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68 Felicidade Ilusória

He's torn between his honor and the true love of his life
Ele está divido entre sua honra e o verdadeiro amor de sua vida
He prayed for both but was denied
Ele orou por ambos, mas foi negado
So many dreams were broken and so much was sacrificed
Muitos sonhos foram despedaçados e muito foi sacrificado
Was it worth the ones we loved and had to leave behind?
Foi digno ter que deixar para trás os únicos que amamos?
The curse of his powers tormented his life
A maldição do seu poder atormentou sua vida
His soul was tortured by love and by pain
Sua alma foi torturada pelo amor e pela dor
Please forgive me for the sorrow, for leaving you in fear
Por favor, me perdoe pelo sofrimento, por deixá-lo no medo
For the dreams we had to silence, that's all they'll ever be
Pelos sonhos que tivemos que silenciar, que é tudo o que eles sempre serão
Will all our sins be justified?
Todos os nossos pecados serão justificados?
Hand of Sorrow — Within Temptation
ACE PRESSIONOU as mãos ágeis em meu cabelo, puxando-os rudemente para trás e forçando-me a encará-lo diretamente. Na posição desvantajosa que me encontrava, não pude deixar de notar as significativas diferenças em sua aparência desde nosso macabro confronto: os longos cabelos negros e sombrios com a noite sem estrelas, agora curtos e mais leves e suas roupas totalmente escuras a ponto que ele pudesse se camuflar no cenário em qualquer local no qual a luz não atravessa — a completa umbra. O brilho doentio que seus olhos transmitiam enviou arrepios por todo meu corpo, como se tivesse sido atirada num lago congelado e recebendo a desgastante sensação de pressão da água terrivelmente gélida.
São olhos de um ser satisfeito com os resultados perfeitamente planejados, tudo conforme previsto.
Ele queria que eu chegasse aqui, podia tirar essa conclusão pela forma como o sorriso convencido iluminou seu rosto encoberto por uma aura maquiavélica. No entanto, tendo esse conhecimento ainda não conseguia encaixar o fato dele estar tão interessado nisso: uma coisa é querer prejudicar meu retorno, outra seria me torturar sendo que não ganharia nada fazendo-o. Talvez atrás de sua postura inalterada e indiferente, haja o estranho prazer na caçada — um leve sadismo.
Nesse momento, me encontrava a mercê dele e sem poder me defender, embora tentasse lutar com unhas e dentes pela minha liberdade. Em algumas vezes o senti ceder, mas nunca conseguia utilizar essa breve vantagem para contra atacar e o máximo que ganhava era a força exercida para puxar meu cabelo aumentar. Uma resposta violenta para a atitude violenta. Simples, rápido e eficaz: pateticamente imobilizada e incapacitada. Ace virou bruscamente meu rosto, o hálito quente roçando em meus ouvidos e atiçando minha raiva. A mera aproximação dele gerava um irracional incômodo. Não nego que existem atrativos nele, mas suas ações e temperamento anula qualquer traço considerável.
— Quanto tempo, não é? — entoou com a doçura de um terno reencontro. — Pelo visto a jornada foi bastante reveladora, ainda mais com Alexander.
Grunhi.
— Muito se diz sobre disputa estratégicas, mas o ponto é: não fazia sentido atacar uma versão inexperiente se eu poderia esperar o suficiente pra conseguir algo maior. Além disso, quando baixa a guarda é mais fácil, o que acha? — a melódica voz indagou, sem demonstras emoções. Apenas o neutro que era muito pior, pois nunca saberia quando ele daria o bote. E suas palavras não me inspiram nem um pingo de confiança. Obviamente, essa máscara de frieza monótona esconde algo ruim. — Estive esperando muito tempo, e enquanto pensava mais claramente vi inúmeras possibilidades, dentre elas percebi que não teria outro jeito e fazê-la vir para o meu lado por vontade própria. Não somente isso: era necessário que tivesse plenamente Ascendida, com seus poderes controlados e sua alma madura e forte. Fui ingênuo em acreditaram que depois do nosso último encontro você fosse rapidamente ir atrás de Alexander para conseguir despertar, mas sua teimosia fez justamente o contrário.
— Vá para o inferno! — rosnei agressiva.
Ace riu.
— Você era mais gentil que isso. — gemi quando ele usou a mão livre para ferir meu rosto, apertando-o. — Então tive que apelar para métodos mais... Digamos "pesados". Diga-me uma coisa Ivy, você deve se lembrar de como seus poderes despertaram, correto? E também do demônio que te atacou...
— Aonde quer chegar com isso?
— Simplesmente estou refrescando sua memória. — Ace riu, dissimulado. — Supondo que não se lembre, quão terrível seria se por um acaso um dele aparecesse para as pessoas de sua dimensão; seus pais, irmãos e amigos. Que tragédia, não é?
Meu coração quase parou, e as palavras dele ecoaram repetidas vezes pela minha mente enquanto lutava para recobrar a razão.
— Indo ao ponto: Você pode viver seu conto de fadas com aquele mestiço imundo, mas não há tantas chances e expectativas para as pessoas que você deixou para trás. — gani com a pressão. — Sabe, Diva, você poderia ter retornado se quisesse, desde o começo. Não havia nada te impedindo, você mesma poderia ter pedido ao próprio Alexander te levar pra casa, mas você não quis. Está feliz e cômoda nessa vidinha medíocre ao lado do filho de Sparda e esqueceu completamente da própria família.
— Maldito! — vociferei nervosa, sentindo as primeiras ondas de ódio crepitando em meu interior. Com as mãos livres tentei afastá-lo, porém foi inútil.
— Acho que a única coisa que eu não contava fosse o fato da Canção do Herói ter te atraído — arregalei os olhos com a menção. Nilin tinha comentado sobre a música é que ela supostamente seria responsável por me trazer, o que não fazia sentido algum. — Tentei inferir a respeito, buscar uma lógica até que... Me dei conta de um pequeno detalhe: Nilin é uma sacerdotisa. Ela é a discípula da deusa que sua antiga civilização cultuava. — me mexi ligeiramente. — Isso significava que ela traria a última peça do meu plano.
— O que?
— Tudo que precisava era de um gatilho. E foi justamente porque pedi pra irem ao seu mundo e trazê-la a esse.
— O que você quer?
— Você. Só você. Como eu disse, você é o fragmento que falta. — não havia dúvidas em seu tom impetuoso. — Te darei dois dias para pensar, e se concordar nessa negociação você terá que fazer um pequeno serviço. Não ouse me deixar esperando, não se esqueça a sua escolha determinará a vida daqueles que ama.
— E o que seria esse serviço?
O sorriso de Ace assemelhou-se a de uma criança que ganhará um brinquedo incrível ou de um monstro mostrando sua real forma. Ele sussurrou em meu ouvido e senti o chão sumir sob meu corpo, estava à deriva. Inerte e sem reação. Ainda sorrindo, Ace pegou minha cabeça e bateu com força contra o piso. A dor fora instantânea e nauseante, contudo antes de me perder no mundo da inconsciência, ouvi um "Basta!". Depois disso, meus sentidos me abandonaram.
×××
FACE A FACE com o pretérito seria uma ironia deveras capciosa — aprendeu cedo que nem tudo que deveria ficar para trás permanece lá. Acreditou que, após a morte de Alexander, nada mais iria abalá-lo, que a fortaleza que ergueu ao seu redor e tudo que abandonou nunca viriam cobrar sua taxa, mas estava equivocado. Ele sabia que Mag Mell, de todos os cantos do globo, era o mais propenso a se conectar com o Outro Mundo e, por consequência, trazer os mortos para esse plano de existência, ainda assim, não queria arriscar tentar invadir o local que estava sob influência de seu pai.
Ave vacilou, para sua própria frustração. Ele que se viu como o percursor de uma nova Ordem e o único capaz de cumprir o rito, se afetou com a aura da figura mais importante de sua vida, ali, pronto para interferir em seus planos. Chegou longe demais, profanou todos os ensinamentos de Alexander e vendeu sua honra para conduzir ao resultado que almejava, não poderia recuar justamente quando estava tão perto.
— Pelo visto, nem mesmo o que é morto fica morto — o amargor e o volume neutro evidenciaram a alteração. Agora era tarde para reencontros piegas e relembrar o que já não existia mais, assim como a família deles que se perdeu, desmontou, há anos. — O que você quer, pai? — cuspiu deletério
Ace afastou-se da jovem inconsciente e olhou a sua volta procurando o dono da voz e sua forma. Ele sabia que não encontraria ninguém que não fosse uma silhueta diáfana que assombrava-o, mas seus sentidos nunca o enganavam. A presença ali se mantinha a margem, uma observadora analítica que julgava os males perpetrados com uma sapiência acima de qualquer outro ser vivo. A tristeza profunda e a desolação amarga se amalgavam em uma força que repelia tudo que não se enquadra no ambiente, incluindo o próprio Ace.
— Não gostou do que me tornei, não é? Diferente de você e sua tola diplomacia, eu estou fazendo algo que mudará a história. Não pode vir aqui, quando é conveniente, atrasar meu objetivo — cerrou os punhos. — Eu vou recriar os mundos como um só e depois... Vou destruir os dois pilares da discórdia.
Suas mãos mecanicamente tentaram tocar na garota desacordada, mas um quente e firme o deteve.
— Eu disse basta! — a forma luminosa adquiriu a consistência de um ser humano, por fim transformando-se na última pessoa que Ace gostaria de ver. Alexander estava de costas, ainda segurando o braço de Ace. — Chega, filho.
— Você sabe muito bem que não sou seu filho — rebateu ríspido, tirando abruptamente o braço do bloqueio de Alexander.
— Não pude apenas olhar. Você está indo longe demais, Tristan.
— Não me chame assim! — a vibração energética envolta de Ace se canalizaram em algo pesado, a luz de esperança dele suprimida por uma pressão esmagadora e virulenta. — Tristan Lockhard está morto. Há muito tempo.
— Você não pode estar falando sério.
— Ainda dúvida? — Ace abriu os braços sorrindo maníaco. — Acha que eu não percebi a verdade, pai?
— Pare, é tudo que peço. — sussurrou Alexander abatido e magoado.
— Alexander, os tempos mudaram. E não venha querer me dar sermões, como já disse: Você não é meu pai!
— Lamento, talvez eu devesse não insistir... Mas não permitirei que toque nela enquanto ainda estiver aqui.
— Você chegou atrasado... Como sempre.
Ace nada mais disse, virou-se e partiu. Não havia nada mais que o prendia ali.
Alexander abaixou-se e passou a mão lentamente pelo cabelo castanho-avermelhado da garota. Um longo momento de espera se passou, até que Alexander a pegou nos braços levar para a única ser que podia protegê-la: Dante. Graças a suas habilidades conseguiu em pouco tempo encontrar o rapaz, primeiro ele fixou as duas gemas azuis desconfiadas em Alexander e seguiu para a garota desacordada que trazia nos braços, os olhos agora faiscavam em fúria gritante. Talvez aquele ódio tenha se direcionado a Alexander, porém ele não se importou tampouco gerou medo. A calma e a racionalidade paciente que aprendeu durante longos anos de estudos e treinamento permitiu que lhe explicasse o ocorrido, aliviando a tensão existente entre ambos os homens.
— Cuide bem dela. Embora Ace esteja perseguindo-a, ele não é o verdadeiro inimigo. Ainda assim, nunca a deixe. Ela irá precisar muito de você. — Alexander entregou a jovem ao amante, olhando-a tristemente.
— Não precisa me pedir isso, eu nunca a abandonarei. E se tiver que chutar o traseiro de Ace ou qualquer outro para protegê-la terei o enorme prazer em fazê-lo.
— Obrigado, Dante.
×××
FLUTUANDO entre a sonolência absoluta e o despertar doloroso. Meus pensamentos se agitaram a medida que empurrava-me para realidade, pude sentir que a sensação de conforto e serenidade envolvia-me como um escudo. Deduzi que voltara para casa, pois o cheiro que vinha dos macios lençóis apenas frisou o que suspeitava. Embora não estivesse plenamente ativa, podia ouvir que, aparentemente, seria uma conversa sussurrada. Grande parte do que diziam não pude entender e assimilar e quando uma mão tocou delicadamente meu rosto fui tragada para a consciência. A primeira imagem que localizei fora de Lyana sorrindo e apontando descaradamente uma câmera fotográfica em meu rosto. Somente tive ciente do que ocorria quando ela tirou uma foto minha com flash, cegando-me com a luz forte e repentina. Esfreguei os olhos, tentando enxergar novamente. Lyana se afastou prevendo meus movimentos seguintes, visto que ela saiu correndo para porta fugindo com o aparelho antes que eu tomasse dela. Minha cabeça doía horrores, e havia um curativo no local exato. Respirei profundamente, aplacando a vertiginosa náusea causada pela dor demasiada. Peguei fôlego e disparei atrás de Lyana, com desejo assassino. Ela estava distante e cada passo que dava em sua direção, mecanicamente ela recuava. Lyana me conhecia bem suficiente para identificar minhas expressões e hábitos. E uma das coisas que detesto é tirar fotos, principalmente em situações desconfortáveis. Agora que queria era esganá-la por ousar me fotografar pouco tempo depois de acordar.
— Lyana Adelaide Morrow! — rosnei ameaçadora, fazendo menção de correr se caso ela tentasse uma fuga.
— Caramba, você nunca disse meu nome inteiro! — exclamou surpresa, porém sem tirar o sorriso de escárnio estampado em seu rosto. — Geralmente é um péssimo sinal.
— Significa que vou te matar com requintes de crueldade.
— Diva, não fique tão irritada. Você estava tão fofa dormindo que não resisti.
— É melhor que não faça mais isso. — repreendi severa. O alerta dolorido em minha testa me enfraqueceu, e acabei desabando fracamente no sofá. Foi quase impossível não reparar na única peça de roupa que usava: uma enorme camisa preta que ficava estranhamente larga no meu corpo. Tudo por que essas roupas eram de Dante. Nem foi algo que merecesse tanto estardalhaço, simplesmente uma coisa comum estar com uma camisa de Dante — ele é meu namorado afinal — e também nem ligava para quem me trocou. Lyana é minha melhor amiga, me viu crescer e Dante já nem preciso explicar a razão óbvia. Permaneci recostada, refletindo sobre tudo que aconteceu até agora e evitando pensar no encontro com Ace. Não queria preocupar Dante.
— Devíamos tirar fotos para sempre recordar momentos assim. — Lyana sugestionou empolgada. Não houve nenhuma resposta ou sequer oposição pela ideia, até eu que não gostava de fotografias estava positiva em relação a isso.
— Eu posso aceitar fazer isso, mas preciso me arrumar. — expliquei arrancando um típico ataque de felicidade muito constrangedor que só ela tinha coragem de fazer.
— Contanto que Dante não esteja "te ajudando" nisso.
Dante que até o momento manteve-se quieto tirando um cochilo, deu uma leve risada.
— Dante não vai "me ajudar" — fiz aspas com os dedos, rindo. — Não preciso de ajuda para trocar de roupa.
— Mas para tirar...
— Odeio seu humor sarcástico e malicioso. — revirei os olhos.
Lyana deu de ombros.
Mudei rapidamente de roupa, optando por um vestido azul claro simples com uma fita que amarra abaixo dos seios. Na verdade, não estava a vontade naquela situação, mas queria acreditar que poderia distrair minha mente e tirar aquela incomoda sensação afligindo-me. Um misto de tristeza descomunal e o pior e mais sufocante: a horrível e angustiante impressão de estar traindo o homem que amava. Não importa quantas vezes a ignorasse, ela era como um corte aberto que precisava sempre de atenção. A aflição era demais para suportar, entretanto engoli a dor, escondendo-a no mais profundo do meu coração. Ninguém precisa saber, especialmente Dante. Sofrerei sozinha e aguentarei firme. Olhei meu reflexo no espelho vendo a jovem de feições abatidas e os lábios flexionados. Não seria possível aparecer assim e dizer que estava tudo bem. Forcei meu melhor sorriso convincente, mostrando uma alegria que sinceramente não sentia. A culpa lutava para ocupar minha mente.
— Diva Lockhard, venha logo antes que eu vá te buscar! — Lyana gritou no andar inferior, sua voz saiu meio fraca. Sabendo de toda verdade ainda não me acostumara com revelação e o fato que meu nome poderia realmente ter sido "Diva Lockhard", para mim esse será nada mais que um apelido.
— É Ivy Valentine! — retruquei provocativa.
— Tanto faz, apenas venha com seu traseiro até aqui.
— Eu e minha bunda já estamos indo — brinquei.
— Venha logo, sua maluca.
Corri ao seu encontro, descendo a escada às pressas e fui recebida pelo brilho do flash, ofuscando minha visão. Pisquei continuas vezes para aliviar a dorzinha nos olhos. Lyana começou uma sessão de fotos: fotografamos nós duas e insistiu para que eu e Dante posássemos como um casal. Por mais que tenha vivenciado episódios comprometedores, bizarras, levemente românticas e relações — muito íntimas — nunca realmente agimos de tal modo. Não trocamos nomes — apelidos — carinhosos, ele me chamava de "doçura", mas não se enquadra necessariamente nessa questão. E não tivemos encontros ou nada semelhante. Tudo que constava como casal seria nossa inquebrável ligação do fio prateado e o amor incomum. Ele podia sentir a tenacidade das minhas emoções e eu as dele, apesar dele conseguir a façanha de camuflar. Foi meio estranho estar tão perto dele para simplesmente posar para uma foto. Dante colocou a mão na minha cintura, apertando-me contra si. Prestei atenção nas ações de Lyana, esperando o suave clique e o flash.
— Lembre-se que não é uma sessão de fotos eróticos. — Lyana alfinetou, lasciva.
— Cala boca e tire a maldita foto.
Lyana prosseguiu, alegre. Não estava confortável naquilo, mas fiz o possível para que, de maneira nenhuma, deixar transparecer. Dante não perdia a chance de me provocar, como havia me acostumado não surtiu tanto efeito.
— Vou revelar essas fotos e... Usem esse tempo livre para algo produtivo que não seja "fabricar bebês" — atirei o primeiro objeto que vi. Lyana esquivou e partiu porta afora.
Bufei, impaciente.
— O que houve, doçura? — Dante perguntou, sentando ao meu lado no sofá e pousando inocentemente a mão atrás de mim.
— Nada.
— Eu não sou a sua amiga que se conforma com "Nada". Vá direto ao assunto porque sei que há algo te incomodando.
— Estou um pouco triste... Alexander me deixou — aquela foi a melhor desculpa que inventei na hora. Além disso, não queria que Dante me pressionasse com interrogatórios. Odiava mentir para ele, mas minhas opções estão escassas.
— Não fique triste por isso, doçura. Esse é um processo natural da vida, pense que ele esta num lugar melhor e não quer que você se abata. Aproveite e bagunce enquanto pode. — concluiu em tom de brincadeira.
— Dante, você acredita em destino?
— Não, mas minha concepção de destino mudou quando te conheci.
Não pude deixar de sorrir.
— Dante, — toquei o rosto dele, olhando-o fixamente — não importa o que aconteça a partir de agora... Quero que saiba que te amo do fundo do meu coração. Eu enfrentaria o inferno novamente por você. Por favor, nunca se esqueça disso.
Com lágrimas ardendo nos meus olhos, o abracei pegando-o desprevenido, ele retribuiu afagando gentilmente minhas costas.
— Eu tenho a leve impressão que suas palavras soam como uma despedida. — limpei as lágrimas antes de voltar minha atenção a Dante.
— Que bobagem, nunca ficaria longe de você.
— É mesmo? — arqueou as sobrancelhas fingindo aborrecimento. — A senhorita me deve uma coisa.
— O que seria essa coisa? — questionei. Eu sabia exatamente bem o que ele queria. Dante parecia ter o controle do meu corpo e minhas reações, como se ele soubesse onde tocar e o que falar para me render. E realmente ele tinha.
— Eu vou te fazer esquecer o que tanto te incomoda, doçura — segredou, arranhando suavemente minhas costas. Sua respiração mesclava com a minha devido a nossa proximidade, ele aproveitou e roçou os lábios no meu. — Se quiser é claro. — completou. Eu não precisei dizer nada, apenas o beijei com todo ardor e paixão que queria transmitir. Permiti-me esvaziar minha mente, apagando lembrança desnecessária e repelindo qualquer pensamento tortuoso.
Tudo que necessitava era estar com Dante, senti-lo e apreciar sua presença. Não tinha consciência do que acontecia ao meu redor e nem em que momento Dante tinha me carregado, só realmente dei conta quando o vento bateu na minha pele desprotegida. Não sei se tinha perdido um pouco a noção do tempo, desde que acordei, porém não notei que estava no inicio da noite. A lua já emanava sua luz usual, prateada e fulgente. Estávamos na cobertura da agência, e nela podia ver a cidade em polvorosa.
Tudo pequeno devido à altura.
— Concede a honra — Dante se inclinou diante de mim, em pose semelhante aos homens em filmes de época quando pediam para uma dança com uma mulher. Emocionada, entrei na encenação e fiz o que as daquele tempo mulheres normalmente fariam: peguei a ponto do meu vestido e fiz mesura. Dante depositou um braço apoiado em minhas costas e o outro segurando minha mão livre. Não sabia dançar deste modo, contudo nem cheguei a realmente me mexer, pois Dante fazia todo trabalho. Unicamente o seguia, um pouco desajeitada. Fechei os olhos e Dante envolveu minha cintura e guiou nossos passos, em compasso com as batidas da musica que vinha de alguma boate — ou qualquer outra coisa próxima dali. Apoiei minha cabeça e seu peito com a impressão de estar flutuando. Permanecemos assim por um bom tempo, até nos cansarmos.
No caso, eu me cansar.
Para ser justa, não esperei nada singularmente romântico vindo de Dante, seja por uma paranoia minha ou por não me ver como merecedora. Naquele momento, o modo que me olhava dizia exatamente o contrário. Senti o familiar calor em meu rosto, e é impressionante que depois de tanto tempo Dante ainda conseguia a proeza de causar as mesmas reações de constrangimento em mim. Como se ainda nunca tivéssemos nos tocado e fosse a primeira vez que nos víssemos. Pensava que um comportamento assim vindo dele ficaria estranho, mas fora justamente o contrário.
A angústia começou a exigir espaço, fui forte para bani-la.
Dante beijou-me com fervor e imitei o gesto, multiplicando por mil. Levei as mãos aos seus ombros, aprofundando o beijo.
Em algum momento entre o beijo, no qual não pude formular — o não notei, que dava na mesma — e senti sendo novamente carregada. Nem me dei conta quando e como ele tinha me trazido até o quarto. Assim que me pôs seguramente no chão, Dante agarrou minha nuca no mesmo instante e com intensidade palpável, beijou-me. Uma onda de adrenalina correu por todo meu corpo, queimando em minhas veias. Seus braços envolveram minha cintura e firmaram-se ali, segurando-me quando minhas pernas amoleceram pela força do beijo. Lentamente ele foi me conduzindo para deitar no colchão macio. Tudo que precisava era Dante, comigo aqui e agora.
Suas mãos ágeis e apressadas levantaram meu vestido, então traçaram caminho das minhas coxas, demorando-se próxima a minha virilha e massageando delicadamente minha barriga. Por um minuto temi que ele rasgasse meu vestido, porém esse receio foi esquecido quando Dante tranquilamente retirou-o. Sua paciência para fazê-lo foi notável.
As mãos dele abandonaram minha cintura e exploraram meu corpo, traçando as curvas e eu apenas gemia em resposta. Ele afundou a cabeça na curvatura do meu pescoço, inspirando profundamente. Sua respiração quente naquele local, arrepiava-me de maneira enlouquecedora. Arranhei os braços de Dante conforme descia seus beijos, leves mordidas e chupões por meu pescoço e, aproveitou para apertar meus seios por cima do sutiã enquanto a outra mão passeava pelo interior da minha coxa, dando apertos. Dante teve um pouco de dificuldade — para alguém que se gaba tanto — para tirar o sutiã, então simplesmente o arrebentou.
Olhei-o abismada.
— Você não gosta que rasgue suas roupas, mas não disse nada sobre sutiãs — riu, lambendo os lábios.
— Se continuar assim não terei roupas para contar história.
— Seria perfeito, assim não teria tanto trabalho para tirar — murmurou, sua respiração quente batendo em meus seios desnudos. — Além disso, é mais excitante.
Estremeci com o modo intenso que ele me olhava, como se despisse minha alma.
E novamente quis esconder o peso da minha consciência. Ignorei a incomoda sensação. Naquele momento, quero apenas desfrutar do homem que amo pela ultima vez. Pertencer a ele uma ultima vez.
Voltei a beijá-lo.
Que seja essa a melhor noite de nossas vidas.
×××
There is not a single word
Não há uma única palavra
In the whole world
Em todo o mundo
That could describe the hurt
Que poderia descrever a dor
The dullest knife just sawing back and forth
A faca cega apenas serrando para frente e para trás
And ripping through the softest skin there ever was
E rasgando a pele mais macia que já existiu
How were you to know?
Como você saberia?
Love happens all the time
O amor acontece o tempo todo
To people who aren't kind
Para as pessoas que não são gentis
And heroes who are blind
E para heróis que são cegos
Expecting perfect scripted movie scenes
Esperando roteiros perfeitos em cenas de filme
Who wants an awkward silent mystery?
Quem iria querer um mistério desconfortável e silencioso?
And I, I hate to see your heart break
E eu, eu odeio ver o seu coração se partir
I hate to see your eyes get darker as they close
Odeio ver seus olhos ficarem mais escuros conforme eles se fecham
Hate to See your Heart Break — Paramore
Esperei paciente o silêncio absoluto da noite, precisamente Dante dormir. Depois de tudo que aconteceu, com o horror rastejando em meu organismo que a custo bloqueava voltaram com força total. Absorvendo cuidadosamente cada detalhe da teia, refletindo sobre a maneira mais adequada para cumprir a parte do acordo proposto por Ace. Todo meu ser gritava loucamente para desistir desse plano. No entanto, não podia ignorar que as pessoas que amo correm sério risco. E finalmente posso compreender o que Ayden me dissera aquela vez, eu podia amar irrevogavelmente Dante e a minha família e amigos, mas sabia claramente que nunca poderia proteger ambos. Cobri-me com o lençol e peguei meu diário, fazendo que se tornara um hábito desde que Eryna me dera: escrevendo nele tudo de amargo, opressor e doloroso que afligia meu coração e alma. A dúvida cruel e uma escolha mortal. Enquanto escrevia as lágrimas caiam sobre o caderno, salpicando as folhas e manchando-as. Algo caiu do diário, e percebi que era a carta "Imperatriz".
— Dois homens com destinos ligados ao meu... — no verso da carta destacou-se um estranho "S" escrito com que parecia sangue seco. Balancei a cabeça, afastando pensamentos que causassem mais confusão do que já tinha. Terminei e as pressas tomei banho e troquei-me, e o tempo para esse ritual foi suficiente para que pudesse pôr minha mente em ordem. Voltei ao quarto, segurando firmemente Blood em mãos. Admirei meu amado mestiço dormindo tranquilamente e o pesar corroeu meu coração, cercando e dilacerando. Subi na cama, colocando-me de pé sobre ele sem tirar meus olhos — e a visão meio borrada devido às lágrimas que escorria descontroladas pelo meu rosto. Não queria que tivesse chegado a esse ponto. Apontei Blood no local exato, pressionando minhas mãos na lâmina para que o sangue corresse livremente e caísse no peito dele. Busquei audácia onde nem sabia que tinha, mesmo assim não pude controlar a dor e a tristeza que se apoderavam de mim gradativamente. Se pudesse escolher, nunca em hipótese alguma faria isso.
Preparei para dar o derradeiro golpe.
— Então essa é sua escolha — Dante expôs, paralisei e lançando-lhe o meu olhar mais apático.
— Você estava acordado... Não vai me impedir? — questionei, minha voz foi vacilante e fraca.
— Não, vá em frente se quiser. — o rosto de Dante estava encoberto pelas sombras e não pude identificar sua expressão. Talvez ele pensasse que o estaria traindo e, de certa maneira, era isso que fazia. — Se essa é a sua escolha, não vou impedi-la.
Acho que uma facada no coração doeria menos comparada à dor irremediável que sentia naquele momento. Era terrível demais para suportar. Mal podia respirar direito e os soluços que vinha, reprimia mordendo meu lábio inferior. O gosto de sangue alertou que atingirá um nível exagerado de força, mas não me importei. Dante tinha razão, essa é minha escolha. Se não posso proteger todos que amo pelo menos farei com que minha família tenha uma chance. Ainda que nunca conseguisse fazer meu coração entender — matá-lo significaria me matar também —, estava disposta a por um fim nisso. O sangue já pingava no peito desnudo de Dante, ritmicamente um atrás do outro como uma fonte inesgotável de sangue. Lembrei-me do que Ace me dissera "Se quiser que sua família viva... Mate Dante!" usando-a de base e motivação para prosseguir, embora não quisesse. Estava em conflito: um lado meu gritava, implorando para que não fizesse essa loucura e o outro, hesitante queria fazer o necessário. Prendi a respiração e num único e decisivo impulso de força, finquei a lâmina no peito dele. Nada de tudo que experimentara de dor e sofrimento se comparou ao sentir meu coração quebrando e minha alma partindo. Nem mesmo quando Dante "morreu" para me salvar de Ace. No entanto, dessa vez, eu fui o carrasco.
— Oh, céus! O que foi que eu fiz...? — chiei chocada. — Eu cometi um pecado: matei quem amava. Não! Não!
Era como estar viva sem realmente estar, eu não tinha mais nada. Se arrependimento matasse já teria sido brutalmente morta. Havia uma pequenina esperança de que ele não estivesse realmente morto, porém logo abandonei a ideia. Os soluços que lutei para conter já saíam e as lágrimas jorravam incontroláveis. Afaguei seu rosto, tremula. Na realidade todo meu corpo tremia. A dor entorpeceu completamente minha consciência, severamente abalada, repousei a cabeça no peito de Dante. Nem o cheiro pungente de sangue me afastou dele. Em prantos, beijei de leve seus lábios frios.
O beijo de adeus.
— Ah, Dante! Perdoe-me por... Não isso que fiz não tem perdão. — levantei-me, e sai o mais rápido que podia naquele lugar que agora me trazia péssimas lembranças. Descia as escadarias com o dobro de atenção, pois as lágrimas embaraçavam minha visão. Dei uma última olhada no escritório antes de sair, relutante, pela porta. Como era de se esperar não havia ninguém na rua, considerando que não passava das três da madrugada. Ajoelhei-me e chorei tudo que precisava, somente desejava expulsar aquele sentimento horrível do meu peito — o pesar, fúria, lamentação, culpa e o ódio se misturavam e guerreavam pela liderança. Estava atordoada demais, cansada demais e agoniada demais para me acalmar. Caminhei sem direção até avistar o carro que pouco menos se ocultava na penumbra. Ace estava imóvel, sua feição impassível. Ele estendeu a mão quando me aproximei, encarei aquilo com ódio intenso. Instintivamente bati nela, impedindo que sequer me tocasse. Sequei as insistentes lágrimas, condenando-me por ter aceitado isso. Sujeitada a tamanha dor para satisfazer alguém tão baixo quanto Ace. Agora está feito e não posso voltar atrás.
— Você conseguiu o que queria, Ace.
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