Dante. Queria estar com ele, sentir seus braços em volta de mim e ouvir sua voz cheia de escárnio, malícia e sarcasmo. Queria apenas vê-lo pelo menos uma única vez para ter certeza que ele estava bem... Ah, céus, eu queria abraçá-lo. Dedicar minutos para admirar seu rosto e ver novamente o azul profundo de seus olhos refletindo sua alma.

Senti meu coração se apertar dolorosamente em meu peito. Ele se quebrou, sabia disso com a dor lancinante como vidro se quebrando por dentro, fragmentos afiados cortando e rasgando horrivelmente a carne. Quando percebi já estava chorando.

Um soluço audível escapou e Lyana voltou sua atenção para mim que me acabava em choros intermináveis.

— Oh, Diva! — Lyana me aconchegou em seus braços. — Não chore! O que seus pais diriam vendo você chorar? E o principal, o que Tony diria?

— Tony? Que Tony?

— Dããh! — Lyana revirou os olhos. — Tony Redgrave, seu futuro marido!

Futuro o quê?

— O quê? — gritei, exasperada. — Eu não tenho noivo nenhum!

Não lembro de que tinha um namorado, muito menos um noivo nesse mundo. Mas é bem capaz de que nem me lembre de muita coisa, afinal minha memória era horrível. Ainda assim, tinha plena certeza que não tinha noivo algum.

— Você esta muito estranha hoje. — Lyana concluiu — Vamos logo que seus pais devem estar esperando.

Lyana me puxou, fazendo com que acelerasse meus passos.

— Eles estão... Me esperando?

Lyana jogou seus longos e vermelhos cabelos para trás, sorriu compreensiva para mim.

— Liguei para eles enquanto estava inerte em pensamentos.

Estávamos em uma rua bem próxima a minha casa. Lyana tentava me distrair e eu aproveitava para descobri mais sobre meu suposto noivo, sem deixar transparecer minha total falta de “noção”. Anthony Redgrave — ou simplesmente Tony Redgrave — é um homem muito mais velho que eu — isso não é um real problema para mim, sendo que Dante inclusive era também mais velho que eu — e tinha um negocio próprio, que era uma agência de investigação. Em outros termos, ele é um detetive particular. Lyana não me explicou muito bem como nós nos conhecemos e fiquei bastante curiosa. Esse tal de Tony era um grande mistério no qual gostaria de descobrir...

De repente, algo passou perto de mim, fazendo todos meus pelos se eriçarem em alerta.

"DIVA"

"DIVA"

Virei rapidamente para ver quem é que me chamava. Encontrei apenas o nada, ninguém tinha me chamado, mas mesmo assim eu podia jurar que ouvi. Foi real.

— Que foi, Diva?

— Ah... Nada.

Estava muito entorpecida e confusa.

Nada fazia sentido para mim desde que voltei para minha casa. Depois de tantas coisas acontecendo simultaneamente, a cabeça da pessoa começar a pilhar.

Primeiro; fui parar por forças misteriosas. Segundo; apaixonei-me por um homem que jurava ser um personagem de jogo — o famoso e sexy Dante, filho do lendário Sparda — o homem mais complicado do mundo. Terceiro; Além de novas revelações, que descobri ser justamente a reencarnação da mulher que causou indiretamente essa bagunça — logo que ela se envolvera com Sparda no passado — e por conta disso e de outras não muito importantes, acabei sendo caçada por um ser perverso que cobiça meus poderes e que acabou matando Dante. A situação só tende a piorar a partir daqui, eu fui ao inferno — literalmente ao inferno, mas não precisei morrer para isso — para resgatar a alma de Dante que ficou perdida. Nesse meio tempo, acabei sendo tragada de volta para meu mundo. Quarto; eu tinha um, noivo que nem fazia ideia de quem seja e de quebra ainda tinha a sensação de estar traindo Dante só por causa disso — se bem que eu e Dante não tínhamos nada, não fazia sentido ficar grilada com isso, embora não mudaria o fato que eu estou apaixonada por ele.

Minha vida não é mole, não.

Já até me perguntara se verdadeiramente tinha deixado o outro mundo para trás, se na verdade minhas chances de estar com Dante novamente estariam perdidas para sempre ou ainda pior, presa sem poder nunca mais vê-lo. Tudo parecia distorcido e surreal como se na verdade tivesse caído em outro mundo, não o meu próprio.

Quaus eram as chances de que tudo isso não seja real? Talvez vinte ou trinta por cento, utilizando apenas minha intuição como alicerce.

Estou em casa. Minha casa. Meu lar. Ainda parece uma mentira enquanto ando calmamente pelas escadas.

Pode ser bizarro, mas não conseguia explicar com clareza a confusão de sentimentos que apertavam meu peito. Eu havia deixado um pequeno fragmento da minha alma no outro mundo e podia sentir sua ausência. Atualmente era apenas uma casca vazia sem sentido e entorpecida. Tendo pena da minha própria existência. Deve ser por essa razão que sentia que não pertencia a esse lugar. Eu é que estava deslocada, porém compreendia muito bem que tinha um lugar para mim e este era ao lado de Dante, na outra dimensão.

O engraçado que apesar disso, ainda tinha tantas coisas engasgadas no fundo da minha garganta que não pude expor para Dante, por medo ou qualquer outro motivo que ao faz sentido agora. Não disse que o amava o suficiente, muito menos o quão Dante era importante para mim, que acima de tudo me fez feliz em meio ao caos que se acometia em nossa volta e que com ele nunca me senti sozinha. E não posso esquecer-me do temível e inevitável adeus. Adeus de tudo que abrangia Dante. Nada disso valia, eu não disse e me arrependo disso.

Respirei fundo, com a sensação de ser trazida de volta à realidade. Certo, eu fazia parte daquele lugar e tudo fazia parte de quem eu era. Meu lugar era ali, como minha família e meus amigos — onde eu crescera e passara toda a minha vida. E tinha que ser sincera comigo mesma, não podia regressar mais. Esse era o final de tudo — agora pode rolar os créditos. Agora teria minha vida normal e estaria com minha família normal e agiria como uma garota humana normal, para variar. A vibração desse mundo me acolheu como uma mãe com seus filhos.

Minha casa.

Esta é minha casa de sempre, o lugar onde me originei e cresci com as mesmas cores cinza um pouco desbotadas de sempre e o velho piso de cerâmica escura e os moveis de madeira e mogno. Havia alguns quadros que tinha pintado quando mais nova — arte é um dos meus hobbies —, que pendiam na parede. Joguei minha mochila em um canto qualquer. Ouvi ruídos que emanavam da cozinha e fui até lá com Lyana no meu encalço.

E lá estavam meus pais, conversando animadamente com uma pessoa um tanto familiar. Assim que entramos, a conversa cessou.

— Olá, Princesa. — meu pai me cumprimentou, dando-me um forte abraço.

— Oi, pai, mãe. — forcei um sorriso.

— E eu? Esqueceu-se de mim? Não mereço um beijo ou um abraço? — a terceira pessoa escarneceu, rindo — Sua indelicadeza e falta de atenção me magoam, doçura — brincou sarcasticamente, fingindo estar ofendido.

Voltei minha atenção para ele, e tive que resistir para não arquejar de espanto e descrença. Não era possível. A pessoa que menos esperava encontrar estava na minha frente com um costumeiro sorriso atrevido.

Dante?

Fora a única coisa coerente que consegui dizer.