Next Dimension

77 Extra: Penumbra!


Notas iniciais
Os capítulos extras podem ou não conter spoiler, mas a leitura fica a critério de cada um o

Penumbra — quase sombra — é a região no qual somente uma parte do corpo ocultante obscurece a fonte de luz.

Christie que observava o jardim esplendoroso da mansão virou-se para que pudesse confrontar o marido e Sparda que se mostraram extremamente absorvidos com algo — um assunto muito complexo e tenebroso. Ela estava ciente dos transtornos decorrentes aos recentes ataques, principalmente sobre o que houve com o clã de Unchants que afetou drasticamente Arya. Talvez seja o que os deixavam tensos, a incerteza do que lhes reserva no futuro com essa nova guerra prestes a culminar. Lembrou-se em que estado encontrou Arya e Sparda após terem regressado de Meridian — o local onde Arya nasceu, conservado como sagrado —, a garota paralisada quase catatônica suas vestes tingidas com o mais intenso vermelho e o demônio angustiado com a companheira. Isso, sem duvida, não era um bom sinal.

Depois disso, eles reuniram-se algumas vezes como agora para armar estratégias e conversar. Eventualmente Arya não esteve presente em grande parte dessas reuniões por estar fragilizada e só aceitava que Sparda lhe visitasse. Nesse meio tempo eles criaram uma próspera amizade com o casal, Christie e Adam eram um dos poucos humanos que os conheciam a real história e ainda os recebiam muito bem — sempre os agradecemos por terem salvado o mundo. No entanto, colocando-os em situações de risco não era aprazível. Sparda queria preserva-los longe do perigo que os defrontava. Bom, eles têm sido bastante receptivos, Sparda refletiu enquanto caminhava pelo corredor que dava acesso para os aposentos da jovem Arya.

Ultimamente ela manteve-se reclusa e não saia com tanta frequência do quarto quanto antes, mas a razão disso ele sabia muito bem: o extermínio a sangue frio do clã de Unchant. A culpa recaindo sobre algo que, supostamente, deixou de fazer para proteger seus irmãos de clã e que por conta dessa negligência todos estão mortos. Apesar de Arya não ser o tipo de pessoa que camufla suas emoções, dificilmente os demonstra abertamente. Devido aos costumes que recebeu durante sua infância de que para ser uma exímia guerreira tivesse que controlar os sentimentos e não os expondo, ela pode muitas vezes ser considerada insensível. Sparda conhecia a verdadeira face da jovem, aquela escondida atrás da fortaleza que construiu ao seu redor e que poucos viram: a ingenuidade e a personalidade minimamente infantil. Conforme o tempo em que conviveram havia visto triste uma vez quando perdera o pai na guerra que travaram ao que pareceu ser uma memória distante, afinal passaram-se mil e setecentos anos desde o ocorrido. Arya não é mais a garota cheia de vida e feroz guerreira daquela época, ao contrário, era uma mulher reservada e melancólica. Este, contudo, percebeu que Arya não somente se torturava constantemente com o sentimento de não ter feito suficiente como também sua vontade de lutar desaparecera. Ao aproximar-se paulatinamente do final do corredor em formato de T, seus olhos localizaram pequenos e quase imperceptíveis mechas no chão. Identificou-o confuso, sendo retalhos de cabelos, mais especificamente as castanhas e onduladas madeixas de Arya.

Nunca, em hipótese alguma, ela permitia-se corta-los. Por esse motivo estranhou de imediato vendo-os ali, deliberadamente formando uma trilha para o quarto da jovem.

Sparda girou a maçaneta lentamente, tentando gerar menos barulho possível e não acabar assustando Arya, embora soubesse que a mulher dificilmente se assustava. A princípio o grandioso cômodo estava quieto, porém logo ouviu o que lhe pareceu ser algo sendo severamente rasgado. E lá estava ela, Arya ajoelhada no centro do quarto segurando firmemente um punhal afiado retalhando os longos cabelos castanhos. Ela não se importou de Sparda estar presente tampouco lhe disse algo, apenas continuou com o ritual que infligia a si mesma. Cortava sem piedade seus cabelos, aquilo que muitos sustentaram como um dos símbolos de sua beleza e a representação da grandiosa mulher que um dia fora. Agora tudo que restou fora curtas madeixas, elas emolduravam graciosamente seu rosto pálido.

— Arya... Por que está fazendo isso? — Sparda questionou abaixando-se a altura da jovem. Ela ergueu a cabeça o encarando num misto de inocência com altivez, seus olhos de incomum cor verde-castanho claro cheio de perplexidade. Em seguida, olhou para o punhal em mãos e imperturbável prosseguiu cortando as remanescentes mechas ainda longas como se lhe fossem incomodas.

— Estou me despedindo — respondeu impassível, sem esboçar nenhuma reação aparente.

— Despedindo-se? De quê?

— Da minha da minha feminilidade. Estou abdicando os laços que tornam mulher, não terei uma família nem filhos. Não me envolverei com ninguém e jamais irei me apaixonar. Eu abandono minha essência feminina para dar o lugar exclusivamente à guerreira!

— Está abrindo mão de ter uma vida normal... Arya.

— E para começar: estou cortando meus cabelos. Eles são o símbolo para qualquer mulher da sua beleza e feminilidade.

— Isso é o que realmente quer?

— Sim! — alegou inegavelmente confiante, deixando Sparda sem palavras. — Estaremos enfrentando o que pode ser a batalha de nossas vidas... — acrescentou mordendo o lábio inferior. — Não devo me deixar levar por coisas supérfluas.

— Aquela que pode decidir o fim definitivo, mas, Arya, você não precisa fazer nada sozinha.

— É meu dever, Sparda! — Arya levantou-se bruscamente espalhando restos do que foram seus longos cabelos pelo chão claro e polido, sua expressão modificou-se num evidente e doloroso remorso. Em todos os anos que pôde estar com Arya, nunca tinha visto tão abalada e vulnerável. Como uma garota humana — frágil e quebrada.

— Eu não pude proteger meu clã! Eu era a líder e não pude salvá-los! — berrou irrefreável, lutando para conter as lágrimas. Ela olhou para as próprias mãos, assombrada com o que somente ela via. — Ainda posso ver o sangue do meu povo manchando minhas mãos... O cheiro desagradável, o sutil calor nauseante e consigo ouvir os gritos de todos! Havia crianças lá! Pessoas inocentes que não mereceram o terrível destino que lhes decretaram!

Sparda ficou calado esperando que ela desabafasse completamente, permitindo que saísse o peso que carregava e parecia destruí-la aos poucos.

— Nos meus sonhos, ouço uma voz que diz que minha alma cheira a sangue. — confessou tristemente, suas mãos agarraram-se na cabeça quase arrancando os cabelos de tamanho nervosismo. — Talvez seja verdade, milhares de pessoas morreram... Por minha culpa!

— Nada do que houve foi culpa sua, entenda isso! — Sparda retrucou transparecendo seu descontentamento.

— Não, Sparda! Você que não entende! Prometi ao meu pai que zelaria pelo clã, visto as baixas que a guerra trouxe, o equilíbrio foi quebrado. A existência do meu povo fora praticamente apagada!

Os anos revelaram que nada que fizesse pode modificar o que Arya pensava, ela tinha uma teimosia sem precedentes. É como os humanos costumam dizer: teimosa e irredutível feito uma parede de mármore. Sparda era consciente da dor que a atormentava e entendia, muito mais do que a garota pensava.

Todas as noites os constantes pesadelos dela misturavam-se aos dele, pulsando dentro de si frenéticos e engolfantes. Experimentara aquilo que a jovem vira e as sensações que sempre a faziam se inquietar: os cadáveres ensanguentados e brutalmente retorcidos, chamas altas e o enjoativo aroma de óleo permeando o ambiente, lamentos em pontos distantes e o que a deixava desolada e destruída, a imagem nítida da pessoa que lhe causou tanto sofrimento.

Pessoas nobres que dividiram a vida com Arya, seres pacíficos que preservavam a ordem natural do mundo — os protetores do véu dimensional.

E isso se devia ao fato que eles estavam psiquicamente ligados, e por intermédio dessa ponte que os unia tinha acesso à parte reservada da mente dela. Esse tipo de ligação não é deleitável para nenhuma das partes, pois tanto para Sparda quanto para Arya é uma quebra de privacidade, envolvendo-se nos sentimentos mais profundos um do outro. Apesar disso, Arya deveria saber que Sparda era o único que compreende a dor que a entorpece por dentro, porém ela não se permite aceitar. A razão é que ela queria pôr um final definitivo com as próprias mãos, sem auxílio. Essa guerra vingaria o extermínio do clã, assim como impediria que tomasse proporções maiores e englobando os seres humanos.

Ele a trouxe para perto percebendo a consciência ocupando seu lugar nos pensamentos confusos da jovem. Quando ele a abraçou forte, sentiu que relutantemente Arya foi cedendo, até que retribuiu o gesto carinhoso — coisa que ambos não eram tão adeptos. Sussurrava palavras de conforto para a jovem que ouvia sem questionar ou opor-se. Permaneceram assim durante um longo momento, separaram-se deixando o constrangimento no ar. A pele pálida da jovem corada bem acima das maçãs do rosto e seus olhos apreensivos focaram-se em um ponto aleatório do cômodo. Ainda havia coisas que não mudariam, dentre eles: as atitudes carinhosas que levavam a crer existir mais que uma amizade entre o demônio e a Unchant. Logo após a promessa de servi-la e protegê-la feita por Sparda, ele pareciam estar disposto a sempre ajuda-la de uma maneira quase... Não. Para ela coisas que considerava fora dos padrões de uma guerreira eram estritamente proibidos, fizera um juramento para abdicar-se desses elementos. Amor e família, nada disso deveria tomar seu tempo e sua mente.

Tudo deve continuar como sempre foi, eles sendo amigos. Apenas isso.

Certa ocasião cogitou a possibilidades de serem um casal no futuro, entretanto quando visualizava-o não se via compartilhando uma vida com ele, sinceramente por que ela não tinha um futuro claro!

Se existia uma coisa de que Sparda não conhecia era a certeza absoluta e imutável que ela tinha: Essa guerra pode ser a derradeira, a batalha da existência dela.

A sombra que tenta extinguir os resquícios da luz, seu poder consome aquilo que se encontra em seu caminho, em outros termos, seria Arya a luz que aos poucos cedera à escuridão?

— Estarei ao seu lado nessa guerra, assim como esteve do meu. Darei-te meu apoio!

— Obrigada, por tudo! — Arya sorriu, pela primeira vez em um longo período, um genuíno sorriso de agradecimento.

Talvez, ainda que esteja preparada para qualquer contratempo e Sparda esteja ao seu lado, ela sabe que uma hora... A escuridão cobrirá a luz como a penumbra e, do mesmo modo, o engolira completamente até transforma-la na umbra — a sombra total.