Next Dimension
40 Incerto, irreal e escondido

REDUZIDA A UMA PILHA de estresse, com uma perseguidora implacável cuja identidade permanecia sendo um mistério, me perguntei se deveria deixá-la seguir livre ou se teria que detê-la e interrogá-la para saber as intenções por trás desse comportamento bem suspeito. As duas alternativas seriam igualmente razoáveis considerando que, até o momento, não havia um perigo iminente nela — é mais a ansiedade de alguém desconhecido ter interesse em mim que tornava as coisas um tanto quanto difíceis de conceber. Ao menos, colocando-a contra a parede, teria uma ideia de com quem estava lidando.
Ninguém gostaria de virar alvo de algum maluco psicótico e estampar a primeira página de alguma manchete sensacionalista que propaga medo e o sentimento de pessimismo. É de conhecimento geral que confiar em alguém que não apresenta um mal real pode ser um erro na melhor das hipóteses e uma matéria policial na pior. Acabei me encontrando em um conflito com minha mente apinhada de perguntas pendentes e questões mal resolvidas. Mas não dessa vez, teria respostas nem que para isso tivesse que apelar para métodos pouco ortodoxos e mais eficazes.
Olhei por cima dos ombros a mulher atravessar outro vagão, porém antes que chegasse a perdê-la de vista um grito que reverberou por todo meu peito a fez parar instantaneamente. Tive quase certeza que todos os passageiros tinham ouvido claramente meu chamado audivelmente ameaçador. A adrenalina correu por minhas veias queimando com força implacável. Meu corpo começou a mover involuntariamente, de modo que, endireitei para avançar contra o alvo, aludisse a uma conduta de austeridade. Apertei os punhos até que senti-los firmes e um pouco doloridos. Não me importei e muito menos afrouxei a força exercida. Por sorte, havia trazido Blood — nome que dei a minha katana (Afinal ela serve para acumular meu sangue pela lâmina, por isso esse nome) — comigo e a saquei com rapidez. Peguei com segurança a bainha dela, riscando a lâmina no teto metálico. O frenesi deu ânimo a todas as minhas células. Tornaria as coisas mais fáceis se ela não estivesse de costas para mim e pudesse olhá-la diretamente nos olhos.
Posicionei-me de maneira bestial, podia sentir meus olhos arderem. E gostaria de saber onde adquiri tamanha fúria animal, estava certa que havia uma confusão perturbadora e o caos causado pela curiosidade de ter mais conhecimento sobre tudo que me rodeava latejava em minha mente. E ainda existia uma possibilidade de que ela seja... Não tinha razão para pensar...
Mas tinha necessidade de tudo isso?
Uma parte envaidecida gritava que devia fazer o melhor em descobrir mais informações, enquanto a parte racional e com bom senso me mantinha controlada, não totalmente, ainda esperava que fosse o suficiente para ser o mais ponderada. A mulher virou-se girando a moto com a roda traseira. Não podia ver seu rosto, apenas os olhos que mostravam seriedade e paciência. Não era o que esperava para alguém que estava frente ao inimigo — mesmo que não tivesse certeza de tal. Resolvi dar o benefício da dúvida para ela.
— Planeja me atacar para me fazer falar? — ela deu uma risada carregada de júbilo e sarcasmo que vertia feito veneno.
Levei um susto pelo tom.
A pontada sarcástica em seu humor me incomodou, não somente isso, me magoou profundamente. Não compreendi a razão para me sentir assim, era uma completa desconhecida. Nada mais, nada menos.
Mordi o lábio inferior, desgostosa.
Empunhando minha espada, apontando-a para a figura a minha frente e determinada a conseguir o que tanto almejava: respostas. Não hesitaria em conseguir através de uma luta e ela não parecia tão disposta a dizer voluntariamente. Quem sabe chutando o traseiro dela conseguiria fazê-la soltar a língua?
Olha só para mim, agindo como uma pessoa que definia tudo afrontando. Acho que adquiri a mania Dante de resolver problemas — investindo em estratégias mais diretas. A tensão entre nós era quase tangível; sombria e pesada. Peguei impulso e corri para atacá-la com uma sequência veloz induzida pelo meu recente surto de diligência com a espada. O impressionante era que mesmo sem sair da moto, conseguia esquivar de cada golpe. Continuei a desferir cortes que apenas, para minha frustração, acertavam o nada. Havia arranhões por toda superfície de metal do teto do trem, onde passávamos. Acelerando a moto, fazendo-a cantar pneu, jogou-se contra mim. Saltei por cima dela, em seguida, parti para contra atacar.
Rasguei o ar em outra tentativa em vão de acertá-la.
Aquilo estava começando a me irritar.
Não era uma exímia espadachim, mas também não me considerava tão ignorante.
Ela segurou a lâmina entre suas mãos quando estava prestes a finalmente atingi-la, restringiu assim meus movimentos. Logo me lançou para longe.
De súbito, senti uma segunda presença, diferente de qualquer outra — já que abaixo dos meus pés havia pessoas normais e um mestiço — na nossa luta. Mas era diferente. Uma aura demoníaca. Então, virei para ver o que era e deparei com um demônio. Ele era bem alto, pele cinzenta com garras e dentes afiados.
A criatura urrou, o grito estridente fez com que os pelos do meu braço eriçaram em alerta.
— Merda. Não posso perder tempo com isso. — a mulher grunhiu, acelerando a moto. — De qualquer forma, não é como se não pudesse lidar sozinha com ele.
Ela sorriu, saltando para fora do trem.
— Filha da... Droga! Ainda não terminei com você! — vociferei irritada, partindo para cima do demônio que caiu antes que chegasse a trocá-lo.
— Estava ficando entediado de tanto esperar, — Dante justificou despreocupado, rodou Ebony e Ivory e as guardou — E você demorou muito.
— Como pôde ver... Tive alguns problemas. — suspirei descontente. Olhei ao redor, o vento frio chicoteava meu rosto e o deixando sem sensibilidade. — Ela conseguiu escapar...
— Sei bem que tipo de problema.
— Realmente... — pasma, arregalei os olhos quando vi que estávamos próximos a um túnel. Fazendo um cálculo rápido com a velocidade e o impacto, estremeci com a simples possibilidade de virarmos uma, literal, mancha na história. Sem nem duvidar, pulei em cima de Dante, e nos teleportei a tempo. Entramos — na verdade, desabamos — no único vagão totalmente desocupado. Permaneci encolhida nos braços de Dante, apertando meus olhos jurando para mim mesma nunca cometer uma loucura dessas.
Escutei Dante rindo.
— Se queria ficar sozinha comigo precisava só me dizer. — brincou, afagando a minhas costas.
— O quê? — questionei confusa. E percebi que estava deitada sobre Dante que sorria lascivamente sugestivo. A cena incitava muita coisa. Muita coisa mesmo. Aproveitei e permaneci no mesmo lugar, não era nem de longe desagradável ficar assim com ele. Além disso, estávamos sozinhos sem ninguém para incomodar — ou ficar olhando.
— Não foi de propósito, mas talvez não queira ficar longe de você — entrei no jogo, traçando lentamente os dedos em seu peito. — Só espero que mão se importe.
Mordi os lábios, provocando.
— Não me importo! — Dante levantou comigo em seu colo. — É uma pena não aproveitarmos mais tempo, estamos chegando ao nosso destino.
×××
Hospedamo-nos num hotel barato — para variar —, onde somente tinham um quarto simples para dividirmos no primeiro andar e o banheiro. Ainda era bem cedo, talvez nem passasse das duas da tarde. Dante deitou no velho sofá enquanto peguei o diário para compor meu “relatório” que, um dia, poderia ser útil. Ocasionalmente o admirava ponderando sobre a sorte de tê-lo comigo, de usufruir de sua presença e seus cuidados.
Chacoalhei a cabeça para afastá-la de distrações.
Querido diário,
Ainda é estranho fazer anotações em um diário.
Estou novamente em uma missão com Dante. Essa não seria a primeira, mas na anterior não cheguei a fazer algo relevante (E com toda certeza ficar bêbada não seja algo a considerar, certo?). No entanto, dessa vez estarei totalmente focada no êxito dela.
Então, sobre o que temos que fazer; encontrar ou descobrir o mistério por trás dos casos de assassinato. Parece algo grande, e sinto que realmente é. Quando penso nisso, começo a ver que estamos expostos ao perigo. Isso desperta o prazer de uma boa luta, pode ser interessante!
Em relação ao caso, tudo que sei é que cada homicídio tem um intervalo de cinco anos, e que as vítimas — todas mulheres jovens — tiveram seus órgãos roubados. Não parece um caso especificamente para o ramo de Dante, porém dizem que essas mortes são causadas por um demônio. Por isso estamos aqui.
Ah, é claro!
Não posso esquecer que tem uma aposta em jogo, e de nenhuma maneira irei perder. Conhecendo Dante sei que vai pedir algo... Digamos comprometedor.
Aliás, eu já tenho um plano e o colocarei em prática agora mesmo.
Deseje-me sorte!
Guardei o caderno. Então, com a ficha em mãos vasculhei-a novamente e detalhadamente para tirar mais dados quanto possível. Preparei tudo que achava necessário para investigação sob o olhar atento de Dante.
— O que está pretendendo fazer? — perguntou.
— Iniciando minha parte na missão. Não esqueça que temos uma aposta em jogo. E você deveria começar também.
— Outra hora. — voltou a sua posição anterior — Para provar como sou legal, te deixarei ter a vantagem. Você sabe se virar bem sozinha, então não precisa que eu a vigie, não é?
— Eu sei me virar, qualquer coisa eu me teletransporto pra cá. Mas não vá se achando — lancei a ele um olhar condenatório. — Se não for atrás vai perder a aposta.
Ele sorriu confiante.
Sai do hotel. Analisei a situação, não sabia exatamente por onde começar. Em minhas mãos havia documentos delineados sobre o caso, dentre eles a foto de um homem e o endereço dele. Foquei minha mente unicamente a elaborar um plano convincente e fácil de memorizar, não seria conveniente cair de paraquedas e interrogar um desconhecido.
As ruas estavam um pouco sem vida, não havia o tumulto normal de uma cidade. Será que é o medo do tal serial killer? Eles criaram um toque de recolher?
De qualquer forma, não me deixaria abater pelo medo.
Foi um pouco difícil me localizar sem ninguém para me ajudar, a única opção era olhar para os guias que achei no caminho.
Parei em frente a uma casa grande a fachada era laranja suave com detalhes brancos, havia alguns vasos e pequenas plantas. Toquei a campainha. Não demorou muito para ser recebida pelo mesmo homem da foto.
— Bom dia — ele saudou apático e desconfiado.
— Ah, bom dia — dei meu melhor sorriso. — Eu sou...
Pensa rápido, Diva!
— Grace Connors! Eu sou jornalista investigativa e estou recolhendo informações por toda vizinhança sobre os estranhos assassinatos aqui recorrentes. E gostaria de fazer algumas perguntas...
Cara é em situações como essa que percebemos que temos talento.
O homem me encarou, seus olhos estudaram meu rosto tentando encontrar algo errado — garantindo que não estava blefando. Depois, abriu a porta suficiente para que eu pudesse entrar. Lá dentro era bastante espaçoso e aconchegante; dois sofás jaziam sob um grande tapete creme, havia uma mesinha de centro e quadros em toda parede claras, sem contar as várias prateleiras com os mais variados livros. Um mais complexo que o outro, os que mais chamaram atenção eram de medicina.
Sentei-me frente ao homem, que aparentava estar na faixa dos trinta; cabelo castanho escuro e olhos do mesmo tom, ele mantinha a barba aparada — muito diferente de Dante, que não se importava nem um pouco.
— Senhor...? — incitei gentilmente.
— Garrett Thompson. — enunciou indiferente.
— Bem, sr. Thompson. — comecei mexendo em alguns papéis para dar a ilusão de ser jornalista ativa. — Gostaria que falasse um pouco sobre o que o senhor sabe.
Ele pareceu estar nervoso, mas tentava disfarçar.
— O que posso dizer?
— Qualquer informação é valiosa. Sei que houve muito casos de mortes aqui nessa região. O senhor já deve ter escutado a respeito, suponho. — não ponderei nas perguntas, contudo esperava que a insistência fosse o bastante para extrair algum dado dele.
— Ah, sim! Mas não sei muito desses casos, pois além de sair poucas vezes, evito assistir TV. Posso me considerar um homem reservado. — Garrett se levantou e caminhou para o que deduzi ser a cozinha antes de retornar com um semblante mais simpático. — Lamento não ajudar muito, senhorita.
Os olhos do homem me focaram como de um falcão. Senti um leve desconforto, era como estar de cara com um predador. Essa deve ser a mesma angústia de um pobre e pequeno animalzinho perto da morte iminente nas garras de um assassino cruel e sanguinário. Podia jurar ter visto um meio sorriso dançando em seu rosto. Um frio correu minha espinha, fazendo todos os sentidos ficarem a postos. O modo que me olhava era diferente de outros que já havia recebido antes. Não era o mesmo que de Dante; cheio de afeto, paixão, protecionismo e luxuria. Nem o de Nero; amizade, afeição e um pouco de fraternidade. Ou o de Maya; admiração e companheirismo.
Era só muito assustador para conceber...
— Bem, muito obrigada de qualquer forma — estendi a mão já pronta para ir embora, Garrett apertou firme.
Ali, no mesmo instante que toquei a mão dele, tudo parou; Uma cena começou a se desenrolar na minha frente.
Como de fosse um filme...
Assisti Garrett com uma expressão abatida no rosto enquanto discutia com um médico. Em seguida, ele está com uma mulher afagando seu cabelo mesmo com ela inconsciente. As lágrimas rolavam dos seus olhos e pude identificar o sentimento de impotência e fraqueza. Em outra imagem, mostra a mesma mulher sorrindo carinhosa para Garrett, que retribuía com uma dor controlada.
Soltei a mão dele bruscamente.
— Desculpe o incomodo! — consegui dizer, desorientada. — E obrigada pela atenção.
De repente, uma jovem apareceu desviando minha atenção momentaneamente. Ela parecia tão frágil e delicada, os olhos verdes sem brilho mostravam cansaço e a pele lívida quase sem cor. Os cabelos amarrados num coque frouxo, deixando algumas mechas escaparem. Sua camisola era fina e para se aquecer permaneceu com os braços fortemente cruzados, abraçando n próprio corpo. Com demasiado esforço ergueu a cabeça, e a tombou levemente para me olhar.
A mulher da visão!
— Olá! — disse eu amistosa.
— Olá — respondeu num lampejo de voz, forçando um sorriso.
— Michele, meu amor, não devia ter saído do quarto. Você não está em condições de ficar ando por aí!
— Eu estou bem, queria ver o que estava acontecendo. — ela murmurou suave e pausadamente. — Sou Michele Thompson, esposa...
Ela deu início a uma crise de tosse.
— Grace Connors. — repeti o nome fictício, e evitando que ela tivesse o trabalho de perguntar devido a sua situação não ser das melhores.
— Venha, meu amor. Vou te levar de volta. — Garrett encaminhou docemente a companheira para o quarto, tendo todo cuidado a cada passo dela. Ele deve amá-la muito, dava para notar o modo que ele a apreciava. Admiração, puro e sincero amor envolvido por um forte sentimento de proteção. Quase semelhante com a minha relação e a Dante. Garrett retornou com a expressão preocupada e alguns vincos surgiam em sua testa dando lhe mais idade do que realmente tem. Percebi não seria conveniente permanecer ali, me despedi rapidamente e segui meu caminho de volta para o hotel. Tinha muito que conversar com Dante e ainda tentaria entender o que raios fiz, tendo aparentemente desencadeado um novo poder.
Às vezes me convenço que minha vida parece, pelo menos naquele momento em particular, uma série de ficção e terror. E adivinha quem é a protagonista sem noção?
Voltei para o hotel no mais absoluto silêncio. Desse jeito, poderia por tudo em ordem — principalmente meus pensamentos. Primeiro; encontrei o cara da foto e ele não era nem um pouco agradável e me observava de uma maneira estranha, até demais. Segundo; ele tinha uma mulher doente e jovem, o que me leva ao ponto A. Que ele estava protegendo-a, por isso fora um pouco hostil. Terceiro; eu definitivamente não posso vagar sozinha, estou com a terrível impressão que estava sendo seguida.
Não vi Dante, então cheguei à conclusão que ele fora fazer sua própria parte na missão. Troquei de roupa e aproveitei para tirar um cochilo. Com minha mente fervilhando a melhor maneira de me acalmar é descansando.
Acordei com um zumbido e um forte pressentimento.
Quer dizer, não é nada normal você acordar do nada e ter plena consciência que algo ruim esta prestes a acontecer. E como poderia ter certeza disso?
Fiquei parada, absorvendo as sensações intrigantes que me tomavam. Encarar fixamente o teto não era uma ideia tão boa, mas me distraiu o suficiente para me deixar mais tranquila. E Dante não havia chegado ainda. Reuni coragem para sair da cama e ir à recepção.
— Posso ajudá-la? — a recepcionista perguntou dando um sorriso acolhedor.
— Bem, você pode me dizer se o homem com quem eu vim chegou a voltar?
— Não senhorita, ele saiu, mas não chegou a retornar.
— Obrigada.
Voltei para o quarto, impaciente.
Do lado de fora, o céu piscava com os raios. E a chuva começar a cair.
Fechei os olhos, esperando que o sono viesse. E mesmo depois de ter dormido bastante ainda sentia o cansaço. Podia dizer que era mais frustração que fadiga em si.
Meio entorpecida e vagando entre a consciência e o alerta, ouvi um grito e não apenas isso; eu vi uma mulher ser esfaqueada. Estava tendo outra visão — o que era bem estranho — e dessa vez era algo bem mais grave. Arregalei os olhos, saindo sobressaltada da cama. Corri pera fora com o máximo de rapidez que minhas pernas podiam, nem me importei de me molhar na chuva. Simplesmente tinha que saber se essa visão é sobre os assassinatos, se for eu poderia salvar uma pessoa. As ruas ainda estavam desertas, se mal tinha movimentação a luz do dia imagine agora que é noite.
As casas e todos os estabelecimentos pareciam vazios, como se não contivessem vida. O cenário de uma verdadeira cidade fantasma — que eu acho bem conveniente — para deixar tudo ainda mais assustador.
Ficou ainda pior quando senti que estava sendo seguida. Apertei o passo, e a outra pessoa fez o mesmo. Sem escolha comecei a correr, olhei para trás breve momento e não vi ninguém. Foi quando bati em algo duro que me derrubou em uma poça de água e lama.
Perfeito!, pensei ironicamente.
— Grace? — assustada e arfante, ergui a cabeça para dar de cara com Garrett.
— Nossa, Sr. Thompson, que susto. — coloquei a mão no peito, sentindo o coração bater acelerado tanto pela corrida quanto pelo medo.
— Sinto muito. Você parece assustada, algum problema? — Garrett me ajudou a levantar.
— Não é nada, mas muito obrigada pela preocupação.
— Não precisa agradecer. Venha eu vou te levar para minha casa, lá você se acalma e me diz o que houve.
Ok, era curioso. Ele estava sendo gentil e afável, mas não sabia se podia ser confiável. Mal o conheço, afinal.
E sem contar o jeito que ele me olha.
Vamos dar uma chance a esse pobre homem. E mesmo que ele chegasse a tentar algo, eu o colocaria para dormir em segundos.
— Acho melhor...
— Eu insisto, não acho seguro uma jovem andar sozinha com um assassino a solta.
Com um longo suspiro resignado, fomos para a casa dos Thompson. Garrett me entregou uma toalha e uma xícara de chá quente quando entramos.
— Obrigada. — beberiquei o chá, relaxando os músculos quando o calor aconchegante desceu pela minha garganta.
— O que fazia a essa hora sozinha na rua?
— Eu estava procurando uma pessoa... Meu namorado — menti bebendo lentamente. — Ele saiu e até agora não voltou.
— Que pena, é um pouco irresponsável e imprudente sair assim, e principalmente no meio dessa chuva.
— Acho que não sou um exemplo de sensatez — brinquei tirando uma risadinha de Garrett.
— Bem, espero que tenha gostado do chá. — sorriu — Eu coloquei um ingrediente especial.
— Especial? — meu estômago se revirou violentamente, e aos poucos minha visão foi ficando turva. Minhas pernas amoleceram e todos os meus sentidos desarmados. Eu devia ter desconfiado. Esse maldito colocou algo no chá. — O que você... — não consegui terminar.
Recuei, aterrorizada.
Por que...? Agora, parcialmente lúcida, comecei a ver mais sentido no comportamento evasivo dele.
— Espero que não se importe... E bons sonhos.
Dante...
Não vi mais nada.
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