New Wonderland
11 Time
Notas iniciais
TIME
Eternamente contínuo.
Olhos castanhos. Lábios contorcidos em um belo sorriso.
Uma canção suave, o véu alvo, as flores de baunilha e uma mão estendida.
Onde você está?
A cidade inteira borbulhava na quietude da manhã. Homens novamente empunhavam espadas, vestiam armaduras, endureciam os rostos em assustadoras caretas, faziam juras de amor. As mulheres estocavam comida, armavam-se com panelas e afiadas colheres, recolhiam as crianças e preparavam-se para defender suas casas e cidades.
Após a queda do império da Rainha Vermelha, boatos de Alice pareceram imundar as vilas com indagações, medos, ameaças que rapidamente preencheram os corações dos habitantes com sentimentos conflituosos.
Não se sabia a origem nem mesmo a validade dos rumores que ora gratificavam feitos imaginários de Alice, a salvadora, ou a dissimulavam como Alice, a traidora. Era o novo prazer de todo morador acordar e ouvir outra teoria deliciosa repleta de feitos heroicos e emboscadas traiçoeiras sobre a mística garota do mundo de cima que inegavelmente sacrificara-se na grande batalha do tabuleiro. O Sol mal amanhecera e toda a população do Mundo subterrâneo estava dividido em duas facções. Infelizmente, as duas versões eram tão contraditórias que a doce fofoca crescera em um gigantesco embate de dois grupos, os que defendiam-na como uma mártir que optara por ficar no novo mundo e os que a rebaixavam como uma oportunista, aliada a Grande Cabeça Vermelha que faria a Rainha Branca retornar a Coroa para que ela pudesse retornar ao seu mundo.
De uma forma ou outra, todos procuravam por Alice.
Uma trompeta ecoou pelas cidadelas. Era chegada a hora!
– Isto está me enlouquecendo! — Mallymkun murmurou irritada. Cobriu os olhos e ouvidos, revirando-se na cama. — Parece que se não os impedirmos, uma guerra civil se sucedera!
Silêncio. A roedora saltou do bule de chá e rapidamente atirou seu pequenino travesseiro no chapéu do ruivo.
– Você está me ouvindo?!
Um sonho acordado, uma imagem atordoante e misteriosa que novamente desdobrava-se diante de seus olhos. Os olhos púrpuros arregalados, percorriam todo o cômodo da taberna onde haviam repousado pela noite. As narinas bufavam, o peito subia e descia desesperado por ar enquanto uma súbita sensação de saudade o preenchia. Onde você está?
– Ei, — a ratinnha rapidamente aproximou-se do rapaz que agora contorcia-se numa tristonha pose fetal. — está preocupado com os boatos sobre Alice?
– Alice? — Ele hesitou por um instante. — Alice... Eles, eles tinham dito que ela tinha morrido! Traído a Rainha! Como eles podem!
Mallymkun rapidamente interveio: — Estão todos errados. A verdade é que alguns estão com medo de que Branca renuncie seu posto para que a garota se salve e estão inventando estas baboseiras para que localizem-na mais rapidamente.
– Um ultraje! — Ele riu, entretido com seus próprios dizeres. — Estão errados, errados! Alice está viva!
– Sim, e parece-me que as coisas estão fugindo do controle. Não é apenas nesta cidade, todas pareceram se mobilizar contra ou a favor da menina. Ontem mesmo vi algumas crianças construindo um fortificado com carregamentos pesados de petróleo. Talvez devêssemos adiar a procura por ela e alertar a Rainha Branca sobre o que está acontecendo. — Ela rapidamente espiou pela janela. — Lá vão eles de novo, reunindo-se na praça para o debate.
Olhos castanhos. Lábios contorcidos em um belo sorriso.
O tempo. O tempo. O tempo.
Um estouro. Mallymkun desapareceu de sua frente para reaparecer magicamente como num piscar de olhos no meio da praça, em frente a uma multidão de pessoas enraivecidas. Era como se tivessem deslocado-se no tempo.
Uma canção suave, o véu alvo, as flores de baunilha e uma mão estendida.
Mallymkun estava de joelhos, os olhinhos perdidos, vagos, encaravam o chão antes de dirigirem-se ao Chapeleiro. Pareciam suplicar-lhe.
Ensanguentado, o corpo estendido de uma criança estava no chão. O peito fora atravessado pela bala e seu pequenino coração esvaziou seu conteúdo nos azulejos do pavimento.
E parou de bater.
Nada parecia deturpar a guerreira que encarava a criança como seu próprio filho, nem mesmo os gritos, as agressões, os lamentos e choros. Seus olhos ainda suplicavam por uma resposta decisiva do Chapeleiro.
– Vamos ao encontro da Rainha ou continuamos nossa busca por Alice?
Onde você está?
– Lorina! Vamos!
– Já vou!
A moça ajeitou seus longos fios negros, o vestido azul e o buquê de flores brancas. Sorriu. Estava pronta.
– Mãe, espere! Ainda não podemos ir!
– Estamos a sua espera
– Alice ainda não apareceu. Não podemos partir sem ela.
– O tempo não para. Precisamos ir.
Os olhos castanhos de Lorina vasculharam preocupados os vastos campos verdes em frente a casa.
Onde você está?
A lebre de Março percorrera as escadarias, atrapalhando-se em cada degrau de cada andar. Puxara tapetes, abrira janelas, deslocara o mobiliário para que não o seguissem. Estava decidido.
Na última torre, do último andar, do último corredor, no último quarto da masmorra, onde nem mesmo os mais corajosos servidores da Rainha Branca aventuravam-se, A Lebre de Março finalmente encontrou o que procurava. Seus olhinhos cintilaram lunáticos, doentios, numa enigmática careta enquanto observava Vermelha em seu trono improvisado, junto a Vassoura.
Seus dedinhos miúdos foram de encontro ao cabo da faca que carregava no bolso.
Ele a encontrou.
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