New Wonderland
10 Help
Notas iniciais
HELP
Não se está sozinho nesta batalha
A Rainha Vermelha adentrou o longo corredor monocromático a caminho da sala do trono. Ela era carregada sobre uma cadeira com duas hastes improvisadas. Quatro macacos a carregavam com sofridão e balançavam de um lado para o outro, ofegantes, tentando obter equilíbrio.
– Andem direito, seus lacaios imprestáveis! — Ela exigiu, batendo nas suas cabeças com o guarda-chuva que Vassoura havia providenciado para ela.
Os pobres bichinhos grunhiram e com o dobro do esforço, passaram a andar em linha reta. Um sorriso satisfeito estendeu os lábios vermelhos da dama. Ela recompôs sua postura, alisou sua saia e entrelaçou seus dedos sobre os fios ruivos de sua cabeleira. Ótimo. Estava perfeita.
As grandes portas de mármore se abriram e todos os súditos de Branca cumprimentaram-na por pura e forçada cortesia. Engoliram em seco. Já haviam se passado dois dias desde a batalha pela Coroa e a ameaça de prender Alice para sempre no Reino Subterrâneo. Desde então, Branca distanciara-se de seus serviçais, perdida entre pensamentos, escolhas, dúvidas. Seus olhos marcados de preocupação confirmaram todas as dúvidas de sua irmã, que teve de segurar uma risada maliciosa ao perceber do que se tratava. Vermelha estava pronta.
Pronta para receber sua coroa.
– Mandou me chamar, irmãzinha? — Com o mindinho no lábio e uma voz levemente irônica, a Rainha de Copas foi a primeira a se pronunciar.
– Irmã, deve saber por que a convoquei aqui.
– Não faço ideia. — Mentiu com um sorriso sorrateiro, desejando prolongar o momento de humilhação da irmã.
– Chamei-a aqui pois tomei uma decisão sobre sua oferta quanto a Alice.
– ...E a todo o Reino Subterrâneo! — Complementou rapidamente o bispo.
– Creio que o juízo deve ter voltado a essa sua cabecinha linda e você vai devolver algo que me pertence, não? — Algo que desde o início pertenceu a mim, pensou a irmã mais velha.
O bispo rapidamente avançou:
– Sua covarde! Tenha modos quanto a verdadeira herdeira do trono!
– VERDADEIRA? — A pequena mulher levantou-se impetuosamente do trono improvisado. — VERDADEIRA? EU sou a herdeira verdadeira. Este reino, este baralho, estes campos, estes desertos, vales, rios, este tabuleiro, são meus! Eu sou a irmã mais velha, eu deveria herdar tudo isto! Mas você – ela apontou ameaçadoramente para Branca. Ninguém ousou se mexer ou mesmo recuar aos seus avanços. Para eles, ela era um nada. — Você sempre foi a favorita, sempre a começar e vencer as partidas, com as cartas mais fortes, com a vantagem em tudo que nos foi providenciado!
O rosto de Branca estava contorcido numa triste expressão preocupada, repleta de simpatia e compaixão o que repugnou sua irmã ainda mais e a fez aumentar seu volume da voz:
– Bem, e agora? Está entre seu reino e o destino de uma forasteira! Não pode sair desta sem a minha ajuda, sem o meu consentimento, sem o meu desejo! Nem mesmo você pode sair desta situação com a resposta perfeita!
– Alice precisa retornar ao Mundo do Sol. — Branca suplicou, docemente. — Ela não pertence a este lugar.
– Ela vai enlouquecer! — Gritou a Rainha Vermelha, vitoriosa. — Quando chegar a próxima Lua Cheia, a menina já terá divagado entre as maravilhas que este mundo proporciona, terá perdido a sanidade, o bom senso, as memórias de alguém que ela já foi! — Todos no Hall se entrelharam, aflitos. — Ela irá morrer e eternamente perambular por esta terra, assim como o seu amado...
– Chega! — Exclamou o conselheiro. As cartas apontaram para ela suas lanças, mas ela continuou.
– Você consegue viver por toda a eternidade carregando o peso de mais uma vida infeliz por um ato egoísta seu, irmãzinha?
– Por quê? — Branca se levantou do trono. — Deixe-a ir! Ela não tem nada haver com isto!
– Claro que tem. — Vermelha murmurou. — Ela é importante para vocês. — Soltou uma risada malévola. — Eu tenho que destruir tudo aquilo que um dia carregou alguma importância para você, se lembra?
– Basta! — O bispo exclamou sacando sua espada. — Guardas, tirem-na daqui!
Sem nem ao menos tocarem nela, ela se retirou de boa e completa vontade, ainda rindo enquanto retornava. Ela a chamaria novamente.
Tinha absoluta certeza.
– Coelho, é você?
– Bem, sim, me perdoe por minha súbita... saudação. — Ele sussurrou, envergonhado, soltando-a do abraço.
Alice fechou os olhos e contou até dez. Abriu os novamente e tocou no peito do Coelho. Não acreditava no que estava vendo.
Com um belíssimo terno azul, camisa e calça branca, estava seu estimado amigo coelho. O relógio de ouro repleto de detalhes, o guarda-chuva simpaticamente debaixo de seu braço, a voz tímida e aveludada.
Alice estava de frente a um homem. Um homem alto, de olhos vermelhos e cabelos brancos, que a observava com a mesma admiração e carinho que outrora tivera, na forma de bicho.
– Você está diferente. — Foi só o que pode pensar em dizer.
– Mesmo? — Ele atentamente procurou algo em suas roupas. — Acredito que não.
– Você está mais alto. — É um humano, um homem, pensou em dizer, mas não queria soar preconceituosa já que coisas como espécie e forma não importam.
– Será? — Ele esticou seus pés nus. — Ah!
O coelho rapidamente se aproximou da menina de joelhos. Sangue corria pelo seu corpo, manchando suas roupas. Ele logo arrancou de sua mão o mesmo pedaço de tecido que Alice tinha usado para atender seus ferimentos.
– O que está fazendo? — Rubra, Alice afastou as mãos do Coelho de seu ferimento. — Eu posso cuidar disto.
Confuso, o coelho novamente insistiu:
– Este ferimento só precisa ser estancado. Está em um lugar que você não consegue ver. Deixe-me cuidar...
Os dedos do cavalheiro pareceram queimar sobre a pele de Alice. Seu coração pareceu despertar e toda a melancolia que antes a preenchera dissiparam-se. Sentiu se afobada e rapidamente distanciou-se dele, assustada com o desconforto que sentia.
Ela estava cansada. Estava a dois dias sozinha, sobrevivendo de poucos mantimentos que a floresta lhe provinha. Suas pernas tremiam a cada passo que dava, a cada novo passar. Aquela sensação era assustadora e parecia suprimir todo o mal-estar; sentia que precisava escapar dela.
O Coelho se tornara um homem! Um homem! E de repente, lidar com ele tinha um quê diferente, um jeito que a deixava desconfortável, assustada, insegura. Ele era mesmo o Coelho?
– Alice!
A garota virou-se para dar de cara com um sorriso maroto familiar. Apenas o sorriso.
– Gato de Cheshire!
– Pelo jeito encontrou uma chave.
– Chave?
Alice sentiu dedos longos percorrerem seu cabelo. Dedos, que pensou ela, serem de um humano. Tentou afastá-los. O gato soltou uma longa gargalhada.
– Isto é algo novo. Interessante.
– O que quis dizer com Chave?
Cheshire ronronou. Dois longos braços apareceram na sua frente e gesticularam:
– Uma saída, uma alternativa, um progresso.
Ela não se lembrava de ter se deparado com nenhuma Chave.
– Ela abre o que?
– O que você acha?
Ela suspirou, irritada. O gato apenas sorriu. Alice pensou na moça de azul, na transformação do coelho, no orbe brilhante que aquele garoto lhe havia dado. Estaria enlouquecendo?
– Sabe o que aconteceu com o Coelho? Ele está, digamos, diferente.
Desta vez, o rosto inteiro do Gato apareceu, revelando seus olhos inebriantes e o sorriso macabro num sereno rosto humano. Ele pareceu pela primeira vez interessado no que tinha para dizer.
– Ele me pareceu, me pareceu mais jovem. Não, me pareceu mais adulto. Maduro, seguro de si, confiante. Forte, alto. Não percebeu?
Ele continuou a observá-la numa felicidade muda. Seus olhos cintilaram como se soubessem de algo que ela ainda não entendia.
– Até mesmo você – ela tocou em seu nariz. — está diferente. Me parece mais normal.
Ele riu e riu, longamente, deliciado com suas palavras. O Coelho, a esta altura, já tinha encontrado os dois.
– Alice, Alice, quem mudou foi você. Já não é mais uma menina. Todos nós sempre fomos assim, você só não conseguia ver isto,
– Ora, boa noite Gato. — O coelho fez uma leve reverência. — É bom vê-lo aqui.
Um sorriso interessado percorreu o rosto do gato ao sussurrar antes de desaparecer:
– Boa noite para os dois.
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