Notas iniciais
O tempo está se passando! Alice e o Chapeleiro estão sentindo os efeitos - mesmo que ele e o tempo estejam supostamente brigados? Não sei, sei será?

TIME

Eternamente contínuo.

Olhos castanhos. Lábios contorcidos em um belo sorriso.

Uma canção suave, o véu alvo, as flores de baunilha e uma mão estendida.

Onde você está?

A cidade inteira borbulhava na quietude da manhã. Homens novamente empunhavam espadas, vestiam armaduras, endureciam os rostos em assustadoras caretas, faziam juras de amor. As mulheres estocavam comida, armavam-se com panelas e afiadas colheres, recolhiam as crianças e preparavam-se para defender suas casas e cidades.

Após a queda do império da Rainha Vermelha, boatos de Alice pareceram imundar as vilas com indagações, medos, ameaças que rapidamente preencheram os corações dos habitantes com sentimentos conflituosos.

Não se sabia a origem nem mesmo a validade dos rumores que ora gratificavam feitos imaginários de Alice, a salvadora, ou a dissimulavam como Alice, a traidora. Era o novo prazer de todo morador acordar e ouvir outra teoria deliciosa repleta de feitos heroicos e emboscadas traiçoeiras sobre a mística garota do mundo de cima que inegavelmente sacrificara-se na grande batalha do tabuleiro. O Sol mal amanhecera e toda a população do Mundo subterrâneo estava dividido em duas facções. Infelizmente, as duas versões eram tão contraditórias que a doce fofoca crescera em um gigantesco embate de dois grupos, os que defendiam-na como uma mártir que optara por ficar no novo mundo e os que a rebaixavam como uma oportunista, aliada a Grande Cabeça Vermelha que faria a Rainha Branca retornar a Coroa para que ela pudesse retornar ao seu mundo.

De uma forma ou outra, todos procuravam por Alice.

Uma trompeta ecoou pelas cidadelas. Era chegada a hora!

– Isto está me enlouquecendo! — Mallymkun murmurou irritada. Cobriu os olhos e ouvidos, revirando-se na cama. — Parece que se não os impedirmos, uma guerra civil se sucedera!

Silêncio. A roedora saltou do bule de chá e rapidamente atirou seu pequenino travesseiro no chapéu do ruivo.

– Você está me ouvindo?!

Um sonho acordado, uma imagem atordoante e misteriosa que novamente desdobrava-se diante de seus olhos. Os olhos púrpuros arregalados, percorriam todo o cômodo da taberna onde haviam repousado pela noite. As narinas bufavam, o peito subia e descia desesperado por ar enquanto uma súbita sensação de saudade o preenchia. Onde você está?

– Ei, — a ratinnha rapidamente aproximou-se do rapaz que agora contorcia-se numa tristonha pose fetal. — está preocupado com os boatos sobre Alice?

– Alice? — Ele hesitou por um instante. — Alice... Eles, eles tinham dito que ela tinha morrido! Traído a Rainha! Como eles podem!

Mallymkun rapidamente interveio: — Estão todos errados. A verdade é que alguns estão com medo de que Branca renuncie seu posto para que a garota se salve e estão inventando estas baboseiras para que localizem-na mais rapidamente.

– Um ultraje! — Ele riu, entretido com seus próprios dizeres. — Estão errados, errados! Alice está viva!

– Sim, e parece-me que as coisas estão fugindo do controle. Não é apenas nesta cidade, todas pareceram se mobilizar contra ou a favor da menina. Ontem mesmo vi algumas crianças construindo um fortificado com carregamentos pesados de petróleo. Talvez devêssemos adiar a procura por ela e alertar a Rainha Branca sobre o que está acontecendo. — Ela rapidamente espiou pela janela. — Lá vão eles de novo, reunindo-se na praça para o debate.

Olhos castanhos. Lábios contorcidos em um belo sorriso.

O tempo. O tempo. O tempo.

Um estouro. Mallymkun desapareceu de sua frente para reaparecer magicamente como num piscar de olhos no meio da praça, em frente a uma multidão de pessoas enraivecidas. Era como se tivessem deslocado-se no tempo.

Uma canção suave, o véu alvo, as flores de baunilha e uma mão estendida.

Mallymkun estava de joelhos, os olhinhos perdidos, vagos, encaravam o chão antes de dirigirem-se ao Chapeleiro. Pareciam suplicar-lhe.

Ensanguentado, o corpo estendido de uma criança estava no chão. O peito fora atravessado pela bala e seu pequenino coração esvaziou seu conteúdo nos azulejos do pavimento.

E parou de bater.

Nada parecia deturpar a guerreira que encarava a criança como seu próprio filho, nem mesmo os gritos, as agressões, os lamentos e choros. Seus olhos ainda suplicavam por uma resposta decisiva do Chapeleiro.

– Vamos ao encontro da Rainha ou continuamos nossa busca por Alice?

Onde você está?

– Lorina! Vamos!

– Já vou!

A moça ajeitou seus longos fios negros, o vestido azul e o buquê de flores brancas. Sorriu. Estava pronta.

– Mãe, espere! Ainda não podemos ir!

– Estamos a sua espera

– Alice ainda não apareceu. Não podemos partir sem ela.

– O tempo não para. Precisamos ir.

Os olhos castanhos de Lorina vasculharam preocupados os vastos campos verdes em frente a casa.

Onde você está?

A lebre de Março percorrera as escadarias, atrapalhando-se em cada degrau de cada andar. Puxara tapetes, abrira janelas, deslocara o mobiliário para que não o seguissem. Estava decidido.

Na última torre, do último andar, do último corredor, no último quarto da masmorra, onde nem mesmo os mais corajosos servidores da Rainha Branca aventuravam-se, A Lebre de Março finalmente encontrou o que procurava. Seus olhinhos cintilaram lunáticos, doentios, numa enigmática careta enquanto observava Vermelha em seu trono improvisado, junto a Vassoura.

Seus dedinhos miúdos foram de encontro ao cabo da faca que carregava no bolso.

Ele a encontrou.

Notas finais
MUHUUHUHUUHHHUHU Quem é Lorina? O que a Lebre pretende fazer? Quem é a figura misteriosa que aparece diante do Chapeleiro? E a pergunta mais importante de todas: Por que este capítulo chama-se Tempo (TIME)? Deixem-me ouvir seus comentários a respeito!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.