Notas iniciais
Meu nome é Cléo Lakevna, sou matadora de aluguel e trabalho para J. Simon Rinner. Não sei se vocês o conhecem, mas ele já foi um gangster, tá fora da praça mas continua as escuras. Eu não posso falar muito do que sou e faço, mas posso contar como tudo isso começou. Era uma noite de sexta-feira, eu estava de saída da casa de Richard, meu... Não sei o que ele é meu mas, enfim.

Mais um vaso voou sobre a mesa da sala de jantar.
-VOCÊ ME PAGA, RICHARD! DESGRAÇADO! — Gritei depois de ter atirado a primeira das ultimas quarenta e quatro coisas que encontrei ao meu alcance.
-SUA MALUCA, VAI SAIR ASSIM MESMO? PARABÉNS! Quebrou a casa, bebeu e ainda vai pilotar a moto. Que jeito?
-Foda-se essa merda toda, seu filho da puta! Vai se foder.
-Cléo, porra, volta aqui! Precisamos conversar, eu mexi na sua gaveta porquê...
-PORQUÊ VOCÊ É UM OTÁRIO, FILHO DE UMA PUTA! ME DEIXA EM PAZ!
-Eu precisava saber! Volta aqui!
-Vai pro inferno, aproveita e pega tudo o que você encontrou e enfie tudo, exatamente tudo no seu... — Uma velhinha me interrompera de terminar a frase.
-O que vocês pensam que são? É sexta-feira, eu sei que é dia da diversão de vocês, apesar que vocês são dois vagabundos e nunca trabalham... Mas, diminuam o tom! Vão acordar a vizinhança desse jeito.
-Tem razão Sra. Ollsen. Manda esse filho da puta pra casa dele porque eu tô caindo fora. — Respondi.
-Desculpa, Sra. Ollsen. Cléo anda fora dos eixos ultimamente.-Disse Richard, terminando de colocar o capacete e revirando os bolsos á procura das chaves.
-NEM PENSE EM ME SEGUIR! EU JOGO ESSE PORRA PRA CIMA DE VOCÊ E MORREMOS JUNTOS, SE NECESSÁRIO!
-Mantenha a calma, você não vai sair sozinha! Eu vou com você.
-Vai se foder, já te disse, me deixa em paz.

Ele suspirou fundo e montou em sua moto. A Intruder mais-que-brilhante que, apesar de ter sido mais barata, mil vezes mais barata que a minha Harley Davidson, ele á tratava como uma rainha, a melhor de todas as motocicletas do universo. Me viu sair em disparada, rumo á Avenida Morsey, como se eu fosse um dragão cuspindo fogo e deixando os rastros pela rua, cantando pneu. Andamos paralelamente na avenida, trocando juras de amor...

-Cléo, aonde você vai? Pára com isso, já tá ficando perigoso...
-É perigoso desde o dia que conheci você! Filho da puta, você me traiu!
-Mas, haja o que houver, seja lá o que for, eu confio em você!
-Você não entende,Rich... Eu não posso te proteger se você souber de tudo. Ou eu te conto ou mantenho a minha vida paralela. Você já sabe coisas demais.
-Cléo, caralho! Eu te amo! Eu tô pouco me fodendo pra tudo isso... Eu te amo.
-Richard... — Me derreti num semblante tristonho, era lindo ver aquilo. -Eu também te a...
-CLÉO! — Richard exclamou, gritou como nunca antes e até que eu pudesse ver, era tarde demais. Um clarão de várias lâmpadas me tomou a visão e eu voei como um pato sobre dois carros, sendo um que estava em cima de uma espécie de guincho, seguro de carros. Depois de planar, rolando no ar, ralei e me desenrolei toda no chão. Senti o sangue lavando minhas costas e, alguns segundos depois, uma sola de sapato no meu ombro, me virando de barriga pra cima.
-Seja bem vinda de volta, Cléo.

Acordei depois de um longo período, numa poltrona velha, rodeada de homens com porte alemão, sendo dois, de guarda á Richard. Temi que tudo aquilo fosse um pesadelo, mas pela vontade louca de fumar que eu tinha no momento, na verdade, tudo que era remoto ao nervosismo me dava vontade de fumar. Isso me fez perceber que era tudo verdade.
-Sr. Rinner, ela já acordou. — Disse um dos quinze alemães, pelo telefone.
Abaixei a cabeça e consenti, respirei fundo e olhei atordoada para Richard, como quem pede desculpas pela merda que fez e colocou alguém que não tem nada a ver com isso.
-Srta. Lakevna... Que prazer revê-la. — O velho, maldito, entrou na sala, todo de branco, um fraque de pinguim albino numa cadeira de rodas elétrica.
-Simon Rinner... O Mestre. Antes que você comece a discursar, ei, alemão do telefone, pega o meu cigarro no bolso da minha calça aqui, por favor.
E ele veio até mim, com uma cara fechada e os olhos brilhantes. Não sei se, por alegria de pegar na minha bunda pra apanhar o maço, que seja. Ele ainda acendeu com seu próprio isqueiro e eu o agradeci.
-Mestre, o que você quer comigo? Na boa, já fiz tudo que você queria, já completei todas as missões necessárias e você disse que ia me deixar em paz. E ainda meteu meu namorado na história... Deixa ele ir...
E o velho gargalhou, o que me deixou impaciente, de cara.
-Ah, Cléo! Eu disse que te deixaria em paz mas não para sempre. Oras, uma hora ou outra precisaria da minha melhor garota para um serviço ou outro. Olha, você não morreu por minha causa... Que acidente foi aquele? Me senti no show do Rammstein!
-Como? Você, você assistiu á tudo? Desde onde? Você está me vigiando? Que merda é essa????
-Não se altere, Lakevna. Não há razão para histeria. Eu só quero um favor, um grande favor.
-Você está louco! O que é que você quer? — Disse, quase cuspindo o cigarro da boca.
-Volte a trabalhar conosco. Você treinará os demais e seu namorado vai nos ajudar á te proteger.
-E se eu não quiser?
-Bem, aí você volta pra casa, na garupa da Intruder, vai ter sua vida vigiada para sempre e matamos o seu namorado. Queima de arquivo, você sabe como é.
-Não-ponha-suas-mãos-no-Richard. — Acho que senti uma lágrima de sangue rolar pelo meu rosto.
-Vamos lá, Lakevna. Você sabe que é mais vantagem. Você é uma das, se não a melhor dos nossos agentes... Vai ter a sua harley de volta, sua vida sem preocupações, dinheiro sempre quando precisar, os seus velhos amigos contam com você. Você nos deve um favor, Cléo.
-Devo o que? O sangue que derrubei por vingança á morte dos meus pais? Acho que não, estamos quites até demais. Eu... Não posso deixar Richard nesse estado. MERDA! Eu não sei o que fazer. — E cuspi a bituca no chão, os braços e pernas já estavam incomodando no meio daquelas amarradas de corda.
-Aceita. — Richard se pronunciou. — Aceita logo, lembra do que eu te disse mais cedo.
-Meu amor, eu não posso. Como vamos...
-Não interessa, vamos dar um jeito.
-BOM GAROTO! — O velho Simon gargalhou e bateu palmas. Senti meu coração apertar por não ter escolha. Ou eles matavam o meu cara, levavam minha moto e me vigiariam pra sempre até me matar do nada, ou eu voltaria á ativa no crime organizado, sob a sombra da proteção obrigada do meu namorado. Eu estava atada, mais do que só pelos braços e pernas.
-Quando eu começo?
-Hoje mesmo. Vá para a base, preparamos a sua cobertura.
-Richard vai comigo!
-Não, hoje não.
-NÃO FAÇA NADA COM ELE, SE NÃO EU...
-Lakevna, já disse que não há motivos para histeria. Você e seu gênio forte... Minha garota!
-Desgraçado. — Balbuciei.

Dois alemães diferentes vieram me soltar e me ajudaram a levantar. Não sentia as minhas pernas, mas acho que não estava paraplégica. Pedi mais um cigarro e me deram, levando-me no colo para os meus aposentos. A base a qual ele se referia, era uma puta sala de comando, nada como a batcaverna mas, algo parecido. Tudo era muito escuro, cheio de tecnologia de ponta. A cobertura, na verdade, as coberturas, eram cinco, eram quartos minúsculos onde os melhores agentes ficavam. Eu digo 'ficar" pois, depois que matamos alguém, devemos ficar de quatro á sete meses sob proteção do Simon e sua gangue de alemães. O prédio era dividido em cinco torres, uma construção incrível. As divisões eram;cobertura do Simon,cobertura do agente número um,torre de controle,cofreearmazenamento dos arsenais. A torre debaixo da cobertura do agente número um, agregava os demais agentes, quanto mais novo, mais próximo do térreo.

-Cuide-se, Lakevna. Você deve se recompor para treinar os novatos. Quero que faça um ótimo trabalho ou você já sabe. Até amanhã. — O velho interfonou e eu não respondi. Acendi mais um cigarro e deitei com certo pesar na cama. Eu estava moída, não sabia que amanhã estaria bem mas, essa era a ultima das minhas preocupações. Queria saber se Richard estaria vivo até amanhã. Era hora dele saber tudo por mim, a não ser que eles contassem tudo, o que eu tinha certeza que aconteceria. Ou o alemão do telefone ou o próprio Simon tratariam de esfregar na cara dele que eu sou uma matadora de aluguel e que todas as dúvidas que ele tinha a meu respeito eram reais e se tratavam disso. Já que estamos num mausoléu sem volta, que Rich saiba a verdade de uma vez e, assim possa me proteger, como um dos cabeças da inteligência de Simon.

Notas finais
Agradecimentos ao meu lindo russo, Richard. Sério, eu amo esse cara.