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69 Sem dor, sem ganho

NAQUELE EFÊMERO E CRUCIAL MINUTO, os dois corações batiam quase no mesmo ritmo.
Tudo estava calmo e normal até então, Dante reparou no esforço que Diva tinha em cada ação e uma — das inúmeras — coisa que descobrira era que a garota costumava disfarçar bem quando algo a incomodava, não muito bem em relação a ele claro. A convivência fez com que Dante adquirisse uma espécie de parte analítica que previa ou conseguia delimitar qualquer mínima diferença comportamental da garota. Era como, de algum modo, tivesse ganhado um estranho poder de dedução exclusivamente para Diva. Quando tentava descobrir algo relevante em meio ao caos que seus pensamentos estavam, ela impedia a tempo, sempre recuando. Talvez o estresse a estivesse fazendo-a ficar tensa e constantemente preocupada, contudo isso parecia muito errado. Ela realmente estava preocupada, certamente era por algo muito maior e mais grave. A desconfiança ficou evidente quando as atitudes e as palavras de Diva soaram como uma despedida permanente. Tinha uma coisa desconexa, mas ele não sabia ao certo o que seria e tudo continuou como deveria.
E, de repente, ela jazia sobre Dante empunhando a espada nomeada Blood perigosamente próxima ao coração. Os olhos grandes e castanhos brilhavam conforme as lágrimas escorriam pelo rosto corado. Dante odiava vê-la chorar e sempre que acontecia sentia que devia fazer algo para que ela não sofresse. Para que ela não derramasse suas preciosas lágrimas. Não poder fazer nada por ela o deixava impotente e para alguém do seu calibre essa impressão era frustrante e incomoda demais. Uma fraqueza quase incapacitante.
Algumas gotinhas daquelas lágrimas vertiam sobre si juntamente com o sangue provindo do corte, o poderoso e venenoso sangue. Dante a incentivou a matá-lo, Diva parecia em conflito com o que devia ser feito e, no entanto, ela se encheu de um força inacreditável para cumprir uma tarefa imposta por alguém que ele buscou através dos pensamentos confusos da jovem. Simplesmente ela, com toda a coragem que possuía, atravessou o frágil coração dele e esse único e certeiro golpe foi intenso. Nunca havia sentido tanta melancolia e ela se fundia com suas próprias emoções: ele sentia a raiva energicamente devastadora e a tristeza descomunal. Mal conseguia entender a si mesmo naquelas ondas intermináveis de sensações. Dante encarou Diva, pequenas e cristalinas lágrimas continuavam correndo pelo rosto corado dela e seus movimentos pareciam tão relutantes. Não era como se ela quisessem deliberadamente matá-lo, o fazia por extrema necessidade. Ele sentiu calor do sangue dela escorrendo por si e, por um minuto, esperou uma violenta reação de seu organismo ao sangue venenoso que Diva possuía, exatamente como na última vez quando Santo Graal — a tal sagrada arma — o feriu. A mesma dor insuportável. Não houve nada, porém a letargia o atingiu em cheio. Simplesmente ela, com todas as forças que possuía, atravessou o frágil coração dele e esse único e certeiro golpe foi intenso. Dante ouviu Diva lamentando, sentiu a desolação dela e os lábios quentes tocarem delicadamente o dele, havia o leve sabor salgado e a frieza. O beijo de adeus. Ele nunca se imaginou tão emocionalmente fraco, sabia que o esforço faria mal a ambos e deixou-a partir com a ideia de tê-lo realmente matado.
Em algum momento, ele adormeceu.
Dante vagava lentamente e, estranhamente, em sua forma demoníaca. A escuridão predominava onisciente e onipresente em todo entorno, nada podia se ver além. Contudo não era algo que causava algum incomodo ou o atrapalhava, no fim, mesmo negando, ele também tinha um lado obscuro e tê-lo tão fisicamente presente não o surpreendia. As sombras foram cortadas abruptamente, sendo rasgados por feixes de luz dourada. Aos poucos a escuridão fora totalmente envolvida e desaparecendo dando lugar ao azul celeste e o fugaz brilho dourado. Não havia nem mais resquícios da fria e solitária trevas. O céu se abriu impecável e sublime com uma forma que Dante nunca vira antes e aquilo o impressionou. Diante de si uma silhueta tomou forma humana, pequena e delicada palavras que certamente usaria para descrever Diva. Os olhos expressivos e cativante dela o encaravam pasmos e tristes e logo mudaram para felicidade e admiração. Um sorriso calmo iluminou as feições da jovem, tão bonitos quanto se lembrava.
Diva sorriu e Dante ergueu a mão para tocá-lo, nessa brevidade a imagem sumira numa nuvem de poeira regada ao vento. O choque o despertou num rompante violento. Sua respiração entrecortada e sobressaltada como se tivesse debaixo da água por um longo tempo enquanto seu coração batia descompassado. Todo o ambiente estava escuro e a houve a leve sensação de solidão fria e dolorosa. Algo que o prendia a cama limitou seus movimentos, então Dante viu a espada ainda cravada em seu peito envolto por sangue seco. Sem perder tempo, retirou o objeto fazendo mais sangue jorrar. Dante olhou para o quarto, cansado e nervoso. Ao seu lado na cama um pouco sujo de sangue encontrava-se o caderno com capa de veludo; o diário de Diva. Durante um intervalo entre ir em frente ou não, Dante refletiu olhando fixamente o pequeno calhamaço, se ele está ali deve ser porque Diva usou-o e o abandonou em um recurso de "cortar laços" ou se havia uma razão muito mais profunda, independente de seu raciocínio poderia achar uma pista do paradeiro dela. Dante folheou-o até encontrar as páginas de hoje manchadas com salpicos de lágrimas, de repente, tudo ficou claro: Ace obrigou a garota a matá-lo. Não há outro motivo. A raiva apoderou-se dele crescendo e enraizando.
Era uma promessa: Mataria Ace e salvaria Diva, nem que isso o mate — Dante riu, dificilmente algo o mataria.
×××
Diva
OS LÁBIOS QUENTES roçaram pela clavícula, roubando um pouco do fôlego que me restava com os beijos inflamados cheios de paixão. Suspiros escapam conforme suas mãos exploram avidamente meu corpo, deslizando suavemente pelas formas e curvas com sutileza e doçura. Com um poderio e resistência que seu metabolismo demoníaco lhe providenciava, Dante nunca estava exausto o suficiente para não continuar, sempre pareceu uma verdade incontestável o quanto ele desejava — quão imensurável era seu anseio. Ele não me tocava com a rudeza faminta de um homem primitivo disposto a se saciar, ele me moldava a ele como se estivesse me esculpindo para ser a única capaz de tê-lo. O sexo parecia uma consequência razoável pelo tanto reprimido e ao prová-lo só fazia com que o sentimento e a certeza se tornassem tão sólidas quanto a ideia do amor.
E eu amava ele. Não uma tola e inofensiva afeição platônica, uma limerência delirante ou um impulso sexual tardio. Queria estar com ele, de dedicar meu tempo para vê-lo feliz e lutar ao lado dele em batalhas vindouras. A ideia de me estabelecer em um compromisso real se cimentam em minha mente tanto quanto o apelo desesperado de mais dele, de ser uma parte fundamental da vida dele.
Os sussurros embebidos por doses de ansiedade e a insinuação melíflua soavam como segredos trocados enquanto meu corpo se distrai com o ritmo inicialmente comedido de Dante. Suas mãos errantes exploraram mais do meu corpo para encaixá-lo ao dele, quase nos fundindo em um êxtase adocicado — a luxúria infundida nos arranhões e das respirações superficiais. A voz sensual de Dante entoando meu nome em devoção evocava em mim um sentido de pertencimento e um componente extra de carinho ardente e revigorante.
Minha boca ressequida se mexeu articulando o nome do Devil Hunter a medida que a lembrança se desfazia em uma encantadora visão passageira e onírica. Ao mudar de posição vislumbrei uma face distinta com traços marcantes que estava presunçosamente deitado ao meu lado, dissecando meus movimentos e minhas reações.
- Presumo que teve um bom sonho — o sorriso dele me arrepiou. — Você gemia o nome do filho de Sparda como uma dama enamorada. Comovente.
Me sentei bruscamente, agarrando o primeiro objeto ao alcance para usar como arma se fosse necessário.
- Fica tranquila, acabei de chegar — ele ergueu os braços em falsa rendição. — Está horrível, poderia ter ao menos se banhado antes de deitar, não acha?
Induzida pelo comentário, mirei minhas mãos e o susto foi imediato, elas estavam cobertas de sangue seco em uma camada que somente uma demorada esfregada salvaria e não se limitava a elas, minhas roupas também foram vítimas dos respingos. Levei meus braços levemente frágeis para o rosto sem entender.
- Meu nome é Amon. Como o deus egípcio — riu da própria citação como se a coincidente nomeação fosse uma brincadeira em um grande jogo no qual dominava. — Khepri, Rá e Atum. — cantarolou com capricho. — E você, como prefere ser chamada, minha doce discípula?
Franzi o cenho com o título que ele me impôs.
- Ivy? Diva? Arya? — Amon esfregou o queixo com ar teatral. — Você tem uma lista bem extensa de nomes, fica até difícil escolher um.
Não respondi.
- Eu já entendi, você não é muito de falar. — Amon deu de ombros. — É uma pena, estava bastante curioso sobre sua chegada. Escutei por aí que veio de boa vontade com Ace.
Trinquei os dentes, irritada.
- É, talvez estivessem enganados nisso. — Amon acariciou minha bochecha, me confundindo com sua velocidade sobrehumana. — Nunca tive uma oportunidade real para vê-la adequadamente e você é tão bonita quanto a Arya era. Ela foi a personificação da arte e a obra mais cobiçada — esclareceu com um vago sorriso.
- Diva — escutei a voz de Nilin apressadamente invadir o quarto e vir correndo até mais sem cerimônias. Ela não usava trajes de empregada, mas não eram roupas casuais comuns. Seu estilo se assemelhava ao vestuário ritualístico com um tom moderno. — Que bom que está bem.
Amon se afastou e foi embora com uma risadinha cortada.
- Nilin... O que houve? — o senso de espaço e realidade foi danificado por algum motivo que não recordava.
As picadas doloridas em diferentes pontos deixavam-me atordoada demais até para pensar. Tentei me concentrar na última lembrança registrada antes de despertar nesse quarto inóspito, sem sucesso enquanto apenas afogava-me mais nas vertiginosas ondas de sofrimento — quase demasiado desgastante para suportar. Inspirei o ar com tanta força que ele entrou queimando em meus pulmões, tossi algumas vezes para aliviar a ardência.
Dante.
Acendendo uma chama, destilando ácido pelas minhas veias, todos os eventos do dia anterior retornaram em uma reviravolta angustiante, todas as lembranças que a custo bloqueava, voltaram com tanta poder que entrei em uma espécie de transe. A horrível realidade correu como ácido pelas minhas veias. Busquei alguma forma de fugir daquele pesadelo. As dores que sentia se duplicaram ferozmente, mas nada se comparava com a ferida emocional que se abriu em meu peito — a coisa que me rasgava por dentro, deixando-me sem fôlego devido a violência do impacto. Parecia que meu coração tinha sido arrancado e no lugar colocaram um buraco negro — devastador e insaciável. Agora podia pensar com mais clareza e organizar meus pensamentos adequadamente. Comprimi meus olhos e apertei os punhos quando a vontade de chorar veio; mesmo com todo empenho para que elas não viessem, as lágrimas brotaram inescrupulosas pelas minhas bochechas e nem os soluços pude conter. Eu me perguntava como tive coragem para fazer algo tão monstruoso com o homem que amava, nada justificava nem mesmo o desespero. Nenhum sentimento pode descrever o que sentia — a amargura e aflição impregnando meu coração. Era como um quebra-cabeça que perdeu a peça essencial, sem ela nunca poderia me completar — me sentir verdadeiramente inteira. A única pessoa que amei fora morta pelas minhas próprias mãos. Tudo que sobrou foi somente o vazio profundo e desolador.
- Não... — me apoiei na cabeceira para me estabilizar. Minha cabeça latejava numa dor insuportável e enjoativa, cada músculo meu protestava no mínimo esforço e a garganta obstruída por um sufocante bolo.
O cheiro de ferrugem deu-me náuseas.
- Dante... — choraminguei desolada. Aquelas marcas sanguinolentas me deixavam inquieta e com a terrível sensação de solidão. Nunca, desde que cheguei, havia sentindo-me tão sozinha, desamparada e desprotegida até agora. Tenho fortes motivos para crer que sou fadada ao sofrimento — e causar dor a todos que me rodeiam. No final Ace tem razão, minha mera existência só trouxe tristeza e morte. E em breve todo mundo será levado a ruína, pois é provável que Ace finalmente consiga o que quer, certamente morrerei no processo e a humanidade enfrentaria a maior e mais terrível calamidade.
Apesar de saber disso, eu não nutri a vontade de ir contra esse destino. Do que adiantaria? Eu matei Dante, o homem que eu amava e o protetor dos humanos. Minha desistência faria com que se decepcionasse se estivesse vivo, entretanto, não abrigava em mim nenhum tipo de determinação que sobrepujava a tristeza. Nunca fui uma heroína e o ocorrido só provou que sempre serei a donzela indefesa não importa quão forte tenha me tornado. O que aprendi com isso é que na vida real as histórias de romance nem sempre terminam com final feliz, essa é única e absoluta certeza que tenho. Se tudo pudesse ser exatamente como nos contos de fadas onde o mundo é perfeito e as coisas dão certo, nada ruim aconteceria ou pelo menos o vilão não teria chance. Agora o herói está morto e o vilão pode, a qualquer momento, dominar o mundo.
Em outras ocasiões, quando pensava na possibilidade de uma ínfima esperança, automaticamente lembrava de como Dante conseguia me salvar nas piores situações, no qual acreditava que nada poderia ser feito. Dante era do tipo que conseguia burlar ou ultrapassar a lógica e quando achamos que tudo está perdido, ele aparece para mostrar como dar um verdadeiro show. Em meio aquela rubra mancha que cobria minhas mãos, procurei com olhos febris o anel que Dante me dera. Para meu desespero não estava onde deveria, no meu anelar esquerdo. Forcei meu cérebro a recordar da última vez que vira o adereço, mas não consegui nenhum resultado. Havia infinitas possibilidades para o desaparecimento, desde perdido a ter supostamente retirado e nem percebido. De qualquer maneira, fiquei terrivelmente devastada ao saber que a conexão material que existia entre mim e Dante desaparecera também.
Os soluços irromperam descontroladamente pela minha boca. Tentava reprimir, mas não funcionava. Talvez não doesse tanto se eu não lutasse contra. Carecia de sentidos e tinha certeza que se pudesse desabafar as coisas seriam melhores — ou menos dolorosas. Abracei meu próprio corpo, vendo se assim conseguiria aplacar a sensação desagradável e engolfante que me enchia por dentro.
Se ao menos Alexander estivesse aqui...
Alexander me ensinou a realizar viagens astrais, pensei em meio a pressa. Posso tentar me comunicar, não é?
Canalizei minha aura pra desprender meu espírito do corpo e uma forte descarga anulou meus esforços com uma potência tão incapacitante que gritei com a eletricidade me trespassou. Tossi desesperada ouvindo Nilin chamar antes de ceder a exaustão.
Acordei com dissabor, uma intuição torta de que sonhei com alguma coisa que agora não vinha nem vestígio.
E não funcionou a Projeção Astral.
- Bem-vinda de volta, Diva — Nilin anunciou. Ela pareceu alheia ao sangue em minha roupa. — Como está...?
- É, estou respirando e isso é um bom sinal... Seja lá o que tenha acontecido — respondi sem entusiasmo, checando se tudo estava no lugar. — Só não posso dizer que estou bem... A propósito, não sabia que Ace tinha tantos seguidores — disse me referindo a Amon assim que conciliei a pulsação dolorosa com os novos estímulos externos.
Nilin negou com a cabeça.
- Amon não é um seguidor nem nada... Na verdade, não sei qual é a real motivação dele. — a apreensão começou a se assimilar nos gestos dela e seu tom cauteloso. — Ele não é muito do tipo confiável...
- Tenho a ligeira impressão que o conheço... — deslizei o dedo pelo nariz ao sentir algo escorrendo, me assustando um pouco ao ver sangue. Provavelmente, dado as circunstâncias, deveria ser o efeito colateral do estranho poder que me neutralizou.
- O quê...? — se alterou.
- Não se preocupe. — limpei o nariz e esquadrinhei o local. — E a sua irmã?
- Ah, Nina esta recolhendo flores para entregar a você. Para ela não ficar brava por eu ter contado o presente, por favor, finja surpresa. — Nilin pediu.
- Farei meu melhor. — prometi dando um sorriso amarelo. Nilin se retirou logo após eu ter tomado banho e trocado de roupa até estranhamente encontrei dois braceletes que não lembrava de ter posto. Não demorou muito para uma segunda presença entrasse animadamente no cômodo carregando nos braços um bonito buquê dos mais diversos tipos de flores, juntas formavam quase um arco-íris. Nina caminhou até mim e vi que seu vestido azul estava sujo com terra. Nilin disse para fingir estar surpreendida e foi exatamente o que fiz quando Nina entregou-me o buquê não se contendo de tanta felicidade.
- Muito obrigada, Nina.
- Estou feliz que você tenha voltado, podemos brincar juntas.
- Sim, podemos — concordei com falso interesse. Nina correu para buscar mais flores e eu aproveitei para explorar o local, conhecer e vasculhar cada canto. Pelo que pude ver não estava na mesma mansão como da outra vez, talvez seja para confundir ou aquele casarão na verdade nunca foi o que acreditei — simplesmente esse lugar desconhecido é onde o tal ritual pode acontecer. No entanto, o luxo e a sofisticação eram evidentes em todo ponto que olhava, como se estivesse em um palácio digno da nobreza inglesa igual a filmes clássicos de época. As cores principais e de grande destaque eram um misto cinza e azul, até possuíam detalhes dourados. Cautelosamente andei pelo extenso corredor, contando passo por passo e abrindo as portas que haviam ali. Grande maioria mantinha-se estritamente fechada, meu alerta estava no máximo quando destranquei uma porta que aparentemente era a mais — estranha — protegida, ironicamente estava aberta. Um frio correu pela minha espinha, juntamente com uma sensação de perigo a espreita. A escuridão amedrontadora engolia o cômodo, automaticamente procurei um interruptor de luz para acender. Finalmente achado liguei imediatamente, a luz forte cegou-me.
- O que está fazendo aqui? — a voz inquiriu, seu tom severo e cortante. Virei-me lentamente e receosa de quem poderia ser, e desconfortavelmente fui flagrada pela última pessoa que queria ver: Ace. — Responda: O que faz no meu quarto?
- Eu... — nenhuma desculpa plausível apareceu para que pudesse sair dessa tensa situação. Coloquei minha mente para trabalhar rapidamente antes que falasse o que não devia. — Me perdi...
Engoli em seco, temendo alguma reação agressiva dele. Eu não saberia ao certo o que fazer caso ele viesse me atacar: primeiro — não estou totalmente preparada; segundo — minha mente opera no automático e sem analisar o que acontece ao meu redor. Sou um alvo fácil demais.
- Hm, entendo. Não fique perambulando desacompanhada por aí.
Ace deu um passo em minha direção e eu recuei, sentindo-me ameaçada por ter meu espaço pessoal invadido. Minha atitude não o intimidou, ele continuou até estar poucos centímetros perto de mim e o pior é que não tinha saída, pois ele posicionou os braços um de cada lado criando um bloqueou a passagem. Com os dedos ele pôs uma mecha solta do meu cabelo para trás de minha orelha.
- Seria tão fácil se você cooperasse — na primeira chance que tive fugi de Ace, empurrando-o com toda força para longe de mim.
- Não temos nada pra conversar.
- Antes que me esqueça: Cuidado ao tentar usar seus poderes, esses braceletes absorvem sua energia — elevou a voz com falso alarde. Adquiri uma velocidade inacreditável pelo medo, então forcei minhas pernas a se moverem com agilidade. Não fazia ideia de onde ia e tudo que queria era me afastar de Ace, ignorar os eventuais perigos nesse lugar desconhecido.
- Onde estamos exatamente? — inquiri ao entrar no quarto. — Essa não parece a mansão daquela vez.
Nilin, que tocava o piano, se assustou e parou no meio da melodia.
- Estamos na mansão Lockhard.
- O que? Por que?
Lutei para respirar. Depois de recuperar o fôlego, ajeitei minhas roupas para que não parecesse estava fugindo — embora realmente estivesse. A raiva que crescia e firmavam-se por dentro me impedia de sequer sentir pena.
- É o santuário mais próximo. — ela apontou para a janela. — Ali, naquela direção, foi onde você foi invocada a esse mundo.
Nilin com a sutileza e a graça de uma nobre, se deslocou para onde me indicou com semblante derrotado.
- Existem dezesseis lugares sagrados tanto nesse mundo quanto no seu — começou com um longo suspiro. — Esses lugares são uma conexão direta para os dois mundos, são chamados de Fendas. — a vidraça refletia a reluzente luz solar, sutilmente quente e radiante e batia exatamente nela, lhe fazia parecer um anjo. — Você foi levada a esse que é da família Lockhard.
Me sentei, largando o peso do meu corpo no colchão.
- Eu me lembro que vi você em um sonho e me contou sobre isso... — encarei com seriedade. — E que você me atraiu pra cá.
- Eu... Sinto muito.
Nilin retomou seu lugar junto ao piano.
Depois de um longo e silencioso minuto, Nilin recomeçou a tocar. A melodia soou tranquila, causando ecos pelo enorme espaço.
- Me ensine a tocar — minha voz saiu fraca, quase implorando. — Mais precisamente... A Canção do Herói.
- Tem certeza? — Nilin perguntou, olhando-me pesarosa como se tivesse vendo através das inúmeras camadas que cobria meu interior. A reforçada couraça que criei para proteger o que sobraram dos fragmentos do meu coração.
- É a última esperança agora.
Nilin tocou minha mão, apertando-a suavemente antes de apertar a primeira tecla e eu imitei o gesto. Eu não era muito boa, minha péssima coordenação motora atrapalhava qualquer tentativa de ir mais rápida e formar uma melodia corretamente. Aos poucos e sob a orientação de Nilin consegui tocar adequadamente uma pequena música, não perfeitamente quanto a própria Nilin, mas bonito suficiente para dizer que tenho um pouco de talento. Foi bom o tempo que durou, pois isso me morfinizou. Um remédio para não lembrar.
×××
Lyana
CONTEMPLOU TODAS as fotografias reveladas maravilhada, modéstia a parte ficaram perfeitas. Sempre fazia um bom trabalho, não há ninguém que possa dizer o contrário. Mal viu a hora de mostrar para Diva, talvez vendo o quão bonita ficou se convença que não há motivos para ter aversão por fotos. Só teria que inventar uma desculpa por ficar tanto tempo fora — aproveitou para ver como estão os pais da Diva, talvez ela queira saber como eles estão.
Caminhou tranquilamente para a tal agência — pelo logo super chamativo em neon vermelho — Devil May Cry com a esperança que a preguiçosa já tenha acordado. Dante estava a acostumando muito mal, mesmo que seja benéfico as vezes — muito mais do que gostaria de admitir.
Quando colocou os pés dentro daquele escritório desorganizado, encontrou Trish e... — odiava esquecer o nome das pessoas — Lady, ambas com expressões meio mórbidas e que pareciam ter testemunhado um assassinato ou algo realmente terrível aconteceu e como sempre era a última a saber. Não deu atenção, porque não era da sua conta — se for uma missão é claro -, foi direto para escadaria com o intuito de acordar a bela adormecida pessoalmente.
A porta do quarto em que ela dividia com Dante estava trancada, primeiro deu leves batidas quase imperceptíveis na superfície de madeira. Não ouviu absolutamente nada, nem mesmo uma reclamação do mestiço. Usou uma unha sobressalente para destrancar a porta, entrando num rompante dentro do cômodo assim que conseguiu abrir. Havia um pequeno rastro de sangue na entrada e seguia-se para cama no qual estava Dante, aparentemente perdido em pensamentos. Ele apoiava a cabeça nas mãos, escondendo o rosto enquanto seus cabelos prateados formavam uma cortina que impedia de vê-lo claramente. Isso não seria tão grave se o quarto não tivesse o caos: a cama totalmente manchada de sangue, móveis destruídos — se não soubesse que ele não era humano ficaria estarrecida, afinal nenhum ser humano normal conseguiria tal proeza — ou simplesmente fora do lugar, a espada de Diva jazia no chão igualmente suja de sangue. Pelo cenário catastrófico, poderia considerar duas coisas: Primeira opção; eles tiveram uma sessão bem bizarra e violenta de amassos. Segunda opção; algo muito ruim aconteceu, principalmente por não ter encontrado ela. Essa opção fora a mais considerável.
- Dante? — chamou meio receosa. Ele ignorou ou não quis ouvir, para ela dava na mesma afinal ele a deixou no vácuo.
- Dante? — teve a coragem de chamar novamente. Dessa vez, ele levantou a cabeça e vendo que era a mestiça ruiva, fitou-a fixamente. Dante parecia bem abatido, coisa que não combinava nem um pouco com a personalidade dele. Lyana não o conhecia tão bem, mas existiam certos padrões na profunda e desoladora tristeza que nunca se confundiria. Dante ergueu-se e o lençol que o cobria caiu no chão com um baque mudo.
- Ei, grandão. O que houve? — resmungou, brincando. — Aliás, cadê a Diva?
Ao mencionar o nome dela, Dante travou. Como se, por um motivo desconhecido, ele tivesse adquirido um tabu pela Diva. Será que eles brigaram?
- Você sabe onde ela está? — perguntou esperando outra reação estranha. — E o que houve aqui?
- Tire suas próprias conclusões.
- Cadê a Diva? — repetiu nervosa, a visão ficava vermelha pela crescente raiva.
- Ela foi embora. — disse com amargura.
- Como assim foi embora? O que houve?
- Ela escolheu ir com aquele maldito. — o timbre agressivo em sua voz, deixou-a assustada.
- Mas o sangue...
- Grande parte do sangue é meu, — explicou apático — a outra parte é da Diva, ela deve ter pensado que me matou usando o próprio sangue.
- Se ela quisesse te matar, realmente faz sentido usar o próprio sangue. Afinal, ele é venenoso para demônios também. E pelo que vejo ele não funcionou.
- Eu devo ter adquirido alguma imunidade pelo sangue dela.
Achou que de tantas coisas que ambos compartilham, Dante deve ser o único demônio — meio, no caso — que não teve problemas com o sangue da Diva. Até ela mesma — que em parte sendo humana — sentia um sutil incômodo por tocar nele, pode não tê-la matado, mas causou uma dor surreal.
- Dante explique melhor o que aconteceu... Mas coloque uma roupa primeiro. — tentou não olhar o que não devia.
- Certo, então saia para que possa me trocar.
Virou e marchou para fora do quarto, assim que a viram, Trish e Lady voltaram atenção para a ruiva fazendo um pedido mudo. Elas devem estar muito preocupadas, e não é para menos: Dante quase pôs a casa abaixo. Demorou para o dito cujo terminar de se trocar, ele estava praticamente pronto para ir a guerra e com razão.
- Vou explicar a situação para vocês, é certo que fiquem no meu pé se não contar — Dante anunciou, sua feição mudou para seriedade. A tensão dentro do escritório era muito insuportável e Lyana odiava estar em situações assim sem saber como agir. Lady estava encostada na mesa de braços cruzados e uma expressão cautelosa, Trish permaneceu ao lado de Dante absorvendo cada palavra dita e a mestiça esperava alguma reação mais rápida, tipo peguem suas foices o tochas e vamos a guerra. Na verdade, esperava que começassem a procurar alguma pista.
- Então faremos o que? — questionou inquieta.
Dante ficou pensativo e por momento acreditei que ele fosse abandoná-la, entretanto Dante fez o contrário: abriu um sorriso convincente e cheio de confiança inabalável.
- Vamos atrás dela — encarou ele estupefata com a mudança de ares. — Diva não vai se livrar de mim facilmente.
Trish e Lady também abriram um sorriso. Elas mostraram estar ainda mais empolgadas.
- Como nos velhos tempos — Trish comentou.
- Finalmente uma missão digna.
- Vamos salvar a mocinha e o mundo. — Dante afirmou.
- Vocês não estão sozinhos — uma voz pronunciou, automaticamente os presentes olharam para porta, encontrando um rapaz meramente parecido com Dante, tirando o braço dele que tinha uma aparência meio estranha. Não era nada que causava tanto espanto ou mesmo anula a beleza dele.
- O que você está fazendo aqui, garoto?
- O mesmo que todos: Ajudar a Diva.
- Mas como soube o que aconteceu?
- A mesma pessoa que me disse — uma mulher surgiu, alguém que Lyana não conhecia.
- Uau, estamos montando um grupo de resgate? — brincou, rindo. Ela ficou emocionada em saber que tantas pessoas se arriscariam para salvar a Diva, Alexander ficaria feliz em ver que existem mais pessoas determinadas em proteger o seu último legado — a pequena Diva.
- O importante é saber quem chamou todos — Lady concluiu.
- Foi eu — uma voz suave e tranquila cortou o caos de vozes abarrotadas.
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