Notas iniciais
Eu e Richard não tivemos uma boa manhã juntos, depois do sequestro. Contei á ele tudo o que me perguntou, mas não tudo que havia acontecido até eu chegar aqui. Simon deu a minha primeira missão depois desse tempo todo. Saí da base depois de pegar as armas que precisava e tomei um táxi rumo ao endereço de Miller Anderson.

–Bom dia, Rua Quaternary Meassure, Cupville. — Saudei e pedi ao motorista. Respirei fundo e me perdi numa confusão de sentimentos. Tentei me concentrar pois, não era hora e nem lugar pra chorar. Richard está uma fera comigo mas, esse é e pelo visto sempre será o meu trabalho, até que eu morra.

O carro partiu avenida á dentro. As cinco torres ficavam numa rua estreita e, não sei como, se escondia discretamente atrás dos outros prédios sem reforma. Tentei me focar vendo os prédios correrem através da janela do carro, arranha-céus luxuosos afinal, isso é Nova York. Coloquei as mãos nos bolsos e senti as pistolas se aquecendo junto ao meu corpo. Era no mínimo, estranho pra mim estar naquela situação novamente. Quantos eu iria matar? O que eu teria de enfrentar? O que Miller me diria antes de morrer? O que Simon vai me dizer quando voltar com as mãos sujas de sangue e... O que Richard vai fazer? Era impossível manter o foco. Lembre-se, Cléo... Todos os motivos que fizeram você se transformar numa assassina. O sangue dos meus pais, a guerra russa contra os alemães, a nata do crime estadunidense, a minha vingança, só minha. Estremeci, sentindo a fúria contornar minhas veias por dentro e enrijeci. Vou matá-lo e nada, nem ninguém vai me impedir.

–Senhorita, chegamos. — Disse o motorista, depois de aproximadamente duas horas.
–Obrigada, fique com o troco. Está dispensado. — Paguei com uma única nota e, apesar dele ter me achado estranha (a feição russa não era muito popular por ali), sorriu em ver a grande gorjeta que ganhara.
Fique vendo o táxi ir embora e observei a vista da rua. A mansão de Miller era mais ou menos como a Casa Branca do presidente daqui. Só que não era branca, era um champanhe meio rosado, rosa queimado. Portões fechados, indicando guardar uma fortaleza e em sua volta, muros medianos. Rottweilers descansando, um ou dois em cada árvore do quintal. Pelo visto eu teria que entrar pela porta dos fundos, eu preferiria matar três ou quatro criados ou seguranças á ter de atirar num pobre animal. Falando em seguranças... Olha ali. Três na porta da mansão, dois nas laterais dessa porta, outros vinte no quintal e foda-se essa porra toda. Vou entrar á noite, pelos fundo e isso está consumado.
Rondei mais um pouco, a mansão pegava duas ruas, essa Quaternary Meassure e a Renaissance, e era por lá que eu iria pular os muros. Disfarcei e dei mais uma olhada pra dentro através de algumas grades adornadas, que davam um charminho besta aos muros. De fato, havia uma casa (não era casinha, era uma casa para os criados) do lado esquerdo do quintal, nos fundos. Já havia mais ou menos alguma coisa em mente. O meu trabalho não tinha muita estrutura para se pensar, agora vocês me perguntam "com essa tecnologia toda, por quê Simon não lhe deu uma mapa completo da casa?" Pois bem, tenho mais uma pequena história pra vocês.
Havia um super agente entre nós, na época dos meus 21 aninhos. Não mais novata, já tinha respeito lá dentro da basa, mas nada comparado á Steven Duchers. 100% americano, o queridinho do Simon, pra variar. E então um belo dia, Simon lhe deu uma missão muito parecida com essa minha, de hoje. Simples, invada a casa de um banqueiro, mate seus seguranças, sua família e o próprio banqueiro, e volte com a sua cabeça numa tigela de prata ou em aço escovado. Steven tinha um mapa com todo o esquema de segurança armado: Lugar de casa segurança, cachorros, alarmes, etc. Eis que não era seu dia de sorte. Mais um alarme fora adicionado e, vamos dizer á grosso modo que o sistema de Simon não foi atualizado á tempo e, bang bang! Steven foi massacrado e foi a sua cabeça que chegou em uma caixa de papelão com isopor, literalmente. Desde então, Simon se sentiu um tanto humilhado e deixou por nossa conta, lidar com esse tipo de contratempo. É claro, se eu me foder e morrer nessa porra, Simon ainda vai continuar com o seu traseiro murcho naquela cadeira de rodas, podre de rico e com os seus alemães á volta. Enfim, eu particularmente acho uma babaquice. Quer dar o mapa? Me dê somente o endereço, eu me viro e acho a casa. E Steven, pobre Steven... Morreu contando com os ovos no ninho da galinha.

A noite começara a chegar e o carro luxuoso de Miller também, á sua casa. Respirei fundo e sorri, é hora da diversão.
Miller era aquele típico senhor do Bronx, enriqueceu na raça e depois virou um filho da puta como Simon, Raymond e todos os outros. Sim, até mesmo como meu pai, mas não importa. Minha vingança é feita de outros acontecimentos. Ele carregava consigo uma mala prateada, provavelmente, dinheiro, sujo. Os portões, muito bem fortificados, se abriram e o carro entrou logo atrás de Miller. Era a minha chance... Esperei todos os seguranças se dispersarem, pra eu pode entrar. Contornei a casa mais uma vez, fui para os fundos e vigiei pra ver se não havia cães ou criados. Escalei e pulei o muro, fiquei até surpresa, ainda sabia cair como uma gato. Olhei novamente sobre os arbustos e corri para a casa dos criados, me encostando numa parede sem janelas. Vi uma janela do primeiro andar entreaberta. Era ali mesmo, entrei.

–MAS QUE, QUER MERDA É ESSA? — Miller quase teve um ataque cardíaco ao me ver rolar janela á dentro. Caí justamente em seu escritório.
–Cala a boca! — Mandei.
–ATIREM! — Ele ordenou.
Arranquei as pistolas da cintura e dei dois tiros em cada guarda. Haviam quatro na sala. Mais um chegou ao perceber a movimentação.
–Entra na sala sem fazer movimentos bruscos, fecha a porta e vira de costas... Se der algum alarde, eu atiro. — Eu disse ao quinto segurança e ele acatou. — Vai pra lá! Vai pra lá! Deita no chão com as mãos na cabeça. Miller, fica sentadinho aí e nem pense em chamar alguém, eu não hesito em te matar, muito menos aos seus guardinhas.
Olhando para os dois, chequei a porta rapidamente e senti que o guarda ia sacar o revolver pra atirar.
–Não tão cedo, rapaz. — E atirei, na hora que ele engatilhou. — Miller, agora sim, somos só eu e você. Vejamos... Essas dívidas que você tem com o meu patrão, quando serão quitadas?
–Eu nem ao menos sei o seu nome, garota! Quem mandou você aqui?
–Garota? Olha só... Eu sou enviada da base de J. Simon.
–Não sabia que ele ainda trazia as suas putinhas russas pra cá.
–Mais respeito com a minha raça, canalha. Onde estão os papéis? E o dinheiro?
–De que papéis você está falando?
–Vai se foder. Não dá de trouxa comigo porque eu não gosto de homem burro.
–Se você quer saber sobre os papéis que incriminam os Simons, eu e toda a raça da América... Bem... Vai saber depois que me fizer um trabalho de língua muito bem feito. — E riu. Eu atirei, maldito.

Ser mulher do crime era uma afronta á sociedade dos mafiosos. Não era a primeira vez que me falavam coisas desse tipo, assédio verbo-sexual sempre me fez atirar sem pensar. Foda-se, eu mesma vou achar os papéis. Fechei as janelas e comecei a vasculhar. Achei parte, mas não tudo o que queria e, anexei junto á mala prateada e, bingo! Dinheiro, mais papéis, algumas identidades falsas e notas fiscais sonegadas. Perfeito.
–Ela está aí dentro, arrombem a porta! — Escutei uma voz masculina avisar da sala. Caralho...
Abri as janelas e por sorte, ainda não tinha ninguém pro lado de fora. Até que tentaram me cercar. Dá-lhe pistola! Rolei jardim a fora com a mala e graças á minha visão panorâmica, acertei todo mundo que tentava me impedir de sair. Avistei o carro de Miller e matei o seu motorista pra entrar no carro. O corpo caiu no quintal e enquanto o carro ia sendo metralhado, saí do portão entre-aberto com certa dificuldade e um tiro quase me pegou na cabeça. Joguei o carro á milhão na rua e fui o mais longe possível.

Depois de abandonar o carro, andei alguns poucos quilômetros na madrugada fria de Nova York. Tomei outro táxi para volta e parei umas quatro quadras longe da base para tomar o caminho a pé novamente... Que saudade da minha amante Harley.

–Nossa menina de ouro... Lakevna, como se saiu? — J. Simon me esperava na recepção.
–Você já devia saber, já que vigia tanto a minha vida. Eu continuo muito bem nas escaladas e caídas. Quase fui baleada na cabeça mas estou ótima.
–Miller está morto?
–Ele e seus seguranças de merda.
–Certeza?
–Porr... Poxa vida, Simon... — Contive um palavrão e isso o fez rir.- Eu dei um tiro no peito daquele infeliz.
–No peito? Ele te assediou?
–Pra variar. Bem, sem delongas. Aqui está, certamente seu dinheiro e muitas coisas que vão te agradar. — Larguei a mala, batendo em seu peito de leve e caindo em seu colo.
Simon abriu a mala e seus olhos brilharam. — Obrigada Lakevna, bom trabalho.
–Cadê o Richard? — Perguntei sem piscar, impaciente.
–Está na sua cobertura, demos acesso á ele. O casal precisa conversar.
Revirei os olhos como se me importasse com a preocupação de Simon.
–Só não se esqueça de trancar as portas e não fazer muito barulho!
–Vai á merda. — Dei as costas e nem com vontade de falar alto eu estava. Entrei no elevador e fui ao encontro dele.

–Meu amor? — Perguntei quando abri a porta.
–Oi, Cléo. — Richard ainda estava muito magoado comigo, e aquilo me matava.
–Rich... Como você está? — Perguntei inutilmente, pra fazer assunto.
–Nada bem. Ainda sinto um pouco de raiva de você e vontade de me atirar da janela dessa cobertura.
–Não, pelo amor de Deus, não diga uma coisa dessas... — Não me contive dessa vez. Meu peito estava apertado demais pra não chorar. — Ah, Rich... me perdoa... — E corri pros braços dele.
Nos abraçamos e choramos juntos ali durante uma meia hora. Era hora de dar um rumo pra aquilo tudo.
–Não me deixa aqui, não... Rich, eu te amo e eu preciso de você. Você é a única pessoa que não me abandonou durante esses oito anos.
–Eu também te amo muito, muito, Cléo. Não tenho dúvidas. Mas, como podemos viver nisso aqui? Esse aleijado nos controla o tempo todo, te suborna com a minha vida... Não quero que você...
–Richard, você vai ficar comigo. Eu tô me fodendo pro Simon. O meu trabalho eu faço muito bem e provei isso pra ele não é de hoje.
–Você é uma assassina, Cléo.
–Lide com isso e me ame. É pedir demais, eu sei... Mas eu não vou conseguir sem você.
–Vamos embora daqui...
–Eles vão te matar e vão me torturar em seguida. Eles não querem me matar mas querem me ver na lama se acaso eu descumprir alguma ordem. Richard, essa é a minha vida... Eu nunca vivi normalmente. Só pude ser feliz e conhecer o que era o amor, novamente, com você. Fica comigo, eu te imploro. — E enterrei meu rosto em seu ombro.

O silêncio reinou por mais uma eternidade. Até que ele recolheu meu rosto em pedaços.
–O que eu preciso fazer pra você continuar viva?
–Fica comigo e jamais saia do meu lado.
–Não, meu amor, digo sobre "ser seu segurança".
–Bem... — Limpei meus olhos e meu nariz. — Eles não acreditam que você não sabe de tudo, mas agora já sabe. Você já entrou na base e uma vez dentro dela, é quase obrigatório trabalhar pra eles, Rich.
–Quase...
–Quase pois, se você sair, eles vigiam a sua vida pra valer. Colocam escutas, vigias, câmeras, tudo aonde você menos espera. No mínimo deslise, te matam.
–Certo. O máximo que posso fazer pra eles é, concertar computadores.
–Rich... Está falando sério?
–Cléo... Você pode ser o que for. Eu não me apaixonei por você por causa de uma só coisa. Você... Pode até ter prazer em matar, mas o nosso prazer, de nós dois juntos, eu conheço muito bem.
Meus olhos brilharam naquela hora. Richard não lidava muito bem com as palavras e não éramos um casal de muitas declarações.
–Você é perfeito... — E agarrei-o pelo colarinho e lhe dei um beijo, de entortar seus óculos. — Me promete que vai passar o resto da sua vida comigo?
–Até o ultimo segundo que me restar. — E sorriu.

Eu já poderia ter um pouco mais de paz e menos amargura no coração. O que era meu, voltou pra mim novamente... Estar em paz com Richard era tudo pra mim. É lógico que ainda teríamos muitos desafios pela frente e, minha vingança nem ao menos estava perto do fim. Não matei somente a família do traidor de Raymond, que acusou meu pai de trapaça, e nem matei somente o assassino dos meus pais. Há muito mais coisas de que quero me livrar. Muito mais.

Notas finais
Um pequeno agradecimento de ultima hora... Á Jason Statham, meu ator favorito nos filmes de ação, gênero que tanto amo.